Destaque

Gejo, O Maldito no CCSP

Monográfica Gejo, O Maldito – “Enxame”

Hoje, dia 22/07, pela manhã, Gejo, O Maldito escreveu dizendo que novamente a exposição foi prorrogada até dia 30 de agosto e de que, nesses 5 meses em cartaz e com sucesso, o livro de assinaturas já teve suas 100 páginas esgotadas. E ele está preparando outro…

O programa Monográfica, da Curadoria de Artes Visuais – ciclo de exposições individuais dedicado à reflexão sobre a produção contemporânea brasileira – apresenta, a cada edição, um recorte consistente da trajetória de artistas em
atuação desde a virada do século XXI. Nesta edição,destaca-se a obra de Gejo, O Maldito, artista cuja formação se dá na experiência direta da rua, herdeiro e agente da tradição da arte urbana no Brasil.
Artista visual, grafiteiro, arte-educador, designer e editor, Gejo, O Maldito (acrônimo de Geovaldo José), desenvolve uma produção marcada pelo movimento Hip Hop e pela cultura do estêncil no graffiti brasileiro, introduzido pelo precursor Alex Vallauri. Além do traço livre nas suas figuras estilizadas, silhuetas em cores sólidas e contornos acentuados, que tem uma aproximação com Keith Haring, sua obra tem principalmente no estêncil sua matriz técnica e conceitual. A partir dessa matriz, Gejo, O Maldito expande seu repertório visual para múltiplos, serigrafias, gravuras e estampas, povoando assim seus “seres das ruas” em diferentes suportes. Elementos industrializados, como rendas e padrões decorativos, são apropriados e convertidos em estênceis, recobrindo pictoricamente sua iconografia dita marginal, combinada de figuras-texturas, como na série de pinturas sobre madeira ou tela em que suas figuras e fundos adquirem diferentes padronagens.
O popular, o coletivo, o massivo, a crítica e o humor constituem eixos centrais de sua poética. Em sua obra, a crítica social e ecológica emerge por meio da escolha deliberada do que é considerado menos nobre. Suas figuras humanas — os “peoples”, como o artista denomina — formam multidões anônimas, silhuetas de corpos sem rosto, aglomerados que evocam ao mesmo tempo vulnerabilidade e resistência. Da classe dos animais, não aparecem espécies domesticadas ou idealizadas, mas urubus, gambás, tatus, lacraias, cobras, lagartas e outros invertebrados — presenças marginalizadas que tensionam hierarquias simbólicas.

Nesta edição do programa “Monográfica”, da Curadoria de Artes Visuais, o destaque recai sobre a obra de Gejo, O Maldito, artista cuja formação se dá na experiência direta da rua, herdeiro e agente da tradição da arte urbana no Brasil.

Sua produção é marcada pela cultura Hip Hop e pela cultura do estêncil no graffiti brasileiro. A exposição organiza-se em cinco segmentos principais — “Pixador”, “Peaples”, “Animais Marginais”, “Motivos Votivos” e “Motivos de Encanto” — que evidenciam recorrências e desdobramentos de sua pesquisa.

“Quer ver um pouco do Suco do final dos anos 80 e começo dos anos 90?
Venha e traga a família! Vai ser lindo conhecer a nova geração 2020’s.
Enxame. Dia 27.03.2026, às 18 h.
Vai acompanhando a saga nas redes.”

Gejo, O Maldito

Serviço:

27/3 a 21/6
Monográfica Gejo, O Maldito – “Enxame”
Abertura: 27/3 (sexta-feira) às 18h
Terça a domingo, 10h às 20h
Piso Flávio de Carvalho
Classificação indicativa: Livre
Grátis, sem necessidade de retirada de ingressos

Centro Cultural São Paulo | Rua Vergueiro, 1000 – CEP: 01504-000 – Paraíso, São Paulo – SP

Gejo, O Maldito – Artista, empresário, mediador de conflitos, empreendedor em economia solidária e hip hoper.

Nasceu em Seabra, na Bahia, em 1976, mas aos três anos mudou-se para São Paulo. Ingressou no graffite, hip hop e stencil no meio dos anos 90 e popularizou o graffiti e o hip hop nas escolas públicas. Massificou o termo arte/ educação, participou das ONG’s mais relevantes de São Paulo; expôs em escolas, bibliotecas, museus, galerias e exposições nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Canadá, Bélgica, Cingapura e Itália.

