“(…)
Tenho trabalhado atualmente mais com economia do que com arte, mas mesmo assim não deixei totalmente de pintar. Religiosamente pinto uma vez por semana em um espaço que consegui no lugar onde faço análise. Seria uma pintura bem mais terapêutica do que artística, mas está valendo a pena pela experiência. Tenho aprendido muito sobre mim e meu inconsciente.
(…)”
Ana Maria
Fala de Tito
Sei que só eu, por fim, me posso destruir;
mas pude já viver, deixar-me seduzir.
Meu coração nem qu´ria indagar no futuro
aquilo que pudesse, entre nós, ser um muro.
Agradava-me crer que nada era invencível:
sem nada examinar, eu esperava o impossível.
Ou esperava, talvez, perante vós morrer,
sem este adeus cruel haver de vos fazer.
De obstáculos até me incendiava outrora.
Que importavam razões? Mas a glória, Senhora,
inda eu a não ouvira, em meu foro interior,
no tom em que ela fala a um Imperador.
Conheço bem de mais tormentos que irei ter;
sinto bem que sem vós nem saberei viver.
Meu coração de mim começa a se afastar:
nem de viver se trata: apenas de reinar.
Bérénice, acto IV, cena V
Jean Racine ((La Ferté-Milon, Aisne, França, 22 de dezembro de 1639 — Paris, França, 21 de abril de 1699)1639-1699) foi um matemático, historiador, poeta e um dos maiores dramaturgos que a França já vira nascer em seus domínios. In “Vozes da poesia europeia II”. Tradução de David Mourão-Ferreira, Colóquio letras nr. 164, Fundação Calouste Gulbenkian, Maio-agosto de 2003. Racine possuía um estilo próprio, que prestou grande contribuição à literatura francesa: suas obras eram escritas em versos alexandrinos, de uma harmonia, simplicidade e elegância notáveis. A presente obra, Oeuvres de Racine, vem, portanto, reunir toda a sua produção dramatúrgica, composta por 11 tragédias – La Thébaïde (1664), tragédia em cinco atos, que traz como tema a luta e morte do filho de Édipo, bem como a de sua filha, Antígona; Alexandre le Grand (1665), uma tragédia em cinco atos em que, baseado na obra de Quinto Cúrcio Rufo, historiador romano que viveu no período clássico, Racine apresenta a conturbada história de amor vivida por Alexandre e a princesa indiana Cleófila; Andromaque (1667), tragédia em cinco atos, em que Racine, baseando-se na Andrômaca de Eurípedes e no livro 3 da Eneida de Virgílio, retoma as consequências da Guerra de Troia, em que Heitor, marido de Andrômaca e filho de Príamo, foi morto por Aquiles e seu filho, Astiánax, escapou de um destino similar nas mãos de Ulisses; trata-se de uma de suas mais célebres produções; Britannicus (1669), tragédia em cinco atos que trata da história de Agripina, mãe do grande imperador romano Nero, arrependida de conferir poder ao filho quando este passa a ser influenciado por Narciso, um conselheiro de má índole; Bérénice (1670), tragédia em cinco atos, que reconta a história da relação do imperador romano Tito com Berenice, a filha de Agrippa I; Bajazet (1672), tragédia em cinco atos, baseado em fatos contemporâneos à sua época, Racine escolhe o Império Otomano e dele retira a história do sultão Murad IV, que teve seus irmãos e potenciais inimigos, Bajazet e Orcan, executados; Mithridate (1673), tragédia em cinco atos, que conta a história de Mitrídates VI, um inimigo do Império Romano que cometeu suicídio após ser traído pelo próprio filho; Iphigénie (1674), que se constitui da versão raciniana dos eventos que envolvem a oferta de Ifigênia em sacrifício aos deuses; Phèdre (1677), baseada na obra Hipólito, de Eurípedes, em que aborda o tema da paixão da mulher por seu marido e filhos; Esther (1689), tragédia em três atos, baseado no livro bíblico de Ester; e Athalie (1691), última tragédia raciniana e também retirada de livro bíblico, que conta a história de Atália após ficar viúva e passar a governar em nome do marido – e uma comédia – Les Plaideurs (uma adaptação da obra As Vespas, de Aristófanes, 1668), além dos seus Cantiques spirituels, quatro poemas de influência jansenista, que foram posteriormente musicados por Jean-Baptiste Moreau, dentre outros
Revelando traços de Flavinho, pintor…
Óleos expressionistas de um talentoso e sensível amigo dos tempos de FFLCH-USP e da pacata Liga dos Antárcticos, meu vizinho de um remoto Largo do Paissandu, quando morei nas imediações da Avenida São João, no bairro da Luz localizado no distrito do Bom Retiro, centro da cidade de São Paulo. Flavio Ribeiro de Oliveira, além de ser um conceituado professor doutor da Unicamp e coordenador de Centro de Estudos Clássicos do Instituto de Estudos da Linguagem dessa universidade de Campinas – SP, também pinta ou pintou essas preciosidades…
Cara de listas
A morsa e o carpinteiro
O sol brilhava sobre o mar,
brilhando com toda a sua força:
fazia o possível para deixar
as ondas lisas e brilhantes —
e isso era estranho, porque era
plena madrugada.
