Tarde de ouro brilhando
Nas vidraças, sol de puro êxtase,
À peregrina luz dourada, no mirante
Que se projeta ao ar, como uma ave
Pousada nos telhados, sobre a praça.
No peitoral em brasa, nos esconsos
Portais onde habita o silêncio,
Devoro cada momento, cadela de
Murchas tetas, cega da luz, excessiva,
Babando um uivo longo sobre o mar
Que se precipita na distância e,
Mais além, no horizonte incendiado,
Regurgitam velhas lendas, restos de naufrágio,
Batelões espanhóis, caravelas de proas alongadas,
Surgindo das águas tintas, do encantado perau
Onde habita o improvável.
A cidade mergulha na sombra alaranjada
Que, aos poucos, sobe do golfo imenso
E, suavemente, se espalha
No recorte do Recôncavo, povoado de ilhas.
Conjuração de pombos e de sinos,
A tarde apodrece como um fruto
A repartir-se em gomos nas esquinas.
O que farei agora quando exausto
O coração se inclina para o abismo
E lenta, lentamente, instala-se o conflito?
O tempo colou em minha boca
Sua boca de granito.
Neste mirante, debruçado
Sobre o verde infinito do mar
E torres centenárias,
O passado renasce nas ladeiras
De velhas pedras polidas,
Soturnas transversais
Onde habitam avantesmas
E à noite vêm cantar,
Com goelas roucas, raparigas
De longos véus diafanos e turbantes.
Esculpido pelo vento, o pelouro ressurge,
À luz que vem do ocaso, com argolas
De ferro e marcas no tronco rijo.
Ao estalar do chicote um cheiro ácido
De sangue, de água suja, de cusparada
E mijo, se espalha ao som crescente
De rezas, bruxarias, esconjuros, gemidos.
Na encruzilhada, luz e trevas,
O falo ereto, hierático, ardente
Como um cirio, Elegbá
Se apodera das mulheres,
Perdulário de amor e maleficios.
No adro das igrejas recomeça a litania.
Myriam Fraga (Salvador, Bahia, 9 de novembro de 1937 – 15 de fevereiro de 2016). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999