Destaque

O Dia das Mães está aí…

O Dia das Mães está aí: Que tal presentear com arte popular e artesanato nesse 10 de maio?

Odon Nogueira – Goiano conhecido e admirado por suas obras em terracota

João Julião – Mineiro de Prados e irmão de Itamar, faz com maestria bichos e santos

Etnia Yanomami – Esse povo que vive em Roraima produz uma bela cestaria indígena

J. Borges – Célebre xilogravurista e cordelista de Bezerros, PE, com temas ligados ao povo nordestino

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Minha cidade, em janeiro

O que minha cidade tem de mais pulcro e legítimo é o rosto da moça atrás do vidro fumê do 18º andar do edifício da companhia de investimentos (1). O rosto aparece às 17h55min, de segunda a sexta, quando ela espia a calçada antes de bater o cartão de ponto no relógio. O namorado da moça tem uma moto de milhões de decibéis e faz tantas loucuras no cruzamento da avenida que, em certos momentos, parece que vai bater as asas de metal e se transfigurar num anjo barbudo e entrar no bairro do Paraíso, para tomar um sorvete de tutti-frutti com duas casquinhas (2).

O que minha cidade tem de mais operoso e legítimo é o crioulo de capacete ocre que enfia a ponta do martelo mecânico na viga de concreto e rompe o útero da Rua das Palmeiras, onde corre um braço subterrâneo do Metrô. O capacete do crioulo lembra um sol boiando no suor da cara e, quando a tarde cai, o capacete fica de riba como porongo decepado em cima do balcão, enquanto o garoto do bar serve um traçado ao som do liquidificador.

O que minha cidade tem de mais vetusto e legítimo é o fantasma do coronel Arouche que guardou suas emas, jaçanãs, pacas e bacamartes na arca do passado e transita incógnito e invisível por entre as mesinhas de pinguços e desesperados com olhos cor de quitinete. O coronel Arouche por hábito arrasta as botas sujas de lama do tempo em que o Anhangabaú dava curimbatá e a cidade tinha pontes de madeira, onde hoje ficam os Correios e Telégrafos. O coronel Arouche é transparente e se encontra com o brigadeiro Tobias na sacada solitária do prédio Martinelli nas noites de lua e garoa.

O que minha cidade tem de mais amargo e legítimo é o corpo em decúbito dorsal, ainda não identificado, coberto com a última página do vespertino (3), e um pára-choque de jamanta com tinta fresca vermelha: cuidado, não encostar que é sangue.

O que minha cidade tem de mais imperceptível e legítimo é o violino que toca de manhã cedo na Rua Conselheiro Furtado tangido por um chinês de Formosa que vende penas de nanquim na Liberdade e escreve, em hieróglifos, poemas para um velhinho de barba fina que tem 98 anos, nasceu em Kioto, e adora doce de feijão, peixe cru e forró.

O que minha cidade tem de mais pardo e legítimo são os paquidermes dos edifícios que ressonam rente ao Minhocão e cujo pescoço alado se atira sobre Santa Cecília, Bexiga, Vila Buarque, até esmorecer diante da torre de São Geraldo das Perdizes.

O que minha cidade tem de mais acordado e legítimo é o Ponto Chic, onde a Polícia, a malandragem e a boemia confraternizam e meditam sobre a glória passageira das valentias, dos sanduíches e do chope gelado.

O que minha cidade tem de mais revolucionário e legítimo são as conversas fiadas dos bares de Vila Madalena, onde um garçom de vanguarda bolou uma perfeita bomba de efeito retardado com meia dose de dor-de-cotovelo, algumas gotas de amargo, dois dedos de esperança disfarçada, e alegria q.s.p. encher o coração.

O que minha cidade tem de mais álacre e legítimo é o alarido dos mochileiros, flautistas, barraqueiros e fugitivos no Terminal Rodoviário do Jabaquara (4), ao dizerem adeus no sábado de manhã, em busca do mar do Sul, e voltando domingo à noite tostados de cerveja, sol, areia e mariscos, até empalidecerem outra vez no cotidiano das lojas, armarinhos, butiques, bancos e guichês.

O que minha cidade tem de mais fácil e legítimo é esta disponibilidade para aceitar as coisas como são – a vida e a morte – e concluir que tudo é possível: sardas, celulite, bronze, paralelepípedo, cartório de protesto, bala perdida, impropérios, maldições, arrependimentos, conversões, penitências, desuniões definitivas, casamentos eternos, bodas de ouro, tombos, porões, amizades, ervas medicinais, macumbas, crediários, a estátua de Anchieta, o Pátio do Colégio, os mascateiros da General Carneiro, o lauspereneem Santa Ifigênia, os sinos de São Bento, e o sol no merídio iluminando colarinhos sociais.

Bazar de coisas, caos e golfo, cartão-postal da pressa, porto de ternuras, buquê de pamplonas, angélicas, azaléias, fuligens e augustas, moquifos e tugúrios, campeonato mundial entremeado de pernetas e fraturas, solidões cercadas de risos e de festas, macarronadas infinitas, pizzas, chaminés e a via-láctea de fumaça corrigindo as estrelas verdadeiras.

Mas, por fim, eu revelo: o que esta cidade tem mesmo de mais fiel e legítimo é o amor e a raiva deste amante anônimo, quando a cidade finge não me ver no meio do povo que a habita (5).

Notas: (1) O narrador-repórter atenta para o banal, foca fatos efêmeros – (2) Usa o humor para provocar o leitor a recuperar sua capacidade crítica – (3) O narrador-repórter dá mais importância aos fatos do que às personagens – (4) Os fatos acontecem aos excluídos que “se equilibram nos muros da vida” – (5) Cenário urbano paulista.

Comentários: A base de suas crônicas é o cenário urbano paulista. O cronista percorre sua cidade, observa e recolhe fatos, e transforma seu texto num testemunho do nosso tempo. Como narrador-repórter atenta para o banal, foca fatos efêmeros que dificilmente se repetirão e acrescenta emoção à reportagem, envolve-se na narrativa, levando consigo o leitor. Dá mais importância aos fatos do que às personagens. Na maioria das vezes, esses fatos acontecem aos excluídos, àqueles que “se equilibram nos muros da vida”, e também nas relações entre as classes dominantes e dominadas. O humor não é uma ferramenta para aliviar a tensão dos textos, mas para provocar o leitor a recuperar sua capacidade crítica, sua capacidade de indignar-se. Assim, provoca nele o riso irônico, de indignação, em vez do riso de deboche. Por meio da brincadeira tenta superar a realidade amarga. Para variar a estrutura de seus textos, usa formas que se aproximam da poesia ou da fábula. (Por Alexandre F. Gennari)

Lourenço Diaféria (São Paulo, 28 de agosto de 1933 – São Paulo, 16 de setembro de 2008) foi um contista, cronista e jornalista brasileiro. In “A morte sem colete” e notas e comentários vindos do livro “A Crônica”, estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, Editora Ática – Série Princípios

Amo-te por sobrancelhas

Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

Julio Cortázar (Ixelles, Bélgica, 26 de agosto de 1914 — Paris, França, 12 de fevereiro de 1984)

Cadê

Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!

José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998). In “Baú das histórias e poemas “. Poesia infantil, blog educacional de Ivanise Meyer, professora da Rede Municipal do Rio de Janeiro desde 1988, graduada em Ciências Biológicas, com pós-graduações em Educação Infantil

Despertando

Te quiero, ven! si acaso de la neblina
Del sueño puedes deshacer sus formas,
Si no eres sueño tú, si despierto
Puedo tocarte, sombra peregrina!

Con el mismo rostro pálido y apenado,
La sonrisa triste en la boca purpurina,
Con todo eso en fin, de aparicion divina,
Irrumpe de la niebla, tierno bulto amado!

Encarnate! aparece! surge! acude!
Y el cabello de mi frente, ondeante y oscuro,
Lleno de rocíos, húmedo, sacude;

Pero si te duele pisar este funesto
Suelo espinoso que yo piso, imagen pura,
Continúa apareciéndote en mi sueño.

Alberto de Oliveira (Saquarema, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1857 — Niterói, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1937), farmacêutico, professor e poeta. In “Textos en español”, traducción de Adán Méndez