Mês: maio 2026
A cor que eu pintaria
Pintaria-te de bromo para mostrar a tua força diferente. Somente a cabeça. Errada e ajustada.
O resto do corpo não importa a diferenciação de cor, pois é igual em todas as mulheres. Pena que tu não mostra-a.
Tua mão pintar-se-ia de uma cor frágil…
O Dia das Mães está aí…
O Dia das Mães está aí: Que tal presentear com arte popular e artesanato nesse 10 de maio?
Odon Nogueira – Goiano conhecido e admirado por suas obras em terracota
João Julião – Mineiro de Prados e irmão de Itamar, faz com maestria bichos e santos
Etnia Yanomami – Esse povo que vive em Roraima produz uma bela cestaria indígena
J. Borges – Célebre xilogravurista e cordelista de Bezerros, PE, com temas ligados ao povo nordestino
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Cidade, floresta
Minha cidade, em janeiro
O que minha cidade tem de mais pulcro e legítimo é o rosto da moça atrás do vidro fumê do 18º andar do edifício da companhia de investimentos (1). O rosto aparece às 17h55min, de segunda a sexta, quando ela espia a calçada antes de bater o cartão de ponto no relógio. O namorado da moça tem uma moto de milhões de decibéis e faz tantas loucuras no cruzamento da avenida que, em certos momentos, parece que vai bater as asas de metal e se transfigurar num anjo barbudo e entrar no bairro do Paraíso, para tomar um sorvete de tutti-frutti com duas casquinhas (2).
O que minha cidade tem de mais operoso e legítimo é o crioulo de capacete ocre que enfia a ponta do martelo mecânico na viga de concreto e rompe o útero da Rua das Palmeiras, onde corre um braço subterrâneo do Metrô. O capacete do crioulo lembra um sol boiando no suor da cara e, quando a tarde cai, o capacete fica de riba como porongo decepado em cima do balcão, enquanto o garoto do bar serve um traçado ao som do liquidificador.
O que minha cidade tem de mais vetusto e legítimo é o fantasma do coronel Arouche que guardou suas emas, jaçanãs, pacas e bacamartes na arca do passado e transita incógnito e invisível por entre as mesinhas de pinguços e desesperados com olhos cor de quitinete. O coronel Arouche por hábito arrasta as botas sujas de lama do tempo em que o Anhangabaú dava curimbatá e a cidade tinha pontes de madeira, onde hoje ficam os Correios e Telégrafos. O coronel Arouche é transparente e se encontra com o brigadeiro Tobias na sacada solitária do prédio Martinelli nas noites de lua e garoa.
O que minha cidade tem de mais amargo e legítimo é o corpo em decúbito dorsal, ainda não identificado, coberto com a última página do vespertino (3), e um pára-choque de jamanta com tinta fresca vermelha: cuidado, não encostar que é sangue.
O que minha cidade tem de mais imperceptível e legítimo é o violino que toca de manhã cedo na Rua Conselheiro Furtado tangido por um chinês de Formosa que vende penas de nanquim na Liberdade e escreve, em hieróglifos, poemas para um velhinho de barba fina que tem 98 anos, nasceu em Kioto, e adora doce de feijão, peixe cru e forró.
O que minha cidade tem de mais pardo e legítimo são os paquidermes dos edifícios que ressonam rente ao Minhocão e cujo pescoço alado se atira sobre Santa Cecília, Bexiga, Vila Buarque, até esmorecer diante da torre de São Geraldo das Perdizes.
O que minha cidade tem de mais acordado e legítimo é o Ponto Chic, onde a Polícia, a malandragem e a boemia confraternizam e meditam sobre a glória passageira das valentias, dos sanduíches e do chope gelado.
O que minha cidade tem de mais revolucionário e legítimo são as conversas fiadas dos bares de Vila Madalena, onde um garçom de vanguarda bolou uma perfeita bomba de efeito retardado com meia dose de dor-de-cotovelo, algumas gotas de amargo, dois dedos de esperança disfarçada, e alegria q.s.p. encher o coração.
