Resumo do livro: “O Cabeleira”

Livro “O Cabeleira” de Franklin Távora, que foi um advogado, jornalista, político, romancista e teatrólogo brasileiro, identificado com o romantismo. Este seu romance é considerado o marco inicial da literatura regionalista nordestina, e foi lido em conjunto com minha esposa Luiza enquanto ela cursava em 2000 o 2º. ano O no colegial da Escola Estadual “Fidelino Figueiredo”, matéria “Literatura”, professora Cibele

Este livro narra as peripécias do temível bandido Cabeleira, famoso pelas atrocidades cometidas em Pernambuco no século XVIII. Publicado em 1876, este é o romance que deu inicio à prosa de caráter regionalista em nossa literatura.

Ele narra as desventuras de um jovem e de uma moça que o destino separou e, ao longo da vida, uniu, depois de muito sofrimento. A personagem central, José Gomes, tinha o apelido de Cabeleira, em função de seus longos cabelos. A moça chamava-se Luísa, e José Gomes carinhosamente a chamava de Luisinha.

O Cabeleira tinha seu destino dividido entre a maldade do pai, Joaquim, e a bondade da mãe, Joana. Desde pequeno, o pai ensinava-lhe o mal e a mãe, o bem, criando confusão na cabeça da criança, que queria deixar felizes os dois. Ainda criança, o pai separou-o da mãe, levando-o para longe, e transmitiu para o menino sua maldade.

Ainda criança, conheceu Luísa, órfã, criada por Dona Florinda, que soube dar-lhe todo o amor e o fez conhecer o caminho do bem. Luísa e José Gomes (o Cabeleira) fizeram um trato: quando ele voltasse, levá-la-ia consigo para ser sua esposa. Anos se passaram e aquilo que seu pai queria acabou acontecendo: ele virou um monstro no crime.

Anos mais tarde, o destino colocou Luísa a sua frente. Ela, que o temia, mas o amava, defrontou-se com sua fúria. José Gomes reconheceu-a e lembrou-se de sua promessa. Após uma série de incidentes, entre os quais um envolvendo o pai que quis possuir Luísa e acabou brigando com o filho, o casal fugiu da Justiça, que procurava os criminosos para prendê-los.

Luísa morreu antes de o Cabeleira ser preso. Ele foi capturado e levado à forca. No momento de ser enforcado, José Gomes teve a última oportunidade de rever a boa mãe. Para ela, ele disse as últimas palavras: “Adeus, mamãezinha do meu coração!”. E foi enforcado…

Franklin Távora (Baturité, Ceará, 13 de janeiro de 1842 — Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1888)

Dados biográficos de Franklin Távora

1842
João Franklin da Silveira Távora nasce em Baturité, Ceará, a 13 de janeiro.
Filho de Camilo Henrique da Silveira Távora e Maria de Santana da Silveira.

1859
Matricula-se na Faculdade de Direito do Recife.

1861
Publica os contos de A Trindade Maldita, seu primeiro livro.

1863
Bacharela-se em Direito pela Faculdade de Recife.

1868
Elege-se deputado provincial em Pernambuco.

1870
Criticando severamente José de Alencar (principalmente os romances Iracema e O Gaúcho) com as Cartas de Semprônio a Cincinato, passa a promover uma campanha em prol do regionalismo, identificado com a “literatura do Norte”.

1872
Funda e dirige a Verdade, um semanário de Recife.

1873
Ocupa o cargo de secretário da província do Pará.

1874
Transfere-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha como funcionário da secretaria do Império.

1876
Publica O Cabeleira, romance inspirado numa passagem das Memórias da Província de Pernambuco.

1878
Publica O Matuto, com a rubrica de crônica pernambucana, romanceando episódios da Guerra dos Mascates.

1879
Dirige com Nicolau Midosi, até 1881, a Revista Brasileira, onde são publicados alguns de seus romances.

1881
Publica Lourenço, romance também inspirado na Guerra dos Mascates.

1888
Falece no Rio de Janeiro, a 18 de agosto.

É o patrono da cadeira número 14 da Academia Brasileira de Letras.

Obra

Romance

Os Índios de Jaguaribe (1852), A Casa de Palha (1866), Um Casamento no Arrabalde (1869), O Cabeleira (1876), O Matuto (1878), Sacrifício (1879) e Lourenço (1881).

Conto

A Trindade Maldita (1871) e Lendas e Tradições Populares do Norte (1878).

Teatro

Um Mistério de Família (Drama) (1861) e Três Lágrimas (Drama) (1870).

Crítica

Carta de Semprônio a Cincinato (1870).

Comenta a professora de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP Aurora F. Bernardini em seu texto “Franklin Távora, na planície das mediocridades”: “Nada mais oportuno que o livro “Franklin Távora e o seu Tempo”, do cearense e bacharel em Direito pela Universidade do Recife Cláudio Aguiar [Ateliê Editorial, 380 págs.], para lembrar condignamente a vida e a obra do cearense e bacharel em Direito pela Universidade do Recife João Franklin da Silveira Távora, agora que se completam 110 anos de sua morte [em 1998]. Ensaísta, jornalista e romancista como Franklin Távora, o autor soube escrever uma biografia densa e cativante, que é, ao mesmo mesmo tempo, um painel de Recife e do Rio de Janeiro da segunda metade do século 19, época em que viveram figuras das mais conhecidas de nossas letras: José de Alencar, Machado de Assis, Castro Alves, Joaquim Manuel de Macedo, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Tobias Barreto, Sílvio Romero, José Veríssimo, etc., e que foi marcada por mudanças de mentalidade e de estrutura: do romantismo ao realismo, do espiritualismo ao positivismo, da escravatura à abolição, da monarquia à república.”

