Brasil africano: orixás, sacerdotes, seguidores

Este livro de Reginaldo Prandi, publicado em 2025 pela Pallas Editora, e escrito por este meu professor do curso de Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde ingressei em 1985, conquistou ontem o 1º lugar no Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Ciências da Religião e Teologia. Esse importante prêmio fundamenta-se na crucial importância dessa produção para o progresso cultural e científico de uma nação. As obras originadas desses campos desempenham um papel fundamental no avanço do conhecimento, no aprimoramento das práticas profissionais e no estímulo à inovação.

Ele é uma coletânea de artigos de periódicos, capítulos, ensaios, estudos de campo e trechos de livros publicados publicados pelo autor que em cerca de 408 páginas montam um panorama das mudanças sociais e religiosas ao longo de meio século de pesquisas sociológicas e antropológicas que a partir de pesquisa centrada no candomblé, mas também na umbanda e demais religiões afro-brasileiras e indígenas. É sobre o Brasil africano, que tem história, sabedoria e resistência na luta contra o preconceito e a intolerância religiosa e mostram as mudanças sociais, dinâmicas de poder, ritos e resistências dessas tradições em nosso vasto pais.

Reginaldo Prandi (Potirendaba, São Paulo, 14 de maio de 1946) é um dos maiores especialistas do país em cultura e religiões de matriz africana. Ele é sociólogo, professor e escritor brasileiro e nasceu no interior de São Paulo numa família de origem hispano-italiana. Em dezembro de 2025, Prandi doou sua biblioteca particular de estudos afro-brasileiros e africanos — a maior coleção privada da área no país, com cerca de 3 mil títulos focados em religiosidades africanas, afro-brasileiras, afro-americanas e cubanas — ao Museu do Ipiranga. Este acervo foi nomeado “Coleção Afro-Brasileira Reginaldo Prandi”, localiza-se na Biblioteca do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga) e foi totalmente catalogado e já está disponível para consulta pública e acadêmica

Geografía celeste

“A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada” é uma novela de Gabriel García Márquez publicada em 1972, adaptada para o cinema em 1983 no filme franco-hispano-mexicano dirigido pelo brasileiro Ruy Guerra, com roteiro escrito pelo próprio autor colombiano e estrelado por Claudia Ohana e Irene Papas. A história surgiu de um roteiro original perdido que Márquez reescreveu de memória. A trama narra a jovem Erêndira (de 14 anos) que, após incendiar acidentalmente a mansão da avó, passa a ser explorada por ela em um esquema de prostituição itinerante para pagar a dívida do prejuízo. Carrega marcas profundas do realismo mágico e faz menções sutis ao universo literário de Macondo e de Cem Anos de Solidão.O Filme (1983) dirigido por Ruy Guerra e roteirizado por Gabriel García Márquez, que fez questão de adaptar sua própria obra. Conta com a atriz brasileira Claudia Ohana no papel de Erêndira e a atriz grega Irene Papas como a implacável avó, além de Oliver Wehe como Ulises. O filme traduziu visualmente o realismo fantástico da literatura latino-americana e foi premiado internacionalmente.

No ha muerto.
Ha iniciado un viaje atardecido.

De azul en azul claro
—de cielo en cielo— ha ido
por la senda del sueño
con su arcángel de lino.

A las tres de la tarde
hallará a San Isidro
con sus dos bueyes mansos
arando el cielo límpido
para sembrar luceros
y estrellas en racimos.

—Señor, cuál es la senda para ir al Paraíso?
—Sube por la Vía Láctea,
ruta de leche y lirio,
la menor de las Osas
te enseñará el camino.

Cuando sean las cuatro
la Virgen con el Niño
saldrán a ver los astros
que en su infancia de siglos
juegan la Rueda rueda
en un bosque de trinos.

Y a la seis de la tarde
El ángel de servicio
saldrá a colgar la luna
de un clavo vespertino.

Será tarde. Si acaso
no te han guardado sitio,
dile a Gabriel Arcángel
que te preste su nido
que estás en el más frondoso
árbol del paraíso.

Murió la Marisela,
pero aún queda un lino.

