Pra quê discutir com Madame
Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba, coitado, devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de cor
Madame diz que o samba democrata
É música barata sem nenhum valor
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra quê discutir com madame?
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra quê discutir com madame?
No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na Avenida, entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno, meu Deus, que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor
Composto por Haroldo Barbosa (Rio de Janeiro, 21 de março de 1915 — 6 de setembro de 1979) e Janet de Almeida (Rio de Janeiro, 1919 – 1945) e cantada ao vivo de forma magistral por João Gilberto (Juazeiro, Bahia, 10 de junho de 1931 — Rio de Janeiro, 6 de julho de 2019)
Da série: “Cor do cerrado”, com a técnica encáustica sobre madeira
Marlene Trouva
“Essa belezura também já encontrou o seu lar, levando consigo o perfume do mel e a força do cerrado…🥰🙏”
🐝 Pintura em encáustica
⬇️ Assista ao Documentário: https://www.youtube.com/watch?v=O8zAAG4FPTM
Marlene Trouva é uma artista visual com mais de 24 anos de carreira. Se dedica a criação de seus trabalhos em encáustica quente, fria e técnica mista; atua como professora de artes em cursos de pintura em tela no ateliê e no SESC – Rondonópolis, além de desenvolver trabalhos de restaurações de obras artísticas e peças sentimentais, para clientes em geral.
O Projeto “Marlene Trouva – Cor da arte no Cerrado”, teve incentivo da Lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer – SECEL/ MT, Secretaria Especial da Cultura – Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil – Governo Federal, que homenageiam Marlene como Mestre da Cultura de Mato Grosso. Essa exposição quis evidenciar que a obra da artista e teve por objetivo transformar, dar relevo e textura e colorir o vazio cotidiano existente com leveza, de forma encantadora, profunda e significativa. É um projeto individual e original em sua essência e expressão pois Marlene trabalha com encáustica, uma técnica de pintura conhecida como pintura a fogo, desenvolvida pelos gregos desde o século V a.C., na qual os pigmentos de cor são diluídos em cera quente. Ela também trabalha com cera fria. Os pontos fortes da técnica, os quais encantam a artista são o relevo e a textura. Em suas palavras: “A característica mais marcante em meu trabalho é a textura e o relevo produzido nos trabalhos com encáustica. Ela faz parte da minha vida! Me apaixonei por essa técnica justamente porque ela me possibilita criar uma gama de texturas e relevos na tela, de forma que eu consigo representar, do meu jeito, explorando o colorido do cerrado mato-grossense.” Quando fez o curso, os principais pontos que chamaram a atenção da artista foram: o desvendar de uma técnica milenar, o efeito produzido por ela e o fato de a cera de abelha ser uma matéria prima orgânica. O fato de criar suas próprias obras, restaurar peças sentimentais, entre outras e ministrar cursos de pintura em tela para alunos em seu ateliê e no SESC-Rondonópolis, Trouva evidencia seu compromisso e cuidado em manter e preservar a cultura regional. O evento pandêmico despertou Marlene quanto a inserção de cores, habilidades e técnicas sobre a tensa realidade do panorama atual, e para tanto, tem se superado e desdobrado criatividade sobre telas e painéis, tornando suportável, o momento vivido. A ideia dessa proposta vem da efervescência criativa em meio ao isolamento social e a originalidade e caráter pictórico único dessa artista, no centro de uma crise sem precedentes na História, vem impactar a cena cultural de Mato Grosso e Rondonópolis e atrair o interesse público para uma forma de expressão artística milenar.
Proponente: Regina Maslem
Realização: Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso
Secretaria Especial da Cultura
Ministério do Turismo
Governo de Mato Grosso
Contatos:
www.instagram.com/marlenetrouvaar
arte.mtrouva@gmail.com
WhatsApp: (66) 9 9988-3380
https://cordaartenocerrado.wixsite.com/my-site
Artista indicada para o blog pela prima Celize Mattosinho Davanso, que comenta: “Boa tarde, Eduardo, tudo bem? Quero te falar da minha professora Marlene Trouva que faz trabalhos lindos em encáustica. Dê uma olhada no Insta dela”.
Letras pércias 2
Decifrando o escrito: “Esse sonho é um barato”
Letras que flutuam
O “Instituto Letras que Flutuam” é uma associação sem fins lucrativos fundada a partir de 15 anos de pesquisas e ações em parceria com os abridores de letras de barcos da Amazônia. Sua trajetória é feita de encontros com mestres que, com tinta, traços e ancestralidade, colorem os rios da Amazônia.
Com eles foram desenvolvidos projetos de mapeamento, oficinas de formação, exposições, geração de renda, capacitação para o mercado e dois documentários que registram esse saber em movimento.
Trabalham para que a letra decorativa amazônica seja reconhecida como patrimônio cultural imaterial, não apenas pelo valor estético, mas pelo que ela representa: um modo de existir, um ofício tradicional, um fazer ancestral profundamente ligado ao território.
De 2008 a 2022, realizaram oficinas, residências, exposições, ciclos de escuta e ações de valorização em Belém, na Ilha do Combu, no Marajó e em outras regiões ribeirinhas. O projeto cresceu e virou Instituto em 2024, mantendo seu compromisso com os mestres abridores e ampliando suas frentes de atuação. Desde 2023, desenvolveram uma linha de produtos em parceria com os abridores de letras, integrando os saberes desses mestres com outras tradições amazônicas, como o artesanato de Miriti. O objetivo é claro: fortalecer redes, ampliar renda e manter os mestres em seus territórios.
A Amazônia, rica em tradições fluviais, é marcada por milhares de embarcações adornadas com caligrafias coloridas criadas por artistas conhecidos como abridores de letras. Para fortalecer e preservar esses saberes populares, nasceu este instituto, o primeiro dedicado à cultura ribeirinha no Brasil.
A imprensa noticiou que “Região das águas, a Amazônia tem forte tradição fluvial. Milhares de embarcações cortam rios, igarapés e furos floresta adentro. Cada uma delas é marcada por belas e singulares caligrafias coloridas, criadas pelos abridores de letras. Imbuído do propósito de fortalecer os saberes desses artistas populares, nasce o “Instituto Letras que Flutuam” – um marco histórico por ser o primeiro instituto voltado à cultura ribeirinha no Brasil.” E que “A tradição, que surge na região por volta de 1930 e se estabelece em 1960 com a obrigatoriedade de identificação dos barcos, diz respeito a todo um universo que se capilariza por rios, furos e igarapés.”
E no dizer de Fernanda Martins, diretora geral e pesquisadora de lá: “O homem amazônico que vive na beira, vive um mundo que a natureza impõe o verde, marrom e azul, e para se sobrepor a este regime, ao fazer cultura ele traz o colorido, o caqueado, seja nas suas casas, que têm paredes multicoloridas, seja nas roupas e nos barcos”. E também que “A difusão desse vocabulário imagético ribeirinho o fez reconhecido em todo o Brasil. Isso se comprova pela enorme quantidade de produtos que estão utilizando as letras decorativas da Amazônia, sem contar produtos publicitários e marcas de empresas.” Porém, alerta Fernanda, “isso não se refletiu na ampliação do mercado de trabalho aos abridores de letras, que são, originalmente, os autores dessa obra singular, mas permanecem invisíveis.” E acrescenta que “Vemos com frequência designers e publicitários copiando o trabalho destes artistas, então o debate sobre direitos autorais é fundamental. Esta é a grande urgência do “Instituto Letras que Flutuam”: torna-se necessário não apenas divulgar este saber, como anteriormente foi feito, mas buscar novas formas de reconhecimento e geração de renda para os verdadeiros detentores do saber de abrir letras em barcos na Amazônia”.
Belém – PA
Tv. Rui Barbosa 257 – Sala 3 – Reduto, Belém – PA
Contatos:
www.facebook.com/letrasqueflutuam
www.instagram.com/letrasqflutuam
www.youtube.com/@letrasqflutuam
https://letrasqflutuam.org.br/
WhatsApp / Fernanda Martins: (16) 9 9311-2323
Fumando
Parque Nacional Serra da Capivara no Piauí e a arqueóloga Niède Guidon
O Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no estado do Piauí, é um dos maiores e mais importantes sítios arqueológicos do mundo. Sua área tem a maior e mais antiga concentração de sítios pré-históricos da América. Criado em 1979 e administrado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em parceria com a FUMDHAM (Fundação Museu do Homem Americano), o parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 1991. Seus principais destaques arqueológicos são o acervo de Pinturas Rupestres pois abriga mais de 1.000 sítios catalogados com a maior concentração de arte rupestre do planeta, retratando rituais, caça, figuras geométricas e animais da fauna pré-histórica. É um local com vários atrativos, monumental museu a céu aberto, entre belíssimas formações rochosas, onde encontram sítios arqueológicos e paleontológicos espetaculares, que testemunham a presença de humanos e animais pré-históricos. O parque nacional foi criado graças, em grande parte, ao trabalho da arqueóloga, pesquisadora e professora universitária brasileira Niède Guidon (Jaú, São Paulo, 12 de março de 1933 — São Raimundo Nonato, Piauí, 4 de junho de 2025), que, até seu falecimento, atuava como Presidente Emérita da Fundação Museu do Homem Americano, instituição responsável pelo manejo do parque.
Pesquisas lideradas por essa arqueóloga revelaram vestígios de fogueiras, ferramentas de pedra lascada e ossos que indicam a presença humana há mais de 50 mil anos, desafiando as teorias tradicionais sobre o povoamento das Américas. A arte rupestre divide-se em tradições marcantes, como a Tradição Nordeste (destacando o estilo inicial Serra da Capivara, cheio de dinamismo e movimento) e o estilo final Serra Branca (focado em elementos ornamentais e cocares). Entre os locais mais pesquisados estão a Toca do Boqueirão da Pedra Furada, o Sítio do Meio e o Baixão das Andorinhas. O acervo material escavado ao longo das décadas é exibido no Museu do Homem Americano e no Museu da Natureza, ambos localizados na região de São Raimundo Nonato e a cidade de São Raimundo Nonato serve como o principal ponto de entrada e hospedagem para visitantes e pesquisadores.

Fotos de Edna Matosinho de Pontes, que comenta: “Passei quatro dias deslumbrantes na Serra da Capivara. Já admirava a arqueóloga Niède Guidon, responsável pela criação do Parque Arqueológico da Serra da Capivara e muito mais! Mas só quando cheguei lá pude conhecer o seu enorme trabalho de inclusão social da população que já vivia naquela área. Para estruturar a Cerâmica Serra da Capivara ela convidou o ceramista Megume Yuasa do estado de São Paulo para ensinar como produzir cerâmica lá. Ele ensinou tudo sobre a argila – onde encontrar, como preparar a argila e como fazer a extração sem esgotar a fonte do barro. Renato Imbroisi, design de artesanato, que tive o prazer de conhecer foi o mentor desta viagem ao Piauí. Descobri que Niède tinha também senso estético. Esses dois enormes reservatórios de água (Imagem acima), pintados de fábrica na cor azul, foram pintados na cor que ela desenvolveu e que levam o seu nome. As trilhas e escadas do parque foram feitos de tal forma que não destroem em nada a paisagem e os sítios arqueológicos.”
Mal
Os malefícios do tabaco (ou fumo): Cena inicial e final
Nioukhine (de longas suíças, sem bigode, fato velho e coçado. Entra majestosamente, saúda e ajeita o colete). – Minhas senhoras e, de certo modo, meus senhores. (Alisa as suíças). Pediram a minha mulher que eu viesse aqui fazer uma conferência, para fins beneficientes, sobre um assunto qualquer. E por que não fazê-la? Se é preciso uma conferência, façamos então uma conferência; a mim me é absolutamente indiferente. Bem… para dizer a verdade, eu não sou propriamente um professor, e nem sequer estou munido de qualquer título acadêmico ou científico: pois apesar disso, há trinta anos que ininterruptamente, e posso mesmo acrescentar que em detrimento da minha saúde e de outras coisas semelhantes, eu trabalho em assuntos de natureza estritamente científica. Dou tratos aos miolos quando, às vezes, – imaginem Vossas Excelências! – tenho de escrever artigos científicos ou… talvez muito pouco científicos, mas que, vá lá, têm um certo ar científico. Nestes últimos dias, precisamente, escrevi entre outros um artigo considerável sob o título “Dos efeitos maléficos de alguns insectos”. Este artigo agradou muito às minhas filhas, sobretudo na parte que se relacionava com os percevejos. Pois bem, eu, depois de o ter lido rasgueio. De fato, por mais que eu dissesse e escrevesse, nem por isso se dispensaria o pó de piretro. Em nossa casa, por exemplo, há percevejos até no piano de cauda… Escolhi para tema da minha conferência de hoje, se assim lhe podemos chamar, o prejuízo que traz à humanidade o uso e abuso do tabaco. Quanto a mim, devo confessá-lo, sou um fumador inveterado. Mas a minha mulher ordenou-me que falasse hoje dos malefícios do tabaco, e não tenho por isso outro remédio senão obedecer-lhe. Já que é preciso falar de tabaco, falemos então de tabaco. Para mim é absolutamente indiferente; e eu convido Vossas Excelências, minhas senhoras e meus senhores, a escutar a minha conferência com toda a gravidade requerida para evitar qualquer sensaboria. E aquelas pessoas a quem mete medo uma conferência séria, digamos mesmo científica, têm inteira liberdade de não escutar… ou de sair. (Ajeita o colete). Peço, sobretudo, a atenção dos senhores doutores aqui presentes. Eles poderão encontrar na minha conferência numerosos ensinamentos úteis, porque o tabaco, à margem dos seus efeitos nocivos, é muito empregado em medicina. Assim, por exemplo, se metermos uma mosca dentro de uma tabaqueira, ela morre, aparentemente por desarranjo nervoso… O tabaco é, para falar corretamente, uma planta… Quando faço uma conferência pisco ordinariamente o olho direito, mas Vossas Excelências não façam caso: é efeito da emoção. Eu sou, duma maneira geral, um homem muito nervoso. O meu olho direito começou a piscar em 1889, a 13 de setembro, exatamente no dia em que, por assim dizer, a minha mulher deu à luz a sua quarta filha, Bárbara… Todas as minhas filhas nasceram em dias 13. Mas de resto (tira e consulta o relógio) dado o pouco tempo de que dispomos, não nos afastemos do tema da nossa conferência. Devo em todo o caso dizer a Vossas Excelências que a minha mulher tem uma escola de música e um pensionato particular, ou, talvez mais exatamente, não é bem um pensionato, mas qualquer coisa no gênero. Aqui para nós, a minha mulher gosta de apregoar aos quatro ventos a sua miséria, mas a verdade é que ela conseguiu pôr uns dinheiros de lado – uns quarenta ou mesmo uns cinquenta mil rublos; eu pessoalmente, é que não tenho um copek, nem sequer uma moeda furada. Mas deixemos isso…
(…)
