Os malefícios do tabaco (ou fumo): Cena inicial e final
Nioukhine (de longas suíças, sem bigode, fato velho e coçado. Entra majestosamente, saúda e ajeita o colete). – Minhas senhoras e, de certo modo, meus senhores. (Alisa as suíças). Pediram a minha mulher que eu viesse aqui fazer uma conferência, para fins beneficientes, sobre um assunto qualquer. E por que não fazê-la? Se é preciso uma conferência, façamos então uma conferência; a mim me é absolutamente indiferente. Bem… para dizer a verdade, eu não sou propriamente um professor, e nem sequer estou munido de qualquer título acadêmico ou científico: pois apesar disso, há trinta anos que ininterruptamente, e posso mesmo acrescentar que em detrimento da minha saúde e de outras coisas semelhantes, eu trabalho em assuntos de natureza estritamente científica. Dou tratos aos miolos quando, às vezes, – imaginem Vossas Excelências! – tenho de escrever artigos científicos ou… talvez muito pouco científicos, mas que, vá lá, têm um certo ar científico. Nestes últimos dias, precisamente, escrevi entre outros um artigo considerável sob o título “Dos efeitos maléficos de alguns insectos”. Este artigo agradou muito às minhas filhas, sobretudo na parte que se relacionava com os percevejos. Pois bem, eu, depois de o ter lido rasgueio. De fato, por mais que eu dissesse e escrevesse, nem por isso se dispensaria o pó de piretro. Em nossa casa, por exemplo, há percevejos até no piano de cauda… Escolhi para tema da minha conferência de hoje, se assim lhe podemos chamar, o prejuízo que traz à humanidade o uso e abuso do tabaco. Quanto a mim, devo confessá-lo, sou um fumador inveterado. Mas a minha mulher ordenou-me que falasse hoje dos malefícios do tabaco, e não tenho por isso outro remédio senão obedecer-lhe. Já que é preciso falar de tabaco, falemos então de tabaco. Para mim é absolutamente indiferente; e eu convido Vossas Excelências, minhas senhoras e meus senhores, a escutar a minha conferência com toda a gravidade requerida para evitar qualquer sensaboria. E aquelas pessoas a quem mete medo uma conferência séria, digamos mesmo científica, têm inteira liberdade de não escutar… ou de sair. (Ajeita o colete). Peço, sobretudo, a atenção dos senhores doutores aqui presentes. Eles poderão encontrar na minha conferência numerosos ensinamentos úteis, porque o tabaco, à margem dos seus efeitos nocivos, é muito empregado em medicina. Assim, por exemplo, se metermos uma mosca dentro de uma tabaqueira, ela morre, aparentemente por desarranjo nervoso… O tabaco é, para falar corretamente, uma planta… Quando faço uma conferência pisco ordinariamente o olho direito, mas Vossas Excelências não façam caso: é efeito da emoção. Eu sou, duma maneira geral, um homem muito nervoso. O meu olho direito começou a piscar em 1889, a 13 de setembro, exatamente no dia em que, por assim dizer, a minha mulher deu à luz a sua quarta filha, Bárbara… Todas as minhas filhas nasceram em dias 13. Mas de resto (tira e consulta o relógio) dado o pouco tempo de que dispomos, não nos afastemos do tema da nossa conferência. Devo em todo o caso dizer a Vossas Excelências que a minha mulher tem uma escola de música e um pensionato particular, ou, talvez mais exatamente, não é bem um pensionato, mas qualquer coisa no gênero. Aqui para nós, a minha mulher gosta de apregoar aos quatro ventos a sua miséria, mas a verdade é que ela conseguiu pôr uns dinheiros de lado – uns quarenta ou mesmo uns cinquenta mil rublos; eu pessoalmente, é que não tenho um copek, nem sequer uma moeda furada. Mas deixemos isso…
(…)