É criador da marca de “Hip Hop 9370”, editor da revista Arte na Ruas e criador do evento “Free Art Fest”. Atualmente é proprietário do ponto cultural Elo Perdido e da Free Art Agency, que é uma empresa de artistas brasileiros que realiza oficinas, palestras, presta assessoria para assuntos de Street Art, produz ações artístico-culturais para galerias, espaços culturais, ONGs, Estados e empresas. Suas obras refletem as relações humanas nas áreas das questões ambientais, sociais, educacionais, políticas com tons de humor e muitas vezes de críticas com denúncias sociais.

Foi o idealizador do projeto do Centro Cultural Sítio do Tatu Amarelo, em Seabra (BA), que terá cursos de alfabetização de adultos, informática, biblioteca, cinemateca, oficinas de arte, além do amparo aos animais machucados e um jardim com diversos exemplares de plantas.

Contatos:
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www.instagram.com/gejothecreator
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WhatsApp: (11) 9 9388-4069

Venda Grande, onde liberais paulistas, lutando pela independência, foram esmagados por Caxias

Mais uma vez, como ocorre com a “Batalha do Jenipapo” de 1823, lutando no Piauí pela independência do Brasil, soube pelo meu sobrinho campineiro Diogo Fernandes Matosinho, que em Campinas, interior de São Paulo, também ocorreu um outro conflito um pouco depois daquela, em 1842, conhecida como “Revolução liberal e o combate de Venda Grande”. Ambas muito pouco conhecidas e estudadas pelos brasileiros. Convido os leitores do blog “Redescobrindo” para se inteirarem dessa história que escrevo em parceria com Alcides Ladislau Acosta (Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, 27 de junho de 1943), grande especialista nos acontecidos da Princesa d’Oeste e fundador e vice-presidente da ABAL Campinas (Associação Brasileira Carlos Gomes de Artistas Líricos), entidade que divulga a obra imortal do grande maestro Antônio Carlos Gomes (Campinas, São Paulo, 11 de julho de 1836 – Belém, Pará, 16 de setembro de 1896).

Uma das grandes agremiações políticas do Império brasileiro, o Partido Liberal se contrapunha ao Partido Conservador. Foram seus representantes que promoveram, em 1840, durante o Ministério dos irmãos Andradas (gabinete liderado principalmente por José Bonifácio), a elevação de D. Pedro II ao poder, mediante a declaração da maioridade. Tendo vencido as eleições de 1842, e sendo a assembleia geral dissolvida pelo governo, o Partido Liberal caiu na oposição, chegando seus membros a organizar movimentos armados em São Paulo e Minas Gerais. Com relação à revolução liberal de 1842, ou combate de Venda Grande, ela aconteceu quando o imperador D. Pedro II dissolveu a Assembleia Geral, que ainda se encontrava trabalhando em suas sessões preparatórias. A alegação era que as irregularidades e fraudes cometidas no processo de eleição haviam determinado a vitória dos liberais. Estes não se conformaram com a decisão imperial e iniciaram, então, nas províncias de São Paulo e Minas Gerais, uma série de pronunciamentos indignados contra a dissolução efetivada. Logo em seguida uma delegação do Partido Liberal saiu de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, pensando em encontrar-se com o imperador para discutir a questão, mas não foi recebida por ele.

A recusa provocou o surgimento de um movimento rebelde na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou por aclamação o nome do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (Sorocaba, São Paulo, 4 de outubro de 1794 — Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1857) como presidente da província -, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Uma coluna formada por 1.500 homens – a Coluna Libertadora – marchou então sobre a capital paulistana, mas foi enfrentada por tropas legais comandadas por Duque de Caxias (Vila de Estrela, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1803 – Valença, Rio de Janeiro, 7 de maio de 1880). No combate que aconteceu em Vargem Grande, hoje Vargem Grande do Sul, os revolucionários não tiveram melhor alternativa senão recuar e retornar a Sorocaba, onde acabaram se dispersando. Com o fracasso do movimento Tobias de Aguiar fugiu para o sul do país, enquanto em Sorocaba, o Padre Feijó (São Paulo, batizado em 17 de agosto de 1784 – São Paulo, 10 de novembro de 1843), que estava comprometido com os rebeldes, foi preso e exilado para o Espírito Santo.

