Destaque

Il Guarany

A ópera “Il Guarany” (O Guarani), de Antônio Carlos Gomes (Campinas, São Paulo, 11 de julho de 1836 – Belém, Pará, 16 de setembro de 1896), foi composta originalmente em italiano com libreto de Antonio Scalvini (1835-1881) e Carlo D’Ormeville (1840-1924), não possuindo uma “letra de canção” popular no sentido tradicional. Sua parte mais famosa é a “Protofonia” (a abertura instrumental), frequentemente associada a versos patrióticos adaptados posteriormente, como o canto escolar “Do sol aos raios fúlgidos…”. Estreada em Milão em 1870, baseia-se na obra “O Guarani”, romance homônimo de José de Alencar (Fortaleza, Ceará, 1.º de maio de 1829 — Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1877).
No dizer de Leonardo Marques, nascido em 1979 e formado em letras, em um longo artigo publicado no site “Notas Musicais” e intitulado “Na tempestade ‘Guarani’, trovejou e não choveu”, ele afirma que uma das produções dessa ópera, ocorrida no Theatro Municipal de São Paulo de 12 e 14 de maio 2023, com direção musical de Roberto Minczuk e direção cênica de Cibele Forjaz (com base em concepção de Ailton Krenak), “paira em alto grau no imaginário brasileiro: guarda certa mística, talvez pela enorme popularidade dos acordes iniciais da sua abertura, conhecida no país inteiro por meio do programa radiofônico “A voz do Brasil”; talvez pela dimensão alcançada em sua estreia mundial (1870) no mítico Teatro alla Scala, de Milão, onde obteve grande sucesso. Por quaisquer que sejam os motivos, “Il Guarany” é um grande marco para a música brasileira.” E acrescenta que “A literatura teve um papel fundamental na elaboração e na circulação de uma mítica atrelada às origens do Brasil, nas décadas subsequentes à sua independência, assim como a ópera italiana cooperou no esforço de unidade nacional daquele país. No Brasil, as diretrizes formuladas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foram seguidas com afinco pedagógico por José de Alencar na elaboração do romance indigenista “O Guarani” (1857).
A história se passa num rincão do Rio de Janeiro no princípio do século XVII. Seus protagonistas são Peri, um indígena do povo Goitacás (que, a propósito, não pertencia à etnia Guarani), e Cecília (ou Ceci), mocinha cândida filha de um dos próceres da nação, Dom Antônio de Mariz, fidalgo português que participara da fundação do Rio de Janeiro. Peri salva Ceci dos Aimorés e se apaixona por ela tal e qual um cavaleiro medieval. A tópica e os traços dos personagens remetem a esse modelo anterior de abnegação e entrega, que culmina, no livro de Alencar, na cristianização de Peri e na fuga de ambos, no interior de um frágil bote em meio a ondas bravias – a mítica da fundação da nacionalidade segundo Alencar constrói-se aí, entre esse indígena europeizado e a brasileirinha filha de europeus, tendo como lume o Deus do cristianismo.
Outro par romântico da história, que também coloca em movimento o ideário de nação defendido por Alencar, é a mestiça Isabel, filha bastarda de Dom Antônio, e Álvaro de Sá, antigo apaixonado de Ceci, cavaleiro e capataz do fidalgo – casal este que sucumbe tragicamente também segundo a tópica dos romances de cavalaria: ele morre em combate, o que a leva ao suicídio. Na economia da obra, esta jovem descrita como amorenada e sensual, filha de uma indígena, também não poderia restar para compor o ideário de nação almejado. Pregava-se, então, o completo apagamento do elemento negro, e mesmo o mestiço era repudiado: naquela época, vigorava um pseudo-cientificismo segundo o qual o branco ocupava o topo da escala evolutiva; o preto, a sua base; e a mestiçagem levava invariavelmente à degenerescência. Por isso Peri é um indígena com tantos traços físicos e psicológicos europeus.”
E conclui dizendo “Sucesso europeu, essa ópera de Carlos Gomes participa de uma tradição operística vicejante, que desenha os caracteres de forma tipificada – Ceci é a mocinha frágil, e Peri, o seu herói –, impregnando-lhes da substância mais fluida e profunda que existe, a música (e de sua contraparte, o canto). Nós, o público, somos levados de roldão por essa tempestade de música de moldes italianos (embora composta por um brasileiro) que dilui a personagem de Peri de forma ainda mais contundente do que fizera José de Alencar.”

Alcides Ladislau Acosta (Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, 27 de junho de 1943), fundador e vice-presidente da ABAL Campinas (Associação Brasileira Carlos Gomes de Artistas Líricos), entidade que divulga a obra desse artista, comenta que assistiu no Municipal de São Paulo a ópera e que teve, inclusive, no palco uma tribo Guarani que habita o Pico do Jaraguá. Eles dançaram e cantaram.

Leonardo Marques é pós-graduado em língua italiana, participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site “movimento.com” entre 2004 e 2021

Importante lembrar que em setembro próximo teremos em Campinas e região o “Mês Carlos Gomes”, celebrando 190 anos de nascimento e 130 anos de morte do compositor campineiro e o legado desse maestro e visando aproximar a população de sua obra e trajetória. Essa cidade preparou uma programação especial para celebrar a trajetória de Antônio Carlos Gomes, um dos maiores nomes da música brasileira e figura de destaque na história cultural da Princesa d’Oeste. A agenda estará repleta de ações culturais, musicais e educativas e reunirá concertos, passeios turísticos, apresentações e iniciativas voltadas à preservação e à difusão da obra e da memória desse músico, reforçando a importância de Carlos Gomes para a identidade cultural dessa importante cidade do interior paulista.

Convite da Artesol

Artesanato e música brasileira — e um leilão especial, dia 3/09 às 19h

Convite: No dia 3 de setembro, às 19h, a Artesol vai viver uma noite completamente diferente de tudo o que já fizeram! Uma noite de experiências únicas com artesãos de todo o Brasil, num programa dinâmico com atrações surpresa no palco — com grandes nomes do artesanato e da música brasileira — e um leilão especial com peças doadas por colecionadores, mestres artesãos e apoiadores da Artesol. Este é o principal evento de arrecadação da Artesol, e os recursos garantem a continuidade do seu imprescindível trabalho fortalecendo comunidades artesãs em todo o país. Esperamos contar com você. Caso não possa vir, considere fazer uma doação no valor do convite. Para saber mais sobre o jantar fale com a Sheila Maiorali (11 9 7150-2438).

Data: 3 de setembro de 2026
Local: Ballroom do JK Iguatemi (São Paulo, SP)
Comando do Leilão: Carolina e Mariana Sodré Santoro (@asleiloeiras)

Artesol – ONG que atua em prol dos artesãos do Brasil. Fomentamos a valorização do artesanato cultural brasileiro.

Av. Nove de Julho, 5569 Sala 41
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Artiz
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Picasso: Dibujos

Picasso (Málaga, Espanha, 25 de outubro de 1881 – Mougins, França, 8 de abril de 1973)

Pablo Ruiz Picasso foi um pintor, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo espanhol, considerado um dos mais importantes e populares pintores do século XX. E, como eu mesmo disse nesse blog um dia: “O pintor Picasso / Tem oito fases: Azul, Rosa, Cubismo analítico, Cubismo sintético, Clássica, Metamorfoses, Política, Maturidade / Teve oito mulheres: Fernande, Eva, Olga, Marie-Thérèse, Dora, Françoise, Geneviève, Jacqueline / Nasceu em Málaga / Morreu no sul da França / Deixou um enorme legado Como o maior artista do século XX”.

Comentários sobre o livro “O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber” de Antônio Flávio Pierucci

Introdução

Este livro, publicado em 2003, foi originalmente concebido como tese de livre-docência em Sociologia na FFLCH/ USP, defendida em 2001. Seu autor Antônio Flávio Pierucci especializou-se em Sociologia da Religião e no estudo da obra de Max Weber.
A obra “O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber” procura trilhar em 236 páginas todos os passos do conceito de desencantamento do mundo, que foi empregado em toda a obra de Weber dezessete vezes, desde a sua primeira formulação pouco antes de 1913 até os últimos meses de sua vida em meados de 1920.
Após uma introdução o autor escreve 14 capítulos, onde procura detalhar “todos os passos do conceito”. Os capítulos são os seguintes: 1) Passando por Schiller, 2) Meu ponto, 3) Contanto os passos, 4) Fazendo as contas, 5) Comentando os passos, 6) Passo 1: Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva, 7) Passo 2: “Introdução” à Ética econômica das religiões mundiais, 8) Passo 3: Economia e sociedade, 9) Passo 4: A religião da China, 10) Passos 5 e 6: Consideração Intermediária, 11) Passos 7 a 12: A ciência como vocação, 12) Passo 13: História geral da economia, 13) Passos 14 a 17: A ética protestante e o espírito do capitalismo, e 14) Meu ponto final e uma chave de ouro.

O conceito weberiano de desencantamento do mundo

Seguindo “todos os passos do conceito” Pierucci inicia a sua análise “Passando por Schiller” (Capítulo 1), onde afirma que a tarefa de encontrar na obra de Weber a expressão “desencantamento do mundo” citada expressamente não foi nada fácil, mesmo com a importância e a significação estratégicas que esse conceito tem em sua obra.
Pierucci descreve que essa expressão foi inspirada nas reflexões estéticas do filósofo e poeta Schiller (1750-1805) como um caso de “idéia recebida” e que, conforme conta, muitos outros autores destacaram o uso de Weber dessa expressão. O que importa nesse ponto é o fato de que Weber muito mais do que usar um simples termo construiu um conceito e passou a mobilizá-lo com uma grande centralidade e proeminência em sua obra, sendo o mesmo, como diz Pierucci, intenso como referência material pela carga de efeitos de sentido, alusões e ressonâncias que abriga e emite o que viria a se tornar uma das marcas registradas de suas teses sobre o desenvolvimento do racionalismo ocidental.
Em seguida, Pierucci parte para o que denomina “Meu ponto” (Capítulo 2), onde procura mostrar que partiu para essa pesquisa tendo plena consciência de que o uso que Weber faz do conceito de desencantamento do mundo não é complicado, nem hesitante, nem muito menos obscuro.
O autor apresenta três vias de demonstração, assim resumidas: 1) Weber faz dezessete empregos dessa expressão, onde é possível demonstrar que em boa parte desses empregos há uma preocupação clara em definir o significado que naquele preciso contexto ele entende dar ao significante; 2) Prestando atenção em cada um desses empregos Pierucci pretende deixar demonstrado que o sintagma desencantamento do mundo tem apenas dois conteúdos semânticos, e que esses conteúdos são nitidamente demarcados; e 3) Demonstra que os dois significados encontrados são concomitantes e também distintos na biografia de Weber, na medida em que dizem ora o desencantamento do mundo pela religião (sentido “a”), ora o desencantamento do mundo pela ciência (sentido “b”).
Deixa claro seu ponto, onde pretende mostrar que Weber na verdade trabalhou com dois significados ao mesmo tempo e o tempo todo ao longo de cerca de oito anos, desde sua primeira formulação pouco antes de 1913 até o final de sua vida que se encerra em junho de 1920.
No capítulo 3 (“Contando os passos”) Pierucci apresenta em ordem cronológica as passagens de Weber em que são mencionadas o substantivo “desencantamento” e o verbo “desencantar” com suas flexões, como segue:
No passo 1 mostra que esse termo aparece na obra “Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva”, escrita pouco antes de 1913 (“… à medida que avança o desencantamento do mundo…”), onde desencantamento significa perda de sentido.
No passo 2 o termo surge na obra de 1913, 1915 denominada “”Introdução” à Ética econômica das religiões mundiais” (“… desencantamento do mundo…”) com o sentido de desmagificação.
No passo 3 o termo aparece significando desmagificação + perda de sentido na obra “Sociologia da religião” de 1913, 1914 da seguinte forma: “… com isso os processos do mundo ficam “desencantados”…”.
No passo 4 surge mais uma vez o “… desencantamento do mundo…” usado na obra “Confucionismo e puritanismo” de 1913, 1915, usado com o sentido de desmagificação.
No passo 5 ele aparece na obra de 1913, 1915 denominada “Consideração intermediária” (“… o desencantamento do mundo…”) significando perda de sentido.
No passo 6 surge na expressão “… desencantou o mundo…”, que aparece mais uma vez na obra “Consideração intermediária”, com o sentido de desmagificação.
No passo 7 “… o desencantamento do mundo…” aparece na obra “A ciência como vocação”, de 1917, com o significado de desmagificação + perda de sentido.
No passo 8 Weber usa mais uma vez na obra “A ciência como vocação” a expressão “… processo de desencantamento…” com o significado de perda de sentido.
No passo 9 o termo aparece novamente na obra “A ciência como vocação” (“… mundo ainda não desencantado…”) e significa, assim como no passo 7, desmagificação + perda de sentido.
No passo 10 aparece pela quarta vez na obra “A ciência como vocação” (“… desencantado…”) significando desmagificação + perda de sentido.
No passo 11 surge a palavra “… desencantados…” pela quinta vez na obra “A ciência como vocação” significando também desmagificação + perda de sentido.
No passo 12 pela sexta e última vez o termo aparece na obra “A ciência como vocação” da forma “… desencantamento do mundo…”, com desencantamento significando perda de sentido.
No passo 13 o termo surge no livro “História geral da economia” (“… desencantamento do mundo…”) de 1919-20, com o significado de desmagificação.
No passo 14 aparece na forma da frase “… Aquele grande processo histórico-religioso de desencantamento do mundo…” com o sentido de desmagificação. A obra em que aparece trata-se d”A ética protestante” reeditada com alterações em 1920.
No passo 15 o termo volta a aparecer n”A ética protestante” (“O ‘desencantamento’ do mundo:…”) novamente com o sentido de desmagificação.
No passo 16 surge mais uma vez a alusão ao termo, quando diz: “… o ‘desencantamento’ religioso do mundo…”. A obra em que aparece é “A ética protestante”, mais uma vez com o sentido de desmagificação.
Finalmente temos o passo 17 em que o termo aparece pela última vez na obra de Weber e pela quarta vez no livro “A ética protestante”. O sentido empregado nessa obra é sempre o de desmagificação e nesse passo ele aparece na frase “O radical desencantamento do mundo…”.
No próximo capítulo, de número 4, Pierucci estará “Fazendo as contas” e tirando importantes conclusões quantitativas, que são as seguintes: das dezesseis incidências do significante, em nove ele vem usado para significar “desmagificação”; em quatro com o significado de “perda de sentido”; e nas quatro restantes ele vem com as duas acepções. O conceito aparece doze vezes como substantivo e cinco vezes como verbo. Por duas vezes nomeia o desencantamento como “processo” e por uma vez o termo se faz acompanhar do adjetivo verbal “crescente”.
Conclui Pierucci que isso quer dizer que o desencantamento do mundo, na medida em que vem definido tecnicamente como desmagificação da atitude ou mentalidade religiosa, é um resultado e produto da profecia, e é também fator explicativo do desenvolvimento sui generis do racionalismo ocidental, ao mesmo tempo em que é, ele mesmo, um processo histórico de desenvolvimento.
A seguir estará Pierucci “Comentando os passos” (Capítulo 5), onde observa que Weber usou o sintagma na última década de sua vida (1912 a 1920) que correspondeu ao período mais fecundo de sua produção intelectual. Esclarece também que cada passo será comentado isoladamente ou em bloco, dependendo de ser passagem única numa obra ou mais de uma na mesma obra. Isso significa que agregando dessa maneira teremos a seguir mais oito capítulos e um último, que será seu ponto final, onde ele fechará com uma chave de ouro.
Em cada passo subseqüente ele fará uma “Breve notícia da obra”, procurando situar cada obra destacada em sua própria história, com base em informações historiográficas atualizadas. Em cada passo Pierucci fará também um “Comentário”, onde trará suas considerações a respeito do conteúdo analisado.
No capítulo 6 ele inicia com o passo 1: “Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva” (pouco antes de 1913). Em seu comentário Pierucci afirma que para Weber, a Sociologia da Religião se ocupa de duas formas de religiosidade: magia e religião, à quais Weber dá o tratamento conceitual de “tipos idéias” e mostra que na realidade elas andam misturadas. Mostra que a magia representa para Weber o momento anterior da religião, com nítida afinidade eletiva com o estágio “animista” de uma humanidade imersa num mundo cheio de espíritos povoando invisivelmente um universo concebido de forma não dual. Apresenta a visão de um jardim encantado ou, resumidamente, de um mundo animado.
A religião, sendo principalmente doutrina, representa em relação à magia um momento cultural de racionalização teórica, com nítidas pretensões de controle sobre a vida prática dos leigos, querendo a constância e a fidelidade à comunidade de culto. Afirma, então, que a normalidade que corresponde à magia é o tabu e que a normalidade que vai resultar da religião é a ética religiosa.
Faz o autor uma longa discussão que resume da seguinte forma: Weber trata a distinção entre magia e religião de uma perspectiva histórica fortemente travejada por uma visada evolutiva e que o processo de racionalização religiosa é também um processo de intelectualização da oferta religiosa, onde a religiosidade mágica vem desde o princípio e a religiosidade ética, por sua vez, ainda não tem três milênios de existência. Mostra também que a Sociologia da Religião de Weber fica inconcebível sem a consideração dessa emergência gradual da ética religiosa para fora do universo do magismo, sem a idéia do desencantamento do mundo com sua contraface, a eticização da religiosidade e a resultante moralização da conduta.
Pierucci mostra também que um ato de magia é um de racionalidade prática subjetivamente racional com relação a fins, ainda que irracional nos meios e que a magia para Weber é incapaz de vida cotidiana, assim como ela é para Durkheim, incapaz de igreja. Conclui o capítulo afirmando que é como se o desencantamento significasse justamente o contrário do que se esperava dele, a saber, a saída de um mundo incapaz de sentido e o ingresso num universo significativamente ordenado de idéias religiosas e, com isso, tornado ele próprio pleno de sentido.
No capítulo 7 ele desenvolve o passo 2: “”Introdução” à Ética econômica das religiões mundiais” (1913) onde o termo enuncia de forma explícita e sucinta a correlação direta entre o desencantamento do mundo e o protestantismo ascético e remete o processo de desencantamento também no plano das idéias, onde atribui importância às camadas intelectuais e, com isso, à intelectualização da religiosidade. Weber mostra também o processo de desmagificação da experiência religiosa como o outro lado da moeda da escalada da moralização religiosa e, por conseguinte, como o outro lado da moeda da arregimentação consciente e alerta da vida individual num todo unificável.
Esse termo aparece como uma operação religiosa pela qual uma determinada religiosidade é retrabalhada por seus intelectuais no sentido de “se despojar ao máximo do caráter puramente mágico ou sacramental dos meios da graça”, meios esses que sempre desvalorizam o agir no mundo, impedindo com isso que se chegue à noção de que o trabalho cotidiano, com sua racionalidade técnico-econômica, pode ser o lugar por excelência da bênção divina.
O autor lembra que a linha de “evolução religiosa” que vai da imagem mágico-mítica à imagem metafísico-religiosa do mundo é descrita por Weber como um processo de racionalização e intelectualização que adquire a inflexão singular de um processo de desencantamento do mundo.
Comenta também nesse capítulo que no desenrolar de suas pesquisas em Sociologia da Religião, Weber volta várias vezes aos conceitos tipológicos de ascetismo e misticismo, onde a ascese intramundana (sintetizada na frase: o asceta intramundano é um racionalista) torna-se com o tempo referência inescapável para a compreensão do processo de racionalização religiosa tal como ocorrido no Ocidente.
Pierucci finaliza o capítulo dedicado à “”Introdução” à ética econômica das religiões mundiais” ressaltando a importância do binômio cotidiano-extracotidiano na sociologia sistemática da religião de Weber, na medida em que a oposição “ética x magia” replica diretamente esta outra dicotomia básica também em sua sociologia da dominação, “cotidiano x extracotidiano, “ordinário x extraordinário”, “rotina x carisma”.
O passo 3, desenvolvido no capítulo 8, aborda “Economia e Sociedade” (1913, 1914). Como a parte desse livro que trata da Sociologia da Religião (Capítulo V) já foi analisado em paper anterior, faremos apenas uma breve referência ao comentário de Pierucci. Ele mostra que para que o desencantamento se cumpra plenamente como racionalização religiosa, a tendência intelectualista do virtuose religioso a fugir do mundo deverá ser superada por uma ética intramundana que faça incidir o valor religioso diretamente sobre a organização racional do trabalho e da produção industrial, acreditando-se que aí reside a benção de Deus sobre os que ele escolheu e predestinou à salvação eterna.
A obra “A religião da China” (1913, 1915) é enfocada no capítulo 9, passo 4, e em cujo comentário Pierucci afirma que o sintagma desencantamento do mundo tem uma definição esclarecedora e didática, além de superlativamente enfática na explicitação do sentido “literal” que lhe foi conferido por Weber. Essa definição assim aparece: o grau em que uma religião se despojou da magia (e agora como resultado, não como processo).
Temos, segundo Pierucci, dois eixos possíveis de racionalização das imagens de mundo religiosas que Weber isola e enumera, constituindo uma verdadeira regra do método sociológico: 1) O grau em que “se despojou da magia” e; 2) O grau de unidade sistemática que imprime à relação entre Deus e o mundo e, em consonância com isso, à sua própria relação ética com o mundo.
O autor afirma que Weber dedica toda uma seção do estudo sobre a China a discutir a importância e a enorme presença que a magia tem naquela cultura, inclusive quantitativamente. Em seguida descreve cuidadosamente o que chama da caudalosa e inerradicável presença da magia numa cultura superior como a chinesa, formando um verdadeiro “jardim encantado” devido a uma total exuberância de magismo nas grandes doutrinas religiosas asiáticas, tanto popular como de elite. Mostra também que magia implica necessariamente tabu ritual, no caso como estereotipia de formas não só estéticas, como em normas alimentares, regulação do espaço físico, alocação de tarefas e proibições de toda ordem.
Por fim Pierucci resume o que Weber pretendia com o estudo da China da seguinte forma: sem a desmagificação que o judaísmo operou e hereditariamente transmitiu ao cristianismo, não teria havido o racionalismo de domínio de mundo que caracteriza o desenvolvimento do Ocidente. Comparando os racionalismos, conclui que no Oriente os obstáculos mágicos não foram removidos pela religiosidade racionalizada dos seus intelectuais típicos.
No capítulo10 Pierucci enfoca a obra de Weber “Consideração intermediária” (1913, 1915) englobando os passos 5 e 6. Diz que é nessa obra que Weber desenvolve sua tipologia das esferas de valor, e o faz de um duplo ponto de vista: 1) Da teoria da diversidade dos processos de racionalização e; 2) Da teorização sobre a cultura como conflito de valores. Sendo assim, o tema central dessa obra é a racionalização cultural do Ocidente, que Weber disseca em termos de diferenciação, automatização e institucionalização das diferentes ordens de vida e condensa em termos plásticos, metafóricos, na imagem helenizante de um “politeísmo dos valores”.
Pierucci trilha os passos 7 a 12 no capítulo 11, onde enfoca a obra “A ciência como vocação” (7 de novembro de 1917), sendo que é neste trabalho que o termo desencantamento do mundo mais aparece, num total de seis vezes, e a importância que esse conceito assume pode ser compreendida, segundo Pierucci, quando recordamos que praticamente desde a entrada de Weber no mundo acadêmico o traço central do moderno conhecimento científico sempre foi para ele sua capacidade constitucional de produzir sentido, ou mesmo de o fundamentar. Mais a frente ele diz que a moderna atitude ou mentalidade científica retira o sentido do mundo, agora transformado em “mecanismo causal”, e não é capaz de substituí-lo por outro.
Já no capítulo 12 ele analisa a obra “História geral da economia” (semestre de inverno-primavera de 1919-20), chegando ao passo 13. Pierucci aponta que é um dado muito significativo o fato de que o sintagma “desencantamento do mundo” apareça nessa obra justamente no capítulo que trata da origem do capitalismo moderno, tanto por se tratar de um texto de histórica econômica, e não de um estudo de Sociologia da Religião; e por se tratar de um registro historiográfico do estado vigente do pensamento weberiano.
O termo aparece em sentido estrito e no sentido de desencantamento ético-religioso do mundo, ou como diz Pierucci, do processo de desembaraçar das crenças e práticas mágicas o estilo de vida religiosa das pessoas, substituindo-as pela disposição ética internalizada de levar uma vida metódica de trabalho racional.
Finalmente no capítulo 13 ele analisa a obra retrabalhada em 2ª versão em 1920 “A ética protestante e o espírito do capitalismo” onde trilha os quatro passos finais que vão do 14 ao 17. Pierucci destaca a clareza conceitual de Weber, onde a exigência de sistematicidade era inerente a toda teorização científica. Mostra também que as inserções tardias (feitas cerca de quinze anos depois da obra original) demonstram o alto grau de intencionalidade de Weber quanto ao significado literal que o uso quatro vezes do significante “desencantamento do mundo” nessa obra retoma, reafirma, denomina e atualiza.
O autor esclarece e alerta que desencantamento do mundo é uma forma específica de racionalização religiosa, a qual, por sua vez, constitui também uma forma específica de racionalização e não pode ser simplesmente sinonimizado com racionalização. Ele mostra também que a revisão feita n”A ética protestante” em 1919-20 entregou ao leitor uma versão verdadeiramente injetada de desencantamento e em sentido estrito. E ele estava tanto em conformidade com o significado da tese original de 1904-05, como com os resultados obtidos das análises comparativas das outras grandes religiões culturais. Nesse último ponto, ele destaca que Weber tinha sistematicamente interrogado essa questão do ponto de vista de sua relação com a magia e ficou convencido de que “somente o protestantismo ascético realmente liquidou com a magia”.
Fechando seu estudo, Pierucci apresenta no capítulo 14 a sua tese, onde afirma que o termo “desencantamento”, acompanhado ou desacompanhado de seu complemento “do mundo”, tem dois significados na obra de Weber: desencantamento do mundo pela religião (sentido “a”) e desencantamento do mundo pela ciência (sentido “b”). Afirma também que são essas as duas únicas acepções do termo, os dois únicos registros de seu uso como conceito, suas duas únicas conceituações.
Revela por fim a sua chave de ouro: encontra em uma tradução brasileira uma pista que ficou aberta em Weber e em que possa advir algum “reencantamento do mundo” que não signifique apenas retrocesso ou que não passe de auto-engano. Isso se dá justamente em uma seção dedicada à esfera erótica (“encantar todo o mundo”). Pierucci nos brinda, então, com a descoberta desta via modernamente disponibilizada de encantamento do mundo, da vida e do mundo da vida, que é o erotismo.

Conclusão

O sociólogo Gabriel Cohn escreve que nesta obra Pierucci está empenhado em mostrar como a aparente proliferação de significados do termo “desencantamento” esconde um conceito construído com rigor e dotado de sentido bem definido e que nela despontam duas teses: de que o termo vai muito mais fundo do que a vaga noção alusiva a alguma perda ou mal-estar subjetivo, onde estamos diante de um conceito que faz parte de uma teoria maior e que foi construído para ajudar a explicar o mundo, não para lamentá-lo; e de que o conceito não se encontra inteiriço em todos os pontos e em todos os momentos da obra de Weber.

Bibliografia
Pierucci, Antônio Flávio – “O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber”, USP, Curso de Pós-Graduação em Sociologia, Editora 34, São Paulo, 2003.

5º paper feito por mim durante a minha estadia na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, como aluno especial, para o curso do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, na data de 18 de junho de 2006, para a matéria FLS5755 – Religião e Sociedade, ministrada pelo Prof. Dr. Lísias Nogueira Negrão

Sou um gato

Ele fixaria em Deus aquele olhar verde-esmeralda com uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedecia porque gato não obedece. Quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a humildade do cachorro, o gato não é humilde, ele traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.

Lembro agora daquela história que ouvi na infância e acreditei porque na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato é que descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de caráter. Dizia a história que Deus pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos foi leva-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que ele fez? escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo na mão divina. Conheço bem o gato e sei que ele jamais se comportaria conforme aquela antiga história. O cachorro, sim, bem-humorado, faria tudo o que fez ao passo que o gato ouviria a ordem divina mas continuaria calmamente deitado na sua almofada, apenas olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas no calor do peito assim como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. Elegante. Calmo. E mergulharia no sono em sonhos, gato sonha menos do que o cachorro que até dormindo parece mais com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas o gato não dá gargalhadas, é o cachorro que ri abanando o rabo naquele jeito natural de manifestar alegria. Os meus cachorros – e tive tantos – chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos como se ferisse a luz, esse o sorriso do gato. Secreto. E distante. Nem melhor nem pior do que o do cachorro mas diferente. Fingido? Não, porque ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu de moda mas deveria voltar porque não existe definição melhor para um felino. E para certas pessoas que falam pouco e olham muito. Cavilosidade sugere cuidado, afinal, cave é aquele recôncavo onde o vinho fica envelhecendo em silêncio, no escuro. Na cave o gato se esconde solitário, porque sabe do perigo das aproximações. Mas o cachorro, esse se revela e se expõe com inocência, aqui estou!

Lygia Fagundes Telles (São Paulo, 19 de abril de 1918 – 3 de abril de 2022). In “A disciplina do amor”, Companhia das Letras,2010. A autora desse conto fez o curso fundamental na Escola Caetano de Campos em São Paulo e em seguida ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo, onde se formou. Ainda na adolescência manifestou-se a sua paixão, ou melhor, a vocação para a literatura incentivada pelos seus maiores amigos, os escritores Carlos Drummond de Andrade e Erico Verissimo. Foi a quarta ocupante da Cadeira nº 16, eleita em 1985, na Academia Brasileira de Letras

Venda Grande, onde liberais paulistas, lutando pela independência, foram esmagados por Caxias

Mais uma vez, como ocorre com a “Batalha do Jenipapo” de 1823, lutando no Piauí pela independência do Brasil, soube pelo meu sobrinho campineiro Diogo Fernandes Matosinho, que em Campinas, interior de São Paulo, também ocorreu um outro conflito um pouco depois daquela, em 1842, conhecida como “Revolução liberal e o combate de Venda Grande”. Ambas muito pouco conhecidas e estudadas pelos brasileiros. Convido os leitores do blog “Redescobrindo” para se inteirarem dessa história que escrevo em parceria com Alcides Ladislau Acosta (Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, 27 de junho de 1943), grande especialista nos acontecidos da Princesa d’Oeste e fundador e vice-presidente da ABAL Campinas (Associação Brasileira Carlos Gomes de Artistas Líricos), entidade que divulga a obra imortal do grande maestro Antônio Carlos Gomes (Campinas, São Paulo, 11 de julho de 1836 – Belém, Pará, 16 de setembro de 1896).

Uma das grandes agremiações políticas do Império brasileiro, o Partido Liberal se contrapunha ao Partido Conservador. Foram seus representantes que promoveram, em 1840, durante o Ministério dos irmãos Andradas (gabinete liderado principalmente por José Bonifácio), a elevação de D. Pedro II ao poder, mediante a declaração da maioridade. Tendo vencido as eleições de 1842, e sendo a assembleia geral dissolvida pelo governo, o Partido Liberal caiu na oposição, chegando seus membros a organizar movimentos armados em São Paulo e Minas Gerais. Com relação à revolução liberal de 1842, ou combate de Venda Grande, ela aconteceu quando o imperador D. Pedro II dissolveu a Assembleia Geral, que ainda se encontrava trabalhando em suas sessões preparatórias. A alegação era que as irregularidades e fraudes cometidas no processo de eleição haviam determinado a vitória dos liberais. Estes não se conformaram com a decisão imperial e iniciaram, então, nas províncias de São Paulo e Minas Gerais, uma série de pronunciamentos indignados contra a dissolução efetivada. Logo em seguida uma delegação do Partido Liberal saiu de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, pensando em encontrar-se com o imperador para discutir a questão, mas não foi recebida por ele.

A recusa provocou o surgimento de um movimento rebelde na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou por aclamação o nome do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (Sorocaba, São Paulo, 4 de outubro de 1794 — Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1857) como presidente da província -, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Uma coluna formada por 1.500 homens – a Coluna Libertadora – marchou então sobre a capital paulistana, mas foi enfrentada por tropas legais comandadas por Duque de Caxias (Vila de Estrela, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1803 – Valença, Rio de Janeiro, 7 de maio de 1880). No combate que aconteceu em Vargem Grande, hoje Vargem Grande do Sul, os revolucionários não tiveram melhor alternativa senão recuar e retornar a Sorocaba, onde acabaram se dispersando. Com o fracasso do movimento Tobias de Aguiar fugiu para o sul do país, enquanto em Sorocaba, o Padre Feijó (São Paulo, batizado em 17 de agosto de 1784 – São Paulo, 10 de novembro de 1843), que estava comprometido com os rebeldes, foi preso e exilado para o Espírito Santo.

Campinas, como mostra matéria assinada por Célia Farjalla em 7 de junho de 1997, e publicada no jornal “Correio Popular”, de São Paulo, o historiador Amador Bueno Machado Florence relata minuciosamente os episódios da ação revolucionária de 1842 em Campinas, ressaltando o heroísmo dos participantes, dizendo que foi nessa cidade que o exército imperial encontrou resistência. Foi lá que o sangue paulista e campineiro ensopou o solo da província, “na coragem de um punhado de bravos que não queria recuar”.

Mas Caxias, chefe das hostes governamentais, foi generoso. Não quis esmagar os vencidos, embora tivesse tido ação fulminante contra eles. Debelada a revolta, enterrados os mortos, poucos foram aprisionados. Um deles foi Boaventura Soares do Amaral, capitão, assassinado a sangue frio pelos soldados do lado conservador. Ele ficou como símbolo dos liberais vencidos. Sabe-se também que “A Gazeta de Campinas”, de 16 de julho de 1882, registrou a exumação das vítimas, e o translado solene de seus despojos para um cemitério público de Campinas. Os historiadores registraram os nomes de 59 componentes revolucionários. Em março de 1843 foi promulgada lei concedendo anistia a todos os envolvidos nos crimes políticos do ano anterior. Mas, ele acrescenta “como esquecer o episódio do Combate da Venda Grande? Como olvidar aquele movimento liberal surgido aqui mesmo, e regado como sacrifício e o sangue de um punhado de nossos conterrâneos?”.

Posteriormente, em 02 de junho de 2002, o mesmo “Correio Popular”, voltou a publicar texto sobre a revolução. A matéria, de Rogério Verzignasse, que também fornecia detalhes sobre a batalha de Vargem Grande, dizia que: “Em 1842, eclodiu em São Paulo a Revolução Liberal, liderada por Rafael Tobias de Aguiar (1795-1857), que havia presidido a província de 1831 a 1835 e de 1840 a 1841. Ele detinha alta popularidade, pois tinha usado os recursos do próprio ordenado nas escolas, obras públicas e na caridade.”

A revolta em São Paulo

Em São Paulo, a oposição à legislação conservadora do governo central evoluiu para uma revolta armada. O pretexto para a rebelião paulista foi a substituição do então Coronel Rafael Tobias de Aguiar, Presidente da Província, pelo Barão de Monte Alegre, José da Costa Carvalho. A revolta liberal eclodiu na manhã de 17 de maio de 1842, na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou, por aclamação, o nome de Tobias de Aguiar como Presidente da Província, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Os rebeldes conseguiram também o apoio do padre Diogo Feijó e de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro – senadores e ex-regentes do Império – além da população de algumas vilas, entre elas Itapetininga, Itu, Porto Feliz e Capivari. Mesmo idoso e doente, Feijó deslocou-se para Sorocaba – então denominada capital provisória da província – sendo recebido por Tobias de Aguiar. Juntos, os dois líderes rebeldes começaram a escrever um jornal revolucionário, “O Paulista”, de tom arrogante, violento, e trazendo grave ameaça de separatismo.

Sob o comando do Major Francisco Galvão de Barros França, foi constituída a Coluna Libertadora, com efetivo de, aproximadamente, 1.500 homens, para marchar até a capital paulista, a fim de depor o barão de Monte Alegre. O grupo revoltoso possuía bases de apoio logístico em diversas vilas do interior, como Itu, Itapetininga, Sorocaba e Capivari. Monte Alegre, por sua vez, solicitou o apoio do Ministro da Guerra José Clemente Pereira. Preocupado com a possibilidade de separatismo, o governo imperial adotou medidas para debelar a rebelião e, para tal, designou Caxias, que havia pacificado a Balaiada na província do Maranhão.

