Soneto XXI

Eis outra vez a Primavera. A Terra
é um menino que sabe dizer versos;
tantos, oh tantos… Por aquele esforço
de longo estudo vai receber um prêmio.

Severo foi o mestre. Nós gostávamos
da brancura da barba daquele velho.
Agora podemos perguntar o nome
do verde, o azul: ela sabe, ela sabe!

Terra feliz, em férias, brinca agora
co′as crianças. Queremos agarrar-te,
Terra alegre. A mais jovial consegue-o.

Oh, o muito em que o mestre as instruiu
e o impresso nas raízes e nos longos
troncos difíceis: ela o canta, canta!

§

XXI. Sonett

Singe die Gärten, mein Herz, die du nicht kennst; wie in Glas
eingegossene Gärten, klar, unerreichbar.
Wasser und Rosen von Ispahan oder Schiras,
singe sie selig, preise sie, keinem vergleichbar.

Zeige, mein Herz, daß du sie niemals entbehrst.
Daß sie dich meinen, ihre reifenden Feigen.
Daß du mit ihren, zwischen den blühenden Zweigen
wie zum Gesicht gesteigerten Lüften verkehrst.

Meide den Irrtum, daß es Entbehrungen gebe
für den geschehnen Entschluß, diesen: zu sein!
Seidener Faden, kamst du hinein ins Gewebe.

Welchem der Bilder du auch im Innern geeint bist
(sei es selbst ein Moment aus dem Leben der Pein),
fühl, daß der ganze, der rühmliche Teppich gemeint ist.

Rainer Maria Rilke (Praga, Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926). In “Sonetos a Orfeu”, 1923, Poemas, as elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. Tradução Paulo Quintela. Lisboa: Editora O Oiro do Dia, 1983. Em alemão: Im “Die Sonette an Orpheus, Zweiter Teil”

Sobre política 2

Questão 2

Um dos grandes livros de Tocqueville “A Democracia na América” causou um grande impacto deste a sua primeira edição, sendo que ainda hoje continua a causar grande interesse. Esse fato mostra que ela é uma obra polêmica, e que inclusive causou muitas interpretações por parte de seus leitores. Nesse sentido, a frase proposta ilustra bem a polêmica vivida em sua época, e que penso existir até hoje.

Melhor dizendo, alguns setores da intelectualidade entendem que ele de fato era um democrata, outros de que ele não o era tão claramente, devido inclusive à sua origem aristocrata e à sociedade conservadora em que vivia.

Na verdade, Tocqueville sempre foi um liberal, ou melhor, um liberal-conservador. Sua preocupação maior foi com o seu país (que vivia um quadro político bastante complexo) e na preocupação em desenvolvê-lo foi buscar na América uma inspiração que verdadeiramente o fascinou. Estudou à fundo a sociedade e a organização política norte-americana, admirando a organização e a participação dos cidadãos americanos em suas instituições. Sua obra é uma grande advertência sobre as vantagens, e sobretudo sobre os perigos que o processo democrático pode ocasionar. Talvez aí esteja a sua dificuldade interpretativa. Ele tinha uma tese de que a democracia e a tirania são as duas faces da mesma moda e que o dito cesarismo nada mais era do que a consequência da desordem provocada pelo advento da República e dos demagogos.

Em função do diverso modo de ver a relação entre Estado liberal e democracia, ocorreu entre o pensamento liberal a contraposição entre um liberalismo radical, ao mesmo tempo liberal e democrático, e um liberalismo conservador, liberal mais não democrático (contra uma proposta de alargamento do voto, vendo-o como uma ameaça à liberdade). Tocqueville representava, a ala mais conservadora do pensamento liberal do século XIX, enquanto que Sturt Mill a ala mais radical.

Para Tocqueville a democracia significa a forma de governo em que todos participam da coisa pública, ao mesmo tempo em que significa a sociedade que se inspira no ideal da igualdade. A ameaça que deriva da democracia é chamada de tirania da maioria ou seja, o perigo que a democracia corre com progressiva realização do ideal igualitário é o “nivelamento” que gera o despotismo. Tocqueville sendo não democrático porque considera a democracia como um sistema que exalta o valor da igualdade, tanto social, como política. Propõe inclusive uma igualdade de condição em prejuízo da liberdade.

