Onze hai-kais de Millôr Fernandes
O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen (…)
Millôr Fernandes
Morta, no chão,
A sombra
É uma comparação.
*
Se o cão é uivante
A Lua vira
Quarto minguante.
*
Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.
*
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.
*
Pensa o outro lado:
só quem tem fama
É difamado.
*
Maravilha sem par
a televisão
Só falta não falar.
*
Tem cautela;
Ajuda o sol
Com uma vela.
*
A alegria
É toda feita
De melancolia.
*
Vida rural, senhor,
É ver vacas
Na tevê em cor.
*
Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.
*
O mundo agoniza.
Querem retificar
A Torre de Piza!
Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012). In “Hai-kais”. Porto Alegre: L&PM, 1997. (Coleção L&PM/ Pocket)
Ao índio que é bem brasileiro 5
I-Juca-Pirama (Parte final)
O título desta poesia, traduzido literalmente da língua tupi, vale tanto como se em português disséssemos “o que há de ser morto, o que é digno de ser morto”.
Gonçalves Dias
X
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!”
“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.
“Eu disse comigo: que infâmia d’ escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”
Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”
Gonçalves Dias (Caxias, Maranhão, 10 de agosto de 1823 – Guimarães, Maranhão, 3 de novembro de 1864). In “I-Juca-Pirama e Os Timbiras”, Porto Alegre : L&PM, 1997. (Coleção L&PM Pocket)
Proibido pescar e caçar
Trabalho com o visto do Profº. Francisco Claudio Granja (1957 – 2020), que me deu aula de “Educação Artística” no EEPG Dalton Morato Villas Bôas, da 5ª. à 7ª. série (1976-1978), Vila Odilon, Ourinhos-SP.
Meu livro de cordel / A procura
Pelo amor que tenho a todas as estórias e poesias de Cordel, que este livro assim o seja, assim o quero numa ligação profunda e obstinada com todos os anônimos menestréis nordestinos, povo da minha casta, meus irmãos do nordeste rude, de onde um dia veio meu Pai para que eu nascesse e tivesse vida.
A procura
Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino –
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.
Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985). In “Meu livro de cordel”, São Paulo: Global, 2002
Pintura com pedra
A pintora Clarice: Imagens que buscam a alma (Do livro: “Pinturas” de Mendes de Souza)
Produção das pinturas pode ser circunscrita a um segmento mais ou menos localizável no tempo. O conjunto mais significativo dos quadros de Clarice foi produzido no ano de 1975, o que pode ser confirmado pela leitura das datações, quando tal especificação ocorre. Dos 17 quadros depositados no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, 15 apresentam a referência a esse ano e dois deles não estão datados.
Um dado que deve ser destacado é o fato de quase metade destes quadros explicitarem o mês de maio no lugar da datação:
“Cérebro adormecido” – 13 de maio de 1975
“Eu te pergunto por quê?” – 13 de maio de 1975
“Perdida na vaguidão” – 13 de maio de 1975
“Tentativa de ser alegre” – 15 de maio de 1975
“Medo” – 16 de maio de 1975
“Luta sangrenta pela paz” – 20 de maio de 1975
Sem título] figuração do yin e yang, em fundo preto – s/d. No verso deste quadro aparece uma dedicatória a Olga Borelli com a data de 28 de maio de 1975. Pode-se colocar a questão da possível não correspondência entre a data da dedicatória e a data da feitura do quadro. De qualquer forma é significativa a oferta neste mês de maio, o que nos levará a pensar que a pintura terá sido de fato executada na mesma ocasião que as outras.
Clarice Lispector definiu a arte de forma marcante em sua crônica “O artista perfeito” (publicada em 1969): “Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação.”
Carlos Mendes de Sousa é professor de literatura brasileira na Universidade do Minho, Braga, Portugal. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a estudar a obra de Clarice Lispector, e com o livro “Clarice Lispector. Figuras da escrita” (2000), conquistou o Grande Prêmio de Ensaio da APE. O ato de pintar, mais uma faceta pouco conhecida da escritora Clarice, vem a público nesses escritos. Grande admiradora das artes, Lispector tinha especial interesse pela pintura, conviveu com diversos artistas e produziu suas próprias pinceladas, cerca de 20 delas reproduzidas neste livro citado acima. “A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis”, afirma Sousa, que reflete sobre a obra da escritora à luz de sua relação com a pintura. In “Clarice Lispector: pinturas”, Rio de Janeiro: Rocco, 2013
Chia-Syun Chang: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)
Chia-Syun Chang
👨🎨 Artista plástico da APBP
Chia-Syun Chang nasceu em 1º de fevereiro de 1981, em Taichung, Taiwan. Frequentou o ensino médio e trabalhava como preparador de tintas e vendedor. Em janeiro de 2004, Chia-Syun Chang sofreu um acidente de trabalho: escorregou e caiu de uma grande altura. Ele sofreu fraturas nas vértebras C3, C4 e C5, resultando em paralisia dos braços e das pernas. Em um programa de televisão, ele viu um artista que pintava com a boca e com os pés, observando a maneira como o artista criava suas obras. Muito impressionado com essa possibilidade, reuniu coragem e tentou pintar usando um pincel na boca. Assim, em 2006, começou a aprender a pintar com a boca de forma autodidata, aprimorando-se com o professor Lin Shwu-Chyn, um renomado professor de pintura da região, com quem passou a ter aulas particulares. Graças a isso, obteve um progresso artístico notável. Desde 2014, ele conta com o apoio de uma bolsa de estudos concedida pela Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP) e foi nomeado membro associado da VDMFK (Association of Mouth and Foot Painting Artists) em 1º de março de 2020. Chia-Syun Chang dedica-se à pintura a óleo. Seus temas preferidos são seres humanos, animais e paisagens (incluindo obras como Peking Opera).
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Pintura a óleo
Título da obra: “Alimentando as galinhas”
APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.
Contatos:
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