Destaque

Páscoa: Sempre é tempo…

A Páscoa é tempo de renascimento, reconciliação e esperança. Por isso vamos recomeçar com fé, com coragem, celebrar com nossos corações alegres e com nossos sorrisos se abrindo de felicidade. Cristo vive! Desejamos que essa seja uma época de celebração, paz e comunhão entre todos.

Equipe da Galeria Pontes

#artepopular #artepopularbrasileira #galeriapontes #zebezerra #pascoa #felizpascoa

Living

Champanhe
no máximo pérolas
nada que ameace a tua nudez
nem os vidros que revelam
em claro, a noite.

Acesas
a luz, as flores no vaso
acusam a cor que vai doer
sem poder dormir
até que se debruce e desmaie
e o traço do perfume
seja mais lembrado que sentido.


com a imaginação
e os elementos da paisagem
que te elaboram, por escrito:
leque de céus que o dia
vai abrindo, nuvem de montanhas
viva e esferográfica lagoa
sem nada de mar
que não chegou ainda
para salgar e molhar
com outra água
a boca de água doce.

28.2.1998

Armando Freitas Filho (Rio de Janeiro, 1940 – 2024). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Noite encantada

Na Páscoa Solidária da Bibli-Aspa & Cacau Show passada com as crianças residentes em ocupações da Avenida Rio Branco e da Aclimação em companhia com os tradicionais coelhinhos e os 40 motociclistas do grupo “Insanos”.

Fotos: Tiago da Silva (@tiago_historiarte)

📷 Fotógrafo de Rua, retratos e fotodocumentário.
📔 Escritor, dramaturgo e professor de História
Autor do Livro: Pequenas Cotidianeidades

Estética da recepção

Turris eburnea.

Que o poeta brutalista é o espeto do cão.
Seu lar esburacado na lapa abrupta.
Acolá ele vira onça e cutuca o mundo com vara curta.
O mundo de dura crosta é de natural mudo,
e o poeta é o anjo da guarda do santo do pau-oco.
Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada, mija em leque no ururu, malocado na cruz da encruzilhada. Cachaça para capotar e enrascar-se em palpos de aranha. Ó mundo
de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas, serpes, serpentes,
já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre, carrega antenas de gafanhoto mas
não posa de profeta:
“Ó voz clamando no deserto”.
Pois eu, pitonista, falo que ele não permite que sua pele crie calo
dado que o mundo é de áspera epiderme
como a casca rugosa de um fero rinoceronte
ou de um extrapoemático elefante
posto que
nas entranhas do poema os estofos do elefante ainda são sedas e delicadezas e carências de humano paquiderme. É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco.
Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco.
Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez como um faquir que come sua própria fome e, sem embargo, destituído
quiçá do usucapião e usufruto do tino com a debandada de qualquer noção de impresso
prazo de jejum. Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez.
Sem fanfarras, o vazio não carece delas.

Waly Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 – Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

O mirante

Tarde de ouro brilhando
Nas vidraças, sol de puro êxtase,
À peregrina luz dourada, no mirante
Que se projeta ao ar, como uma ave
Pousada nos telhados, sobre a praça.

No peitoral em brasa, nos esconsos
Portais onde habita o silêncio,
Devoro cada momento, cadela de
Murchas tetas, cega da luz, excessiva,
Babando um uivo longo sobre o mar
Que se precipita na distância e,

Mais além, no horizonte incendiado,
Regurgitam velhas lendas, restos de naufrágio,
Batelões espanhóis, caravelas de proas alongadas,

Surgindo das águas tintas, do encantado perau
Onde habita o improvável.

A cidade mergulha na sombra alaranjada
Que, aos poucos, sobe do golfo imenso
E, suavemente, se espalha
No recorte do Recôncavo, povoado de ilhas.

Conjuração de pombos e de sinos,
A tarde apodrece como um fruto
A repartir-se em gomos nas esquinas.

O que farei agora quando exausto
O coração se inclina para o abismo
E lenta, lentamente, instala-se o conflito?

O tempo colou em minha boca
Sua boca de granito.
Neste mirante, debruçado

Sobre o verde infinito do mar
E torres centenárias,
O passado renasce nas ladeiras
De velhas pedras polidas,

Soturnas transversais
Onde habitam avantesmas
E à noite vêm cantar,
Com goelas roucas, raparigas
De longos véus diafanos e turbantes.

Esculpido pelo vento, o pelouro ressurge,
À luz que vem do ocaso, com argolas
De ferro e marcas no tronco rijo.

Ao estalar do chicote um cheiro ácido
De sangue, de água suja, de cusparada
E mijo, se espalha ao som crescente
De rezas, bruxarias, esconjuros, gemidos.

Na encruzilhada, luz e trevas,
O falo ereto, hierático, ardente
Como um cirio, Elegbá
Se apodera das mulheres,
Perdulário de amor e maleficios.

No adro das igrejas recomeça a litania.

Myriam Fraga (Salvador, Bahia, 9 de novembro de 1937 – 15 de fevereiro de 2016). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

O leque (variações)

I

Linha oblíqua
oculta desoculta
o instante breve
cores exalta
do negro escarlate.
Ela e o leque: a aragem esconde
em poço de sombra
a curva do pescoço
o colo branco.

II

Gesto náufrago
desvela o perfil da beleza
(o leque imita o vento)
e um seio acaricia
no leve perpassar.

III

Silabário da alma
longe leva asas voo
sem nada revelar
do sopro.
É um calado dizer
do muito ou nada
metade encantada
do mistério.

IV

Sublinham os olhos
o leve movimento
do leque. Anunciam
o início ou algo terminado.
Mas o que esperar
do iluminado frêmito?

V

O sim-não do leque
rabisca sobre a face
um sorriso
que escapa.

VI

Ser um leque em suas mãos
ser trêmula pérola
junto ao coração.
Tudo oscila entre sombra e luz.
O leque: ladrão sutil
só deixa o perfil
que seduz.

VII

O que falam se o sorriso
oculta as palavras
e o leque, o sorriso?
Mãos longas
agitam o ar.
Como imaginar
um desenho
de perfis aéreos
(bem talhados)
mas sempre inacabados?

VIII

O leque pousado
no abandono.
Ao lado ela dorme, calma,
e nem sonhar parece.
O leque imóvel: um deus
do instante
negro-cintilante.

IX

Como vê-la se o leque
é ciumento?
O perfil se desfaz
no vento. Alguém o refaz
traço a traço.

Erguem-se os braços
movimento da graça –
devolvendo face,
cabelos, tranças.

Fios dispersos
se entretecem
nas flores despertas
da fronte.

X

A mão segura o leque.
Fundem-se tons de ouro e rosa
na face enigmática
em fragmentos.

Como percebê-lo se o aroma
a esconde em redoma
e o olhar negro brilhe
um só momento?

A música emudece
pequena torna-se a boca
e o esplendor do corpo –
taça de flor única.

Seria o tato possível
no cetim dos braços?
Imagem que o leque inventa
e abandona no ar.

Ou é o leque a invenção
da face semi-oculta?

Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999