À televisão
Teu boletim meteorológico
me diz aqui e agora
se chove ou se faz sol.
Para que ir lá fora?
A comida suculenta
que pões à minha frente
como-a toda com os olhos.
Aposentei os dentes.
Nos dramalhões que encenas
há tamanho poder
de vida que eu próprio
nem me canso em viver.
Guerra, sexo, esporte
– me dás tudo, tudo.
Vou pregar minha porta:
já não preciso do mundo.
José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998). Curadoria de Luís Araujo Pereira. In “Prosas seguidas de odes mínimas”, 1992
No meu 62’s, eu e a Poke
Fotos de João Alexandre da Silva Matosinho
Cadillacs
Boris e Marina (Trechos)
telepatia
— e quando uma pele nova brotar
ao redor do focinho e um tufo de pelos
anunciar a troca de estação
você poderá me escrever longos poemas, Marina
vou carregá-los numa sacola na altura
do ombro esquerdo
com a mesma obstinação com que Kliébnikov
carregava seus cálculos matemáticos
nas trincheiras
seus poemas vão perfurar meu anoraque
e pelas ruas vão dizer
lá vai o doido do Pasternak
§
Dois poemas de Marina T.
as sílabas e os nomes
Marina recorda
As sílabas — belas maçãs vermelhas —
mordo feito criança feroz.
E viva a marca dos dentes na pele.
O sabor mora na língua, mora
nos lábios, mora na maçã mordida
que esplende na minha mão.
Quando criança me chamavam Mússia.
Porém tão logo saíam da boca
as sílabas despencavam no chão.
Eu não chorava. Já eram minhas
a boneca de porcelana e a estátua
de Púchkin na avenida Tverskáia.
Por que precisaria de um nome?
Ele vivia trancado no quarto —
pelicano empalhado.
Bastou um verão, Boris
para Marina ganhar asas.
//
três cartas quase secas
1
Em poucas palavras:
não imagino a vida a seu lado.
Não suporto a repetição infinita
do pano de chão, da peça
de roupa, da louça na pia
e a tortura contínua das refeições.
Não nasci para o cotidiano.
Nasci para o transe.
Minha casa é uma estação de trem.
É o que digo aos amigos:
não contem demais com o meu amor.
Por isso, Boris, te concedo mais tempo:
para que você decida como prefere morrer.
Última coisa: não quero que te enterrem.
Quero que te queimem.
2
Peço desculpas, Boris
pela secura da última carta
mas tenho meu código de honra.
Não posso dourar palavras
como se douram cebolas.
As duas fazem chorar
mas terminam aí as coincidências.
Na cozinha, minha única destreza
é descascar, pelar, cortar, picar.
Ponho os legumes na panela
e esqueço de apagar o fogo.
No fundo, só posso dar de comer
à minha própria fome e
ela não se sacia com comida.
3
De agora em diante
vou te escrever menos e fumar
um pouco mais. Não sei por quê
mas o papel é uma égua —
fica bêbada com a tinta da caneta
e sorve sem trégua essa mistura
de sangue e noz de galha.
Dá para ouvir os ecos
no longo pescoço equino
de cílios verde-prata e crina
que me faz chorar.
Pescoço, cílios, crina.
São esses os meus companheiros.
Por isso não estranhe, Boris
se um dia você der comigo
debaixo da sua janela
montada numa égua albino.
Ela vara a madrugada, mergulha
o focinho na água dos charcos
e fecha o meu corpo
com um discreto xale de neblina.
Sobre o livro
“Foi Boris Schnaiderman quem me falou pela primeira vez da ‘correspondência amorosa’ entre Marina Tsvetáieva, Boris Pasternak e Rainer Maria Rilke. Mencionou o livro quando já estava de saída, na porta da editora onde trabalho em São Paulo. Na hora fui reticente quanto ao adjetivo “amoroso”, seria isso mesmo? Mas quando o livro me caiu nas mãos, fiquei assombrado. As cartas, que atingem o ápice no verão de 1926, passam rapidamente de conversas em torno da poesia para declarações de amor apaixonadas. Boris está em Moscou, Rilke na Suíça e Marina no exílio, numa cidadezinha na costa da França. Penso que, além da poesia, a impossibilidade de se encontrarem também turbinou a intensidade das paixões. O fato é que foi uma leitura inesperada para mim. Foi como entrar num rio de altíssima voltagem e logo me vi escrevendo através dessas vozes. Quero dizer: não tenho nenhuma pretensão de reproduzir as vozes verdadeiras (ou o que seja isso) de Tsvetáieva, Rilke ou Pasternak. São todas figuras inventadas – e uma nota de abertura deixa isso bem claro –, mas a intensidade do que eles dizem e vivem na sua correspondência abriu uma porta, um canal, para mim. Boris e Marina foi escrito a partir daí.”
Alberto Martins
Alberto Martins (Santos, São Paulo, 1958). É autor dos livros de poemas “Cais” (2002), “Em trânsito” (2010) e “Boris e Marina” (2025) e das ficções “A história dos ossos” (2005), “Lívia e o cemitério africano” (2013) e “Violeta” (2023). No recém-lançado “Boris e Marina”, ele cria poemas a partir de cartas reais trocadas no verão de 1926 por três grandes poetas do século 20: Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke, cada um em um país (Pasternak na Rússia, Tsvetáieva na França e Rilke na Suíça). Este livro ficou em 1º lugar na 68ª edição do Prêmio Jabuti 2026 na categoria “Poesia”. In “Boris e Marina”, São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Os vencedores do Prêmio Jabuti deste ano, o mais prestigioso prêmio literário do país, foram anunciados nesta terça-feira, 27 de outubro, durante cerimônia realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) na Sala São Paulo, na capital paulista. “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, de Ruy Castro e editado pela Companhia das Letras, foi o grande destaque da noite, conquistou o prêmio de “Livro do Ano” pelo segundo ano consecutivo e também venceu na categoria “Biografia e Reportagem”
Hebert Teodoro Silva: À cores!
Conhecido por Beto ou Mineiro, Hebert é um talentoso e sensível fotógrafo paulistano, residindo atualmente em Maceió, AL, e diz: “Viciado no clique mágico de uma foto! Nascido mineiro de BH, Brasil.” Em 16 de outubro iniciou uma mostra de suas fotografias na exposição “Saberes tradicionais alagoanos” que vai até 27 de novembro no Misa, Jaraguá. Veja:
Museu da Imagem e do Som de Alagoas
📍Sá e Albuquerque, 275 – Jaraguá, Maceió/AL – CEP 57022-180
🕐Seg à Sex, das 8h às 16h
📨 misa@cultura.al.gov.br ou misa.cultura.al@gmail.com
📞 (82) 3315-7882
Fotos: “Fazenda” (Citando “Água de beber / Bica no quintal / Sede de viver tudo / E o esquecer / Era tão normal que o tempo parava” de @miltonbitucanascimento), “Eita que bateu saudades de Sampa… Da Av. Paulista então…” e “A tristeza é senhora…”
Hebert Teodoro Silva é fotógrafo documental, baseado em Maceió/ AL, com foco em cenas do cotidiano urbano e rural, relações do trabalho, cultura popular e suas múltiplas manifestações, alternando cor e P&B, conforme a narrativa.
Com um olhar próximo e respeitoso, valoriza a dignidade presente no cotidiano e procura mostrar como pequenos gestos fazem a diferença.
Colaborou na organização de projetos expositivos e segue desenvolvendo séries autorais de longa duração.
Seleção de participação em mostras/ projeções recentes:
* 2025 — Festival Democracia em Foco (SP) — 2 fotos selecionadas para projeções na abertura e no encerramento
* 2025 — Exposição coletiva “Olhares pelo Quilombo” — Quilombo Mameluco, Taquarana/ AL
* 2025 — Exposição coletiva “Imagens para adiar o fim do mundo”, na FotoAtiva e no Museu da UFPA, COP 30, Belém/ PA
* 2025 — Exposição coletiva “Olha a Feira”(colaboração na organização) — MISA/ Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Coletivo Grupo Perambular)
* 2025 — Exposição coletiva “Pela defesa da permanência dos currais da Ponta Verde”, Maceió/ AL
* 2025 — Convocatória “Mar”_Fest Foto SP — Foto na Projeção de abertura_Trieste_Itália
* 2026 — Exposição coletiva “Fragmento” — MISA/Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Coletivo Fragma)
* 2026 — Exposição “1º Festival de fotografia do Instituto da visão-Maceió” — Foto escolhida em 2º lugar entre as 20 fotos finalistas selecionadas
* 2026 — Exposição coletiva “Saberes tradicionais alagoanos” (colaboração na organização) — MISA/ Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Coletivo Grupo Perambular)
Contatos:
www.instagram.com/hebertteodorosilva
WhatsApp: (11) 9 9166-6451
Folha espinhuda
Folha seca
Eu antes fugia
de quem queria,
engolia o inverno
seco
frio
Me lavava
sem água
sem escorrer
E me secava,
comia primavera
e mastigava
o que era de mim
descaminhava
a estação
e ava,
ava,
ava
Mas você verá
vocês vão ver
eu Verão.
Juliana Cajives (Goiânia, Goiás, criada em Palmas, Tocantins, 1992). Ontem ela foi a vencedora da 68ª edição do Prêmio Jabuti 2026 na categoria “Escritor Estreante – Poesia” com seu livro “História a que ninguém deu nome”, Editora Mormaço Editorial. A poesia de Juliana Cajives caracteriza-se por versos livres, narrativas descritivas e uma linguagem voltada ao tangível, ao concreto e ao agridoce. Sua obra explora reflexões profundas, franqueza e a observação do cotidiano. Os vencedores da 68ª edição do Prêmio Jabuti, o mais prestigioso prêmio literário do país, foram anunciados nesta terça-feira, 27 de outubro, durante cerimônia realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) na Sala São Paulo, na capital paulista. “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, de Ruy Castro e editado pela Companhia das Letras, foi o grande destaque da noite, conquistou o prêmio de “Livro do Ano” pelo segundo ano consecutivo e também venceu na categoria “Biografia e Reportagem”