Escrito em 5 de junho de 2000 em parceria com Luiza Maria da Silva Matosinho.

Heine em tradução Mário de Andrade

Peixeira linda,
do barco vem;
Senta a meu lado,
Chega-te bem.

Ouves meus peito?
Porque assustar!
Pois não te fias
Ao diário mar?

Como ele, eu tenho
Maré e tufão,
Mas fundas pérolas
No coração.

Heinrich Heine (Düsseldorf, Renânia do Norte-Vestfália, Alemanha, 13 de dezembro de 1797 – Paris, França, 17 de fevereiro de 1856) foi um poeta romântico alemão, conhecido como “o último dos românticos”. Mário de Andrade traduziu poemas dele, sendo um dos mais notáveis a adaptação do Lied “Du schönes Fischermädchen” (“Bella pescadora”), que ele usou em seu romance “Amar, verbo intransitivo”, apresentando-o com o título “A pescadora” ou similar, em uma versão que dialoga com as traduções anteriores de Gonçalves Dias e Manuel Bandeira, explorando o tema do amor e da condição feminina com o modernismo brasileiro

Um poema de Mar Becker

1

estudar o pássaro
estudar o desenho de mãos que vem ao caso quando penso na palavra “fragilidade”

a altura
a origem da ideia de linhas
tênues

2

estudar a terminologia com a qual os homens de uma cidade perdida se referiam à movimentação de suas cortinas em manhãs de vento

(a atenção com que as observavam, especialmente no instante em que depois de serem abatidas pelo vento elas caíam
e caíam assumindo uma angulação muito própria em relação à luz)

3

estudar todo e qualquer vestígio

e por que penso em homens que falam muito baixo uns com os outros, como se a palavra fosse um excesso

como se em seus íntimos eles estivessem trabalhando na elaboração de uma outra teoria do fogo

Mar Becker, pseudônimo de Marceli Andresa Becker (Passo Fundo, Rio Grande do Sul, 1986) é formada em filosofia (Universidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul) e tem especialização em epistemologia e metafísica (Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó – Santa Catarina). Mora atualmente em São Paulo. Faz bonecas e bichinhos de crochê. Como diz Leonardo Neiva no “Bloco de notas – 10 livros curtos para ler em um dia na praia”, ela foi finalista do Prêmio Jabuti em 2021, na categoria poesia, e já é uma das maiores vozes da poesia brasileira contemporânea. E sua obra mais recente, “Noite devorada” (Círculo de Poemas, 2025), a ajuda a firmar sua reputação dentro da literatura nacional. O tema aqui é o amor. O amor que é dito pela boca, que é sentido e expresso pelo corpo. E desse corpo também fazem parte sentimentos como medos e saudades, desejos e enganos. Um convite para “amar como a estrada ama os que se perdem”, nas palavras da própria autora, este livro breve prova que a dimensão de um sentimento infinito pode estar contida em algumas poucas páginas

A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

Charles Baudelaire (Paris, França, 9 de abril de 1821 — Paris, França, 31 de agosto de 1867). In “Flores das flores do mal de Baudelaire”. Tradução e notas de Guilherme de Almeida; apresentação de Manuel Bandeira; posfácio de Marcelo Tápia. Edição bilíngue. São Paulo: Editora 34, 2010

Três poemas de Paul Verlaine

I

No ermo da mata o som da trompa ecoa,
Vem expirar embaixo da colina.
É uma dor de orfandade se imagina
Na brisa, que em ladridos erra à toa.

A alma do lobo nessa voz ressoa. . .
Enche os vales e o céu, baixa à campina,
Numa agonia que à ternura inclina
E que tanto seduz quanto magoa.

Para tornar mais suave esse lamento.
Através do crepúsculo sangrento,
Como linho desfeito a neve cai.

Tão brando é o ar da tarde, que parece
Um suspiro do outono. E a noite desce
Sobre a paisagem lenta que se esvai.

II

As mãos que foram minhas, mãos
Tão bonitas, mãos tão pequenas,
Após tanto equívoco e penas,
Tantos episódios pagãos,

Após os exílios medonhos,
Ódios, murmurações, torpezas,
Senhoris mais do que as princesas
As caras mãos abrem-me os sonhos.

Mãos no meu sono e na minh’alma,
Pudera eu, ó mãos celestes,
Adivinhar o que dissestes
A est´alma sem pouso nem calma!

Mente-me acaso a visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?

Caro remorso, dor tão boa,
Sonhos benditos, mãos amadas,
Oh essas mãos, mãos consagradas,
Fazei o gesto que perdoa!

III

Chora em meu coração
Como chove lá fora.
Que desconsolação
Me aperta o coração!

Oh a chuva no telhado
Batendo em doce ruído!
Para as horas de enfado,
Oh a chuva no telhado!

Chora em ti sem razão,
Coração sem coragem.
Se não houve traição,
Teu luto é sem razão.

Certo, é esse a pior dor:
O não saber por que
Sem ódio e sem amor
Há em mim tamanha dor.

Paul Verlaine (Metz, França, 30 de março de 1844 – Paris, França, 8 de janeiro de 1896). Tradução de Manuel Bandeira