Destaque

Il Guarany

A ópera “Il Guarany” (O Guarani), de Antônio Carlos Gomes (Campinas, São Paulo, 11 de julho de 1836 – Belém, Pará, 16 de setembro de 1896), foi composta originalmente em italiano com libreto de Antonio Scalvini (1835-1881) e Carlo D’Ormeville (1840-1924), não possuindo uma “letra de canção” popular no sentido tradicional. Sua parte mais famosa é a “Protofonia” (a abertura instrumental), frequentemente associada a versos patrióticos adaptados posteriormente, como o canto escolar “Do sol aos raios fúlgidos…”. Estreada em Milão em 1870, baseia-se na obra “O Guarani”, romance homônimo de José de Alencar (Fortaleza, Ceará, 1.º de maio de 1829 — Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1877).
No dizer de Leonardo Marques, nascido em 1979 e formado em letras, em um longo artigo publicado no site “Notas Musicais” e intitulado “Na tempestade ‘Guarani’, trovejou e não choveu”, ele afirma que uma das produções dessa ópera, ocorrida no Theatro Municipal de São Paulo de 12 e 14 de maio 2023, com direção musical de Roberto Minczuk e direção cênica de Cibele Forjaz (com base em concepção de Ailton Krenak), “paira em alto grau no imaginário brasileiro: guarda certa mística, talvez pela enorme popularidade dos acordes iniciais da sua abertura, conhecida no país inteiro por meio do programa radiofônico “A voz do Brasil”; talvez pela dimensão alcançada em sua estreia mundial (1870) no mítico Teatro alla Scala, de Milão, onde obteve grande sucesso. Por quaisquer que sejam os motivos, “Il Guarany” é um grande marco para a música brasileira.” E acrescenta que “A literatura teve um papel fundamental na elaboração e na circulação de uma mítica atrelada às origens do Brasil, nas décadas subsequentes à sua independência, assim como a ópera italiana cooperou no esforço de unidade nacional daquele país. No Brasil, as diretrizes formuladas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foram seguidas com afinco pedagógico por José de Alencar na elaboração do romance indigenista “O Guarani” (1857).
A história se passa num rincão do Rio de Janeiro no princípio do século XVII. Seus protagonistas são Peri, um indígena do povo Goitacás (que, a propósito, não pertencia à etnia Guarani), e Cecília (ou Ceci), mocinha cândida filha de um dos próceres da nação, Dom Antônio de Mariz, fidalgo português que participara da fundação do Rio de Janeiro. Peri salva Ceci dos Aimorés e se apaixona por ela tal e qual um cavaleiro medieval. A tópica e os traços dos personagens remetem a esse modelo anterior de abnegação e entrega, que culmina, no livro de Alencar, na cristianização de Peri e na fuga de ambos, no interior de um frágil bote em meio a ondas bravias – a mítica da fundação da nacionalidade segundo Alencar constrói-se aí, entre esse indígena europeizado e a brasileirinha filha de europeus, tendo como lume o Deus do cristianismo.
Outro par romântico da história, que também coloca em movimento o ideário de nação defendido por Alencar, é a mestiça Isabel, filha bastarda de Dom Antônio, e Álvaro de Sá, antigo apaixonado de Ceci, cavaleiro e capataz do fidalgo – casal este que sucumbe tragicamente também segundo a tópica dos romances de cavalaria: ele morre em combate, o que a leva ao suicídio. Na economia da obra, esta jovem descrita como amorenada e sensual, filha de uma indígena, também não poderia restar para compor o ideário de nação almejado. Pregava-se, então, o completo apagamento do elemento negro, e mesmo o mestiço era repudiado: naquela época, vigorava um pseudo-cientificismo segundo o qual o branco ocupava o topo da escala evolutiva; o preto, a sua base; e a mestiçagem levava invariavelmente à degenerescência. Por isso Peri é um indígena com tantos traços físicos e psicológicos europeus.”
E conclui dizendo “Sucesso europeu, essa ópera de Carlos Gomes participa de uma tradição operística vicejante, que desenha os caracteres de forma tipificada – Ceci é a mocinha frágil, e Peri, o seu herói –, impregnando-lhes da substância mais fluida e profunda que existe, a música (e de sua contraparte, o canto). Nós, o público, somos levados de roldão por essa tempestade de música de moldes italianos (embora composta por um brasileiro) que dilui a personagem de Peri de forma ainda mais contundente do que fizera José de Alencar.”

Leonardo Marques é pós-graduado em língua italiana, participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site “movimento.com” entre 2004 e 2021

Importante lembrar que em setembro próximo teremos em Campinas e região o “Mês Carlos Gomes”, celebrando 190 anos de nascimento e 130 anos de morte do compositor campineiro e o legado desse maestro e visando aproximar a população de sua obra e trajetória. Essa cidade preparou uma programação especial para celebrar a trajetória de Antônio Carlos Gomes, um dos maiores nomes da música brasileira e figura de destaque na história cultural da Princesa d’Oeste. A agenda estará repleta de ações culturais, musicais e educativas e reunirá concertos, passeios turísticos, apresentações e iniciativas voltadas à preservação e à difusão da obra e da memória desse músico, reforçando a importância de Carlos Gomes para a identidade cultural dessa importante cidade do interior paulista.

Destaque

Gejo, O Maldito no CCSP

Monográfica Gejo, O Maldito – “Enxame”

Hoje, dia 22/07, pela manhã, Gejo, O Maldito escreveu dizendo que novamente a exposição foi prorrogada até dia 30 de agosto e de que, nesses 5 meses em cartaz e com sucesso, o livro de assinaturas já teve suas 100 páginas esgotadas. E ele está preparando outro…

O programa Monográfica, da Curadoria de Artes Visuais – ciclo de exposições individuais dedicado à reflexão sobre a produção contemporânea brasileira – apresenta, a cada edição, um recorte consistente da trajetória de artistas em
atuação desde a virada do século XXI. Nesta edição,destaca-se a obra de Gejo, O Maldito, artista cuja formação se dá na experiência direta da rua, herdeiro e agente da tradição da arte urbana no Brasil.
Artista visual, grafiteiro, arte-educador, designer e editor, Gejo, O Maldito (acrônimo de Geovaldo José), desenvolve uma produção marcada pelo movimento Hip Hop e pela cultura do estêncil no graffiti brasileiro, introduzido pelo precursor Alex Vallauri. Além do traço livre nas suas figuras estilizadas, silhuetas em cores sólidas e contornos acentuados, que tem uma aproximação com Keith Haring, sua obra tem principalmente no estêncil sua matriz técnica e conceitual. A partir dessa matriz, Gejo, O Maldito expande seu repertório visual para múltiplos, serigrafias, gravuras e estampas, povoando assim seus “seres das ruas” em diferentes suportes. Elementos industrializados, como rendas e padrões decorativos, são apropriados e convertidos em estênceis, recobrindo pictoricamente sua iconografia dita marginal, combinada de figuras-texturas, como na série de pinturas sobre madeira ou tela em que suas figuras e fundos adquirem diferentes padronagens.
O popular, o coletivo, o massivo, a crítica e o humor constituem eixos centrais de sua poética. Em sua obra, a crítica social e ecológica emerge por meio da escolha deliberada do que é considerado menos nobre. Suas figuras humanas — os “peoples”, como o artista denomina — formam multidões anônimas, silhuetas de corpos sem rosto, aglomerados que evocam ao mesmo tempo vulnerabilidade e resistência. Da classe dos animais, não aparecem espécies domesticadas ou idealizadas, mas urubus, gambás, tatus, lacraias, cobras, lagartas e outros invertebrados — presenças marginalizadas que tensionam hierarquias simbólicas.

Nesta edição do programa “Monográfica”, da Curadoria de Artes Visuais, o destaque recai sobre a obra de Gejo, O Maldito, artista cuja formação se dá na experiência direta da rua, herdeiro e agente da tradição da arte urbana no Brasil.

Sua produção é marcada pela cultura Hip Hop e pela cultura do estêncil no graffiti brasileiro. A exposição organiza-se em cinco segmentos principais — “Pixador”, “Peaples”, “Animais Marginais”, “Motivos Votivos” e “Motivos de Encanto” — que evidenciam recorrências e desdobramentos de sua pesquisa.

“Quer ver um pouco do Suco do final dos anos 80 e começo dos anos 90?
Venha e traga a família! Vai ser lindo conhecer a nova geração 2020’s.
Enxame. Dia 27.03.2026, às 18 h.
Vai acompanhando a saga nas redes.”

Gejo, O Maldito

Serviço:

27/3 a 21/6
Monográfica Gejo, O Maldito – “Enxame”
Abertura: 27/3 (sexta-feira) às 18h
Terça a domingo, 10h às 20h
Piso Flávio de Carvalho
Classificação indicativa: Livre
Grátis, sem necessidade de retirada de ingressos

Centro Cultural São Paulo | Rua Vergueiro, 1000 – CEP: 01504-000 – Paraíso, São Paulo – SP

Gejo, O Maldito – Artista, empresário, mediador de conflitos, empreendedor em economia solidária e hip hoper.

Nasceu em Seabra, na Bahia, em 1976, mas aos três anos mudou-se para São Paulo. Ingressou no graffite, hip hop e stencil no meio dos anos 90 e popularizou o graffiti e o hip hop nas escolas públicas. Massificou o termo arte/ educação, participou das ONG’s mais relevantes de São Paulo; expôs em escolas, bibliotecas, museus, galerias e exposições nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Canadá, Bélgica, Cingapura e Itália.

É criador da marca de “Hip Hop 9370”, editor da revista Arte na Ruas e criador do evento “Free Art Fest”. Atualmente é proprietário do ponto cultural Elo Perdido e da Free Art Agency, que é uma empresa de artistas brasileiros que realiza oficinas, palestras, presta assessoria para assuntos de Street Art, produz ações artístico-culturais para galerias, espaços culturais, ONGs, Estados e empresas. Suas obras refletem as relações humanas nas áreas das questões ambientais, sociais, educacionais, políticas com tons de humor e muitas vezes de críticas com denúncias sociais.

Foi o idealizador do projeto do Centro Cultural Sítio do Tatu Amarelo, em Seabra (BA), que terá cursos de alfabetização de adultos, informática, biblioteca, cinemateca, oficinas de arte, além do amparo aos animais machucados e um jardim com diversos exemplares de plantas.

Contatos:
www.facebook.com/gejone
www.instagram.com/gejothecreator
9370hq@gmail.com
WhatsApp: (11) 9 9388-4069

Para pensar

Esta famosa frase é de Karl Marx (Tréveris, Renânia-Palatinado, Prússia, Confederação Germânica, 5 de maio de 1818 – Londres, Inglaterra, 14 de março de 1883), presente na introdução de sua obra “Contribuição à crítica da economia política” (1859). Ela resume o método dialético para compreender a realidade. Ponto de partida real vs. ponto de partida no pensamento: Na vida real, o objeto ou a sociedade já existem de forma completa e complexa (o concreto real). Porém, quando começamos a estudar esse objeto, nossa mente a princípio só capta impressões vagas ou caóticas. Para entender o real, o pesquisador precisa isolar partes, conceitos e relações (as determinações abstratas). Por exemplo, na economia, separa-se o valor, o trabalho, o dinheiro e o mercado. O conhecimento verdadeiro não fica apenas nos pedaços isolados. Ele reconstrói o objeto na mente, juntando todas essas peças interligadas. O resultado final — o concreto pensado — é a união rica e complexa de múltiplos conceitos que explicam como o todo funciona de verdade.

Nas águas do tempo (Trecho)

Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
– Mas vocês vão aonde?
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
– Voltamos antes de um agorinha — respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta tora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “A menina sem palavra / histórias de Mia Couto”, 1° ed., São Paulo: Boa Companhia, 2013. Filho de imigrantes portugueses, nasceu numa das cidades mais afetadas pela guerra civil moçambicana (1976 a 1992). Aos catorze anos, publicou seus primeiros poemas no jornal “Notícias da Beira”. Estudou medicina antes de se formar em biologia e atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental, além da literatura. Na década de 1970, foi repórter de “A Tribuna”, na capital, Maputo. Trabalhou ali por um ano, até o jornal ser fechado por forças opostas à independência. Tornou-se batalhador pela libertação de seu país. E um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance “Terra sonâmbula” foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Em 2013, ganhou o Prêmio Camões, conhecido como a mais importante premiação da língua portuguesa

Postagem dedicada à Renato de Azevedo, da Loja Hier – Antiquário, localizado na Rua Vitorino Carmilo, 664 – Barra Funda, São Paulo, que mui gentilmente me presenteou com essa edição

Receita de tacacá

Ponha, numa cuia açu
ou numa cuia mirim
burnida de cumatê:
camarões secos, com casca,
folhas de jambu cozido
e goma de tapioca.
Sirva fervendo, pelando,
o caldo de tucupi,
depois tempere a seu gosto:
um pouco de sal, pimenta
malagueta ou murupi.
Quem beber mais de 3 cuias
bebe fogo de velório.
Se você gostar me espere
na esquina do purgatório.

Luiz Bacellar (Manaus, 4 de setembro de 1928 – 9 de setembro de 2012) foi considerado um dos poetas mais expressivos da literatura amazonense e ganhou com seu livro de estreia intitulado “Frauta de barro” o Prêmio Olavo Bilac laureado pela prefeitura do Rio de Janeiro. Esse poema ensina o leitor a fazer o tacacá, uma refeição típica da região amazônica

A pintura brasileira na cultura popular: uma amostra

Trazendo um pouco de arte para nosso “Vivendocidade” apresento o novo vídeo da Galeria Pontes, onde trabalho, que apresenta três artistas de expressão na cultura artística de nosso Brasil. Desses dois são pernambucanos (Samico e Alcides Santos) e um é paraibano (Luiz Tananduba). O único que ainda pinta é Tananduba. Alcides Santos faleceu em 2007 e Samico em 2013. Falarei um pouco sobre seus trabalhos pictóricos.

Para introduzir nada como falar da Arte Popular Brasileira. Ela é bonita, criativa e cheia de vida. Tem um aspecto lúdico que mexe também com jovens e crianças. Encanta e surpreende. E, ao contrário da arte erudita, ela é uma produção espontânea, na qual não sobra espaço para a educação formal ou acadêmica. Quando algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no máximo informalmente com outro artista/ artesão que funciona como iniciador.

Na arte popular há muito mais espaço para a inventividade e para o saber fazer pessoal do que na arte erudita. A imaginação é muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que o artista inventa para resolver os problemas na confecção de sua obra. A arte popular é a viva expressão da criatividade do nosso povo. Através da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo íntima relação entre o real e o simbólico. 

Dos muitos pintores a galeria destaca em seu vídeo três deles:

Samico (1928 – 2013) tem sua produção marcada pela recuperação do romanceiro popular nordestino, por meio da literatura de cordel e pela utilização criativa da xilogravura. Suas gravuras são povoadas por personagens mitológicos e outros, provenientes de lendas e narrativas locais, assim como por animais fantásticos e míticos.

Alcides Santos (1932 – 2007) nasceu na Bahia e mudou-se para Mato Grosso em 1950. Acreditava que a arte era um dom de Deus. Sua pintura reflete a vida do homem, a natureza, o cultivo da terra e da pecuária, nas suas relações mútuas. Suas obras compõem o acervo de importantes museus como MAM – Rio de Janeiro – RJ – Brasil e Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera em São Paulo.

Por fim, temos Luiz Tananduba (1972) que começou a pintar em 1985, com orientação do artista plástico e seu pai adotivo, Alexandre Filho. Sua inspiração vem de uma visão idealizada e subjetiva do povoado de Caiçara, interior do estado, lugar onde cresceu e tomou emprestado seu sobrenome artístico “Tananduba”, um dos sítios da região.

Vídeo realizado pelo jornalista Adriano Ambrosio Nogueira de Sá.

Para maiores detalhes e informações acesse o site da galeria (http://www.galeriapontes.com.br/).

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (21/08/2014)

Postal

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sôr, Portugal, 4 de setembro de 1974). In “Gaveta de papéis”

O livro “Brás, Bixiga e Barra Funda” no ano que vem completará 100 anos

A edição fac-similar da 1ª edição de “Brás, Bexiga e Barra Funda” (1927), de António de Alcântara Machado, lembrando que esse livro foi republicado recentemente pela Editora 34 que resgatou o visual original da primeira edição, que imita o formato e o estilo de jornais das primeiras décadas do século XX.

Escrito pelo modernista Antônio de Alcântara Machado (São Paulo, 25 de maio de 1901 – Rio de Janeiro, 14 de abril de 1935) esse marcante livro fará 100 anos ao longo de 2027, pois os registros históricos apontam apenas o ano de 1927 para a sua primeira publicação, sem uma data ou mês exato documentados. Trata-se de uma coletânea de onze contos curtos que retratam o cotidiano de imigrantes italianos em São Paulo. Passa-se nos bairros paulistanos que dão nome à obra, tornou-se uma das principais referências da primeira fase do Modernismo no Brasil e uma das características dos três bairros é que ambos são muito importante na consolidação do samba paulistano que nesse ano de 2026 atraiu cerca de 17,3 milhões de pessoas para o Carnaval de São Paulo, considerando os blocos de rua e os desfiles no Sambódromo do Anhembi. Paulicéia teve um total de 627 blocos de rua espalhados pela capital e, no Sambódromo, 350 mil espectadores acompanharam os ensaios técnicos e as apresentações dos grupos Especial, Acesso 1 e Acesso 2, gerando um impacto financeiro de R$ 4 bilhões na economia da cidade, mais de 55 mil postos de trabalho (diretos e indiretos) e uma ocupação hoteleira batendo em 59% de reservas registradas durante o período.

Inspirado pela sua leitura e me baseando em pesquisas que fiz de diversas publicações durante a minha fase de assessor parlamentar, entre elas o documento “Índice de bairros“, do Legislativo Municipal de São Paulo; o livro “São Paulo: 450 bairros, 450 anos”, do jornalista Levino Ponciano; o site da Prefeitura Municipal de São Paulo, a Wikipédia, a enciclopédia livre da internet e o Google preparei esse texto. Alcântara Machado fez parte da primeira fase do Modernismo brasileiro e foi um importante escritor de nosso país. Segundo o professor e crítico literário João Ribeiro, “um dos maiores nomes da literatura contemporânea, na feição modernista que a caracteriza. Não é um exagero dizer que é um mestre sem embargo da sua florida juventude. É realmente um mestre na sua arte de observar e dizer. […] O seu método experimental a que não escapa o menor traço psicológico é realmente fora do comum.”

Brás

Esse bairro, cujo aniversário se deu em 8 de junho, teve início na chácara de José Brás, onde, no início do século XIX, foi pedida a edificação de uma capela em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Essa chácara ficava à margem de uma estrada que levava à Penha, com um trecho do caminho conhecido como caminho do José Brás que, depois, passou a ser denominado rua do Brás, conhecida hoje como avenida Rangel Pestana. Situado na Zona Central de São Paulo, nasceu como uma região de chácaras no final do século XVIII e transformou-se no maior polo de comércio de moda do Brasil. O nome do bairro vem de um proprietário de terras português, o negociante José Brás, que morava na região às margens do rio Tamanduateí. Em 1769 (ou 1818, segundo registros paroquiais da época), ele construiu a capela do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Ao redor da igreja, formou-se um pequeno povoado conhecido como a “Paragem do Brás”. No final do século XIX, a chegada dos trens e trilhos mudou a paisagem local, transformando o Brás em um ponto estratégico de passagem de cargas e pessoas. O espaço rural deu lugar a armazéns, oficinas e grandes chaminés de fábricas, atraindo milhares de trabalhadores. O Brás virou o destino principal dos imigrantes italianos que chegavam a São Paulo no final do século XIX e início do século XX. O cotidiano era marcado por cortiços, padarias tradicionais, pequenas oficinas e forte mobilização operária. O bairro inspirou até o famoso samba “O samba do Arnesto”, de Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato (Valinhos, São Paulo, 6 de agosto de 1910 – São Paulo, 23 de novembro de 1982). A partir das décadas de 1930 e 1940, com a seca no Nordeste e a diminuição do fluxo italiano, o Brás passou a receber muitos migrantes nordestinos. Os sotaques, comércios e hábitos nordestinos somaram-se à identidade do bairro. Com o declínio das antigas grandes indústrias, galpões e fábricas foram convertidos em lojas e espaços de confecção. Hoje, o Brás virou um centro de compras e abriga milhares de lojas que atraem sacoleiros, lojistas e consumidores de todo o país em busca de roupas e tecidos no atacado e no varejo.

Bixiga

Este pedaço da Bela Vista chegará em dia 26 de dezembro desse ano aos seus 467 anos de história, como conta Levino Ponciano em seu livro “São Paulo: 450 bairros, 450 anos”. Ele afirma que os primeiros registros referentes ao Bixiga são de 1559. Mostra que na segunda metade do século XVIII o local pertencia a Antônio Bexiga, que fora vítima da varíola, conhecida popularmente por bexiga. Em outra passagem Ponciano conta que o viajante francês August Saint-Hilaire escreveu em seu livro de viagens que a única estalagem da cidade de São Paulo era de um português alcunhado “Bexiga”, e que era imunda. Hilaire fora então pernoitar na Chácara Água Branca, em Pinheiros. O Bixiga é um território histórico e cultural localizado na região central de São Paulo, integrado oficialmente ao distrito da Bela Vista. O nome vem do apelido de Antônio José Leite Braga, antigo dono de terras na região no século XIX, que tinha o rosto marcado por cicatrizes de varíola (doença chamada popularmente de bexiga). Outra versão aponta que o local serviu para isolar doentes de varíola no passado. A área abrigou um importante quilombo urbano, de nome “Quilombo Saracura”, às margens do rio Saracura, formado por pessoas escravizadas fugitivas e negros recém-libertos. O bairro sofreu bastante influência de negros, italianos, portugueses e espanhóis. A mistura de línguas foi sintetizada bem por Adoniran Barbosa, citado acima, em suas inúmeras músicas, que mesmo não sendo do bairro é considerado o seu símbolo. Em dezembro de 1910 o Bixiga passou a se denominar Bela Vista através de um decreto municipal, mas o povo continuaria a chamá-lo de Bixiga, com “i”. O bairro é um dos berços do samba paulistano. A tradicional escola de samba “Vai-Vai” nasceu no Bixiga em 1930, originando-se de um grupo de torcedores de futebol. Em 1878, a Chácara do Bexiga começou a ser loteada, atraindo imigrantes italianos que deixavam as lavouras de café do interior. Os imigrantes moldaram a arquitetura de casas compridas e estreitas e trouxeram a fama gastronômica com cantinas centenárias, padarias e festas tradicionais como a de Achiropita. Fundado por José Celso Martinez Corrêa, o Teatro Oficina tornou-se um símbolo de resistência artística e modernidade no teatro brasileiro.Boemia: O bairro abriga dezenas de teatros, feiras de antiguidades na Praça Dom Orione e pontos históricos marcantes da vida noturna e cultural da capital.

Barra Funda

A Barra Funda nasceu como um bairro operário e ferroviário na várzea do Rio Tietê e tornou-se um importante berço da cultura e do samba paulistano. O seu nome surgiu no final do século XIX e veio de uma região alagada onde o Rio Tietê encontrava pequenos córregos (a “barra”). O trecho tinha partes fundas e difíceis de atravessar, sendo batizado de “Barra Funda”. A ocupação começou com a chegada das ferrovias para escoar o café. A Estação Barra Funda foi inaugurada em 1875 pela Estrada de Ferro Sorocabana. A São Paulo Railway chegou em 1892. Os trilhos atraíram armazéns, fábricas e imigrantes, transformando a região em um forte polo operário. Nos anos 1920, abrigou o grande complexo das Indústrias Matarazzo. Foi um dos berços do Samba e do Carnaval onde, no início do século XX, o bairro concentrou uma forte população negra. O famoso Largo da Banana virou o ponto de encontro de sambistas em 1914. No mesmo ano, nasceu o Cordão da Barra Funda (futura escola “Mocidade Camisa Verde e Branco”). O local é considerado o verdadeiro berço do carnaval de rua de São Paulo. A partir dos anos 1970, o declínio industrial esvaziou galpões mas o bairro se renovou com a inauguração do Memorial da América Latina em 1989 e do Terminal Barra Funda. Antigos galpões deram lugar a ateliês, galerias de arte, moldurarias, cervejarias e restaurantes. A região ganhou destaque internacional ao ser eleita um dos bairros mais legais e descolados do mundo pela revista “Time Out”.

Segundo a colaboradora do blog, cantora, compositora e escritora, Esmeralda do Carmo Ortiz, nascida em 4 de agosto de 1979 no bairro de Vila Penteado, Zona Norte de São Paulo, temos vários baluartes do samba paulistano, e os ligados a esses 3 bairros são:

  • Antônio Carlos dos Santos Borges (Ka) foi o presidente e figura histórica da escola de Colorado do Brás, tradicional agremiação ligada ao bairro do Brás e do Centro de São Paulo
  • Geraldo Filme, que foi um compositor, cantor e militante negro brasileiro, que ficou também foi conhecido como “Geraldão da Barra Funda” e foi o compositor do clássico “Tradição (Vai no Bixiga pra ver)”, onde diz “Lembranças eu tenho da Saracura”
  • Thobias da Vai-Vai é um sambista ligado ao bairro do Bixiga, onde fica a sede da Escola de Samba Vai-Vai. Embora tenha passado a infância no Jardim Peri, na Zona Norte, ele adotou e foi adotado pelo Bixiga devido à sua forte ligação com a agremiação
  • A cantora e sambista Negra Dija é ligada à escola de samba Vai-Vai, tradicional agremiação do bairro do Bixiga
  • Osvaldinho da Cuíca nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, mas construiu sua trajetória e forte ligação com os cordões e batuques da Zona Norte (como no Tucuruvi) e com a escola de samba Vai-Vai
  • A sambista Tia Sahra (Sahra Brandão) faz parte da Escola de Samba Vai-Vai, ligada ao bairro do Bixiga
  • A sambista (e atriz) Denise é associada ao bairro do Bixiga, onde ela criou e comanda a roda de samba chamada Samba da Coxia
  • Seu Carlão do Peruche (Carlos Alberto Caetano) era ligado principalmente aos bairros da Barra Funda e do Peruche (Zona Norte de São Paulo)
  • O sambista Seu Dadinho (Eduardo Joaquim) viveu por mais de seis décadas no bairro da Vila Prado, localizado na Zona Norte de São Paulo, além de ter forte ligação com a Barra Funda por ser um dos fundadores da escola de samba Camisa Verde e Branco
  • Zezinho da Casa Verde (José Narciso Nazaré) e a família Tobias, como Inocêncio Tobias e Carlos Alberto Tobias, são grandes referências do samba ligados ao bairro da Casa Verde e também à tradicional ligação com a região do Morro da Casa Verde e do samba da Zona Norte e da Barra Funda em São Paulo

E fazemos, por fim, uma referência principal à figura de Plínio Marcos, que não era um sambista de um bairro específico de São Paulo, pois ele nasceu em Santos (litoral paulista), e se notabilizou como dramaturgo, escritor e grande divulgador da cultura popular e do samba paulistano. Sua relação com o nosso samba se deu, pois ele, defensor do samba, conviveu e registrou a obra de baluartes e compositores tradicionais de várias regiões da capital e do estado. Ele produziu o antológico disco “Plínio Marcos em prosa e samba – Nas quebradas do Mundaréu” (1974), ao lado de sambistas paulistanos como Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro.