Destaque

Convite da Artesol

Artesanato e música brasileira — e um leilão especial, dia 3/09 às 19h

Convite: No dia 3 de setembro, às 19h, a Artesol vai viver uma noite completamente diferente de tudo o que já fizeram! Uma noite de experiências únicas com artesãos de todo o Brasil, num programa dinâmico com atrações surpresa no palco — com grandes nomes do artesanato e da música brasileira — e um leilão especial com peças doadas por colecionadores, mestres artesãos e apoiadores da Artesol. Este é o principal evento de arrecadação da Artesol, e os recursos garantem a continuidade do seu imprescindível trabalho fortalecendo comunidades artesãs em todo o país. Esperamos contar com você. Caso não possa vir, considere fazer uma doação no valor do convite. Para saber mais sobre o jantar fale com a Sheila Maiorali (11 9 7150-2438).

Data: 3 de setembro de 2026
Local: Ballroom do JK Iguatemi (São Paulo, SP)
Comando do Leilão: Carolina e Mariana Sodré Santoro (@asleiloeiras)

Artesol – ONG que atua em prol dos artesãos do Brasil. Fomentamos a valorização do artesanato cultural brasileiro.

Av. Nove de Julho, 5569 Sala 41
São Paulo – SP
CEP 01407-911
Tel.: (11) 3082-8681
institucional@artesol.org.br

Artiz
Shopping JK Iguatemi – 2° piso
Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
São Paulo – SP
CEP 04543-011

Senhora das águas

Carijós, Canindés, Taperaguases,
Caboclo Tupy, Tapirapés,
Caboclinhos Tabajaras,
É ela a mulher, Senhora das Águas,
É ela a mulher, Ôô ô Iara…

Vem lá do Norte
O negro dos olhos
Cabelos e lábios de mulher
Deusa tão forte
Nas águas escuras
Caboclo se entrega aos seus pés

É guardiã
Dos rios, da mata,
Se enfeita com a flor do mururé
Ela é irmã
Do fogo que arde
No sangue da presa que lhe quer

Sirena chamou
Marujo sumiu
Sereia cantou
Iara levou
O tapuio pro rio

O canto que essa mulher detém
Toda floresta não será capaz
De suportar, de tanta magia,
Aracuã vadia, já não canta mais

Quando ela sai, leva mil reféns
No igarapé, sobressalta a paz,
Céu escurece e o vento esfria
Jassanã se avia, capiuara atrás

Iara é lenda que do povo vem
Mora na fé de todo rapaz
De se perder nessa febre estranha
Da pele castanha que a morena traz

Dalva Torres, conhecida como a “diva do choro” (Pernambuco, por volta de 1941 ou 1942) e João Araújo ou João Poeta (Recife, Pernambuco, 13 de março de 1975). Esta música é um caboclinho (gênero musical e folguedo carnavalesco de Pernambuco). Foi premiada em festivais de frevo e cultura carnavalesca de Recife (como o Recifrevo). Este gênero musical evoca a cultura indígena brasileira, o rufar dos taréis/ curimbas e o som característico da preaca (arco e flecha usados como instrumento percussivo). A letra faz referência direta a tribos e nações indígenas — como Carijós, Canindés, Taperaguases e Tabajaras — e mescla essa ancestralidade com a figura mitológica da Iara (a mãe-d’água, a deusa dos rios e igarapés da região norte/ amazônica que também habita o imaginário popular nordestino). A canção descreve a força mágica da natureza, os encantos das matas e das águas escuras dos rios

A carta de Pero Vaz de Caminha – Primeiro relato oficial sobre a existência do Brasil

“Senhor:
Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer.
Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã- Canária, e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos.

(…)

Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, bastaria. Quando mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que leva, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de S. Tomé a Jorge de Osório meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.”

Pero Vaz de Caminha

(E adaptada por Jaime Cortesão, sendo que este foi um projeto realizado para a Folha de S. Paulo pela Publifolha, em parceria com a Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil).

Projeto gráfico: Ettore Bottini
Textos:
Apresentação: Carlos Rosa
A Carta Magna do Brasil: Eduardo Bueno
Revisão: Carla C. C. S. Mello Moreira
Capa: reprodução da primeira página do original da Carta de Pero Vaz de Caminha
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal.

© 1999 Empresa Folha da Manhã S.A. para a presente edição, sob licença da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Portugal

Notas:

Ocorreu às vésperas das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil (celebrados em 2000) e essa coleção integrou a série de publicações históricas e paradidáticas do jornal. Seu objetivo foi tornar o documento histórico mais acessível ao público geral, trazendo notas explicativas e contextualização da época.

Sobre a obra original

Autor: Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral
Data original: Escrita em Porto Seguro entre 26 de abril e 1º de maio de 1500
Destinatário: Rei Dom Manuel I de Portugal
Conteúdo: Descreve a viagem, o primeiro contato com os povos indígenas, a fauna, a flora e as impressões iniciais sobre a nova terra

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira (Recife, Pernambuco, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968). Este poema, escrito pelo autor pernambucano, tece uma dura crítica social à realidade brasileira dos anos quarenta. Conciso, o poema faz, com precisão, um registro da miséria humana

Picasso: Dibujos

Picasso (Málaga, Espanha, 25 de outubro de 1881 – Mougins, França, 8 de abril de 1973)

Pablo Ruiz Picasso foi um pintor, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo espanhol, considerado um dos mais importantes e populares pintores do século XX. E, como eu mesmo disse nesse blog um dia: “O pintor Picasso / Tem oito fases: Azul, Rosa, Cubismo analítico, Cubismo sintético, Clássica, Metamorfoses, Política, Maturidade / Teve oito mulheres: Fernande, Eva, Olga, Marie-Thérèse, Dora, Françoise, Geneviève, Jacqueline / Nasceu em Málaga / Morreu no sul da França / Deixou um enorme legado / Como o maior artista do século XX”.

Comentários sobre o livro “O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber” de Antônio Flávio Pierucci

Introdução

Este livro, publicado em 2003, foi originalmente concebido como tese de livre-docência em Sociologia na FFLCH/ USP, defendida em 2001. Seu autor Antônio Flávio Pierucci especializou-se em Sociologia da Religião e no estudo da obra de Max Weber.
A obra “O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber” procura trilhar em 236 páginas todos os passos do conceito de desencantamento do mundo, que foi empregado em toda a obra de Weber dezessete vezes, desde a sua primeira formulação pouco antes de 1913 até os últimos meses de sua vida em meados de 1920.
Após uma introdução o autor escreve 14 capítulos, onde procura detalhar “todos os passos do conceito”. Os capítulos são os seguintes: 1) Passando por Schiller, 2) Meu ponto, 3) Contanto os passos, 4) Fazendo as contas, 5) Comentando os passos, 6) Passo 1: Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva, 7) Passo 2: “Introdução” à Ética econômica das religiões mundiais, 8) Passo 3: Economia e sociedade, 9) Passo 4: A religião da China, 10) Passos 5 e 6: Consideração Intermediária, 11) Passos 7 a 12: A ciência como vocação, 12) Passo 13: História geral da economia, 13) Passos 14 a 17: A ética protestante e o espírito do capitalismo, e 14) Meu ponto final e uma chave de ouro.