Um dos grandes interesses de sua obra é a sua visão quase que profética, onde chega inclusive a afirmar que um dia a democracia irá se traduzir em seu contrário, portando em si o germe de um novo despotismo (governo centralizado e onipresente).

Artigo feito durante a minha estadia na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, na data de 24 de maio de 1989, para o curso de Ciências Sociais, matéria Política III, ministrada pelo professor Eduardo Kugelmas.

Meu nº. USP: 5261633

Sobre política 1

Questão 1

Procurando entender essa frase sob a ótica do pensamento liberal e sobre o que ele significa a nível de uma escola de pensamento político, eu estou de acordo com a mesma. Isto porque ser liberal e encarar a problemática política sob essa ótica, sendo essa frase a essência do pensamento liberal clássico.

Torna-se complexo entender o liberalismo, quando o pensamos juntamente com a democracia. Pelo lado da formula política liberal, o liberalismo é compatível com a democracia, além da democracia poder ser considerada como o natural desenvolvimento do Estado liberal. No sentido do ideal igualitário (da ala conservadora) esse esquema de raciocínio se inverte.

Para um liberal, o poder é sempre nefasto, não importando a origem de quem o exerce, podendo ser tanto um aristocrata, como um cidadão qualquer. A grande questão política para os liberais é relativa não tanto a quem detém o poder, mas ao modo de controlá-lo e limitá-lo.

Como muito bem ressalta Bobbio, “o bom governo não se julga pelo número grande ou pequeno dos que o possuem, mas pelo número grande ou pequeno das coisas que lhe é lícito fazer”.

Os liberais classicamente defendem a manutenção de algumas liberdades individuais, como a liberdade de imprensa e a de associação. Em geral defendemos direitos dos indivíduos que os ditos Estados democráticos tendem a desconsiderar em nome de um interesse coletivo. Defendem também o respeito às formas que garantam ao menos a igualdade perante o direito e a descentralização.

O pensamento liberal teve uma origem dentro de preocupações da Ciência Econômica, onde Stuart Mill foi um de seus grandes expoentes. Nesse sentido eles são profundamente contra qualquer intervenção do Estado na vida econômica do país, preferindo deixar que o mercado resolva as questões econômicas pelos seus meios próprios.

Esse raciocínio também é válido sobre o ponto de vista do poder e da forma de conduzir o governo de um país. Mill defendeu um governo representativo como o desenvolvimento natural dos princípios liberais.

Como um seguidor do utilitarismo, Mill procurava em sua análise política delimitar a esfera privada com respeito à pública, no sentido de possibilitar ao indivíduo gozar de uma liberdade protegida contra a invasão por parte do poder do Estado.

Defende uma ampla liberdade ao individuo, para o ajustamento necessário entre o interesse privado e o coletivo.

Artigo feito durante a minha estadia na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, na data de 24 de maio de 1989, para o curso de Ciências Sociais, matéria Política III, ministrada pelo professor Eduardo Kugelmas.

Meu nº. USP: 5261633

O silêncio

Antes de existir computador existia tevê
Antes de existir tevê existia luz elétrica
Antes de existir luz elétrica existia bicicleta
Antes de existir bicicleta existia enciclopédia
Antes de existir enciclopédia existia alfabeto
Antes de existir alfabeto existia a voz
Antes de existir a voz existia o silêncio
O silêncio Foi a primeira coisa que existiu
Um silêncio que ninguém ouviu
Astro pelo céu em movimento
E o som do gelo derretendo
O barulho do cabelo em crescimento
E a música do vento
E a matéria em decomposição
Explosão de semente sob o chão
Diamante nascendo do carvão
Homem pedra planta bicho flor
Luz elétrica tevê computador
Batedeira, liquidificador
Vamos ouvir esse silêncio meu amor
Amplificado no amplificador
Do estetoscópio do doutor
No lado esquerdo do peito, esse tambor

Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960). Poema de 2006