Tenho um medo horrível… um medo horrível quando ela olha para mim… Pois bem, eis o que às vezes eu digo a mim próprio: se as minhas filhas demoram tanto a casar-se, é porque são tímidas e os cavalheiros não reparam nelas. A minha mulher não quer dar serões, não convida ninguém para jantar; é muito avarenta, conflituosa e azeda; e é por isso que ninguém vai a nossa casa. Mas…, mas aqui para nós e muito em segredo… (Aproxima-se da boca de cena; em tom de confidência). Nos dias de grande festa, quem quiser ver as filhas de minha mulher, é em casa da tia Natália Semionovna; conhecem…: aquela Natália Semionovna que sofre de reumatismo e tem um vestido amarelo, salpicado de manchas pretas que parecem baratas… Em casa dela até se servem acepipes; e quando a minha mulher não está, sempre se bebe um bocadito… Também é verdade que o mais pequeno copo me embriaga; então sente-se o coração tão quente…, e ao mesmo tempo fica-se tão triste…, que nem sou capaz de vos explicar… A gente recorda-se, não se sabe porquê, do tempo em que era novo, e só apetece fugir não se sabe para onde… Ah, se Vossas Excelências soubessem como é forte este desejo! (Com paixão). Fugir! Deixar tudo sem olhar para trás! Mas fugir para onde? Não importa para onde…, desde que se deixe esta vida estúpida e banal, esta vida medíocre que fez de mim um deplorável pateta, um velho idiota e ridículo… Fugir desta mesquinha, malvada, malvada avarenta que me martiriza e tortura há trinta e três anos! Fugir da música, da cozinha, do dinheiro da minha mulher, de todas estas ninharias, de todas estas baixezas… E parar num campo, em qualquer parte, longe, muito longe!… E debaixo de um céu imenso ser como uma árvore, uma vara…, ser como um espantalho de pardais…, e ver, toda a noite, por cima de mim, a lua tranquila e clara… E esquecer, esquecer, esquecer… Oh! Como eu desejaria arrancar esta casaca velha e mesquinha, dentro da qual me casei há mais de trinta e três anos…, (tira violentamente a casaca) dentro da qual faço continuamente conferências para fins beneficientes. Toma! (Calca raivosamente a casaca aos pés). Toma! Toma!… Estou velho, sou pobre, sou tão ridículo, tão lamentável como este colete com as suas costas coçadas e luzidias… (Volta-se para mostrar as costas do colete). Mas não preciso de coisa nenhuma! Estou acima disto e sou mais puro do que tudo isto! Dantes, era jovem, inteligente, cursava a Universidade, sonhava… Julgava-me um homem! Agora só preciso de repouso… (Depois de ter olhado para os bastidores, torna a vestir rapidamente a casaca). A minha mulher já está lá dentro… Já chegou e está ali à minha espera. (Olha o relógio). E a hora já passou! Se ela perguntar alguma coisa, digam-lhe, por favor, digam-lhe que a conferência se realizou e que o espantalho – sou eu, o espantalho… – se portou convenientemente… (Olha para os bastidores e baixa a voz). Ela já está a olhar para aqui… (Endireitando-se e elevando a voz). E visto que o tabaco encerra o terrível veneno de que vos acabo de falar, não se deve fumar em caso nenhum e permito-me ter a esperança de que a minha conferência sobre os malefícios do tabaco possa, de certo modo, haver trazido a Vossas Excelências qualquer utilidade. Tenho dito. Dixi et animam levivi! (Saúda e afasta-se majestosamente).
Anton Tchekov (Taganrog, Império Russo, 29 de janeiro de 1860 – Badenweiler, Império Alemão, 15 de julho de 1904) foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas ele escreve a respeito: “A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante”. In “Os Malefícios do Tabaco” (Sobre os efeitos nocivos do tabaco) este monólogo é uma famosa peça em um ato escrita por este dramaturgo russo, publicada pela primeira vez em 1886 e revista em 1902. Conta com um personagem único e o monólogo é interpretado por Ivan Ivanovich Nioukhine (ou Kin), um homem simples e submisso. No enredo ele é obrigado pela esposa — que é dona de um pensionato e de uma escola de inhames/meninas — a dar uma palestra pública sobre os males do fumo, embora ele próprio seja um fumante inveterado. em tom cômico e trágico, em vez de falar realmente sobre o tabaco, Nioukhine se perde em devaneios, desabafa sobre sua vida conjugal miserável, as sete filhas, a opressão que sofre em casa e suas frustrações pessoais. O cigarro acaba sendo apenas um pretexto para revelar a mediocridade e o patetismo da condição humana, marca registrada da poética tchekhoviana
Ana Maria
Fala de Tito
Sei que só eu, por fim, me posso destruir;
mas pude já viver, deixar-me seduzir.