O conceito weberiano de desencantamento do mundo

Seguindo “todos os passos do conceito” Pierucci inicia a sua análise “Passando por Schiller” (Capítulo 1), onde afirma que a tarefa de encontrar na obra de Weber a expressão “desencantamento do mundo” citada expressamente não foi nada fácil, mesmo com a importância e a significação estratégicas que esse conceito tem em sua obra.
Pierucci descreve que essa expressão foi inspirada nas reflexões estéticas do filósofo e poeta Schiller (1750-1805) como um caso de “idéia recebida” e que, conforme conta, muitos outros autores destacaram o uso de Weber dessa expressão. O que importa nesse ponto é o fato de que Weber muito mais do que usar um simples termo construiu um conceito e passou a mobilizá-lo com uma grande centralidade e proeminência em sua obra, sendo o mesmo, como diz Pierucci, intenso como referência material pela carga de efeitos de sentido, alusões e ressonâncias que abriga e emite o que viria a se tornar uma das marcas registradas de suas teses sobre o desenvolvimento do racionalismo ocidental.
Em seguida, Pierucci parte para o que denomina “Meu ponto” (Capítulo 2), onde procura mostrar que partiu para essa pesquisa tendo plena consciência de que o uso que Weber faz do conceito de desencantamento do mundo não é complicado, nem hesitante, nem muito menos obscuro.
O autor apresenta três vias de demonstração, assim resumidas: 1) Weber faz dezessete empregos dessa expressão, onde é possível demonstrar que em boa parte desses empregos há uma preocupação clara em definir o significado que naquele preciso contexto ele entende dar ao significante; 2) Prestando atenção em cada um desses empregos Pierucci pretende deixar demonstrado que o sintagma desencantamento do mundo tem apenas dois conteúdos semânticos, e que esses conteúdos são nitidamente demarcados; e 3) Demonstra que os dois significados encontrados são concomitantes e também distintos na biografia de Weber, na medida em que dizem ora o desencantamento do mundo pela religião (sentido “a”), ora o desencantamento do mundo pela ciência (sentido “b”).
Deixa claro seu ponto, onde pretende mostrar que Weber na verdade trabalhou com dois significados ao mesmo tempo e o tempo todo ao longo de cerca de oito anos, desde sua primeira formulação pouco antes de 1913 até o final de sua vida que se encerra em junho de 1920.
No capítulo 3 (“Contando os passos”) Pierucci apresenta em ordem cronológica as passagens de Weber em que são mencionadas o substantivo “desencantamento” e o verbo “desencantar” com suas flexões, como segue:
No passo 1 mostra que esse termo aparece na obra “Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva”, escrita pouco antes de 1913 (“… à medida que avança o desencantamento do mundo…”), onde desencantamento significa perda de sentido.
No passo 2 o termo surge na obra de 1913, 1915 denominada “”Introdução” à Ética econômica das religiões mundiais” (“… desencantamento do mundo…”) com o sentido de desmagificação.
No passo 3 o termo aparece significando desmagificação + perda de sentido na obra “Sociologia da religião” de 1913, 1914 da seguinte forma: “… com isso os processos do mundo ficam “desencantados”…”.
No passo 4 surge mais uma vez o “… desencantamento do mundo…” usado na obra “Confucionismo e puritanismo” de 1913, 1915, usado com o sentido de desmagificação.
No passo 5 ele aparece na obra de 1913, 1915 denominada “Consideração intermediária” (“… o desencantamento do mundo…”) significando perda de sentido.
No passo 6 surge na expressão “… desencantou o mundo…”, que aparece mais uma vez na obra “Consideração intermediária”, com o sentido de desmagificação.
No passo 7 “… o desencantamento do mundo…” aparece na obra “A ciência como vocação”, de 1917, com o significado de desmagificação + perda de sentido.
No passo 8 Weber usa mais uma vez na obra “A ciência como vocação” a expressão “… processo de desencantamento…” com o significado de perda de sentido.
No passo 9 o termo aparece novamente na obra “A ciência como vocação” (“… mundo ainda não desencantado…”) e significa, assim como no passo 7, desmagificação + perda de sentido.
No passo 10 aparece pela quarta vez na obra “A ciência como vocação” (“… desencantado…”) significando desmagificação + perda de sentido.
No passo 11 surge a palavra “… desencantados…” pela quinta vez na obra “A ciência como vocação” significando também desmagificação + perda de sentido.
No passo 12 pela sexta e última vez o termo aparece na obra “A ciência como vocação” da forma “… desencantamento do mundo…”, com desencantamento significando perda de sentido.
No passo 13 o termo surge no livro “História geral da economia” (“… desencantamento do mundo…”) de 1919-20, com o significado de desmagificação.
No passo 14 aparece na forma da frase “… Aquele grande processo histórico-religioso de desencantamento do mundo…” com o sentido de desmagificação. A obra em que aparece trata-se d”A ética protestante” reeditada com alterações em 1920.
No passo 15 o termo volta a aparecer n”A ética protestante” (“O ‘desencantamento’ do mundo:…”) novamente com o sentido de desmagificação.
No passo 16 surge mais uma vez a alusão ao termo, quando diz: “… o ‘desencantamento’ religioso do mundo…”. A obra em que aparece é “A ética protestante”, mais uma vez com o sentido de desmagificação.
Finalmente temos o passo 17 em que o termo aparece pela última vez na obra de Weber e pela quarta vez no livro “A ética protestante”. O sentido empregado nessa obra é sempre o de desmagificação e nesse passo ele aparece na frase “O radical desencantamento do mundo…”.
No próximo capítulo, de número 4, Pierucci estará “Fazendo as contas” e tirando importantes conclusões quantitativas, que são as seguintes: das dezesseis incidências do significante, em nove ele vem usado para significar “desmagificação”; em quatro com o significado de “perda de sentido”; e nas quatro restantes ele vem com as duas acepções. O conceito aparece doze vezes como substantivo e cinco vezes como verbo. Por duas vezes nomeia o desencantamento como “processo” e por uma vez o termo se faz acompanhar do adjetivo verbal “crescente”.
Conclui Pierucci que isso quer dizer que o desencantamento do mundo, na medida em que vem definido tecnicamente como desmagificação da atitude ou mentalidade religiosa, é um resultado e produto da profecia, e é também fator explicativo do desenvolvimento sui generis do racionalismo ocidental, ao mesmo tempo em que é, ele mesmo, um processo histórico de desenvolvimento.
A seguir estará Pierucci “Comentando os passos” (Capítulo 5), onde observa que Weber usou o sintagma na última década de sua vida (1912 a 1920) que correspondeu ao período mais fecundo de sua produção intelectual. Esclarece também que cada passo será comentado isoladamente ou em bloco, dependendo de ser passagem única numa obra ou mais de uma na mesma obra. Isso significa que agregando dessa maneira teremos a seguir mais oito capítulos e um último, que será seu ponto final, onde ele fechará com uma chave de ouro.
Em cada passo subseqüente ele fará uma “Breve notícia da obra”, procurando situar cada obra destacada em sua própria história, com base em informações historiográficas atualizadas. Em cada passo Pierucci fará também um “Comentário”, onde trará suas considerações a respeito do conteúdo analisado.
No capítulo 6 ele inicia com o passo 1: “Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva” (pouco antes de 1913). Em seu comentário Pierucci afirma que para Weber, a Sociologia da Religião se ocupa de duas formas de religiosidade: magia e religião, à quais Weber dá o tratamento conceitual de “tipos idéias” e mostra que na realidade elas andam misturadas. Mostra que a magia representa para Weber o momento anterior da religião, com nítida afinidade eletiva com o estágio “animista” de uma humanidade imersa num mundo cheio de espíritos povoando invisivelmente um universo concebido de forma não dual. Apresenta a visão de um jardim encantado ou, resumidamente, de um mundo animado.
A religião, sendo principalmente doutrina, representa em relação à magia um momento cultural de racionalização teórica, com nítidas pretensões de controle sobre a vida prática dos leigos, querendo a constância e a fidelidade à comunidade de culto. Afirma, então, que a normalidade que corresponde à magia é o tabu e que a normalidade que vai resultar da religião é a ética religiosa.
Faz o autor uma longa discussão que resume da seguinte forma: Weber trata a distinção entre magia e religião de uma perspectiva histórica fortemente travejada por uma visada evolutiva e que o processo de racionalização religiosa é também um processo de intelectualização da oferta religiosa, onde a religiosidade mágica vem desde o princípio e a religiosidade ética, por sua vez, ainda não tem três milênios de existência. Mostra também que a Sociologia da Religião de Weber fica inconcebível sem a consideração dessa emergência gradual da ética religiosa para fora do universo do magismo, sem a idéia do desencantamento do mundo com sua contraface, a eticização da religiosidade e a resultante moralização da conduta.
Pierucci mostra também que um ato de magia é um de racionalidade prática subjetivamente racional com relação a fins, ainda que irracional nos meios e que a magia para Weber é incapaz de vida cotidiana, assim como ela é para Durkheim, incapaz de igreja. Conclui o capítulo afirmando que é como se o desencantamento significasse justamente o contrário do que se esperava dele, a saber, a saída de um mundo incapaz de sentido e o ingresso num universo significativamente ordenado de idéias religiosas e, com isso, tornado ele próprio pleno de sentido.
No capítulo 7 ele desenvolve o passo 2: “”Introdução” à Ética econômica das religiões mundiais” (1913) onde o termo enuncia de forma explícita e sucinta a correlação direta entre o desencantamento do mundo e o protestantismo ascético e remete o processo de desencantamento também no plano das idéias, onde atribui importância às camadas intelectuais e, com isso, à intelectualização da religiosidade. Weber mostra também o processo de desmagificação da experiência religiosa como o outro lado da moeda da escalada da moralização religiosa e, por conseguinte, como o outro lado da moeda da arregimentação consciente e alerta da vida individual num todo unificável.
Esse termo aparece como uma operação religiosa pela qual uma determinada religiosidade é retrabalhada por seus intelectuais no sentido de “se despojar ao máximo do caráter puramente mágico ou sacramental dos meios da graça”, meios esses que sempre desvalorizam o agir no mundo, impedindo com isso que se chegue à noção de que o trabalho cotidiano, com sua racionalidade técnico-econômica, pode ser o lugar por excelência da bênção divina.
O autor lembra que a linha de “evolução religiosa” que vai da imagem mágico-mítica à imagem metafísico-religiosa do mundo é descrita por Weber como um processo de racionalização e intelectualização que adquire a inflexão singular de um processo de desencantamento do mundo.
Comenta também nesse capítulo que no desenrolar de suas pesquisas em Sociologia da Religião, Weber volta várias vezes aos conceitos tipológicos de ascetismo e misticismo, onde a ascese intramundana (sintetizada na frase: o asceta intramundano é um racionalista) torna-se com o tempo referência inescapável para a compreensão do processo de racionalização religiosa tal como ocorrido no Ocidente.
Pierucci finaliza o capítulo dedicado à “”Introdução” à ética econômica das religiões mundiais” ressaltando a importância do binômio cotidiano-extracotidiano na sociologia sistemática da religião de Weber, na medida em que a oposição “ética x magia” replica diretamente esta outra dicotomia básica também em sua sociologia da dominação, “cotidiano x extracotidiano, “ordinário x extraordinário”, “rotina x carisma”.
O passo 3, desenvolvido no capítulo 8, aborda “Economia e Sociedade” (1913, 1914). Como a parte desse livro que trata da Sociologia da Religião (Capítulo V) já foi analisado em paper anterior, faremos apenas uma breve referência ao comentário de Pierucci. Ele mostra que para que o desencantamento se cumpra plenamente como racionalização religiosa, a tendência intelectualista do virtuose religioso a fugir do mundo deverá ser superada por uma ética intramundana que faça incidir o valor religioso diretamente sobre a organização racional do trabalho e da produção industrial, acreditando-se que aí reside a benção de Deus sobre os que ele escolheu e predestinou à salvação eterna.
A obra “A religião da China” (1913, 1915) é enfocada no capítulo 9, passo 4, e em cujo comentário Pierucci afirma que o sintagma desencantamento do mundo tem uma definição esclarecedora e didática, além de superlativamente enfática na explicitação do sentido “literal” que lhe foi conferido por Weber. Essa definição assim aparece: o grau em que uma religião se despojou da magia (e agora como resultado, não como processo).
Temos, segundo Pierucci, dois eixos possíveis de racionalização das imagens de mundo religiosas que Weber isola e enumera, constituindo uma verdadeira regra do método sociológico: 1) O grau em que “se despojou da magia” e; 2) O grau de unidade sistemática que imprime à relação entre Deus e o mundo e, em consonância com isso, à sua própria relação ética com o mundo.
O autor afirma que Weber dedica toda uma seção do estudo sobre a China a discutir a importância e a enorme presença que a magia tem naquela cultura, inclusive quantitativamente. Em seguida descreve cuidadosamente o que chama da caudalosa e inerradicável presença da magia numa cultura superior como a chinesa, formando um verdadeiro “jardim encantado” devido a uma total exuberância de magismo nas grandes doutrinas religiosas asiáticas, tanto popular como de elite. Mostra também que magia implica necessariamente tabu ritual, no caso como estereotipia de formas não só estéticas, como em normas alimentares, regulação do espaço físico, alocação de tarefas e proibições de toda ordem.
Por fim Pierucci resume o que Weber pretendia com o estudo da China da seguinte forma: sem a desmagificação que o judaísmo operou e hereditariamente transmitiu ao cristianismo, não teria havido o racionalismo de domínio de mundo que caracteriza o desenvolvimento do Ocidente. Comparando os racionalismos, conclui que no Oriente os obstáculos mágicos não foram removidos pela religiosidade racionalizada dos seus intelectuais típicos.
No capítulo10 Pierucci enfoca a obra de Weber “Consideração intermediária” (1913, 1915) englobando os passos 5 e 6. Diz que é nessa obra que Weber desenvolve sua tipologia das esferas de valor, e o faz de um duplo ponto de vista: 1) Da teoria da diversidade dos processos de racionalização e; 2) Da teorização sobre a cultura como conflito de valores. Sendo assim, o tema central dessa obra é a racionalização cultural do Ocidente, que Weber disseca em termos de diferenciação, automatização e institucionalização das diferentes ordens de vida e condensa em termos plásticos, metafóricos, na imagem helenizante de um “politeísmo dos valores”.
