Destaque

Abstrato colorido (Recém emoldurado)

Comentada no Instagram pelo curador e crítico de arte Oscar D’Ambrosio à partir de sua sugestão abaixo respondida por mim:

“Se você quiser participar [com diversas frases que buscam definir o que é arte], mande para mim uma imagem, com a fichinha técnica e com o nome do pensador citado, que converse com a frase original e com a do Oscar.”

Ficou assim a postagem feita hoje por ele (https://www.instagram.com/p/DU1Vy0mEhmf/):

Abstrato colorido
Eduardo Matosinho
Tinta nanquim colorida Rotring
27 x 37 cm

“Toda grande arte é abstrata.”
Jean Renoir in “Federico Fellini: Nota sobre o seu filme “Amarcord”” (https://ematosinho.com.br/?p=5968https://ematosinho.com.br/?p=5968)

Obra de arte

O cineasta Jean Renoir dizia que
Toda grande arte é abstrata
No entanto a vida…
O que é que é?
Será que é abstrata
Será que imita a arte
Ou é concreta
Será que é imaginária
Será que é sonho
Ou real, ou nobre
Será que a vida é grande,
(Ou é feita de detalhes
De recortes, de dobras)
É toda, é completa
A arte pode ser grande
Quando vivida
A obra de arte pode ser de Picasso,
Matisse, Duchamp, Miró
A vida pode ser a de José,
De Pedro, Raimundo

Um pensador escreveu um dia
Um pedaço da arte ao dizer que
Os pensamentos nascentes florescem
nas estradas dos jardins cerebrais
Esse poema nasceu assim
No entanto ainda não floresceu
Poemei e pensei, mas não decifrei:
Toda grande vida é…

Eduardo Matosinho

Uma imagem é uma interpretação do mundo, seja ela figurativa ou abstrata. Existe em cada uma delas algo que está além de uma imitação, ou seja, de uma cópia; ou de uma representação alterada daquilo que se conhece. A criação mais potente é a que transforma internamente quem a faz e quem a vê.

Oscar D’Ambrosio (16/02/2026)

Caso de canário

Casara-se havia duas semanas. E por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
— Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
— Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
— Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.
O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
— Vai, meu bem.
Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.
— Primeiro me tragam um vidro de éter, e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.
Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos, no pescoço.
E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
— Vi!
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
— Ele estava precisando mesmo era de éter – concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Cadeira de balanço – Crônicas”, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966

Quatro bichos recortados de Fernanda Eva

Em setembro de 2009, dentro da mostra “Oxigênio”, ocorreram uma série de eventos que fizeram parte das comemorações pelos 96 anos do Parque Buenos Aires (Higienópolis, São Paulo). Oito artistas fizeram intervenções e instalações no local.

Pintados por Fernanda Eva sobre placas de metal, oito animais silvestres foram colocados num dos corredores do parque. A ideia na época era que os frequentadores os encontrassem escondidos na mata. Após a mostra, Eva comentou que doaria as peças, que ficariam permanentemente expostas no local.

Disse ela, autora das obras intituladas “Bichos Nativos”: “As pessoas vêm ao parque desarmadas e acabam surpreendidas pelas intervenções”.

No entanto ela me escreveu ontem dizendo: “Eles estão [atualmente] no espaço do Muzzi na Vila Madalena. O parque não quis pagar o restauro, então estão com ele. Moro em Portugal agora, mas ainda tenho o studio com obras no Butantã.”

Fernanda Eva é artista plástica formada em pintura pelo “Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo” 1996, e “história da arte” na FAAP 1996 – São Paulo. É mestra em poéticas visuais pela ECA – Universidade de São Paulo (2011). Seu mestrado fala da sua produção de obras com a temática do paraíso. Nos anos de 2015 e 2016 fez residência artística em Portugal onde desenvolveu a temática dos azulejos portugueses com seus animais, monumentos e personagens típicos. De volta ao Brasil desenvolveu a serie com azulejos portugueses no Brasil e animais brasileiros. Em 2017 fez residência em Paris e em 2018 fez residência na Dinamarca no ateliê Debora Muskat. Atualmente está pintando em Monchique, vila portuguesa no Algarve, Portugal, no atelier da Porca Preta.

Contatos:
ww.facebook.com/fernanda.eva
ww.instagram.com/fernandaeva7
contato@fernandaeva.com
WhatsApp: (11) 9 9631-1317
www.fernandaeva.com

Sol negro

Acordar é voltar a ser,
re-acender num escuro cúbico;
e os primeiros passos que dou
em meu re-ser são inseguros.

Re-ser em tal escuridão
é como navegar sem bússola.
Eu a tenho, ali, a meu lado,
num sol negro de massa escura:

que é a de tua cabeleira,
farol às avessas, sem luz,
e que me orienta a consciência
com a luz cigana que reluz.

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “Crime na calle Relator ; Sevilha andando”, Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2011

Tetê Fernandes: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

Tetê Fernandes

Mãe, esposa e artista!: “Meu nome é Terezinha Irani de Oliveira Fernandes Rodrigues, conhecida como Tetê Fernandes. Sou artista plástica há mais de 15 anos e pinto com a boca, por conta de uma deficiência de nascença que chama artrogripose múltipla congênita, que afetou meus membros inferiores e superiores. Tenho 40 anos com muito orgulho, sou casada e tenho quatro filhos lindos, carinhosos, bagunceirinhos, mas qual criança não é assim, não é mesmo!? Consigo conciliar bem e ter o tempo para cada função: de mãe, esposa, dona de casa e artista. Feliz com minha vida agitada. Estou na Associação dos Pintores com a Boca e os Pés desde 2008 e sou muito feliz por fazer parte dessa família de artistas do mundo inteiro. Sou muito grata por ver minhas obras rodando o mundo. Hoje em dia desenvolvi outra técnica de pintura, pois com o descobrimento da asma tive que optar pelo lápis de cor para não fazer mal. E deu certo! Hoje consigo um resultado tão bom quanto a pintura com tinta a óleo. Vejo que estou melhorando a cada dia e não pretendo parar de pintar com lápis.”

👨🎨 Artista plástica da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Lápis de cor
Título da obra: “A dama da arte”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.

Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
apbp@apbp.com.br
www.instagram.com/tetefernandes.apbp
https://apbp.com.br/home

17

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte –
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz: “Esses Verdes são todos meus!”

Emily Dickinson (Amherst, Condado de Hampshire, Massachusetts, Estados Unidos, 10 de dezembro de 1830 – Amherst, 15 de maio de 1886). In “Loucas Noites – 55 poemas” (Wied niglis – 55 poems), tradução e comentários de Isa Mara Lando, Barueri – São Paulo: Disal Editora, 2010

O marginal Clorindo Gato (Trecho final)

Detalhe da capa do livro criada por Oscar Niemeyer

Grandes máquinas desbravam
a selva densa. Operários
encontram em dois lugares
o mesmo quadro radiante:

um lírio florindo pleno,
outro em plena floração
e em volta aos dois o esplendor
de sublime claridade.

Era no fundo da mata
e até no fundo da noite
os lírios resplandeciam
criando, em círculo, a aurora.

Emocionados correram
espalhando a estranha nova.
Nem os mais sábios sabiam
daqueles fatos longínquos.

As mais díspares versões
circularam pelo vídeo,
umas contando de um deus
que se perdera na Terra,

do diabo outras falando
e de suas diabolices.
Interpretações científicas,
herméticas, passionais,

sucediam-se, enredavam-se
sem que os doutores achassem
uma explicação plausível
para o botânico fato.

Um simples trator esmaga
os lírios luminescentes.
Os arranha-céus cresceram,
nasceram novas crianças,

vieram outros marginais,
outros iníquos eventos,
resignações e protestos,
e não se falou mais nisso.

Clorindo Gato

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “O marginal Clorindo Gato”, coleção depoimentos, 2º. volume, Rio de Janeiro: Avenir Editora, 1978