Tempo
Às vezes vem a Sra. poesia
E me desperta sorrateira
Provocando frenesia
Relembrando o que sentia,
Na mente, na pele o desejo de voltar
Há um tempo de inocência,
Onde não se conta o tempo
Hoje ele corre
Junto com a poesia que foge
15.10.2026
Fernanda Eva é uma artista plástica luso-brasileira, formada em comunicação social e marketing e mestra em poéticas visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)
Querida amiga
Amilcar
A superfície está em
branco.
Eu também.
Se com um gesto eu a toco,
sou tocado.
Aí é quando tem início o
gesto
e eu sou a única testemunha
que jamais poderá mentir.
Amilcar de Castro (Paraisópolis, Minas Gerais,1920 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 2002) foi escultor, gravador, desenhista, diagramador, cenógrafo, professor. A poesia como dobra do pensamento: o gesto que vira palavra. Além de atuae como artista plástico ele também escrevia poemas. Suas palavras, assim como suas formas, nascem do essencial, do corte, do espaço e do silêncio. Em seus poemas Amilcar revela esse mesmo impulso de síntese e clareza que move toda a sua obra: Cada verso é uma escultura invisível: o espaço da página se torna matéria, e o gesto, linguagem. A poesia, em Amilcar, é mais uma forma de construir o mundo com precisão e silêncio
Fer
Onze hai-kais de Millôr Fernandes
O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen (…)
Millôr Fernandes
Morta, no chão,
A sombra
É uma comparação.
*
Se o cão é uivante
A Lua vira
Quarto minguante.
*
Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.
*
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.
*
Pensa o outro lado:
só quem tem fama
É difamado.
*
Maravilha sem par
a televisão
Só falta não falar.
*
Tem cautela;
Ajuda o sol
Com uma vela.
*
A alegria
É toda feita
De melancolia.
*
Vida rural, senhor,
É ver vacas
Na tevê em cor.
*
Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.
*
O mundo agoniza.
Querem retificar
A Torre de Piza!
Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012). In “Hai-kais”. Porto Alegre: L&PM, 1997. (Coleção L&PM/ Pocket)
Ao índio que é bem brasileiro 5
I-Juca-Pirama (Parte final)
O título desta poesia, traduzido literalmente da língua tupi, vale tanto como se em português disséssemos “o que há de ser morto, o que é digno de ser morto”.
Gonçalves Dias
X
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!”
“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.
“Eu disse comigo: que infâmia d’ escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”
Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”
Gonçalves Dias (Caxias, Maranhão, 10 de agosto de 1823 – Guimarães, Maranhão, 3 de novembro de 1864). In “I-Juca-Pirama e Os Timbiras”, Porto Alegre : L&PM, 1997. (Coleção L&PM Pocket)
Proibido pescar e caçar
Trabalho com o visto do Profº. Francisco Claudio Granja (1957 – 2020), que me deu aula de “Educação Artística” no EEPG Dalton Morato Villas Bôas, da 5ª. à 7ª. série (1976-1978), Vila Odilon, Ourinhos-SP.
Meu livro de cordel / A procura
Pelo amor que tenho a todas as estórias e poesias de Cordel, que este livro assim o seja, assim o quero numa ligação profunda e obstinada com todos os anônimos menestréis nordestinos, povo da minha casta, meus irmãos do nordeste rude, de onde um dia veio meu Pai para que eu nascesse e tivesse vida.
A procura
Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino –
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.
Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985). In “Meu livro de cordel”, São Paulo: Global, 2002