Pierucci trilha os passos 7 a 12 no capítulo 11, onde enfoca a obra “A ciência como vocação” (7 de novembro de 1917), sendo que é neste trabalho que o termo desencantamento do mundo mais aparece, num total de seis vezes, e a importância que esse conceito assume pode ser compreendida, segundo Pierucci, quando recordamos que praticamente desde a entrada de Weber no mundo acadêmico o traço central do moderno conhecimento científico sempre foi para ele sua capacidade constitucional de produzir sentido, ou mesmo de o fundamentar. Mais a frente ele diz que a moderna atitude ou mentalidade científica retira o sentido do mundo, agora transformado em “mecanismo causal”, e não é capaz de substituí-lo por outro.
Já no capítulo 12 ele analisa a obra “História geral da economia” (semestre de inverno-primavera de 1919-20), chegando ao passo 13. Pierucci aponta que é um dado muito significativo o fato de que o sintagma “desencantamento do mundo” apareça nessa obra justamente no capítulo que trata da origem do capitalismo moderno, tanto por se tratar de um texto de histórica econômica, e não de um estudo de Sociologia da Religião; e por se tratar de um registro historiográfico do estado vigente do pensamento weberiano.
O termo aparece em sentido estrito e no sentido de desencantamento ético-religioso do mundo, ou como diz Pierucci, do processo de desembaraçar das crenças e práticas mágicas o estilo de vida religiosa das pessoas, substituindo-as pela disposição ética internalizada de levar uma vida metódica de trabalho racional.
Finalmente no capítulo 13 ele analisa a obra retrabalhada em 2ª versão em 1920 “A ética protestante e o espírito do capitalismo” onde trilha os quatro passos finais que vão do 14 ao 17. Pierucci destaca a clareza conceitual de Weber, onde a exigência de sistematicidade era inerente a toda teorização científica. Mostra também que as inserções tardias (feitas cerca de quinze anos depois da obra original) demonstram o alto grau de intencionalidade de Weber quanto ao significado literal que o uso quatro vezes do significante “desencantamento do mundo” nessa obra retoma, reafirma, denomina e atualiza.
O autor esclarece e alerta que desencantamento do mundo é uma forma específica de racionalização religiosa, a qual, por sua vez, constitui também uma forma específica de racionalização e não pode ser simplesmente sinonimizado com racionalização. Ele mostra também que a revisão feita n”A ética protestante” em 1919-20 entregou ao leitor uma versão verdadeiramente injetada de desencantamento e em sentido estrito. E ele estava tanto em conformidade com o significado da tese original de 1904-05, como com os resultados obtidos das análises comparativas das outras grandes religiões culturais. Nesse último ponto, ele destaca que Weber tinha sistematicamente interrogado essa questão do ponto de vista de sua relação com a magia e ficou convencido de que “somente o protestantismo ascético realmente liquidou com a magia”.
Fechando seu estudo, Pierucci apresenta no capítulo 14 a sua tese, onde afirma que o termo “desencantamento”, acompanhado ou desacompanhado de seu complemento “do mundo”, tem dois significados na obra de Weber: desencantamento do mundo pela religião (sentido “a”) e desencantamento do mundo pela ciência (sentido “b”). Afirma também que são essas as duas únicas acepções do termo, os dois únicos registros de seu uso como conceito, suas duas únicas conceituações.
Revela por fim a sua chave de ouro: encontra em uma tradução brasileira uma pista que ficou aberta em Weber e em que possa advir algum “reencantamento do mundo” que não signifique apenas retrocesso ou que não passe de auto-engano. Isso se dá justamente em uma seção dedicada à esfera erótica (“encantar todo o mundo”). Pierucci nos brinda, então, com a descoberta desta via modernamente disponibilizada de encantamento do mundo, da vida e do mundo da vida, que é o erotismo.

Conclusão

O sociólogo Gabriel Cohn escreve que nesta obra Pierucci está empenhado em mostrar como a aparente proliferação de significados do termo “desencantamento” esconde um conceito construído com rigor e dotado de sentido bem definido e que nela despontam duas teses: de que o termo vai muito mais fundo do que a vaga noção alusiva a alguma perda ou mal-estar subjetivo, onde estamos diante de um conceito que faz parte de uma teoria maior e que foi construído para ajudar a explicar o mundo, não para lamentá-lo; e de que o conceito não se encontra inteiriço em todos os pontos e em todos os momentos da obra de Weber.

Bibliografia
Pierucci, Antônio Flávio – “O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber”, USP, Curso de Pós-Graduação em Sociologia, Editora 34, São Paulo, 2003.

5º paper feito por mim durante a minha estadia na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, como aluno especial, para o curso do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, na data de 18 de junho de 2006, para a matéria FLS5755 – Religião e Sociedade, ministrada pelo Prof. Dr. Lísias Nogueira Negrão