Destaque

Um pouco de arte popular para celebrar a infância

A arte popular diz muito às crianças e seu dia coincide nessa segunda com o de Nossa Senhora Aparecida e nele celebramos a infância, reforçamos a importância de defender os direitos fundamentais dos pequenos, como educação, saúde, proteção e de sempre valorizar o brincar, a imaginação e a convivência em família.

João Alves – ainda pequeno vendia suas peças na feira de Taiobeiras, MG, e elas mostram cenas cotidianas como cuidar dos filhos, amamentar, socar o milho no pilão e alimentar as galinhas

Zezinho de Arapiraca – deve a sua iniciação ao Mestre Lampião de Arapiraca, AL, e criatividade e cor talvez sejam as duas palavras que melhor resumem sua obra e ele é hoje um dos mais respeitados artistas populares de lá

Mestre Cunha – suas obras são em geral brinquedos (carrinhos, aviões, navios, animais), realizados com excepcional qualidade, originais em suas concepções e nos materiais utilizados: madeira, arame, vidro, espelho, garrafa pet, pregos, massa de modelar e tinta a óleo

Mazinho Santana – sofreu forte influência do pai e ainda criança encontrou nas sobras de madeira descartadas seu impulso artístico, e em suas pequenas mão, os resíduos ganham vida e suas peças quase todas são produzidas em madeira umburana, de forma ecologicamente correta

Sítio Rodrigues – são artistas do distrito de Água Fria, Belo Jardim, PE, sob a orientação da artista plástica Ana Veloso no projeto de revitalização de nome “Festival arte de Serra do Vento” e criam lagartos, cachorros, tatus bola e outros bichos, além de reproduzir cabeças na antiga tradição dos ex-votos

Zezin – é o apelido de José Ricardo Resende que vive e trabalha em Belo Horizonte, MG, e que já participou em sua curta carreira de várias exposições como a Feira Nacional de Artesanato – Expominas, Belo Horizonte, MG e Aparecida 300 Anos – Museu Guimarães Rosa, Cordisburgo, MG

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Destaque

Sérgio Roberto de Paula: O Quebra-Santa

“Fez roleta-russa na via Dutra – atravessando a estrada com os olhos fechados – e depois foi quebrar a verdadeira imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, em 165 pedaços. Era a terrível noite de 16 de maio de 1978: o início do inferno na vida de Rogério Marcos de Oliveira. Eu conheci o cara em 1994. Ele me contou tudo.

Em 1978, fiquei sabendo do atentado à imagem da Padroeira do Brasil como todo brasileiro, pelo rádio e TV. Não imaginava que, anos depois, fosse conhecer o autor desse atentado. Primeiro como jornalista e depois como vizinho em São José dos Campos onde a partir dos anos 90 moramos muito próximos, separados por poucos quarteirões. Sempre tive interesse pela história protagonizada por Rogério Marcos e, por este motivo, conversei com ele por diversas vezes.
Nessa época Rogério Marcos estava totalmente livre das crises de esquizofrenia e apresentava uma de suas recuperações mais prolongadas, graças às inovações que vinham ocorrendo na área psiquiátrica da cidade de São José dos Campos. Depois de conhecer a versão dele sobre os fatos, assumi o compromisso de escrever o livro contando sua história.
Para colher as informações passei meses encontrando-me com ele. Tivemos longas conversas sobre sua vida e sobre os acontecimentos que envolveram a imagem da Padroeira. Ele estava muito bem de saúde, muito lúcido. Por decisão própria continuava recolhido e morando só. Cheguei a visitá-lo em sua casa e talvez tenha sido um dos únicos jornalistas com permissão para tal.
As narrativas que estão neste livro ocorreram ao longo desses encontros, inclusive em instituições psiquiátricas como no então hospital Francisca Júlia, em São José dos Campos, onde ele voltou a ser internado em nova crise.”

Sérgio Roberto de Paula, jornalista, in “O Quebra-Santa”

Imagem: A Folha de São Paulo divulgou em 30/06/1978 a versão de que Rogério já era conhecido como Quebra-Santa.