A lua brilhava emburrada,
porque achava que o sol
não tinha o que estar ali
depois do dia ter terminado
— “É muita falta de educação da parte dele”, disse ela,
“vir estragar a diversão!”
Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll (Daresbury, Cheshire, Inglaterra, 27 de janeiro de 1832 — Guildford, Condado de Surrey, Inglaterra, 14 de Janeiro de 1898) que além de ter criado o mundo de “Alice no País das Maravilhas”, Lewis Carroll também é famoso por seus poemas nonsense. In “Alice através do espelho – e o que ela encontrou lá”. Essa segunda aventura de Alice a leva através do espelho para um lugar ainda mais curioso que o País das Maravilhas. Ela se vê envolvida no grande jogo de xadrez do espelho e parte em busca de se tornar rainha. Não é tão fácil quanto ela imagina: a cada passo, ela é atrapalhada por personagens sem sentido que surgem e insistem em recitar poemas
Dupla de dois
Take the “A” Train
A emblemática música “Take the ‘A’ Train” foi composta em 1939 por Billy Strayhorn (e não por Duke Ellington, embora tenha se tornado o hino máximo da orquestra de Ellington). É interessante a história de como ela foi criada. Ocorreu em um encontro com Ellington. Em 1938, Billy Strayhorn — um jovem pianista e arranjador de Pittsburgh que trabalhava como balconista — conheceu Duke Ellington após um show da banda. Strayhorn impressionou Ellington tocando uma versão própria de “Sophisticated Lady” e foi convidado a trabalhar com ele. As instruções de metrô: Quando Ellington convidou Strayhorn para ir a Nova York, ele anotou em um papel as instruções de como chegar ao seu apartamento no bairro de Sugar Hill, no Harlem. O bilhete começava exatamente com as palavras: “Take the A Train” (referindo-se à recém-inaugurada linha de metrô ‘A’ de Nova York). A composição foi então inspirada por essas instruções literais de trajeto e tentando imitar o estilo de arranjos de metais de Fletcher Henderson, Strayhorn compuiu a música na cabeça durante uma festa e depois passou tudo para o papel. O sucesso e a marca registrada: Quando Strayhorn levou a peça para a Duke Ellington Orchestra, ela virou o tema principal do grupo e foi gravada em 1941, consagrando-se como um dos maiores clássicos da história do jazz.
Edward Kennedy “Duke” Ellington (Washington, Estados Unidos, 29 de abril de 1899 — Nova Iorque, Estados Unidos, 24 de maio de 1974) foi um compositor de jazz, pianista e líder de orquestra estadunidense eternizado com a alcunha de “The Duke” e distinguido com a Presidential Medal of Freedom em 1969 e com a Legião de Honra em 1973, sendo ambas as distinções as mais elevadas que um civil pode receber
William Thomas “Billy” Strayhorn (Dayton, Estados Unidos, 29 de novembro de 1915 — Nova Iorque, Estados Unidos, 31 de maio de 1967) foi um arranjador, compositor, pianista e músico profissional norte-americano
Temática infantil 2
Decifrando o escrito: “Diogo”
Viagem infinita
para quem com seu incêndio te ilumina,
cósmico caracol de azul sonoro,
branco que vibra um címbalo de ouro,
último trecho da lâmina fina.
a mão que te busca na penumbra
se detém na tépida encruzilhada
onde musgo e coral guardam a entrada
e um rio de pirilampos te alumbra,
sim, portulano, da esmeralda o fulgor,
sirte e fanal nua mesma bandeja
quando a boca navegante beija
a poça mais profunda do teu dorso,
suave canaibalismo que devora
sua presa que o dança no abismo ermo,
oh, labirinto exato de si mesmo
onde o pavor das delícias mora
água para a sede de quem te viaja
enquanto a luz que junto ao leito vela
desce às tuas coxas sua úmida gazela
e por fim a trêmula flor escacha.
Julio Cortázar (Ixelles, Bélgica, 26 de agosto de 1914 — Paris, França, 12 de fevereiro de 1984) filho de argentinos, viveu a infância entre a Europa e a Argentina, onde se formou em Letras e iniciou a docência antes de se dedicar inteiramente à literatura. Publicou em 1938 o livro de poemas “Presencia” ou ‘Presença”, sob o pseudônimo Julio Denis, mas ganhou notoriedade com contos como “Casa tomada” e, sobretudo, com o romance “Rayuela” ou “O Jogo da amarelinha” (1963), marco do boom Latino-americano. Em 1951 mudou-se para Paris, trabalhou como tradutor da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e manteve forte engajamento político, destinando direitos autorais a presos políticos e adquirindo a nacionalidade francesa durante a ditadura argentina. Autor de narrativas experimentais e também de livros de poesia como “Pameos y meopas” e “Salvo el crepúsculo” ou “Salvo o crepúsculo”, construiu uma obra marcada pela inovação formal, pelo diálogo com o surrealismo e pela tensão entre prosa e poesia. Deixou um legado que o consagra como um dos escritores mais influentes do século XX.Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht