Destaque

Amar-amaro

Como disse um dia: “O amor é o quero porque quero da vida

porque amou por que amou
se sabia
p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?

ah poeque amou
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Lição de coisas”

Destaque

A Bomba

Disse bem dito o poeta: “multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação”

A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores

A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido

A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles

A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna

A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem

A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio

A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece

A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está

A bomba
mente e sorri sem dente

A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados

A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada

A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar

A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação

A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés

A bomba
faz week-end na Semana Santa

A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia

A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários

A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia

A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa

A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer

A bomba
continua a envenená-las no curso da vida

A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais

A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba

A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai

A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera

A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria

A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.

A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave

A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos

A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar

A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe

A bomba
saboreia a morte com marshmallow

A bomba
arrota impostura e prosopéia política

A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living

A bomba
é podre

A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado

A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo

A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade

A bomba
tem um clube fechadíssimo

A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel

A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris

A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz

A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas

A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas

A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer

A bomba
é câncer

A bomba
vai à Lua, assovia e volta

A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia

A bomba
está abusando da glória de ser bomba

A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável

A bomba
fede

A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina

A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve

A bomba
não destruirá a vida

O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Lição de coisas”. Livraria José Olympio Editora, 2ª edição, 1965

Destaque

A blusa amarela

Um velho livro de Maiakovski que me marcou (E essas linhas azuis do tinteiro)…

Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevsky mundial com passo pachola
Todo dia irei flanar qual D. João frajola.

Deixai a Terra gritar amolengada de sono:
“Vais violar as primaveras verdejantes!”
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”

Talvez porque o céu está tão celestial
E a Terra engalanada(5) tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela!

(1913)

Vladimir Maiakovski (Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930). In “Vladimir Maiakovski – Antologia poética”, tradução de E. Carrera Guerra

Destaque

E bem, e o resto?

(…)

            E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”.

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908). In “Dom Casmurro”

Versa Kishi 2

quando caiu
olhou a sua volta
Não havia outros, então
continuou a andar
como se nada tivesse acontecido.

***

meus sapatos não estão aqui
          Será que eu sai?

***

se brilha teu corpo
num pouco de luz
já não sinto tão escura
a dor que se mistura.

N. T. Kishi. In “Amo teu oxigênio”

“Daqui pra frente”: Nova temporada, imperdível!

Estreia dia 11 de abril!!!

A Bibli-ASPA tem a honra de trazer a nova temporada de “Daqui pra frente”, espetáculo com texto e direção de @danielliguerreiro que retrata, de forma leve e bem humorada, as curiosidades culturais que o elenco, formado por atrizes da Nigéria, Afeganistão, Irã, Venezuela e Congo, tiveram desde sua chegada ao Brasil.

A temporada vai até 3 de maio, sempre aos sábados às 20h e aos domingos às 18h.

A entrada é gratuita! Ingressos liberados 1h antes de cada sessão.

Garanta a sua entrada e venha se divertir – e se emocionar – com essa peça mais que especial!

Vem pro teatro! Vem pra Bibli-Aspa!

Centro Cultural Bibli-Aspa
Rua Baronesa de Itu, 639 – Santa Cecília, São Paulo – SP (Próximo ao Metrô Marechal)
Telefone: (11) 3667-6077

#nts #sp #cultura #teatro #arte #estreia #bibliaspa

“Com um elenco tão lindo assim, quem vai ter coragem de perder essa oportunidade?? 😍😍🎭🎭”

Danielli Guerreiro – Atriz. Coordenadora cultural e professora de teatro na @bibli_aspa 🎭
Figurinista 🤍
Mãe da Julia ❤️
Felinista 😻

No Instagram de Oscar D’Ambrosio

Oscar D’Ambrosio (@oscardambrosioinsta) mostrando minhas contribuições (Quando sugere estar enviando uma frase, uma imagem, com a fichinha técnica e com o nome do pensador citado, para conversar com a frase original dele…):

Escritor, curador, crítico de arte, pós-doc em educação, arte e história da cultura, e jornalista (www.oscardambrosio.com.br)

Imagem 1

Mundo verde em papelão (Estudo), s/d
Eduardo Matosinho
Acrílica sobre papelão de caixa de supermercado
18 x 25 cm

“O mundo é mágico.
As pessoas não morrem, ficam encantadas.”
Frase dita por Guimarães Rosa no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 16 de novembro de 1967
In: João Guimarães Rosa: Frases de seus escritos e discurso

Gestos podem criar uma percepção de dança, seja qual for a técnica, o material e o suporte utilizados. A magia da criação visual não está na escolha de um assunto, mas na maneira como ele é representado pela percepção que cada um tem do espaço, valendo-se de cores e formas para atingir as mais diversas composições e os mais significativos resultados.
Oscar D’Ambrosio

https://www.instagram.com/p/DV8aMvPgNES/

Imagem 2

Pássaro da lâmpada ou Passarão, 1998
Eduardo Matosinho
Aquarela e colagem tirada de revista sobre papel
18 x 25 cm

“Para encontrar o azul eu uso pássaros
As letras fizeram-se para frases.”
Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) In: Biografia do orvalho

“Na língua dos pássaros uma expressão tinge
a seguinte.
Se é vermelha tinge a outra de vermelho.
Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.
É língua muito transitiva a dos pássaros.
Não carece de conjunções nem de abotoaduras.
Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições
A linguagem dos pássaros
Só produz gorjeios.”
Manoel de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 19 de dezembro de 1916 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 13 de novembro de 2014). In “Retrato do artista quando coisa”, Rio de Janeiro: Record, 1998

Uma imagem é um canto. Pode mais aparente para alguns; e menos para outros. Cada um percebe e interpreta dentro de sua vontade e capacidade. O essencial, porém, talvez esteja em mergulhar na ideia de que as sugestões que as formas fazem são o ponto de partida dos olhares, não o seu resultado final.
Oscar D’Ambrosio

https://www.instagram.com/p/DVWBwyXgAe_/

Imagem 3

Abstrato colorido, s/d
Eduardo Matosinho
Tinta nanquim colorida Rotring
27 x 37 cm

“Toda grande arte é abstrata.”
Jean Renoir in “Federico Fellini: Nota sobre o seu filme “Amarcord”” (https://ematosinho.com.br/?p=5968)

Obra de arte

O cineasta Jean Renoir dizia que
Toda grande arte é abstrata
No entanto a vida…
O que é que é?
Será que é abstrata
Será que imita a arte
Ou é concreta
Será que é imaginária
Será que é sonho
Ou real, ou nobre
Será que a vida é grande,
(Ou é feita de detalhes
De recortes, de dobras)
É toda, é completa
A arte pode ser grande
Quando vivida
A obra de arte pode ser de Picasso,
Matisse, Duchamp, Miró
A vida pode ser a de José,
De Pedro, Raimundo

Um pensador escreveu um dia
Um pedaço da arte ao dizer que
Os pensamentos nascentes florescem
nas estradas dos jardins cerebrais
Esse poema nasceu assim
No entanto ainda não floresceu
Poemei e pensei, mas não decifrei:
Toda grande vida é…

Eduardo Matosinho

Uma imagem é uma interpretação do mundo, seja ela figurativa ou abstrata. Existe em cada uma delas algo que está além de uma imitação, ou seja, de uma cópia; ou de uma representação alterada daquilo que se conhece. A criação mais potente é a que transforma internamente quem a faz e quem a vê.
Oscar D’Ambrosio

https://www.instagram.com/p/DU1Vy0mEhmf/

Explicação do poema

O poema é uma teia
de sombra e sol.
Uivo de alcateia

para a lua cheia.
O poema é o fluxo
e o cio da sereia.

O poema é o que pulsa
no vértice de fogo
dos olhos da Ursa.

Não é o cachimbo
de ópio. É o vão dos
pássaros do limbo.

A dança da chama
que devora o peito
de quem ama.

O lugar da ágora
onde os deuses amam
musas e medusas.

O poema é um meio
de beber ao seio
das guitarras lusas.

