Destaque

Papoilas em outubro

***

Sobrevivi a minha própria morte
sobrevivi
como um corpo sem comando
como um corpo desmembrado
cabeça decepada flutuando
na vaga escuridão indefinida
que a minha voz limita
e separa
em dois círculos concêntricos
dois espelhos
refletindo opostamente distorcido
o espaço enclausurado do meu canto
meu corpo sem fronteiras
ocupando pouco a pouco a escuridão
da morte indiferente que me cerca
e da verdade neutra que eu encerro.

***

da minha voz recebo só o eco
como da voz dum ser que já passou
ou não chegou
ou reside unicamente
no negro centro amorfo
onde a paixão indecifrada
que procuro definir
se bifurca
germinando a morte e o nascimento
no ciclo transitório dos destinos.

***

Não é o bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a preze como o início dum caminho.
Não é o bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
por já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

Hélder Malta Macedo (Krugersdorp, África do Sul, 30 de novembro de 1935) é um poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário português

Aparências

De Chirico pinta a ausência
com minúcia na sua representação
um trem percorre a tela
e sua fumaça é luto no espaço

a arquitetura é pura geometria
mas a torre é uma torre
e seu volume avulta-se
sobre a praça

o mundo é um plano de fuga
e na planura habitam vazios
nos horizontes e nas perspectivas
reina solidão

tudo na tela é enigma
mistério que desmancha o real
tudo existe
e tudo não existe

o trem em movimento
move-se
como um relógio parado
porque o tempo e o movimento são vertigens

De Chirico pinta a memória
e sua cartografia
estabelece o contorno insular
das coisas e dos seres

tudo é ancestral
diante da fragilidade da existência
assim o remoto se faz presente
no espelho que reflete a eternidade

Fabio Magalhães (São Paulo, 5 de novembro de 1942) – Fábio Luiz Pereira de Magalhães é museólogo, crítico de arte e curador. Estudou história da arte no Masp e na FAAP. Frequentou também o Instituto de Arte e Arqueologia em Paris. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ex-curador chefe do Masp, secretário da Cultura do Município de São Paulo, presidente da Embrafilme, presidente da Fundação Memorial da América Latina e curador de Bienais de Artes Visuais do Mercosul em Porto Alegre

Marc Chagall

Voa um sonho e povoa o ar
a noiva viaja nas asas
de um galo vermelho
e ganha um beijo no céu

o bode flutua enquanto
um rabino atravessa a rua
bem perto há uma mulher nua
o dia evapora-se ao som do violino

Chagall pinta sua aldeia de memória
e revela a intimidade corriqueira
bom rabino e velho bode

a vida é refletida no espelho
ele sabe – tudo é desejo

as flores são sempre sensuais
as flores abrigam casais

na pintura tudo pode

Fabio Magalhães (São Paulo, 5 de novembro de 1942) – Fábio Luiz Pereira de Magalhães é museólogo, crítico de arte e curador. Estudou história da arte no Masp e na FAAP. Frequentou também o Instituto de Arte e Arqueologia em Paris. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ex-curador chefe do Masp, secretário da Cultura do Município de São Paulo, presidente da Embrafilme, presidente da Fundação Memorial da América Latina e curador de Bienais de Artes Visuais do Mercosul em Porto Alegre

Hebert Teodoro Silva: Em viagem pelo sertão, roceiro…

Conhecido por Beto ou Mineiro, Hebert é um talentoso e sensível fotógrafo paulistano, residindo atualmente em Maceió, AL, e diz: “Viciado no clique mágico de uma foto! Nascido mineiro de BH, Brasil.”

Fotos: “Y si esto fuera poco” (Citando o músico e poeta cubano Silvio Rodriguez), “Na lida…” e “Do fundo do meu coração (em referência à Emicida, rapper)”

Contatos:
www.instagram.com/hebertteodorosilva
WhatsApp: (11) 9 9166-6451

Jornal “Folha de Ourinhos” – 30 de agosto de 2009: Recordando…

José Carlos Neves Lopes foi bacharel em direito, historiador, jornalista, professor e criador do blog “Memórias ourinhenses”. Ele escreveu para este jornal de Ourinhos, SP, esta crônica sobre meu pai intitulada “O farmacêutico Edmundo de Oliveira Matosinho” que originalmente havia postado, tempos antes, em seu blog (Link abaixo).

Neves Lopes foi amante da música clássica, do jazz e da música popular brasileira e norte americana dos anos 1930 a 1970, e sempre zelou pela valorização e preservação da história e da natureza da cidade de Ourinhos. Nesse blog ele e se concentrou na divulgação das fotos de seu pai, o ferroviário Francisco de Almeida Lopes.

Esse jornal me foi enviado pelo correio por meu saudoso primo José Ângelo Silva (Fordinho).

“O farmacêutico Edmundo de Oliveira Matosinho”