O que minha cidade tem de mais álacre e legítimo é o alarido dos mochileiros, flautistas, barraqueiros e fugitivos no Terminal Rodoviário do Jabaquara (4), ao dizerem adeus no sábado de manhã, em busca do mar do Sul, e voltando domingo à noite tostados de cerveja, sol, areia e mariscos, até empalidecerem outra vez no cotidiano das lojas, armarinhos, butiques, bancos e guichês.
O que minha cidade tem de mais fácil e legítimo é esta disponibilidade para aceitar as coisas como são – a vida e a morte – e concluir que tudo é possível: sardas, celulite, bronze, paralelepípedo, cartório de protesto, bala perdida, impropérios, maldições, arrependimentos, conversões, penitências, desuniões definitivas, casamentos eternos, bodas de ouro, tombos, porões, amizades, ervas medicinais, macumbas, crediários, a estátua de Anchieta, o Pátio do Colégio, os mascateiros da General Carneiro, o lauspereneem Santa Ifigênia, os sinos de São Bento, e o sol no merídio iluminando colarinhos sociais.
Bazar de coisas, caos e golfo, cartão-postal da pressa, porto de ternuras, buquê de pamplonas, angélicas, azaléias, fuligens e augustas, moquifos e tugúrios, campeonato mundial entremeado de pernetas e fraturas, solidões cercadas de risos e de festas, macarronadas infinitas, pizzas, chaminés e a via-láctea de fumaça corrigindo as estrelas verdadeiras.
Mas, por fim, eu revelo: o que esta cidade tem mesmo de mais fiel e legítimo é o amor e a raiva deste amante anônimo, quando a cidade finge não me ver no meio do povo que a habita (5).
Notas: (1) O narrador-repórter atenta para o banal, foca fatos efêmeros – (2) Usa o humor para provocar o leitor a recuperar sua capacidade crítica – (3) O narrador-repórter dá mais importância aos fatos do que às personagens – (4) Os fatos acontecem aos excluídos que “se equilibram nos muros da vida” – (5) Cenário urbano paulista.
Comentários: A base de suas crônicas é o cenário urbano paulista. O cronista percorre sua cidade, observa e recolhe fatos, e transforma seu texto num testemunho do nosso tempo. Como narrador-repórter atenta para o banal, foca fatos efêmeros que dificilmente se repetirão e acrescenta emoção à reportagem, envolve-se na narrativa, levando consigo o leitor. Dá mais importância aos fatos do que às personagens. Na maioria das vezes, esses fatos acontecem aos excluídos, àqueles que “se equilibram nos muros da vida”, e também nas relações entre as classes dominantes e dominadas. O humor não é uma ferramenta para aliviar a tensão dos textos, mas para provocar o leitor a recuperar sua capacidade crítica, sua capacidade de indignar-se. Assim, provoca nele o riso irônico, de indignação, em vez do riso de deboche. Por meio da brincadeira tenta superar a realidade amarga. Para variar a estrutura de seus textos, usa formas que se aproximam da poesia ou da fábula. (Por Alexandre F. Gennari)
Lourenço Diaféria (São Paulo, 28 de agosto de 1933 – São Paulo, 16 de setembro de 2008) foi um contista, cronista e jornalista brasileiro. In “A morte sem colete” e notas e comentários vindos do livro “A Crônica”, estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, Editora Ática – Série Princípios
Para Lú (Recém emoldurado)
Amo-te por sobrancelhas
Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.
Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.
Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.
Além disso quero-te, e faz tempo e frio.
Julio Cortázar (Ixelles, Bélgica, 26 de agosto de 1914 — Paris, França, 12 de fevereiro de 1984)
Cadê cadência
Cadê
Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!
José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998). In “Baú das histórias e poemas “. Poesia infantil, blog educacional de Ivanise Meyer, professora da Rede Municipal do Rio de Janeiro desde 1988, graduada em Ciências Biológicas, com pós-graduações em Educação Infantil