A ação de Caxias e o combate de Venda Grande

Tão logo recebeu a tarefa de comandar as tropas do Exército Imperial, Caxias rumou para o litoral paulista a bordo do navio Todos os Santos, conduzindo apenas 400 homens pouco experientes. Em São Sebastião desembarcou o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, com a missão de marchar em direção a Guaratinguetá e atuar como força de cobertura. A parcela principal das tropas imperiais chegou a Santos, em 21 de maio de 1842, onde desembarcou. Antes de deslocar suas forças em direção ao planalto interior, Caxias expediu ordens para que unidades se deslocassem de Curitiba para a região de Itararé, com o objetivo de isolar a província de São Paulo de possíveis reforços rebeldes procedentes do sul do Brasil. Ciente do fato de que possuía efetivo inferior ao dos rebeldes, o Barão de Caxias marchou em direção ao interior, procurando dar a impressão de que comandava força mais numerosa. Nesse sentido, expediu requisições para serem preparadas rações para 2.000 soldados. Tal fato ludibriou os rebeldes que bivacavam na Ponte dos Pinheiros, fazendo com que se retirassem em direção a Sorocaba.

Os revoltosos, após se reorganizarem, enviaram uma força para tomar de assalto a cidade de Campinas, já em poder de Caxias. Aproximadamente 300 liberais acantonaram na localidade denominada Venda Grande, nos arredores de Campinas, em 7 de junho, quando foram alcançados pelas tropas imperiais. Os rebeldes não perceberam a aproximação de soldados enviados por Caxias e, surpreendidos por um ataque de cavalaria, com o apoio de 120 infantes, artilheiros e guardas nacionais, sob o comando do Coronel Amorim Bezerra, alguns debandaram e outros, apesar de desorganizados, sustentaram a resistência possível. Após a rendição da tropa paulista, contabilizou-se 17 mortos – inclusive seu comandante, Capitão Boaventura Soares do Amaral – e foram feitos 15 prisioneiros. Os legalistas perderam um capitão, duas praças e alguns feridos leves. Os rebeldes remanescentes não tiveram alternativa senão recuar e retornar a Sorocaba, onde acabaram se dispersando tão rapidamente quanto se organizaram.

As forças revoltosas foram eliminadas antes da marcha planejada sobre São Paulo. Rafael Tobias de Aguiar tentou fugir para o Rio Grande do Sul, tentando unir-se aos Farrapos, mas foi capturado e levado ao Rio de Janeiro. Caxias tomou a cidade de Sorocaba e ali prendeu o Padre Feijó que assumira, após a fuga de Tobias de Aguiar, o exercício da “presidência” da província. Tanto os liberais de São Paulo quanto os de Minas Gerais foram derrotados e presos pelos comandados de Caxias. Os que conseguiram escapar refugiaram-se no Rio Grande do Sul, onde foram acolhidos pelos Revolucionários Farroupilhas.

Considerações finais

A Revolta Liberal teve pequena duração, mas, em razão de sua forte motivação político-militar, abalou a Corte no Rio de Janeiro, levando o governo imperial a uma reação rápida e enérgica no sentido de sufocá-la. Apesar dos conflitos armados, o Imperador concedeu, em 14 de março de 1844, anistia aos envolvidos. Um ministério liberal foi constituído neste ano. A vitória sobre os revoltosos rendeu a Caxias a promoção a Marechal-de-Campo.

As operações militares realizadas em São Paulo e Minas Gerais e, principalmente, a ação de comando de Caxias, foram ricas em ensinamentos. Em primeiro lugar, Caxias tratou de colocar a província de São Paulo fora do alcance de possíveis reforços rebeldes, estabelecendo duas forças de cobertura nas regiões de Lorena, divisa com a província do Rio de Janeiro, e Itararé, com tropas procedentes de Curitiba. Tal medida teve por objetivo limitar a área de conflito, o que foi realizado com sucesso.

Nas duas rebeliões, as tropas imperiais bateram-se contra os revoltosos com inferioridade numérica. Caxias não esmoreceu diante dessa desvantagem e conseguiu superá-la dividindo adequadamente suas tropas e empregando táticas de combate indireto, realizando o duplo envolvimento no combate de Santa Luzia. Merece destaque, também, o emprego de operações psicológicas, quando Caxias, por intermédio de uma requisição de alimentação falsa, fez parecer aos adversários que possuía efetivo maior do que o real. A inteligência de combate foi empregada pelas forças imperiais, que buscou levantar o dispositivo defensivo dos liberais no arraial de Santa Luzia antes da realização do ataque.

A liderança de Caxias foi essencial para conduzir suas tropas em marcha forçada sob condições climáticas desfavoráveis, visto que as ações ocorreram sob rigoroso inverno, possibilitando o rápido deslocamento em grandes distâncias. Mesmo com a precariedade da rede de estradas, as tropas imperiais levaram apenas onze dias para vencer os cerca de 340 km que separavam o Rio de Janeiro de Ouro Preto, surpreendendo os revoltosos em Santa Luzia. A mobilidade também foi decisiva em São Paulo, quando as tropas de Caxias alcançaram Campinas antes dos rebeldes, o que permitiu a vitória no combate de Venda Grande. No combate de Santa Luzia, o Barão de Caxias dirigiu pessoalmente uma carga de baioneta contra os revoltosos. Finalmente, a atuação do Exército Imperial brasileiro contra os revoltosos liberais foi decisiva para a manutenção da coesão nacional e da integridade territorial brasileira. A vitória do governo imperial nas Revoltas Liberais representou a consolidação do Império e, com exceção da Revolução Praieira, ocorrida em Pernambuco, entre 1848 e 1849, o Brasil experimentou um longo período de estabilidade política e calmaria interna.

Fotos de Diogo Fernandes Matosinho, que comenta: “Este é o monumento erguido no local pelo CCLA [Centro de Ciências, Letras e Artes, uma entidade cultural da cidade de Campinas], do qual o Alcides é o presidente… Tirei essas fotos após o evento comemorativo do último 7 de junho.”

Risco de queda (Trecho)

O olho dele vai denunciar
Os olhos de Emmanuel normalmente davam a sensação de doçura. Ou mudavam dependendo do momento? Enganava. Ele me contempla agora, sem expressão. Não sei se finge ou ficou assim por algum distúrbio. Era um mestre em convencer, ser amável, sem falar nas centenas de expressões de ternura, pobre coitado, necessitado, modesto, puxa-saco de alta potência. Quantos papéis viveu! Como se eu não tivesse ideia do quanto é mentirosa esta exorbitância de expressões. Ele, um falso total, Judas Iscariotes, um Silvério dos Reis, Brutus, Pétain, Vidkun Quisling, Andrey Vlasov, segundo a curiosa lista de traidores históricos. O canalha me contempla por três segundos e desvia o olhar. Como se se ausentasse.

Ele, se está lúcido, sabe quem sou. Terá ideia de que vim pensando em matá-lo? É o que pretendo, gostaria de acabar com ele, ou não terá tido sentido essa minha imensa busca. Milhares de litros de gasolina gastos atravessando o Brasil, gastando dinheiro. Jamais imaginei que estivesse como está agora, ao meu lado. Paralisado, mudo. Ou fingindo?

Não podem ter sido inúteis estes anos de ansiedade. Senti-me um detetive, como aqueles sobre os quais li por anos na revista Mistério Magazine de Ellery Queen. Ficava embalado por tanta imaginação, tantos modos de chegar ao assassino, ao culpado. Espero que minha presença aqui deixe Emmanuel alarmado. Ou incomodado. Prefiro aterrorizado. Por anos, procurei esse homem até descobri-lo nessa casa de repouso afastada de tudo e de todos. Demorei. Ainda que paciência nunca tenha sido uma qualidade minha.

Os conselhos do bilionário que fez sua fortuna apenas com ações da Microsoft-Palpites da ex-BBB que ganhou mais de sessenta vezes na loteria para a Mega da Virada. Como os jovens poderão herdar trilhões de dólares nos próximos vinte anos. Não ter bitcoins na carteira pode ser seu grande erro.

Todos loucos, ou o quê?
Um grande crítico de teatro, Jefferson Del Rios, me enviou certa vez um e-mail apenas com uma frase de Beckett.

“Nascemos todos loucos.

Alguns continuam.”

Tirada de algum texto, peça teatral, sei lá. Copiei, modifiquei e emoldurei.

Nascemos todos

filhos de uma puta.

99,7% continuam.

Quando crianças, jogávamos um jogo: quem suporta encarar por mais tempo o olhar do outro. Quem desviava a vista, perdia. Jovens, sabíamos que se alguma mulher devolvesse e mantivesse o olhar fixo, havia nela o consentimento, “pode se aproximar”. Não, nenhuma nostalgia, cada tempo é como é, seja qual for. Se Emmanuel não me der um sinal, ficarei frustrado, é importante ele perceber que estou aqui e se sentir importunado. Quero provocá-lo até que se revele putíssimo. Que chore em desespero. Vai desejar que eu desapareça, não o veja como está. Como pode me ignorar? O tanto que fomos próximos. Ainda existe nele uma centelha de entendimento que o faça pensar: “Por que Gregório está aqui?”. Ele me contempla, sem dizer palavra. Será que pergunta por que estou aqui? Ou indagará: “Conheci? Acho que sei quem é e ele vem me sacanear. Um filho de uma puta. Melhor ficar na minha.”

Penso nele sem parar. Posso estar louco. É pura raiva, como se fosse eu, ainda que Emanuel jamais tenha pensado no outro. Vim visitá-lo para descobrir ou confirmar que está fora de si, fodeu-se de vez. Ou está apenas dissimulando, no que sempre foi rei. Mauca era seu apelido. Se for assim, de que me adianta estar aqui? É um ato impiedoso querer humilhá-lo? Não sei se estou feliz, curtindo ou tomado por imensa pena. Ou me acho um enorme filhodeumaputa. Desde quando senti piedade? Vou me afastando e juro: não é fantasia, o olho dele me acompanhou. O filho da puta tem controle do olhar. Aliviado por eu estar me retirando? Pode ser que tenha sido imaginação minha. Quero tanto que me reconheça.

Quem paga a conta dessa casa de repouso, os remédios, tudo? Ele tinha dinheiro guardado? Ganhou na Mega?

O enfermeiro, ou cuidador, se aproximou.

– Terminou a visita, meu senhor?Terminei.

– É ele mesmo que procura? Tem vindo tanto. Não está perdendo tempo?

Perguntas que repetem desde minha primeira visita. Mudaram duas vezes de cuidador.

– É ele mesmo, sei.

– E o que quer?

– Atormentá-lo.

– Maldade! Para quê? Um homem fodido, nem sabe onde está.

Terei de repetir isso a cada cuidador? Por que a palavra atormentar espanta, se eles nem sabem quem é Emmanuel? Piedade? Olhei para Emmanuel — o que pensei ser uma ameaça de riso tinha desaparecido. A esfinge de sempre. Seu rosto pareceu ter cem anos.

Ou ele está envelhecendo velozmente? Quero que esteja lúcido quando matá-lo!

Não falo com Irene há uma semana. Ela diz não estar me reconhecendo mais. Passeio pela casa sem falar nada. Como todo casal, já tivemos essas rusgas; depois de um tempo, elas se dissolvem. Irene liga a tevê, sento-me ao seu lado, durmo o filme inteiro. Não suporto o noticiário, os Estados Unidos invadindo o que possa haver de país com petróleo; americano deve beber petróleo como quem bebe água. E cagam gasolina! Chega para mim. Ou vou lá e faço o que vim fazer ou desapareço; não me sinto mais eu. Seja lá o que isso queira dizer.

Ignácio de Loyola Brandão (Araraquara, São Paulo, 31 de julho de 1936) é um contista, romancista e jornalista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. É autor de mais de 40 livros, entre os quais se destacam “Bebel que a cidade comeu”, “Zero”, “Não verás país nenhum”, “O homem que odiava a segunda-feira” e “O menino que vendia palavras”, tendo sido traduzido para diversos idiomas. Recebeu, entre outros prêmios, o Jabuti em cinco ocasiões, sendo seu maior vencedor, e o Machado de Assis pelo conjunto da obra em 2016. In “Risco de queda”, que é o seu romance mais recente, escrito em comemoração aos seus 90 anos