Destaque

Fio da vida

Grande poeta de nossa Terra Brasilis… Centenário! Clique e veja as 9 postagens nesse blog com coisas dele: https://ematosinho.com.br/?s=Thiago+de+Mello

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus, Amazonas, 14 de janeiro de 2022)

Destaque

En medio del camino

Quadro na parede e que faz parte da coleção do vanguardista Gilberto Mansur. Ele criou a Cachaça Espírito de Minas nascida na fazenda Santa Luzia localizada na pequena São Tiago no interior de Minas Gerais próximas às cidades históricas de São João Del Rei e Tiradentes. O nome dessa tradicional cachaça criada por Mansur foi inspirado na frase “Espírito de Minas me visita” que abre o poema “Prece de Mineiro no Rio” de Carlos Drummond de Andrade em que o poeta evoca as lembranças e o estilo de vida de sua terra. Além de ter sido um dos pioneiros a desenvolver a categoria de cachaça premium no Brasil desbravando e trazendo novidades para esse mercado, Mansur sempre valorizou bastante o jeito mineiro de ser e as coisas boas de lá. Assim a Cachaça Espírito de Minas reúne a poesia, o “espírito” de Minas e o gostinho do Brasil.

En medio del camino había una piedra,
había una piedra en medio del camino,
había una piedra,
en medio del camino había una piedra.

Nunca me olvidaré de ese acontecimento
en la vida de mis retinas tan fatigadas.
Nunca me olvidaré que en medio del camino
había una piedra,
había una piedra en medio del camino
en medio del camino había una piedra.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema”. Tradução de Gastón Figueira, Poesia Brasileña Contemporanéa, Instituto de Cultura Uruguayo-Brasileño, 1947, p. 43, Editôra do Autor, 1967

O leque (variações)

I

Linha oblíqua
oculta desoculta
o instante breve
cores exalta
do negro escarlate.
Ela e o leque: a aragem esconde
em poço de sombra
a curva do pescoço
o colo branco.

Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Páscoa: Sempre é tempo…

A Páscoa é tempo de renascimento, reconciliação e esperança. Por isso vamos recomeçar com fé, com coragem, celebrar com nossos corações alegres e com nossos sorrisos se abrindo de felicidade. Cristo vive! Desejamos que essa seja uma época de celebração, paz e comunhão entre todos.

Equipe da Galeria Pontes

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A noite fria

“… and after many a Summer dies the swan.”
Tennyson

Fiz de mim mesmo um capital de escombros.
Dediquei-me a arruaças repentinas,
amontoei no ar minhas ruínas,
joguei tudo no chão e dei de ombros.
Sacrifiquei assim crenças, assombros
e encantamentos: moços e meninas
vi-os ruir em vão e de seus tombos
compus minhas estrofes assassinas.
Não tem perdão meu perdulário ofício
de tordo de deserto – que onde eu pouso
o cacto em flor da arte, esse meu vicio,
é tudo insolação; que um fabuloso
sol carnívoro e frio põe um gozo
mavioso onde eu ponho um precipício.

Sou o tordo cantor do desenlace.
Nem tenho outro motivo de cantar.
Transformo em elegia cada face,
cada torso em estela tumular.
Canto como quem abre a jugular
a que se abraça e, ainda que me abrace
à perfeição mais doce, pelo passe
de magia da música vou dar
sempre com a mesma estátua degolada.
Dom nenhum me bastou, tomei-os todos
às mãos que me tocavam e fiz um nada
aquilo; fui virando o tordo
de Bizâncio, a cidade ensimesmada:
um artefato, um engenho, um engodo.

O tordo de Bizâncio era de jade
e filigrana, imitação do efêmero.
e consolava da realidade
com a harmonia pungente do que geme
como se padecesse de verdade.
Eu fui ficando assim, virando um gêmeo
do pássaro mecânico: a vaidade
de cantar coruscando como a gema
entre as joias que passam por penuzem
foi-me tomando a alma e eu sou agora
como a caixa de música em que rugem
(ou rugiam) as paixões de Teodora.
Um tordo assim vive de escapatória,
entre as lepras da vida e as da ferrugem

Um pássaro de esmalte faz de cores
e de formas a luz da alma sozinha
e do corpo um arpejo que se aninha
entre o desejo e os frios esplendores
de uma ourivesaria.
Entre os doutores
em Bizâncio esse tordo morto tinha
o mais alto lugar e imperadores s
solenizavam-no. É assim a minha
situação de tordo de alabastro;
canto nas altas cúpulas serenas
a harmonia nascida de um desastre
que talvez não se cumpra – mas se as penas
deste tordo são ouro, cobrem apenas
o espectro dos tesouros que encontraste.

É estranho que me queiras devolvido,
subtraído aos vãos de uma couraça:
minerais não têm cura do que passa…
Compreendo que busques um sentido
as opalas mais frias; que entre o ido
e o vivido lhe encontres certa graça
à ferrugem do engenho encanecido;
mas ao cabo esculturas de fumaça
valem mais pois provêm da labareda
e eu, ao tornar-me a joia em cuja chama
nada resta de Troia, fiz de Leda
a Helena um teorema: escama a escama
componho a madrepérola entre a seda
e as telas do silêncio numa cama.

Assim, ó enfeitiçado rosto antigo
que te extasias como uma insensata
rapariga em visita ao inimigo,
não vês um tordo, vês a ave de prata
e ouves a voz de ouro, o que é um perigo!
O abismo é avaro: minha serenata
faço-a ao luar batendo no postigo,
mas já não abro à lua intimorata.
Se o que te pasma é o que mais te enamora,
foge ao fantasma mais depressa ainda!
Entre os abismos tremem a luz canora
e as geleiras do adeus, chegas ao fim
da arieta do cisne a luz – que é linda,
eu sei, mas ouve-a bem: essa luz chora.
Ah, vitral matinal, eu não quisera
que te entregasses, como é bem possível
que ainda te entregues, não a uma quimera,
a uma luz tanto mais apetecível
quanto se nutre de uma pura espera:
as vésperas se abismam no invisível
e as futuras delícias do sensível
são geadas que atardam a Primavera…
Não faças contas de colher, que eu vivo
voltado para trás sem ter mais nada
que me sirva de escusa ou de motivo.
Eu olho uma paisagem circundada
do rio de Caronte, corrosivo,
ando é me aproximando dessa entrada.

E que lívida e nua é aquela margem
quando a contempla um tordo de metal!
Um cisne deixa atrás reflexo e imagem
e vai subindo as fontes do real,
separando-as do ser… Essa paisagem
majestosa e sozinha é sem igual
entre as lições do abismo porque um pajem
toca as harpas no ar, como um jogral…

Contra um fundo tão frio a tua fronte
abrasada de um júbilo capaz
de prolongar as febres do horizonte
é a grande aparição – mas no que dãs
um tordo enxerga a barca de Caronte
e um cisne a asa mais negra do fugaz…

Ah, tocar esses braços, esses trêmulos,
fragilíssimos cimbalos, trocar
pelos cimos meus símbolos enfermos.
a ave do precário em seu lugar!
Como um tordo qualquer deixar-me estar
entre as fragilidades que entrevemos,
plenas de imperfeição! Mas não: soltar
uns trinados de opala em seus extremos
para encher uma sala é a única sina
dos tordos maquinados pelo canto
e assim que a luz descer a outra colina
um rouxinol virá… Se por enquanto
o sol é um lá bemol, tudo se inclina
a nota fria e a noite fia o manto.

Tens nas têmporas turvas a orvalhada
de uma doce manhã que eu reconheço
mas não mereço mais: tudo tem preço,
que dizer de uma fronte enfeitiçada?
De resto pus no peito uma estocada.
não e justo que pouses a cabeça
em meu fortim: perdoa que te peca
que te afastes de mim como a alvorada
vai-se arrancando à noite agonizante.
Eu já não posso mais alvorecer.
O rouxinol desde o primeiro instante
em que a manhã começa há de escolher
cantar ou ser a luz cala esse amante
da noite… Ah, a noite fria que há no ser!

Oxford, 1979

Bruno Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 – São Paulo, 27 de junho de 2007). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Contrastes

Existe muita tristeza
Na rua da alegria
Existe muita desordem
Na rua da harmonia
Analisando essa história
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro um palhaço
Cada vez mais me embaraço
Analisando essa história
Existe muito fracasso
Dentro do largo da glória
Analisando essa historia
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
mais eu encontro um palhaço

Ismael Silva (Niterói, Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1905 – Rio de Janeiro, 14 de março de 1978). A letra desse samba reflete sobre paradoxos da vida, mencionando também desordem na rua da harmonia e palhaços longe do circo, destacando contrastes sociais e emocionais. É uma crônica sobre contradições, muitas vezes interpretada como uma crítica social leve e poética, popularizada por intérpretes como Jards Macalé e Luiz Melodia. A música é um clássico do samba brasileiro conhecido por sua melancolia reflexiva

56

A festa universal divide os pares
entre oceanos, continentes, mares
As razões do mercado são mais certas
do que todas as velhas descobertas.
Por que teimar, como um menino altivo
a quem se aplica logo um corretivo?
O certo é acomodar-se na cadeira
e ouvir do mestre a preleção inteira.
Quem se rebela é um dinossauro bronco,
que merecia estar atado a um tronco
e receber as chibatadas mágicas,
que suprimem as resistências trágicas
e repõem as rodas sobre os trilhos.
como fazem os pais com os próprios filhos.

Reynaldo Valinho Alvarez (Rio de Janeiro, 1931 – 2021). De “Janeiros como rios” (inédito). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999