Campinas, como mostra matéria assinada por Célia Farjalla em 7 de junho de 1997, e publicada no jornal “Correio Popular”, de São Paulo, o historiador Amador Bueno Machado Florence relata minuciosamente os episódios da ação revolucionária de 1842 em Campinas, ressaltando o heroísmo dos participantes, dizendo que foi nessa cidade que o exército imperial encontrou resistência. Foi lá que o sangue paulista e campineiro ensopou o solo da província, “na coragem de um punhado de bravos que não queria recuar”.

Mas Caxias, chefe das hostes governamentais, foi generoso. Não quis esmagar os vencidos, embora tivesse tido ação fulminante contra eles. Debelada a revolta, enterrados os mortos, poucos foram aprisionados. Um deles foi Boaventura Soares do Amaral, capitão, assassinado a sangue frio pelos soldados do lado conservador. Ele ficou como símbolo dos liberais vencidos. Sabe-se também que “A Gazeta de Campinas”, de 16 de julho de 1882, registrou a exumação das vítimas, e o translado solene de seus despojos para um cemitério público de Campinas. Os historiadores registraram os nomes de 59 componentes revolucionários. Em março de 1843 foi promulgada lei concedendo anistia a todos os envolvidos nos crimes políticos do ano anterior. Mas, ele acrescenta “como esquecer o episódio do Combate da Venda Grande? Como olvidar aquele movimento liberal surgido aqui mesmo, e regado como sacrifício e o sangue de um punhado de nossos conterrâneos?”.

Posteriormente, em 02 de junho de 2002, o mesmo “Correio Popular”, voltou a publicar texto sobre a revolução. A matéria, de Rogério Verzignasse, que também fornecia detalhes sobre a batalha de Vargem Grande, dizia que: “Em 1842, eclodiu em São Paulo a Revolução Liberal, liderada por Rafael Tobias de Aguiar (1795-1857), que havia presidido a província de 1831 a 1835 e de 1840 a 1841. Ele detinha alta popularidade, pois tinha usado os recursos do próprio ordenado nas escolas, obras públicas e na caridade.”

A revolta em São Paulo

Em São Paulo, a oposição à legislação conservadora do governo central evoluiu para uma revolta armada. O pretexto para a rebelião paulista foi a substituição do então Coronel Rafael Tobias de Aguiar, Presidente da Província, pelo Barão de Monte Alegre, José da Costa Carvalho. A revolta liberal eclodiu na manhã de 17 de maio de 1842, na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou, por aclamação, o nome de Tobias de Aguiar como Presidente da Província, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Os rebeldes conseguiram também o apoio do padre Diogo Feijó e de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro – senadores e ex-regentes do Império – além da população de algumas vilas, entre elas Itapetininga, Itu, Porto Feliz e Capivari. Mesmo idoso e doente, Feijó deslocou-se para Sorocaba – então denominada capital provisória da província – sendo recebido por Tobias de Aguiar. Juntos, os dois líderes rebeldes começaram a escrever um jornal revolucionário, “O Paulista”, de tom arrogante, violento, e trazendo grave ameaça de separatismo.

Sob o comando do Major Francisco Galvão de Barros França, foi constituída a Coluna Libertadora, com efetivo de, aproximadamente, 1.500 homens, para marchar até a capital paulista, a fim de depor o barão de Monte Alegre. O grupo revoltoso possuía bases de apoio logístico em diversas vilas do interior, como Itu, Itapetininga, Sorocaba e Capivari. Monte Alegre, por sua vez, solicitou o apoio do Ministro da Guerra José Clemente Pereira. Preocupado com a possibilidade de separatismo, o governo imperial adotou medidas para debelar a rebelião e, para tal, designou Caxias, que havia pacificado a Balaiada na província do Maranhão.

A ação de Caxias e o combate de Venda Grande

Tão logo recebeu a tarefa de comandar as tropas do Exército Imperial, Caxias rumou para o litoral paulista a bordo do navio Todos os Santos, conduzindo apenas 400 homens pouco experientes. Em São Sebastião desembarcou o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, com a missão de marchar em direção a Guaratinguetá e atuar como força de cobertura. A parcela principal das tropas imperiais chegou a Santos, em 21 de maio de 1842, onde desembarcou. Antes de deslocar suas forças em direção ao planalto interior, Caxias expediu ordens para que unidades se deslocassem de Curitiba para a região de Itararé, com o objetivo de isolar a província de São Paulo de possíveis reforços rebeldes procedentes do sul do Brasil. Ciente do fato de que possuía efetivo inferior ao dos rebeldes, o Barão de Caxias marchou em direção ao interior, procurando dar a impressão de que comandava força mais numerosa. Nesse sentido, expediu requisições para serem preparadas rações para 2.000 soldados. Tal fato ludibriou os rebeldes que bivacavam na Ponte dos Pinheiros, fazendo com que se retirassem em direção a Sorocaba.

