Amilcar

A superfície está em
branco.

Eu também.

Se com um gesto eu a toco,
sou tocado.

Aí é quando tem início o
gesto

e eu sou a única testemunha
que jamais poderá mentir.

Amilcar de Castro (Paraisópolis, Minas Gerais,1920 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 2002) foi escultor, gravador, desenhista, diagramador, cenógrafo, professor. A poesia como dobra do pensamento: o gesto que vira palavra. Além de atuae como artista plástico ele também escrevia poemas. Suas palavras, assim como suas formas, nascem do essencial, do corte, do espaço e do silêncio. Em seus poemas Amilcar revela esse mesmo impulso de síntese e clareza que move toda a sua obra: Cada verso é uma escultura invisível: o espaço da página se torna matéria, e o gesto, linguagem. A poesia, em Amilcar, é mais uma forma de construir o mundo com precisão e silêncio

Onze hai-kais de Millôr Fernandes

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen (…)

Millôr Fernandes

Morta, no chão,
A sombra
É uma comparação.

*

Se o cão é uivante
A Lua vira
Quarto minguante.

*

Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.

*

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

*

Pensa o outro lado:
só quem tem fama
É difamado.

*

Maravilha sem par
a televisão
Só falta não falar.

*

Tem cautela;
Ajuda o sol
Com uma vela.

*

A alegria
É toda feita
De melancolia.

*

Vida rural, senhor,
É ver vacas
Na tevê em cor.

*

Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.

*

O mundo agoniza.
Querem retificar
A Torre de Piza!

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012). In “Hai-kais”. Porto Alegre: L&PM, 1997. (Coleção L&PM/ Pocket)

I-Juca-Pirama (Parte final)

O título desta poesia, traduzido literalmente da língua tupi, vale tanto como se em português disséssemos “o que há de ser morto, o que é digno de ser morto”.

Gonçalves Dias

X

Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!”

“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.

“Eu disse comigo: que infâmia d’ escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”

Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”

Gonçalves Dias (Caxias, Maranhão, 10 de agosto de 1823 – Guimarães, Maranhão, 3 de novembro de 1864). In “I-Juca-Pirama e Os Timbiras”, Porto Alegre : L&PM, 1997. (Coleção L&PM Pocket)

Meu livro de cordel / A procura

Pelo amor que tenho a todas as estórias e poesias de Cordel, que este livro assim o seja, assim o quero numa ligação profunda e obstinada com todos os anônimos menestréis nordestinos, povo da minha casta, meus irmãos do nordeste rude, de onde um dia veio meu Pai para que eu nascesse e tivesse vida.

A procura

Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino –
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.

Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985). In “Meu livro de cordel”, São Paulo: Global, 2002

A pintora Clarice: Imagens que buscam a alma (Do livro: “Pinturas” de Mendes de Souza)

Produção das pinturas pode ser circunscrita a um segmento mais ou menos localizável no tempo. O conjunto mais significativo dos quadros de Clarice foi produzido no ano de 1975, o que pode ser confirmado pela leitura das datações, quando tal especificação ocorre. Dos 17 quadros depositados no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, 15 apresentam a referência a esse ano e dois deles não estão datados.
Um dado que deve ser destacado é o fato de quase metade destes quadros explicitarem o mês de maio no lugar da datação:
“Cérebro adormecido” – 13 de maio de 1975
“Eu te pergunto por quê?” – 13 de maio de 1975
“Perdida na vaguidão” – 13 de maio de 1975
“Tentativa de ser alegre” – 15 de maio de 1975
“Medo” – 16 de maio de 1975
“Luta sangrenta pela paz” – 20 de maio de 1975
Sem título] figuração do yin e yang, em fundo preto – s/d. No verso deste quadro aparece uma dedicatória a Olga Borelli com a data de 28 de maio de 1975. Pode-se colocar a questão da possível não correspondência entre a data da dedicatória e a data da feitura do quadro. De qualquer forma é significativa a oferta neste mês de maio, o que nos levará a pensar que a pintura terá sido de fato executada na mesma ocasião que as outras.

Clarice Lispector definiu a arte de forma marcante em sua crônica “O artista perfeito” (publicada em 1969): “Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação.”

Carlos Mendes de Sousa é professor de literatura brasileira na Universidade do Minho, Braga, Portugal. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a estudar a obra de Clarice Lispector, e com o livro “Clarice Lispector. Figuras da escrita” (2000), conquistou o Grande Prêmio de Ensaio da APE. O ato de pintar, mais uma faceta pouco conhecida da escritora Clarice, vem a público nesses escritos. Grande admiradora das artes, Lispector tinha especial interesse pela pintura, conviveu com diversos artistas e produziu suas próprias pinceladas, cerca de 20 delas reproduzidas neste livro citado acima. “A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis”, afirma Sousa, que reflete sobre a obra da escritora à luz de sua relação com a pintura. In “Clarice Lispector: pinturas”, Rio de Janeiro: Rocco, 2013

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