Maracujá interrompida (trecho)

a palavra é a consanguinidade divina
                                       ininterrompida
na persistência de uma miragem
                                       melancólica
                                       antagônica
                                       e cubista
o que vejo agora são
                                     as palavras no espelho
                                     folhas vestidas
                                     de verdes intensos
                                     renascendo ao corte
                                     rente ao chão
                                     porque a vida
                                     sempre vence
mãe
                                     a vida nunca se põe

Luis Osete (Cardeal da Silva, Bahia e radicado em Petrolina – Pernambuco). In “Maracujá interrompida”, Recife: Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, 2025. Foi o vencedor do Prêmio Jabuti 2025, na categoria Escritor Estreante – Poesia, do Eixo Inovação e essa obra foi também a grande vencedora do 8º Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Trata-se de “um longo poema sobre a suspensão e a elaboração do luto materno, em que o eu lírico observa a grande perda refletida na paisagem, travando um diálogo com a ausência presente”

Mama Mundi (Fazendo referência ao Mestre Vitalino, ceramista)

Mestre Vitalino. Fonte: Casa Museu Mestre Vitalino, situada no Alto do Moura – PE. Vitalino Pereira dos Santos (Caruaru – PE, 1909 — 1963) foi um artesão. Ele nasceu no sítio Ribeira dos Campos, Caruaru – PE, a 10 de julho de 1909 e morreu a 20 de janeiro de 1963, na sua residência – nessa mesma cidade, aos 54 anos, vítima de varíola.

Mama Mundi
Índio oriundi
Desse mundão sem porteira
Tem a flecha certeira
Mas tudo move e muda
Mudar me ajuda
Mas me confunde
Mama Mundi
Chamo e responde
Mas ainda esconde seu leite
Mama eu peço que aceite
Flores na minha cantiga
E mais me diga
E mais me aponte
O mapa que traço agora
É amor de menino
Mama Mundi me ensina
Pra onde seguir
Mãe de gagarin
Mãe de Mestre Vitalino
Me nina, Mama Mundi

Chico César (Catolé do Rocha, Paraíba, 26 de janeiro de 1964) é um cantor e compositor brasileiro, conterrâneo de Chico Ferreira, ceramista divulgado pela Galeria Pontes, onde trabalho

Quando da passagem do centenário do nascimento do artesão, a 10.07.2009, a Prefeitura de Caruaru – PE, fincou ao lado do Museu Mestre Vitalino, uma placa fundida em metal, com esta mensagem:

“No princípio, o barro adormecido.
Em Vitalino às mãos do criador.
O barro desperta, se faz beleza.
Retrata a vitalidade de um povo.
Vitalino é o artista.
E a arte ganha um mestre, para a eternidade…”

Fonte: “Facetas culturais – Música, literatura, sociedade”, site de Francisco Gomes, professor efetivo da rede estadual de ensino (AM) e advogado e de Winnie Barros, filha de Francisco Gomes e psicóloga.

Alegre menina

O que fizeste, sultão, de minha alegre menina

Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha

O que fizeste, sultão, de minha alegre menina

Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar

No baile real levei a tu alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha, mas verdadeira
Entrou nos braços do rei, rainha, mas verdadeira

Dori Caymmi (Rio de Janeiro, 26 de agosto de 1943), Jorge Amado (Itabuna, Bahia, 10 de agosto de 1912 – Salvador, Bahia, 6 de agosto de 2001). Música maravilhosamente interpretada por Djavan (Maceió, Alagoas, 27 de janeiro de 1949)

Cada um é de um jeito (fragmento)

[…]
Cada um dança como quer.
Cada qual é de um jeito diferente.
Uns são vermelhos, outros brancos.
Pretos ou amarelos.
Uns são jovens, outros velhos.
Bebês e adultos.
São todos retratos de gente.
[…]

Katia Canton (São Paulo, 1962) é psicanalista, escritora, professora e artista visual brasileira. In “O trem da história – Uma viagem pelo mundo da arte”. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2003