Os revoltosos, após se reorganizarem, enviaram uma força para tomar de assalto a cidade de Campinas, já em poder de Caxias. Aproximadamente 300 liberais acantonaram na localidade denominada Venda Grande, nos arredores de Campinas, em 7 de junho, quando foram alcançados pelas tropas imperiais. Os rebeldes não perceberam a aproximação de soldados enviados por Caxias e, surpreendidos por um ataque de cavalaria, com o apoio de 120 infantes, artilheiros e guardas nacionais, sob o comando do Coronel Amorim Bezerra, alguns debandaram e outros, apesar de desorganizados, sustentaram a resistência possível. Após a rendição da tropa paulista, contabilizou-se 17 mortos – inclusive seu comandante, Capitão Boaventura Soares do Amaral – e foram feitos 15 prisioneiros. Os legalistas perderam um capitão, duas praças e alguns feridos leves. Os rebeldes remanescentes não tiveram alternativa senão recuar e retornar a Sorocaba, onde acabaram se dispersando tão rapidamente quanto se organizaram.

As forças revoltosas foram eliminadas antes da marcha planejada sobre São Paulo. Rafael Tobias de Aguiar tentou fugir para o Rio Grande do Sul, tentando unir-se aos Farrapos, mas foi capturado e levado ao Rio de Janeiro. Caxias tomou a cidade de Sorocaba e ali prendeu o Padre Feijó que assumira, após a fuga de Tobias de Aguiar, o exercício da “presidência” da província. Tanto os liberais de São Paulo quanto os de Minas Gerais foram derrotados e presos pelos comandados de Caxias. Os que conseguiram escapar refugiaram-se no Rio Grande do Sul, onde foram acolhidos pelos Revolucionários Farroupilhas.

Considerações finais

A Revolta Liberal teve pequena duração, mas, em razão de sua forte motivação político-militar, abalou a Corte no Rio de Janeiro, levando o governo imperial a uma reação rápida e enérgica no sentido de sufocá-la. Apesar dos conflitos armados, o Imperador concedeu, em 14 de março de 1844, anistia aos envolvidos. Um ministério liberal foi constituído neste ano. A vitória sobre os revoltosos rendeu a Caxias a promoção a Marechal-de-Campo.

As operações militares realizadas em São Paulo e Minas Gerais e, principalmente, a ação de comando de Caxias, foram ricas em ensinamentos. Em primeiro lugar, Caxias tratou de colocar a província de São Paulo fora do alcance de possíveis reforços rebeldes, estabelecendo duas forças de cobertura nas regiões de Lorena, divisa com a província do Rio de Janeiro, e Itararé, com tropas procedentes de Curitiba. Tal medida teve por objetivo limitar a área de conflito, o que foi realizado com sucesso.

Nas duas rebeliões, as tropas imperiais bateram-se contra os revoltosos com inferioridade numérica. Caxias não esmoreceu diante dessa desvantagem e conseguiu superá-la dividindo adequadamente suas tropas e empregando táticas de combate indireto, realizando o duplo envolvimento no combate de Santa Luzia. Merece destaque, também, o emprego de operações psicológicas, quando Caxias, por intermédio de uma requisição de alimentação falsa, fez parecer aos adversários que possuía efetivo maior do que o real. A inteligência de combate foi empregada pelas forças imperiais, que buscou levantar o dispositivo defensivo dos liberais no arraial de Santa Luzia antes da realização do ataque.