O Quebra Santa: História do atentado contra a imagem da Padroeira do Brasil em 1978
Por Sérgio Roberto de Paula (Autor)
Formato: eBook Kindle

“Fez roleta-russa na via Dutra – atravessando correndo a estrada com os olhos fechados- e depois foi quebrar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, em 165 pedaços. Era a terrível noite de 16 de maio de 1978: o início do inferno na vida de Rogério Marcos de Oliveira. Eu conheci o cara em 94. Ele me contou tudo.“

Sérgio Roberto de Paula- velho jornalista

Para adquirir o livro no formato “eBook Kindle” clique:

Amazon: https://bit.ly/4evXYCe

E “Cante tua aldeia” (Página com crônicas curtas de Sérgio Roberto de Paula): https://contraeverso.com.br/cante-tua-aldeia/

Alberto Giacometti

Avanzan solos gris andrajo de nubes
gris pesadilla bronce herido llamaradas grises
terco pedernal de fantasmas
tierra terracota mineral
insomnes avanzan furor helado
bronce herrumbre ira petrificada
cuerpos sombras sombras cuerpos
ballet de muerte astillas de sueños
avanzan solitarios remotos
ciegos árboles andando atraviesan
puertas piedras palabras
plata roñosa paredes de espejos
lágrimas sin ojos avanzan
reclaman mendigan sueñan
otro infierno distinto
otro infierno
otro.

Juan Luis Panero (Madrid, Espanha, 1942 – Torroella de Montgrí, Comarca de Baix Empordà, província de Girona, Catalunha, Espanha, 16 de septiembre de 2013) el seno de una familia ligada a la poesía; su padre fue el distinguido poeta Leopoldo Panero, su tío era Juan Panero y tiene dos hermanos que también cultivan la poesía Leopoldo María y Michi Panero. En su juventud, Luis fue un incansable viajero, tal es así que no sólo ha deambulado por muchos países europeos sino que también ha vivido en diversos países de América Latina; esto le permitió conocer a autores como Juan Rulfo y Octavio Paz, entre otros. Su primer poemario vio la luz en 1968 y se tituló “A través del tiempo”; posteriormente publicó “Los trucos de la muerte”, “Juegos para aplazar la muerte” y “Antes que llegue la noche”. Por su obra ha recibido distinguidos galardones, entre los que se puede mencionar el prestigioso Premio Internacional de Poesía de la Fundación Loewe. En el año 2009 la Editorial Vitruvio publicó una antología con sus obras líricas completas, la misma recibe el nombre de “La memoria y la muerte”

A criança ferida

A criança ferida vai mordê-lo.
A criança ferida vai se tornar
uma criatura assustadora
e mordê-lo aí mesmo onde você está.

A criança ferida verá a pele se formar
sobre o ferimento que recebeu de você
– recebe não, porque o ferimento
não é um presente, um presente é aceito
livremente, e a criança não teve escolha.

Ela vai formar uma pele sobre o ferimento,
o ferimento acumulado, o ferimento que atravessa gerações
e que você extraiu com força de si mesmo feito uma bala
e implantou na carne da criança –
uma pele um couro um pelo
uma crosta escaldada,
e dentes afiados de peixe
como os de um bebê deformado –
e vai mordê-lo

e você vai dizer que não vale
como é o seu hábito
e haverá uma luta
porque você vai tirar a luta da caixa
com o rótulo Lutas que guarda com tanto cuidado
para as emergências, e esta é uma delas,

e a criança ferida perderá a luta
e irá cambaleando
para os subúrbios, e causará
pânico nas drogarias e estrago
nos churrascos
e eles dirão ajudem ajudem um monstro
e sairá no noticiário

e ela será caçada
com cães, e deixará um rastro
de cabelo, pelo, escamas e dentes de leite, e lágrimas
de onde foi rasgada
com vidro quebrado e coisas do tipo

e vai se esconder em canos de esgoto
em depósitos de ferramentas, debaixo de arbusto,
lambendo sua ferida, sua raiva,
a raiva que recebeu de você
e vai se arrastar até o poço

o lago o riacho o reservatório
porque tem sede
porque é monstruosa
com sua sede feroz
que parece toda coberta de espinhas

e os cães e caçadores vão encontrá-la
e ele ficará encurralada
e uivará sobre injustiças
e vão rasgar seu corpo e abri-lo

e vão comer seu coração
e todos darão vivas,
Graças a deus acabou!

E seu sangue escorrerá para dentro d’água
e você vai bebê-lo todos os dias.

Margaret Atwood (Ottawa, Canadá, 18 de novembro de 1939) é uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária internacionalmente reconhecida, tendo recebido inúmeros prêmios literários importantes. Foi agraciada com a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país. Mundialmente famosa por seus romances distópicos (como “O conto da Aia”), Atwood iniciou sua carreira literária na poesia, aos 16 anos. Seus poemas são marcados por tons irônicos, observações lacônicas sobre costumes contemporâneos, política sexual e a relação humana com a natureza canadense. Sua poética aborda temas que vão desde o cotidiano, em reflexões políticas e sociais, até criações fantásticas, a partir do mundo dos contos de fadas e origens da mitologia. Suas principais coletâneas incluem “The circle game” (1966) e “Os diários de Susanna Moodie” (1970). Uma das principais escritoras da atualidade, destaca-se por obras que ficaram conhecidas em todo mundo a partir de adaptações para o cinema, como o livro “O conto de Aia”, de 1985, e que virou série em 2017, vencendo os mais importantes prêmios do gênero. In “A Porta”, Rocco, 2007. Tradução de Adriana Lisboa. Nota: A literatura do Canadá possui uma rica tradição poética que reflete tanto suas paisagens vastas quanto a complexidade de sua identidade multicultural e bilíngue

O jardim / Le jardin

O jardim

O jardim, a lua
A noite, e você
Fábula. Doçura
De reseda
Um beijo
Milhares de beijos
Ou recusas
Tristeza. Doçura
Ele ama, ao entardecer
Um perfume de jardim
De reseda

//

Le jardin

Le jardin, la lune
Le soir, et toi
Conte. Douceur
De réséda
Un baiser
Mille baisers
Ou éconduit
Chagrin. Douceur
Il aime, le soir
Un parfum de jardin
De réséda

Marc Chagall (Vitebsk, Império Russo, atualmente Bielorrússia, 6 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985). Esse poema faz parte da coletânea “Les poèmes”, publicada em 1968 por Marc Chagall, que combinou seus textos poéticos a gravuras originais. A obra reflete o lirismo e a atmosfera onírica do artista, unindo temas como o amor, a noite e a delicadeza dos afetos em versos delicados. Ou, em inglês:  “Published in an exceptionally limited edition of just 238 sets by Éditions Gérald Cramer in Geneva, ‘Les poèmes’ exemplifies the highest level of printmaking craftsmanship, rendered in woodcut on fine Rives or Japon paper. Chagall’s ‘Poèmes’ offer an opportunity to own an intimate masterpiece of modern printmaking – luminous, poetic, and alive”

Realidade

Eis-me aqui de novo em meu subúrbio
Esta casa
que mais uma vez trocarei por outra
O quarto onde já não me tranco para escrever
(não é essa a minha única contradição)
O que minha janela me oferece
um pedaço de rua
onde passam mais carros que pedestres
Um trecho de céu opaco
e tão baixo
que os pássaros nele roçam suas asas
Sobre minha mesa
as cartas se acumulam
Sob meu cotovelo
Ao lado
a máquina de lavar gira
faz desaparecer de minhas roupas
o cheiro da viagem
O telefone toca
Como um autômato
eu estendo a mão
e me rendo à realidade

Abdellatif Laâbi (Fez, Marrocos, 1942) é um poeta, jornalista, romancista, dramaturgo, tradutor e ativista político marroquino. Laâbi formou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Rabat e, posteriormente, lecionou francês em um liceu na mesma cidade. In “Uma mão só não basta para escrever”, Editora 7 Letras, 2024. Tradução de Carlito Azevedo e Maria Eduarda Castro. Considerado uma das maiores vozes intelectuais do país. Ele fundou em 1966 a revista revolucionária Souffles, que renovou a literatura magrebina. Por sua oposição política ao regime durante os chamados “Anos de Chumbo”, passou mais de oito anos preso. Em 2009, foi agraciado com o prestigiado Prêmio Goncourt de Poesia na França. O Marrocos possui uma tradição poética riquíssima, moldada pela fusão de influências árabes, berberes (amazigh), africanas e francesas. Sua literatura transita de forma única entre o clássico, o místico (sufismo) e o vanguardista