Meu coração nem qu´ria indagar no futuro
aquilo que pudesse, entre nós, ser um muro.
Agradava-me crer que nada era invencível:
sem nada examinar, eu esperava o impossível.
Ou esperava, talvez, perante vós morrer,
sem este adeus cruel haver de vos fazer.
De obstáculos até me incendiava outrora.
Que importavam razões? Mas a glória, Senhora,
inda eu a não ouvira, em meu foro interior,
no tom em que ela fala a um Imperador.
Conheço bem de mais tormentos que irei ter;
sinto bem que sem vós nem saberei viver.
Meu coração de mim começa a se afastar:
nem de viver se trata: apenas de reinar.
Bérénice, acto IV, cena V
Jean Racine (La Ferté-Milon, Aisne, França, 22 de dezembro de 1639 — Paris, França, 21 de abril de 1699) foi um matemático, historiador, poeta e um dos maiores dramaturgos que a França já vira nascer em seus domínios. In “Vozes da poesia europeia II”. Tradução de David Mourão-Ferreira, Colóquio letras nr. 164, Fundação Calouste Gulbenkian, Maio-agosto de 2003. Racine possuía um estilo próprio, que prestou grande contribuição à literatura francesa: suas obras eram escritas em versos alexandrinos, de uma harmonia, simplicidade e elegância notáveis. A presente obra, Oeuvres de Racine, vem, portanto, reunir toda a sua produção dramatúrgica, composta por 11 tragédias – La Thébaïde (1664), tragédia em cinco atos, que traz como tema a luta e morte do filho de Édipo, bem como a de sua filha, Antígona; Alexandre le Grand (1665), uma tragédia em cinco atos em que, baseado na obra de Quinto Cúrcio Rufo, historiador romano que viveu no período clássico, Racine apresenta a conturbada história de amor vivida por Alexandre e a princesa indiana Cleófila; Andromaque (1667), tragédia em cinco atos, em que Racine, baseando-se na Andrômaca de Eurípedes e no livro 3 da Eneida de Virgílio, retoma as consequências da Guerra de Troia, em que Heitor, marido de Andrômaca e filho de Príamo, foi morto por Aquiles e seu filho, Astiánax, escapou de um destino similar nas mãos de Ulisses; trata-se de uma de suas mais célebres produções; Britannicus (1669), tragédia em cinco atos que trata da história de Agripina, mãe do grande imperador romano Nero, arrependida de conferir poder ao filho quando este passa a ser influenciado por Narciso, um conselheiro de má índole; Bérénice (1670), tragédia em cinco atos, que reconta a história da relação do imperador romano Tito com Berenice, a filha de Agrippa I; Bajazet (1672), tragédia em cinco atos, baseado em fatos contemporâneos à sua época, Racine escolhe o Império Otomano e dele retira a história do sultão Murad IV, que teve seus irmãos e potenciais inimigos, Bajazet e Orcan, executados; Mithridate (1673), tragédia em cinco atos, que conta a história de Mitrídates VI, um inimigo do Império Romano que cometeu suicídio após ser traído pelo próprio filho; Iphigénie (1674), que se constitui da versão raciniana dos eventos que envolvem a oferta de Ifigênia em sacrifício aos deuses; Phèdre (1677), baseada na obra Hipólito, de Eurípedes, em que aborda o tema da paixão da mulher por seu marido e filhos; Esther (1689), tragédia em três atos, baseado no livro bíblico de Ester; e Athalie (1691), última tragédia raciniana e também retirada de livro bíblico, que conta a história de Atália após ficar viúva e passar a governar em nome do marido – e uma comédia – Les Plaideurs (uma adaptação da obra As Vespas, de Aristófanes, 1668), além dos seus Cantiques spirituels, quatro poemas de influência jansenista, que foram posteriormente musicados por Jean-Baptiste Moreau, dentre outros
Revelando traços de Flavinho, pintor…
Óleos expressionistas de um talentoso e sensível amigo dos tempos de FFLCH-USP e da pacata Liga dos Antárcticos, meu vizinho de um remoto Largo do Paissandu, quando morei nas imediações da Avenida São João, no bairro da Luz localizado no distrito do Bom Retiro, centro da cidade de São Paulo. Flavio Ribeiro de Oliveira, além de ser um conceituado professor doutor da Unicamp e coordenador de Centro de Estudos Clássicos do Instituto de Estudos da Linguagem dessa universidade de Campinas – SP, também pinta ou pintou essas preciosidades…
Cara de listas
A morsa e o carpinteiro
O sol brilhava sobre o mar,
brilhando com toda a sua força:
fazia o possível para deixar
as ondas lisas e brilhantes —
e isso era estranho, porque era
plena madrugada.
A lua brilhava emburrada,
porque achava que o sol
não tinha o que estar ali
depois do dia ter terminado
— “É muita falta de educação da parte dele”, disse ela,
“vir estragar a diversão!”
Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll (Daresbury, Cheshire, Inglaterra, 27 de janeiro de 1832 — Guildford, Condado de Surrey, Inglaterra, 14 de Janeiro de 1898) que além de ter criado o mundo de “Alice no País das Maravilhas”, Lewis Carroll também é famoso por seus poemas nonsense. In “Alice através do espelho – e o que ela encontrou lá”. Essa segunda aventura de Alice a leva através do espelho para um lugar ainda mais curioso que o País das Maravilhas. Ela se vê envolvida no grande jogo de xadrez do espelho e parte em busca de se tornar rainha. Não é tão fácil quanto ela imagina: a cada passo, ela é atrapalhada por personagens sem sentido que surgem e insistem em recitar poemas
Dupla de dois
Take the “A” Train
A emblemática música “Take the ‘A’ Train” foi composta em 1939 por Billy Strayhorn (e não por Duke Ellington, embora tenha se tornado o hino máximo da orquestra de Ellington). É interessante a história de como ela foi criada. Ocorreu em um encontro com Ellington. Em 1938, Billy Strayhorn — um jovem pianista e arranjador de Pittsburgh que trabalhava como balconista — conheceu Duke Ellington após um show da banda. Strayhorn impressionou Ellington tocando uma versão própria de “Sophisticated Lady” e foi convidado a trabalhar com ele. As instruções de metrô: Quando Ellington convidou Strayhorn para ir a Nova York, ele anotou em um papel as instruções de como chegar ao seu apartamento no bairro de Sugar Hill, no Harlem. O bilhete começava exatamente com as palavras: “Take the A Train” (referindo-se à recém-inaugurada linha de metrô ‘A’ de Nova York). A composição foi então inspirada por essas instruções literais de trajeto e tentando imitar o estilo de arranjos de metais de Fletcher Henderson, Strayhorn compuiu a música na cabeça durante uma festa e depois passou tudo para o papel. O sucesso e a marca registrada: Quando Strayhorn levou a peça para a Duke Ellington Orchestra, ela virou o tema principal do grupo e foi gravada em 1941, consagrando-se como um dos maiores clássicos da história do jazz.
Edward Kennedy “Duke” Ellington (Washington, Estados Unidos, 29 de abril de 1899 — Nova Iorque, Estados Unidos, 24 de maio de 1974) foi um compositor de jazz, pianista e líder de orquestra estadunidense eternizado com a alcunha de “The Duke” e distinguido com a Presidential Medal of Freedom em 1969 e com a Legião de Honra em 1973, sendo ambas as distinções as mais elevadas que um civil pode receber
William Thomas “Billy” Strayhorn (Dayton, Estados Unidos, 29 de novembro de 1915 — Nova Iorque, Estados Unidos, 31 de maio de 1967) foi um arranjador, compositor, pianista e músico profissional norte-americano
Temática infantil 2
Decifrando o escrito: “Diogo”