Estou virando minha mãe / I am becoming my mother

Estou virando minha mãe

Mulher marrom/amarela
dedos cheirando a alho

Minha mãe cultiva flores raras
e as rega com chá
as águas em que nasceu cantavam como rios
minha mãe agora sou eu

Minha mãe teve um vestido de linho
da cor do céu
e guardava toalhas adamascadas
de renda
para afastar, de seus olhos, a vergonha.

Estou virando minha mãe
mulher marrom/amarela
dedos cheirando a alho.

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I am becoming my mother

Yellow/brown woman
fingers smelling always of onions

My mother raises rare blooms
and waters them with tea
her birth waters sang like rivers
my mother is now me

My mother had a linen dress
the color of the sky
and stored lace and damask
tablecloths
to pull shame out of her eye.

I am becoming my mother
brown/yellow woman
fingers smelling always of onions.

Lorna Goodison (Kingston, Jamaica, 1 de agosto de 1947) é uma poetisa, ensaísta e memorialista jamaicana, escritora caribenha, cuja carreira abrange quatro décadas. Atualmente, é professora emérita de Língua e Literatura Inglesa/ Estudos Afro-americanos e Africanos na Universidade de Michigan, tendo anteriormente ocupado a Cátedra Lemuel A.Natural de Kingston, foi “Poet Laureate” (poetisa oficial) da Jamaica. Mistura influências africanas, europeias e caribenhas em uma obra lírica premiada internacionalmente. Tradução de André Caramuru Aubert

Fruto estranho

Eis a cabeça da moça, uma exumada cabaça.
Rosto oval, pele passa, pedras passas como dentes.
Desenfaixaram a úmida avenca do cabelo
E colocaram em exposição um caracol,
Deixaram o ar entrar na beleza coriácea.
Cabeça de sebo, perecível preciosidade:
O nariz partido é negro como torrão de turfa,
As órbitas vazias poços de antigos fermentos.
Diodorus Siculus confessou
Um gradual conforto entre pessoas semelhantes:
Assassinada, desprezada, anônima, terrível
Decapitada moça, a olhar de frente machado
E beatificação, a olhar de frente
O que começara a dar impressão de reverência.

Seamus Heaney (Castledawson, Condado de Londonderry, Irlanda do Norte, 13 de abril de 1939 – Blackrock Clinic, Dublin, Irlanda, 30 de agosto de 2013) foi um poeta e escritor irlandês agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1995. Ele é considerado um dos principais poetas irlandeses de todos os tempos, junto a nomes como William Butler Yeats, Oscar Wilde, James joyce e Samuel Beckett. Tinha como características marcantes em seus versos a força de seu lirismo, a defesa de autonomia da Irlanda do Norte e a presença de motivos épicos e gregos em suas obras. In “Poemas”, Companhia das Letras, 1998

11/09: 25 anos desses atentados

Grande batalha ou cabeça de formiga

O dia 11 de setembro de 2001 marcou a história mundial com uma série de ataques terroristas coordenados pela Al-Qaeda, uma organização militante pan-islamista e jihadista sunita fundada em 1988 por Osama bin Laden, contra os Estados Unidos. Nesse dia 19 terroristas sequestraram quatro aviões comerciais. Dois aviões atingiram as torres do World Trade Center, em Nova York, causando o colapso dos edifícios. Uma terceira aeronave chocou-se contra a fachada oeste do Pentágono, na Virgínia. O quarto avião caiu em um campo na Pensilvânia após reação dos passageiros. Quase 3 mil pessoas morreram nos ataques. Em função disso, os Estados Unidos iniciaram campanhas militares no Afeganistão e no Iraque, as regras de controle aeroportuário e imigração mudaram drasticamente em todo o mundo e o equilíbrio de poder global e a vigilância estatal foram transformados de forma permanente.

Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena
se mostra toda a cor neste teu rosto,
enquanto o teu olhar ardente, honesto,
acende o coração e o serena;

e enquanto o teu cabelo, que das franjas
do ouro se escolheu, com voo presto,
sobre o formoso colo branco, ereto,
o vento move, espalha e desarranja:

colhe de tua alegre primavera
o doce fruto, antes que o tempo airado
recubra de neve o formoso cume;

murchará a rosa o vento gelado.
Mudará tudo o tempo que não espera,
tão só por não mudares teu costume.

Tradução de Nelson Santander

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En tanto que de rosa y azucena
se muestra la color en vuestro gesto,
y que vuestro mirar ardiente, honesto,
enciende al corazón y lo refrena;

y en tanto que el cabello, que en la vena
del oro se escogió, con vuelo presto,
por el hermoso cuello blanco, enhiesto,
el viento mueve, esparce y desordena:

coged de vuestra alegre primavera
el dulce fruto, antes que el tiempo airado
cubra de nieve la hermosa cumbre;

marchitará la rosa el viento helado.
Todo lo mudará la edad ligera
por no hacer mudanza en su costumbre.

Garcilaso de la Vega (Toledo, Espanha, c. 1503 – Nice, França, 14 de outubro de 1536), introduziu o Renascimento italiano na poesia espanhola. Suas principais obras são éclogas e poemas de amor. Seus poemas incluem três pastorais, 37 sonetos, cinco canções, duas elegias e uma epístola em versos brancos

O Rio Paranapanema

Nasci não muito longe das barrancas do Paranapanema.
Esse rio que passa na minha aldeia, não é o Tejo e nem o Nilo,
mas também é cheio de contos, causos e cantos.
Místico que sou, sempre acreditei que os rios têm alma.
Choram, guardam segredos, sangram e sorriam.
Também pensava assim Tales de Mileto, filósofo grego,
segundo o qual a água é o elemento primeiro do universo.
Meu rio, que hoje recebe o status de “rio mais limpo do Estado de São Paulo”,
vira e mexe é alvo de interesses escusos. Estes, aliás,
sempre travestidos de um pseudo-progresso-autossustentável
como canta a canção de uma viola engajada:

“Meia dúzia de carrascos movidos pela ambição
Tentaram matar o rio com indústrias na região
O povo da redondeza fez das tripas coração
A empresa criminosa bateu com a cara no chão”

Sempre que sei de novas investidas contra o “Panema” tenho vontade de armar uma esquadra de barcos cheios de carrancas, iguais aquelas do Rio São Francisco, para espantar esses maus espíritos que se entocaiam na região.
Mas aí, há amigos que me convencem que a poesia e o canto dos violeiros locais, são a melhor cruzada para mobilizar o povo e proteger o rio. De fato, a voz e a viola de Tião Carrero e Pardinho [famosos na música sertaneja] sempre se ouve em suas águas abençoadas [e limpas na divisa entre São Paulo e Paraná]:

“O rio Paranapanema é obra do Criador
É espelho das estrelas o mundo do pescador
No livro da natureza vai entrar mais um poema
Vamos cantar a beleza do rio Paranapanema…
De nascentes cristalinas suas águas são formadas,
Matando a sede do gado e banhando as invernadas.
O rio Paranapanema deságua no Paraná
Mas toda a sua beleza deságua no meu cantar”

(Para meu pai que me levava para pescar no “Panema”)

Carlos Alberto Rodrigues Alves, de iniciais C. A. R. A. (Itatinga, São Paulo – 17 de fevereiro de 1957) é teólogo, pedagogo, Pastor evangélico e professor

Ou como nomeou alguns de seus quadros o mestre e pintor Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000): “Este rio é minha rua”… (Pois nasci bem próximo das margens desse rio, na Vila Odilon, na Rua Padre Rui Cândido da Silva, que atravessa todo o bairro e termina nele e, que antes de receber o nome desse religioso, essa rua chamava-se Paranapanema)