“… and after many a Summer dies the swan.”
Tennyson
Fiz de mim mesmo um capital de escombros.
Dediquei-me a arruaças repentinas,
amontoei no ar minhas ruínas,
joguei tudo no chão e dei de ombros.
Sacrifiquei assim crenças, assombros
e encantamentos: moços e meninas
vi-os ruir em vão e de seus tombos
compus minhas estrofes assassinas.
Não tem perdão meu perdulário ofício
de tordo de deserto – que onde eu pouso
o cacto em flor da arte, esse meu vicio,
é tudo insolação; que um fabuloso
sol carnívoro e frio põe um gozo
mavioso onde eu ponho um precipício.
Sou o tordo cantor do desenlace.
Nem tenho outro motivo de cantar.
Transformo em elegia cada face,
cada torso em estela tumular.
Canto como quem abre a jugular
a que se abraça e, ainda que me abrace
à perfeição mais doce, pelo passe
de magia da música vou dar
sempre com a mesma estátua degolada.
Dom nenhum me bastou, tomei-os todos
às mãos que me tocavam e fiz um nada
aquilo; fui virando o tordo
de Bizâncio, a cidade ensimesmada:
um artefato, um engenho, um engodo.
O tordo de Bizâncio era de jade
e filigrana, imitação do efêmero.
e consolava da realidade
com a harmonia pungente do que geme
como se padecesse de verdade.
Eu fui ficando assim, virando um gêmeo
do pássaro mecânico: a vaidade
de cantar coruscando como a gema
entre as joias que passam por penuzem
foi-me tomando a alma e eu sou agora
como a caixa de música em que rugem
(ou rugiam) as paixões de Teodora.
Um tordo assim vive de escapatória,
entre as lepras da vida e as da ferrugem
Um pássaro de esmalte faz de cores
e de formas a luz da alma sozinha
e do corpo um arpejo que se aninha
entre o desejo e os frios esplendores
de uma ourivesaria.
Entre os doutores
em Bizâncio esse tordo morto tinha
o mais alto lugar e imperadores s
solenizavam-no. É assim a minha
situação de tordo de alabastro;
canto nas altas cúpulas serenas
a harmonia nascida de um desastre
que talvez não se cumpra – mas se as penas
deste tordo são ouro, cobrem apenas
o espectro dos tesouros que encontraste.
É estranho que me queiras devolvido,
subtraído aos vãos de uma couraça:
minerais não têm cura do que passa…
Compreendo que busques um sentido
as opalas mais frias; que entre o ido
e o vivido lhe encontres certa graça
à ferrugem do engenho encanecido;
mas ao cabo esculturas de fumaça
valem mais pois provêm da labareda
e eu, ao tornar-me a joia em cuja chama
nada resta de Troia, fiz de Leda
a Helena um teorema: escama a escama
componho a madrepérola entre a seda
e as telas do silêncio numa cama.
Assim, ó enfeitiçado rosto antigo
que te extasias como uma insensata
rapariga em visita ao inimigo,
não vês um tordo, vês a ave de prata
e ouves a voz de ouro, o que é um perigo!
O abismo é avaro: minha serenata
faço-a ao luar batendo no postigo,
mas já não abro à lua intimorata.
Se o que te pasma é o que mais te enamora,
foge ao fantasma mais depressa ainda!
Entre os abismos tremem a luz canora
e as geleiras do adeus, chegas ao fim
da arieta do cisne a luz – que é linda,
eu sei, mas ouve-a bem: essa luz chora.
Ah, vitral matinal, eu não quisera
que te entregasses, como é bem possível
que ainda te entregues, não a uma quimera,
a uma luz tanto mais apetecível
quanto se nutre de uma pura espera:
as vésperas se abismam no invisível
e as futuras delícias do sensível
são geadas que atardam a Primavera…
Não faças contas de colher, que eu vivo
voltado para trás sem ter mais nada
que me sirva de escusa ou de motivo.
Eu olho uma paisagem circundada
do rio de Caronte, corrosivo,
ando é me aproximando dessa entrada.
E que lívida e nua é aquela margem
quando a contempla um tordo de metal!
Um cisne deixa atrás reflexo e imagem
e vai subindo as fontes do real,
separando-as do ser… Essa paisagem
majestosa e sozinha é sem igual
entre as lições do abismo porque um pajem
toca as harpas no ar, como um jogral…
Contra um fundo tão frio a tua fronte
abrasada de um júbilo capaz
de prolongar as febres do horizonte
é a grande aparição – mas no que dãs
um tordo enxerga a barca de Caronte
e um cisne a asa mais negra do fugaz…
Ah, tocar esses braços, esses trêmulos,
fragilíssimos cimbalos, trocar
pelos cimos meus símbolos enfermos.
a ave do precário em seu lugar!
Como um tordo qualquer deixar-me estar
entre as fragilidades que entrevemos,
plenas de imperfeição! Mas não: soltar
uns trinados de opala em seus extremos
para encher uma sala é a única sina
dos tordos maquinados pelo canto
e assim que a luz descer a outra colina
um rouxinol virá… Se por enquanto
o sol é um lá bemol, tudo se inclina
a nota fria e a noite fia o manto.
Tens nas têmporas turvas a orvalhada
de uma doce manhã que eu reconheço
mas não mereço mais: tudo tem preço,
que dizer de uma fronte enfeitiçada?
De resto pus no peito uma estocada.
não e justo que pouses a cabeça
em meu fortim: perdoa que te peca
que te afastes de mim como a alvorada
vai-se arrancando à noite agonizante.
Eu já não posso mais alvorecer.
O rouxinol desde o primeiro instante
em que a manhã começa há de escolher
cantar ou ser a luz cala esse amante
da noite… Ah, a noite fria que há no ser!
Oxford, 1979
Bruno Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 – São Paulo, 27 de junho de 2007). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999