A liderança de Caxias foi essencial para conduzir suas tropas em marcha forçada sob condições climáticas desfavoráveis, visto que as ações ocorreram sob rigoroso inverno, possibilitando o rápido deslocamento em grandes distâncias. Mesmo com a precariedade da rede de estradas, as tropas imperiais levaram apenas onze dias para vencer os cerca de 340 km que separavam o Rio de Janeiro de Ouro Preto, surpreendendo os revoltosos em Santa Luzia. A mobilidade também foi decisiva em São Paulo, quando as tropas de Caxias alcançaram Campinas antes dos rebeldes, o que permitiu a vitória no combate de Venda Grande. No combate de Santa Luzia, o Barão de Caxias dirigiu pessoalmente uma carga de baioneta contra os revoltosos. Finalmente, a atuação do Exército Imperial brasileiro contra os revoltosos liberais foi decisiva para a manutenção da coesão nacional e da integridade territorial brasileira. A vitória do governo imperial nas Revoltas Liberais representou a consolidação do Império e, com exceção da Revolução Praieira, ocorrida em Pernambuco, entre 1848 e 1849, o Brasil experimentou um longo período de estabilidade política e calmaria interna.

Fotos de Diogo Fernandes Matosinho, que comenta: “Este é o monumento erguido no local pelo CCLA, do qual o Alcides é o presidente… Tirei essas fotos após o evento comemorativo do último 7 de junho.”

Risco de queda (Trecho)

O olho dele vai denunciar
Os olhos de Emmanuel normalmente davam a sensação de doçura. Ou mudavam dependendo do momento? Enganava. Ele me contempla agora, sem expressão. Não sei se finge ou ficou assim por algum distúrbio. Era um mestre em convencer, ser amável, sem falar nas centenas de expressões de ternura, pobre coitado, necessitado, modesto, puxa-saco de alta potência. Quantos papéis viveu! Como se eu não tivesse ideia do quanto é mentirosa esta exorbitância de expressões. Ele, um falso total, Judas Iscariotes, um Silvério dos Reis, Brutus, Pétain, Vidkun Quisling, Andrey Vlasov, segundo a curiosa lista de traidores históricos. O canalha me contempla por três segundos e desvia o olhar. Como se se ausentasse.

Ele, se está lúcido, sabe quem sou. Terá ideia de que vim pensando em matá-lo? É o que pretendo, gostaria de acabar com ele, ou não terá tido sentido essa minha imensa busca. Milhares de litros de gasolina gastos atravessando o Brasil, gastando dinheiro. Jamais imaginei que estivesse como está agora, ao meu lado. Paralisado, mudo. Ou fingindo?

Não podem ter sido inúteis estes anos de ansiedade. Senti-me um detetive, como aqueles sobre os quais li por anos na revista Mistério Magazine de Ellery Queen. Ficava embalado por tanta imaginação, tantos modos de chegar ao assassino, ao culpado. Espero que minha presença aqui deixe Emmanuel alarmado. Ou incomodado. Prefiro aterrorizado. Por anos, procurei esse homem até descobri-lo nessa casa de repouso afastada de tudo e de todos. Demorei. Ainda que paciência nunca tenha sido uma qualidade minha.

Os conselhos do bilionário que fez sua fortuna apenas com ações da Microsoft-Palpites da ex-BBB que ganhou mais de sessenta vezes na loteria para a Mega da Virada. Como os jovens poderão herdar trilhões de dólares nos próximos vinte anos. Não ter bitcoins na carteira pode ser seu grande erro.

Todos loucos, ou o quê?
Um grande crítico de teatro, Jefferson Del Rios, me enviou certa vez um e-mail apenas com uma frase de Beckett.

“Nascemos todos loucos.

Alguns continuam.”

Tirada de algum texto, peça teatral, sei lá. Copiei, modifiquei e emoldurei.

Nascemos todos

filhos de uma puta.

99,7% continuam.

Quando crianças, jogávamos um jogo: quem suporta encarar por mais tempo o olhar do outro. Quem desviava a vista, perdia. Jovens, sabíamos que se alguma mulher devolvesse e mantivesse o olhar fixo, havia nela o consentimento, “pode se aproximar”. Não, nenhuma nostalgia, cada tempo é como é, seja qual for. Se Emmanuel não me der um sinal, ficarei frustrado, é importante ele perceber que estou aqui e se sentir importunado. Quero provocá-lo até que se revele putíssimo. Que chore em desespero. Vai desejar que eu desapareça, não o veja como está. Como pode me ignorar? O tanto que fomos próximos. Ainda existe nele uma centelha de entendimento que o faça pensar: “Por que Gregório está aqui?”. Ele me contempla, sem dizer palavra. Será que pergunta por que estou aqui? Ou indagará: “Conheci? Acho que sei quem é e ele vem me sacanear. Um filho de uma puta. Melhor ficar na minha.”

