I get a kick out of you

My story is much too sad to be told
But practically everything leaves me totally cold
The only exception I know is the case
When I’m out on a quiet spree, fighting vainly the old ennui
Then I suddenly turn and see your fabulous face

I get no kick from champagne
Mere alcohol doesn’t thrill me at all
So tell me, why should it be true?
That I get a kick out of you

Some they may go for cocaine
I’m sure that if I took even one sniff
It would bore me terrifically too
And I get a kick out of you

I get a kick every time I see you
Standing there before me
I get a kick, though it’s clear to see
You obviously do not adore me

I get no kick in a plane
Flying too high with some gal in the sky
Is my idea of nothing to do
And I get a kick, you give me a boot
And I get a kick out of you

//

Tradução possível: Eu me divirto com você ou Meu barato é você

Minha história é triste demais pra ser contada
mas praticamente tudo me deixa totalmente inerte
A única exceção que conheço é quando
saio pra uma diversão tranquila, lutando em vão contra o antigo tédio
E eu subitamente me viro e vejo seu rosto fabuloso

Eu não me divirto com champanhe
Puro álcool não me faz andar por aí
Então me diga por que deveria ser verdade?
Que eu… me divirto com você!

Alguns gostam de refrões de músicas dançantes
Tenho certeza que se eu ouvir um só riff
Isso me aborreceria demais
Ainda assim, eu me divirto com você

Eu me divirto, cada vez
Eu vejo você parada diante de mim
Eu me divirto embora seja claro para mim, que obviamente você
Não me adora

Eu não me divirto no avião
Voando muito alto com alguma garota no céu
É a minha ideia nada a ver
Ainda assim, eu me divirto com você

Eu me divirto, cada vez
Eu vejo você parada diante de mim
Eu me divirto embora seja claro para mim, que obviamente você
Não me adora

Eu não me divirto no avião
Voando muito alto com alguma garota no céu
É a minha ideia nada a ver
Ainda assim, eu me divirto

Eu me divirto, sim
Eu me divirto com você!

Cole Porter (Peru, Indiana, Estados Unidos, 9 de junho de 1891 – Santa Mônica, Califórnia, Estados Unidos, 15 de outubro de 1964). Interpretado tanto por Frank Sinatra como por Ella Fitzgerald com enorme sucesso

Na parede

Pinturas minhas (“Arcada dentária”, “Noite de maio, luz” e “Abstrato colorido”), obra de Picasso em montagem feita por Fátima Pacheco Jordão, três cartas escritas em 1983 por Carlos Drummond de Andrade para o jornalista Gilberto Mansur e expostas na parede do escritório dele e skyline do Estádio Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido por Pacaembu, da coleção de Fátima Pacheco Jordão.

Medo-a-medo

Para uma série de desenhos de Fernando Lemos

Fernando Lemos vive na mão que desenha
Lemos é ele mesmo desenho

caligrafia hachura urdimento
traço que salta e assalta o espaço
o papel mal consegue contê-lo

sempre foi assim mas agora é díspar

Medo-a-medo tece tramas – intrigas
tramas que se contém
tramas que se derramam

o desenho se revela pintura
não há linha, não há caligrafia
são massas de cinza sobrepostas

tênue luz aprisionada
assomam sombras
penumbras de território incerto

o lado escuro do mundo

manchas negras se entrelaçam
surgem vultos na neblina
figuras em permanente vigília

cenas sussurrantes – no tom mais baixo
– todavia audíveis

Fabio Magalhães (São Paulo, 5 de novembro de 1942) – Fábio Luiz Pereira de Magalhães é museólogo, crítico de arte e curador. Estudou história da arte no MASP e na FAAP. Frequentou também o Instituto de Arte e Arqueologia em Paris. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ex-curador chefe do Masp, secretário da Cultura do Município de São Paulo, presidente da Embrafilme, presidente da Fundação Memorial da América Latina e curador de Bienais de Artes Visuais do Mercosul em Porto Alegre

A partir de hoje publicarei oito poemas dele, e Fabio comenta: “Eduardo
Segue abaixo alguns poemas que fiz sobre artista. Quase todos ainda não foram publicados.
Depois me diga o que achou.”
Abraço, Fabio

A árvore sem folhas/ The bare tree

A árvore sem folhas

A cerejeira sem folhas
mais alta que o teto
deu ano passado
muita fruta. Como
falar porém de fruta diante
desse esqueleto?
Embora possa estar vivo
não há fruta nele.
Por isso derrubem-no
e usem a lenha contra
este frio cortante.

//

The bare tree

The bare cherry tree
higher than the roof
last year produced
abundant fruit. But how
speak of fruit confronted
by that skeleton?
Though live it may be
there is no fruit on it.
Therefore chop it down
and use the wood
against this biting cold.

William Carlos Williams (Rutherford, Nova Jersey, Estados Unidos, 17 de setembro de 1883 — 4 de março de 1973). Tradução: José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998)

Um ano se passou mas o “Bruxo dos Sons” continua aí, eterno…

Hermeto, cuja habilidade extraordinária de extrair música e melodias de qualquer fonte sonora, incluindo objetos do cotidiano (como chaleiras, panelas e brinquedos) e elementos da natureza, não morreu! Continua aí enchendo nossos ouvidos de bom som. Curto muito sua música “Gaio da roseira”, e não canso de ouvi-la. Interpretada por Hermeto Pascoal, é uma obra de raiz nordestina baseada em memórias de infância do artista. A faixa original possui mais de 14 minutos e conta com improvisações vocais em vez de uma letra convencional estruturada.

A gravação original foi feita em 1973 pela gravadora Universal Music (com edições também em LP e CD ao longo dos anos) no álbum “A música livre de Hermeto Paschoal” e foi composta pelo pai de Hermeto de nome Pascoal José da Costa e por Divina Eulália Oliveira. “O gaio da roseira’ teve performances musicais de Nivaldo Ornelas, Nenê, Cacau e Flora Purim e Airto Moreira gravou em 1971 “O galho da roseira (“The branches of the rose tree) no exterior no álbum “The natural sounds of Airto”, com enorme sucesso. Em 1999 foi lançado também no disco “Visão original do forró”, onde estão musicados alguns dos seus versos no repertório de 17 músicas. Entre seus maiores êxitos estão “Gaio da roseira”; “Bebê”, “Porco na festa” e “Carinhoso” (de Pixinguinha).

Viva Hermeto!

Hermeto Pascoal (Lagoa da Canoa, Alagoas – 22 de junho de 1936 – Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2025) faleceu com 89 anos e foi um importante compositor, arranjador e multi-instrumentista brasileiro, carinhosamente conhecido pelo apelido de “Bruxo” ou “Bruxo dos Sons”. Fez muito mais sucesso no exterior pois o brasileiro, como sempre, não valoriza o seu próprio suco criativo e germinal. Ele morava há muitos anos em Bangu, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde recebia frequentemente outros músicos em sua casa. Inclusive, uma areninha cultural na região foi batizada em sua homenagem: a Areninha Cultural Hermeto Pascoal

Desenho de Laércio Moraes (Lalá)

Um pouco mais de mim no Instagram de Oscar D’Ambrosio

Oscar D’Ambrosio (@oscardambrosioinsta) sugeriu estar enviando uma frase, uma imagem, com a fichinha técnica e com o nome do pensador citado, para conversar com a frase original dele, e eu topei…:

Escritor, curador, crítico de arte, pós-doc em educação, arte e história da cultura, e jornalista (www.oscardambrosio.com.br)

Imagem 1

Pessoas e bichos, 1980
Eduardo Matosinho
Lápis grafite em papel de caderno pautado
15 x 20 cm

“…mire, veja: o mais importante e bonito do mundo é isto;
que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram
terminadas, mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”

João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais , 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967). “Grande sertão: Veredas”
In “Pessoas” (https://ematosinho.com.br/?p=5867)

O ser humano é múltiplo em suas possibilidades de existir. Em sua caminhada, se relaciona com os animais ditos irracionais por aproximações e distanciamentos, mas, muitas vezes, esquece que ele mesmo integra a natureza e precisa, de alguma maneira, ajudar a preservá-la.
Oscar D’Ambrosio

https://www.instagram.com/p/Daz1RZhJXN5/

Imagem 2

Tarcila, 1998
Eduardo Matosinho
Guache Caran d’Ache sobre papel
25 x 40 cm

“O poeta come amendoim
A Carlos Drummond de Andrade

(…)
Brasil…
Mastigado na gostosura quente do amendoim…
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remelexo melado melancólico…
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons…
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois remurmuram sem malícia as rezas bem nascidas…

Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der…
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.”

1924

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945). “Clã do jabuti”, Literatura comentada, Nova Cultural, 1988. In “O poeta come amendoim” (https://ematosinho.com.br/?p=3495)

Uma imagem nunca é literal. Ela busca, de sua maneira, algum tipo de essência. Trata-se de uma maneira de olhar que reverbera na percepção do outro. As formas, as cores e a composição realizadas pelo criador visual são as ferramentas para que aquilo que se pensa se transforme no que se vê e no que se interpreta.
Oscar D’Ambrosio

https://www.instagram.com/p/DcGenRdp_Qp/

Imagem 3

Caca caramba, 16 de maio de 1999
Eduardo Matosinho
Tinta acrílica sobre papel
21 x 29 cm

“Naturezas mortas

Verde
O trote sonoro dos artilheiros passa sobre a geometria
Despojo-me
Em breve eu seria apenas de aço
Sem o esquadro da luz
Amarelo
Clarim de modernidade
O classificador americano
É tão seco e
Fresco
Quanto verdes os campos primaveris
Normandia
E a mesa do arquiteto
É assim rigorosamente bonita
Preto
Com um vidro de nanquim
E umas camisas azuis
Azul
Vermelho
Depois há também um litro, um litro de sensualidade
E esta grande novidade
Branco
Folhas de papel branco”

Blaise Cendrars, pseudônimo de Frédéric Louis Sauser (La Chaux-de-Fonds, Suíça, 1 de setembro de 1887 — Paris, França, 21 de janeiro de 1961). A critica e curadora de arte Aracy Amaral (São Paulo, 22 de fevereiro de 1930) chama a atenção para o fato de Blaise Cendrars ser conhecido e estudado pelos modernistas já antes da Semana de Arte Moderna de 22, tendo Influenciado Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Luiz Aranha e, em particular, Oswald de Andrade, além de de ser fundamental na definição da pintura de Tarsila do Amaral (https://ematosinho.com.br/?p=11061)

Pertencente à coleção de Carlos Alberto Mendes da Galeria Buenos Ayres, casa de leilões e comércio de obras de arte, localizada em Alphaville, Barueri – SP
(https://ematosinho.com.br/?p=8178)

Manchas são formas de falar do mundo. Transmitem um dizer que se dá muito menos pela racionalidade do planejamento e muito mais pela expressividade do fazer. O gesto se torna uma maneira de apresentar uma visualidade que traz uma percepção de existir e de interpretar o que isso significa.
Oscar D’Ambrosio

https://www.instagram.com/p/DdTnm5kJE77/

E triste saber pela manhã da partida de Aracy Amaral (São Paulo, 22 de fevereiro de 1930 – 15 de setembro de 2026), citada em meu texto sobre Blaise Cendrars e postada ontem pelo Itaú Cultural (“Aos 96 anos, morre a curadora e crítica de arte Aracy Amaral / Pesquisadora e gestora que foi homenageada pelo programa Ocupação Itaú Cultural em 2017”)…