IX

A carta era um desafio
Para duelo, um chamamento:
Fino e polido, estilo frio,
Com precisão, sem fingimento.
Eugênio logo respondeu
E ao portador recado deu:
Que sempre pronto se encontrava,
Para o duelo a que chamava.
Logo Zaretski se ausentou –
E mais não quis permanecer,
Em casa tinha o que fazer;
N’alma de Eugênio se instalou
Inquietação; pensava a esmo,
Não estava em paz consigo mesmo.

Alexandre Pushkin (Moscou, Império Russo, 6 de junho de 1799 — São Petersburgo, Império Russo, 10 de fevereiro de 1837) foi um poeta, dramaturgo e romancista russo da era romântica. Ele é considerado por muitos o maior poeta russo, bem como o fundador da literatura russa moderna. In “Eugênio Onegin: Romance em versos”. Tradução do russo para o português por Dário Moreira de Castro Alves. Moscou: Grupo Editorial “Azbooka-Atticus”, 2008

A alma perdida

Ilustrada por Joanna Concejo, vencedora da Menção Especial do Prêmio Bologna Ragazzi 2018, A alma perdida, selecionada no White Ravens 2019, é a nova obra-prima da escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura. Um livro que encanta, enternece e faz pensar. Era uma vez um homem que trabalhava muito e quase não prestava atenção no tempo que passava diante de seus olhos. Não que sua vida fosse ruim. Ele apenas sentia que tudo ao seu redor estava plano, como se estivesse se movendo na folha de um caderno de matemática inteiramente coberta por quadradinhos iguais e onipresentes. Esta é uma história que leva o leitor a buscar a si mesmo, conduzindo-o a um desenlace maravilhoso e inesperado, como só os grandes contos de fadas são capazes de fazer. Uma história que se abre para o futuro ― sem respostas, mas com inúmeras e fascinantes perguntas destinadas a todas as idades

Se alguém pudesse nos olhar do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que andam apressadas, suadas e exaustas, e também veria suas almas, atrasadas e perdidas no caminho…

[…]

Era uma vez um homem que trabalhava com muita pressa e sem descanso, e que havia muito tempo já tinha deixado a própria alma em algum lugar distante. Sem a alma, a vida dele até que era boa — ele dormia, comia, trabalhava, dirigia um carro e ainda jogava tênis. Mas, às vezes, ele tinha a impressão de que tudo a sua volta ficara plano e sem graça, como se ele se movimentasse numa folha quadriculada e vazia de um caderno de matemática, coberta por quadradinhos iguais e onipresentes.

[…]

Desde então, eles viveram felizes para sempre, e João passou a prestar muita atenção para não fazer nada numa velocidade que sua alma não pudesse acompanhar. Ele ainda fez mais uma coisa: enterrou no quintal todos os seus relógios e suas malas de viagem.
Dos relógios nasceram belas flores coloridas, parecidas com campânulas, e das malas brotaram grandes abóboras com as quais João se alimentou durante todos os invernos tranquilos que se seguiram.

Olga Tokarczuk (Sulechów, Polônia, 29 de janeiro de 1962) e Joanna Concejo (Slupsk, Polônia, 22 de março de 1971). In “A alma perdida” (Título original: “Zgubiona dusza”). Tradução: Gabriel Borowski. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2020. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk é o nome mais conhecido da literatura polonesa contemporânea. Suas obras já ganharam as principais distinções de seu país e alguns dos mais importantes prêmios de tradução de língua inglesa (Booker Prize), além de edições na França, na Itália, na Espanha e na Alemanha. Nascida em 1962, e autora de roteiros e dezenas de livros, é uma voz dissonante da atual política repressiva dos países do Leste Europeu. Joanna Concejo nasceu em Slupsk, na Polônia, em 1971, e vive em Paris desde 1994. É ceramista e ilustradora. Seus livros destinados ao público infantil foram publicados em diversos países, como França, Espanha, Itália, Polônia e Coreia do Sul

O Corvo

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém, fiquei a murmurar, que bate à porta, devagar;
Sim, é só isso e nada mais.”

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
E nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
E a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.”

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
Assim de leve, em hora morta.” Escancarei então a porta:
Escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranquila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,
Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É na janela”, penso então. “Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.”

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
Adeja e pousa sobre o busto, uma escultura de Minerva,
Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
Empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular”, então lhe digo
“Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!”
Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”Poesia

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
E que se chame “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
Enquanto a mágoa me envenena: “Amigos? sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora.”
E disse o Corvo: “Nunca mais.”

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
Julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: o ritornelo
De “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
Grasnava sempre: “Nunca mais.”

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,
Já não repousa, ah! Nunca mais?

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
Ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,
Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta!? brado? Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
Mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta!” exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida! Ergo-me e grito, alma incendida.
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu voo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

Edgar Allan Poe (Boston, Estados Unidos, 19 de janeiro de 1809 – Baltimore, Estados Unidos, 7 de outubro de 1849). Tradução de Milton Amado. Sobre esse poema comenta Alfredo de Moraes Rêgo Carneiro, professor de filosofia graduado pela Universidade Católica de Brasília e pós-graduado em Filosofia e Existência pela mesma instituição: “O poema O Corvo, do poeta americano Edgar Allan Poe (1809-1849), é considerado um dos poemas mais famosos da história. Sua ambientação melancólica, associada ao perfeito equilíbrio entre rima, sonoridade e dramaticidade causam forte impressão no leitor. De certa forma, ao ler O Corvo temos a impressão de que estamos lendo um conto de terror angustiante. Entretanto, trata-se de um belíssimo poema escrito de forma impecável em todos os aspectos literários. Por isso O Corvo é uma obra-prima inigualável”

Mais um dos poemas de Portinari no Projeto Centenários (Metrô Higienópolis/ Mackenzie)

“Mestiço”, pintado em 1934 por Candido Portinari / “O negro foi tema constante em toda a obra do meu pai. Assis Chateaubriand chegou a escrever um texto dizendo que Portinari era o maior pintor de negros das Américas”.
João Candido Portinari, diretor do Projeto Portinari

Não me quiseram, enjeitaram
Minhas palavras…
Serei um dos meus espantalhos?
Afugento os caminhantes?
Não, eles se afugentam. Não
Entendem a lua
Não sabem da poesia
Só não estou, mesmo não estando
Comigo. Converso com o vento e a
Tempestade.
De noite ou dia – verei as sombras
E dormirei em paz. Tenho uma
Camisa. Meu leito é embaixo das
Árvores. Tranquilo ouço o rumorejar
Das folhas secas…

Candido Portinari (Brodowski, São Paulo, 29 de dezembro de 1903 – Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 1962) foi um artista plástico brasileiro, considerado um dos mais importantes pintores de nosso pais de todos os tempos, sendo o que mais alcançou projeção internacional. A exposição imersiva ‘Parada Portinari’, que integra o Projeto Centenários, conta com a exibição do Carrossel Raisonné com projeção de mais de 5 mil obras de Portinari, além de 44 réplicas das obras do pintor distribuídas pela estação Higienópolis/ Mackenzie, Linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo. A exposição foi viabilizada pelo Grupo CCR em parceria com o Projeto Portinari e busca proporcionar ao público uma forma de democratização do acesso à cultura