Francisco Carvalho (Russas, Ceará, 11 de junho de 1927 — Fortaleza, Ceará, 4 de março de 2013). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Gejo, O Maldito no CCSP

Monográfica Gejo, O Maldito – “Enxame”

Nesta edição do programa “Monográfica”, da Curadoria de Artes Visuais, o destaque recai sobre a obra de Gejo, artista cuja formação se dá na experiência direta da rua, herdeiro e agente da tradição da arte urbana no Brasil.

Sua produção é marcada pela cultura Hip Hop e pela cultura do estêncil no graffiti brasileiro. A exposição organiza-se em cinco segmentos principais — “Pixador”, “Peaples”, “Animais Marginais”, “Motivos Votivos” e “Motivos de Encanto” — que evidenciam recorrências e desdobramentos de sua pesquisa.

“Quer ver um pouco do Suco do final dos anos 80 e começo dos anos 90?
Venha e traga a família! Vai ser lindo conhecer a nova geração 2020’s.
Enxame. Dia 27.03.2026, às 18 h.
Vai acompanhando a saga nas redes.”

Gejo, O Maldito

Serviço:

27/3 a 21/6
Monográfica Gejo, O Maldito – “Enxame”
Abertura: 27/3 (sexta-feira) às 18h
Terça a domingo, 10h às 20h
Piso Flávio de Carvalho
Classificação indicativa: Livre
Grátis, sem necessidade de retirada de ingressos

Centro Cultural São Paulo | Rua Vergueiro, 1000 – CEP: 01504-000 – Paraíso, São Paulo – SP

Gejo, O Maldito – Artista, empresário, mediador de conflitos, empreendedor em economia solidária e hip hoper.

Nasceu em Seabra, na Bahia, em 1976, mas aos três anos mudou-se para São Paulo. Ingressou no graffite, hip hop e stencil no meio dos anos 90 e popularizou o graffiti e o hip hop nas escolas públicas. Massificou o termo arte/ educação, participou das ONG’s mais relevantes de São Paulo; expôs em escolas, bibliotecas, museus, galerias e exposições nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Canadá, Bélgica, Cingapura e Itália.

É criador da marca de “Hip Hop 9370”, editor da revista Arte na Ruas e criador do evento “Free Art Fest”. Atualmente é proprietário do ponto cultural Elo Perdido e da Free Art Agency, que é uma empresa de artistas brasileiros que realiza oficinas, palestras, presta assessoria para assuntos de Street Art, produz ações artístico-culturais para galerias, espaços culturais, ONGs, Estados e empresas. Suas obras refletem as relações humanas nas áreas das questões ambientais, sociais, educacionais, políticas com tons de humor e muitas vezes de críticas com denúncias sociais.

Foi o idealizador do projeto do Centro Cultural Sítio do Tatu Amarelo, em Seabra (BA), que terá cursos de alfabetização de adultos, informática, biblioteca, cinemateca, oficinas de arte, além do amparo aos animais machucados e um jardim com diversos exemplares de plantas.

Contatos:
www.facebook.com/gejone
www.instagram.com/gejothecreator
9370hq@gmail.com
WhatsApp: (11) 9 9388-4069

A encenação do poema

1

Botei um vestido de álacres
no poema
com adjetivos vermelhos
para ficar venenoso
(mas o poema estava nervoso).
uma piteira dourada
de nébulas enigmáticas:
esqueci que minhas tranças
quando balançam fazem ruído
e minha suposta cara é redonda,
açucarada,
com um laço de chuvas.
Se eu pingo,
o mau jeito é um resfriado
e esse poema
não serve para fotografia:
tartamudeia tanto
que a pose não fixa.

2

Fechou o cenário:
essa alma não me obedece:
chove
(o poema está mal-assombrado).
O verso escorre
no meu portrait a Lautrec,
a obra-prima negra da ventura
moderna.
Botei um coador de forma
e as sobras das lantejoulas
me espiam
pintalgadas e chuvosas:
entre amarrotado e verdadeiro
o poema rosnou, deu de ombros, fugiu.

Elisabeth Veiga (Rio de Janeiro, 30 de julho de 1941 – Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2018). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999