Tenho um medo horrível… um medo horrível quando ela olha para mim… Pois bem, eis o que às vezes eu digo a mim próprio: se as minhas filhas demoram tanto a casar-se, é porque são tímidas e os cavalheiros não reparam nelas. A minha mulher não quer dar serões, não convida ninguém para jantar; é muito avarenta, conflituosa e azeda; e é por isso que ninguém vai a nossa casa. Mas…, mas aqui para nós e muito em segredo… (Aproxima-se da boca de cena; em tom de confidência). Nos dias de grande festa, quem quiser ver as filhas de minha mulher, é em casa da tia Natália Semionovna; conhecem…: aquela Natália Semionovna que sofre de reumatismo e tem um vestido amarelo, salpicado de manchas pretas que parecem baratas… Em casa dela até se servem acepipes; e quando a minha mulher não está, sempre se bebe um bocadito… Também é verdade que o mais pequeno copo me embriaga; então sente-se o coração tão quente…, e ao mesmo tempo fica-se tão triste…, que nem sou capaz de vos explicar… A gente recorda-se, não se sabe porquê, do tempo em que era novo, e só apetece fugir não se sabe para onde… Ah, se Vossas Excelências soubessem como é forte este desejo! (Com paixão). Fugir! Deixar tudo sem olhar para trás! Mas fugir para onde? Não importa para onde…, desde que se deixe esta vida estúpida e banal, esta vida medíocre que fez de mim um deplorável pateta, um velho idiota e ridículo… Fugir desta mesquinha, malvada, malvada avarenta que me martiriza e tortura há trinta e três anos! Fugir da música, da cozinha, do dinheiro da minha mulher, de todas estas ninharias, de todas estas baixezas… E parar num campo, em qualquer parte, longe, muito longe!… E debaixo de um céu imenso ser como uma árvore, uma vara…, ser como um espantalho de pardais…, e ver, toda a noite, por cima de mim, a lua tranquila e clara… E esquecer, esquecer, esquecer… Oh! Como eu desejaria arrancar esta casaca velha e mesquinha, dentro da qual me casei há mais de trinta e três anos…, (tira violentamente a casaca) dentro da qual faço continuamente conferências para fins beneficientes. Toma! (Calca raivosamente a casaca aos pés). Toma! Toma!… Estou velho, sou pobre, sou tão ridículo, tão lamentável como este colete com as suas costas coçadas e luzidias… (Volta-se para mostrar as costas do colete). Mas não preciso de coisa nenhuma! Estou acima disto e sou mais puro do que tudo isto! Dantes, era jovem, inteligente, cursava a Universidade, sonhava… Julgava-me um homem! Agora só preciso de repouso… (Depois de ter olhado para os bastidores, torna a vestir rapidamente a casaca). A minha mulher já está lá dentro… Já chegou e está ali à minha espera. (Olha o relógio). E a hora já passou! Se ela perguntar alguma coisa, digam-lhe, por favor, digam-lhe que a conferência se realizou e que o espantalho – sou eu, o espantalho… – se portou convenientemente… (Olha para os bastidores e baixa a voz). Ela já está a olhar para aqui… (Endireitando-se e elevando a voz). E visto que o tabaco encerra o terrível veneno de que vos acabo de falar, não se deve fumar em caso nenhum e permito-me ter a esperança de que a minha conferência sobre os malefícios do tabaco possa, de certo modo, haver trazido a Vossas Excelências qualquer utilidade. Tenho dito. Dixi et animam levivi! (Saúda e afasta-se majestosamente).
Anton Tchekov (Taganrog, Império Russo, 29 de janeiro de 1860 – Badenweiler, Império Alemão, 15 de julho de 1904) foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas ele escreve a respeito: “A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante”. In “Os Malefícios do Tabaco” (Sobre os efeitos nocivos do tabaco) este monólogo é uma famosa peça em um ato escrita por este dramaturgo russo, publicada pela primeira vez em 1886 e revista em 1902. Conta com um personagem único e o monólogo é interpretado por Ivan Ivanovich Nioukhine (ou Kin), um homem simples e submisso. No enredo ele é obrigado pela esposa — que é dona de um pensionato e de uma escola de inhames/meninas — a dar uma palestra pública sobre os males do fumo, embora ele próprio seja um fumante inveterado. em tom cômico e trágico, em vez de falar realmente sobre o tabaco, Nioukhine se perde em devaneios, desabafa sobre sua vida conjugal miserável, as sete filhas, a opressão que sofre em casa e suas frustrações pessoais. O cigarro acaba sendo apenas um pretexto para revelar a mediocridade e o patetismo da condição humana, marca registrada da poética tchekhoviana