Penso nele sem parar. Posso estar louco. É pura raiva, como se fosse eu, ainda que Emanuel jamais tenha pensado no outro. Vim visitá-lo para descobrir ou confirmar que está fora de si, fodeu-se de vez. Ou está apenas dissimulando, no que sempre foi rei. Mauca era seu apelido. Se for assim, de que me adianta estar aqui? É um ato impiedoso querer humilhá-lo? Não sei se estou feliz, curtindo ou tomado por imensa pena. Ou me acho um enorme filhodeumaputa. Desde quando senti piedade? Vou me afastando e juro: não é fantasia, o olho dele me acompanhou. O filho da puta tem controle do olhar. Aliviado por eu estar me retirando? Pode ser que tenha sido imaginação minha. Quero tanto que me reconheça.

Quem paga a conta dessa casa de repouso, os remédios, tudo? Ele tinha dinheiro guardado? Ganhou na Mega?

O enfermeiro, ou cuidador, se aproximou.

– Terminou a visita, meu senhor?Terminei.

– É ele mesmo que procura? Tem vindo tanto. Não está perdendo tempo?

Perguntas que repetem desde minha primeira visita. Mudaram duas vezes de cuidador.

– É ele mesmo, sei.

– E o que quer?

– Atormentá-lo.

– Maldade! Para quê? Um homem fodido, nem sabe onde está.

Terei de repetir isso a cada cuidador? Por que a palavra atormentar espanta, se eles nem sabem quem é Emmanuel? Piedade? Olhei para Emmanuel — o que pensei ser uma ameaça de riso tinha desaparecido. A esfinge de sempre. Seu rosto pareceu ter cem anos.

Ou ele está envelhecendo velozmente? Quero que esteja lúcido quando matá-lo!

Não falo com Irene há uma semana. Ela diz não estar me reconhecendo mais. Passeio pela casa sem falar nada. Como todo casal, já tivemos essas rusgas; depois de um tempo, elas se dissolvem. Irene liga a tevê, sento-me ao seu lado, durmo o filme inteiro. Não suporto o noticiário, os Estados Unidos invadindo o que possa haver de país com petróleo; americano deve beber petróleo como quem bebe água. E cagam gasolina! Chega para mim. Ou vou lá e faço o que vim fazer ou desapareço; não me sinto mais eu. Seja lá o que isso queira dizer.

Ignácio de Loyola Brandão (Araraquara, São Paulo, 31 de julho de 1936) é um contista, romancista e jornalista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. É autor de mais de 40 livros, entre os quais se destacam “Bebel que a cidade comeu”, “Zero”, “Não verás país nenhum”, “O homem que odiava a segunda-feira” e “O menino que vendia palavras”, tendo sido traduzido para diversos idiomas. Recebeu, entre outros prêmios, o Jabuti em cinco ocasiões, sendo seu maior vencedor, e o Machado de Assis pelo conjunto da obra em 2016. In “Risco de queda”, que é o seu romance mais recente, escrito em comemoração aos seus 90 anos

Para pensar

Esta famosa frase é de Karl Marx (Tréveris, Renânia-Palatinado, Prússia, Confederação Germânica, 5 de maio de 1818 – Londres, Inglaterra, 14 de março de 1883), presente na introdução de sua obra “Contribuição à crítica da economia política” (1859). Ela resume o método dialético para compreender a realidade. Ponto de partida real vs. ponto de partida no pensamento: Na vida real, o objeto ou a sociedade já existem de forma completa e complexa (o concreto real). Porém, quando começamos a estudar esse objeto, nossa mente a princípio só capta impressões vagas ou caóticas. Para entender o real, o pesquisador precisa isolar partes, conceitos e relações (as determinações abstratas). Por exemplo, na economia, separa-se o valor, o trabalho, o dinheiro e o mercado. O conhecimento verdadeiro não fica apenas nos pedaços isolados. Ele reconstrói o objeto na mente, juntando todas essas peças interligadas. O resultado final — o concreto pensado — é a união rica e complexa de múltiplos conceitos que explicam como o todo funciona de verdade.

Nas águas do tempo (Trecho)

Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
– Mas vocês vão aonde?
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
– Voltamos antes de um agorinha — respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta tora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “A menina sem palavra / histórias de Mia Couto”, 1° ed., São Paulo: Boa Companhia, 2013. Filho de imigrantes portugueses, nasceu numa das cidades mais afetadas pela guerra civil moçambicana (1976 a 1992). Aos catorze anos, publicou seus primeiros poemas no jornal “Notícias da Beira”. Estudou medicina antes de se formar em biologia e atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental, além da literatura. Na década de 1970, foi repórter de “A Tribuna”, na capital, Maputo. Trabalhou ali por um ano, até o jornal ser fechado por forças opostas à independência. Tornou-se batalhador pela libertação de seu país. E um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance “Terra sonâmbula” foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Em 2013, ganhou o Prêmio Camões, conhecido como a mais importante premiação da língua portuguesa

Postagem dedicada à Renato de Azevedo, da Loja Hier – Antiquário, localizado na Rua Vitorino Carmilo, 664 – Barra Funda, São Paulo, que mui gentilmente me presenteou com essa edição

Receita de tacacá

Ponha, numa cuia açu
ou numa cuia mirim
burnida de cumatê:
camarões secos, com casca,
folhas de jambu cozido
e goma de tapioca.
Sirva fervendo, pelando,
o caldo de tucupi,
depois tempere a seu gosto:
um pouco de sal, pimenta
malagueta ou murupi.
Quem beber mais de 3 cuias
bebe fogo de velório.
Se você gostar me espere
na esquina do purgatório.

Luiz Bacellar (Manaus, 4 de setembro de 1928 – 9 de setembro de 2012) foi considerado um dos poetas mais expressivos da literatura amazonense e ganhou com seu livro de estreia intitulado “Frauta de barro” o Prêmio Olavo Bilac laureado pela prefeitura do Rio de Janeiro. Esse poema ensina o leitor a fazer o tacacá, uma refeição típica da região amazônica

A pintura brasileira na cultura popular: uma amostra

Trazendo um pouco de arte para nosso “Vivendocidade” apresento o novo vídeo da Galeria Pontes, onde trabalho, que apresenta três artistas de expressão na cultura artística de nosso Brasil. Desses dois são pernambucanos (Samico e Alcides Santos) e um é paraibano (Luiz Tananduba). O único que ainda pinta é Tananduba. Alcides Santos faleceu em 2007 e Samico em 2013. Falarei um pouco sobre seus trabalhos pictóricos.

Para introduzir nada como falar da Arte Popular Brasileira. Ela é bonita, criativa e cheia de vida. Tem um aspecto lúdico que mexe também com jovens e crianças. Encanta e surpreende. E, ao contrário da arte erudita, ela é uma produção espontânea, na qual não sobra espaço para a educação formal ou acadêmica. Quando algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no máximo informalmente com outro artista/ artesão que funciona como iniciador.

Na arte popular há muito mais espaço para a inventividade e para o saber fazer pessoal do que na arte erudita. A imaginação é muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que o artista inventa para resolver os problemas na confecção de sua obra. A arte popular é a viva expressão da criatividade do nosso povo. Através da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo íntima relação entre o real e o simbólico. 

Dos muitos pintores a galeria destaca em seu vídeo três deles:

Samico (1928 – 2013) tem sua produção marcada pela recuperação do romanceiro popular nordestino, por meio da literatura de cordel e pela utilização criativa da xilogravura. Suas gravuras são povoadas por personagens mitológicos e outros, provenientes de lendas e narrativas locais, assim como por animais fantásticos e míticos.

Alcides Santos (1932 – 2007) nasceu na Bahia e mudou-se para Mato Grosso em 1950. Acreditava que a arte era um dom de Deus. Sua pintura reflete a vida do homem, a natureza, o cultivo da terra e da pecuária, nas suas relações mútuas. Suas obras compõem o acervo de importantes museus como MAM – Rio de Janeiro – RJ – Brasil e Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera em São Paulo.

Por fim, temos Luiz Tananduba (1972) que começou a pintar em 1985, com orientação do artista plástico e seu pai adotivo, Alexandre Filho. Sua inspiração vem de uma visão idealizada e subjetiva do povoado de Caiçara, interior do estado, lugar onde cresceu e tomou emprestado seu sobrenome artístico “Tananduba”, um dos sítios da região.

Vídeo realizado pelo jornalista Adriano Ambrosio Nogueira de Sá.

Para maiores detalhes e informações acesse o site da galeria (http://www.galeriapontes.com.br/).

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (21/08/2014)