Resignação

No silêncio das noites perfumosas
Quando a vaga chorando beija a praia,
Aos trêmulos rutilos das estrelas,
Inclino a triste fronte que desmaia.

E vejo perpassar as sombras castas
Dos delírios da leda mocidade;
Comprimo o coração despedaçado
Pela garra cruenta da saudade.

Como é doce a lembrança desse tempo
Em que o chão da existência era de flores,
Quando entoava, ao múrmur das esferas,
A copla tentadora dos amores!

E voava feliz nos ínvios serros
Em pós das borboletas matizadas…
Era tão pura a abóbada do elísio
Pendida sobre as veigas rociadas!…

Hoje escalda-me os lábios riso insano,
É febre o brilho ardente de meus olhos:
Minha voz só retumba em ai plangente,
Só juncam minha senda agros abrolhos.

Narcisa Amália (São João da Barra, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1852 — Rio de Janeiro, 24 de julho de 1924) foi poeta, escritora, tradutora e crítica literária, foi reconhecida como a primeira mulher a trabalhar como jornalista profissional no Brasil. Escreveu na revista “A Leitura” (1894 – 1896) muitos artigos sobre o feminismo e a república. Sua obra poética também é voltada ao combate à opressão da mulher na sociedade e o regime escravista

Invenção de Orfeu (Trecho)

I

Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.

Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.

O sono está.
E um homem dorme.

1952

Jorge de Lima (União dos Palmares, Alagoas, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi um dos poetas mais originais do modernismo brasileiro, transitando entre o regionalismo nordestino e a poesia religiosa e surrealista. Sua obra é marcada por uma linguagem rica, cheia de simbolismos e profundidade existencial. Sua poesia permanece atual porque fala de temas universais—amor, morte, fé e identidade—com uma linguagem que desafia convenções. Seus versos são viscerais, místicos e profundamente humanos, garantem seu lugar entre os maiores nomes da literatura brasileira. Nessa poesia Jorge de Lima alcança aqui o ápice de sua expressão artística, combinando densidade humana e fulgor poético para compor uma epopeia moderna da identidade brasileira. Para isso, dialoga com as grandes tradições literárias — do clássico ao vanguardista, do bíblico ao mitológico. Com audácia, integra o popular e o erudito, o místico e o surreal, sem jamais abandonar seu compromisso com as urgências sociais, denuncia desigualdades e propõe, através da arte, uma transcendência que reconcilie o homem com sua própria história

A arte brotando em Pierina

Um pouco das criações artísticas de Pierina Caneppele Ludovice de Oliveira, filha de um estimado colega da USP, Flavio Ribeiro de Oliveira, professor doutor da Unicamp e coordenador de Centro de Estudos Clássicos do Instituto de Estudos da Linguagem dessa universidade. Ela é jovem, tem excelente formação acadêmica, domina línguas, em especial o francês, já fez curso técnico em Cine/ TV (Centro de Audiovisual), pós-graduação em Arte Educação (Senac EAD), e atualmente faz licenciatura em Pedagogia (IFSul de Minas), de forma semipresencial. Além disso, ela possui ampla formação complementar nas áreas de artes, cultura e educação.

Contatos:
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WhatsApp: (11) 9 9764-1212
pierina.caneppele@alunos.ifsuldeminas.edu.br

São Bernardo

São Bernardo (14.ª edição) – Ilustração: Darel, nome artístico de Darel Valença Lins (Palmares,
Pernambuco, 9 de dezembro de 1924 – Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 2017) que foi um gravurista,
pintor, desenhista, ilustrador e professor e que assinou ilustrações marcantes para diversas edições
clássicas da obra de Graciliano Ramos.

História de Paulo Honório na qual o mesmo narra a sua trajetória onde, após muita luta na enxada, ele resolve vencer na vida. Seu primeiro passo é adquirir a propriedade de São Bernardo e colocá-la para render. Consegue sucesso. Faz amigos. Após algum tempo se casa com Madalena. Vivem bem algum tempo até ele começar a desconfiar dela. Brigam e se separam. Desde aí começa a sua decadência e ele perde tudo, inclusive os amigos…

Antonio Candido (Trecho do prefácio): Ficção e confissão

“Para ler Graciliano Ramos, talvez convenha ao leitor aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas e, principiada na narração de costumes, termina pela confissão das mais vividas emoções pessoais. Com isto, percorre o sertão, a mata, a fazenda, a vila, a cidade, a casa, a prisão, vendo fazendeiros e vaqueiros empregados e funcionários, políticos e vagabundos, pelos quais passa o romancista, progredindo no sentido de integrar o que observa ao seu modo peculiar de julgar e de sentir. De tal forma que, embora pouco afeito ao pitoresco e ao descritivo, e antes de mais nada preocupado em ser, por intermédio da sua obra, como artista e como homem, termina por nos conduzir discretamente a esferas bastante várias de humanidade, sem se afastar demasiado de certos temas e modos de escrever. (…)”

Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953). In “São Bernardo”, 14.ª edição, São Paulo: Livraria Martins Editora, 1971. Esta é a 14.ª edição do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, sendo que a primeira edição foi lançada originalmente em 1934 pela Livraria Ariel Editora e a terceira edição lançada em 1947 pela José Olympio Editora, sendo que esta foi revisada em vida pelo próprio autor. Após passar pela Martins Editora na década de 1960 e 1970, o livro começou a ser publicado pela Editora Record, que expandiu as tiragens até ultrapassar a marca de 100 edições

Nariz de banana

Comentada no Instagram pelo curador e crítico de arte Oscar D’Ambrosio à partir de sua sugestão abaixo respondida por mim:

“Se você quiser participar [com diversas frases que buscam definir o que é arte], mande para mim uma imagem, com a fichinha técnica e com o nome do pensador citado, que converse com a frase original e com a do Oscar.”

Ficou assim a postagem feita por ele (https://www.instagram.com/p/DZqIGw4pT2D/):

Nariz de banana, s/d
Eduardo Matosinho
Nanquim diluído em água, guache Caran d’Ache e lápis grafite
31,5 x 21,5 cm

“É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente.”
In: Simone de Beauvoir em sete frases célebres (https://ematosinho.com.br/?p=12970)
Simone de Beauvoir (Paris, França, 9 de janeiro de 1908 – 14 de abril de 1986) foi uma influente filósofa existencialista e feminista francesa, conhecida por questionar papéis de gênero e defender a liberdade individual.

“Nunca se é homem enquanto se não encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer”. In “A Idade da Razão”, 1945
In: Frases de Jean-Paul Sartre (https://ematosinho.com.br/?p=6646)
Jean-Paul Sartre (Paris, França, 21 de junho de 1905 – 15 de abril de 1980) foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como representante do existencialismo.

Um rosto é uma representação visual sempre desafiadora, pois tem como referências nós mesmos e o outro. Transformar a imagem humana constitui um exercício permanente de interpretação, pois cada mudança leva o olhar para um universo de interpretações. A imagem criada, assim, fala por si mesma e cada um a lê como acha e como consegue, utilizando a sua emoção, exigência técnica e criatividade.

Oscar D’Ambrosio (16/06/2026)