1 de julio de 1947

Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 6 de março de 1927 — Cidade do México, 17 de abril de 2014). A “Revista Diners” em sua página da internet publicou “10 poemas de amor de Gabriel García Márquez”, mostro um deles, e acrescentou: “Estos los poemas de amor de Gabriel García Márquez inspiran, seducen y curan en esos tiempos donde la vida no es lo que imaginaba. Estos poemas de amor sirven para dedicar, pensar, filosofar y comprender un poco de lo que se trata de vida. El maestro Gabriel García Márquez, a través de su pluma nos regaló estos versos escritos desde la experiencia y un corazón que nunca se marchitó con el paso del tiempo. (…) A continuación lea, sienta y escuche en sus propia voz al maestro hablándole a su corazón”

Study of two pears (Trecho)

Cópia de uma tela de Cézanne feita por Laércio Moraes (Lalá), artista amador que nasceu em 7 de setembro de 1963, está com 63 anos, cursou desenho artístico e publicitário na década de 80 e hoje reutiliza várias técnicas. Ele já participou em exposições no grande ABC e estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul-SP em 2018.

(…)

V
The yellow glistens.
It glistens with various yellows,
Citrons, oranges and greens
Flowering over the skin.

VI
The shadows of the pears
Are blobs on the green cloth.
The pears are not seen
As the observer wills.

V
O amarelo brilha.
Brilha com vários amarelos,
Limões, laranjas e verdes
Florescendo sobre a pele.

VI
As sombras das peras
São manchas no pano verde.
As peras não se veem
Como o espectador quer.

Wallace Stevens (Reading, Pensilvânia, Estados Unidos, 2 de outubro de 1879 — Hartford, Connecticut, Estados Unidos, 2 de agosto de 1955). In “The palm at the end of the mind. Selected poems and a play”. New York: Vintage Books, 1990, p. 159. Tradução de Olga Guerizoli Kempinska

O pintor Paul Cézanne (Aix-en-Provence, Provença, França, 19 de janeiro de 1839 – 22 de outubro de 1906) inspira versos como esse que falam sobre sobre a cor, a forma, o tempo que não foge na tela, frutas pesadas na mesa, e paisagens esculpidas pela luz. Poetas, como o norte-americano Stevens, traduzem sua pintura paciente em imagens de silêncio e cor que inspiram este poema . E no dizer de Olga Guerizoli Kempinska, em sua tese intitulada “Mallarmé e Cézanne: obras em crise”: “Mas será que é possível dizer as cores? Como dizer as cores de Cézanne, seus amarelos, verdes, azuis, pretos e vermelhos, que se modulam mutuamente em amplas gamas? Esses poucos nomes: amarelo, vermelho, azul (ou ainda o verde, branco, preto?), que apontam idealmente para as cores “puras”, “primeiras” ou “simples”, são por nós usados de maneira tateante e não correspondem à experiência das vibrações mistas e fugazes. Tal como no poema de Stevens, quando a palavra “amarelo” não basta para dar conta da multiplicidade e da complexidade compósita das cores das peras que atingem o olho do espectador, assim nós também procuramos sempre por outros nomes, por “limões” e “laranjas”, apelando para lembranças de objetos de nossas percepções.”

O verdadeiro amigo e amor: Uma mão na outra

Nascida em Campo Maior, Piauí, em 11 de março de 1974, morando em São Paulo, capital, e criadora de conteúdos digitais. Estudou na Escola Estadual Professor Fidelino de Figueiredo, Santa Cecilia, se formou em pedagogia na PUC-SP em 2007 e atuou por muitos anos como professora na educação infantil.
Lembrando que este ano a PUC-SP comemora “80 anos de história”, sendo fundada no dia 13 de agosto de 1946

“O Verdadeiro Amigo e Amor: Uma Mão na Outra” é um livro inspirador sobre amizade verdadeira, amor, confiança, lealdade e crescimento emocional. Com uma escrita acolhedora e reflexiva, Luiza Matosinho convida o leitor a compreender como relacionamentos saudáveis são construídos por meio do respeito, da empatia, do autocuidado e da gratidão. Ao abordar temas como superação de desafios, limites, perdas, amadurecimento e conexões afetivas, a obra mostra que a amizade pode ser a base do amor mais duradouro. Uma leitura emocionante para quem busca fortalecer vínculos, desenvolver a inteligência emocional e encontrar reflexões profundas sobre os relacionamentos humanos.

Clique: Editora ‏Sábhia – O verdadeiro amigo e amor: Uma mão na outra – Luiza Matosinho

Sua criação literária encontrando a minha arte (no fundo vermelho e envolvendo a capa e a contracapa do livro) e dando às mãos…

Contato:
www.facebook.com/luiza.matosinho

Brisa marinha de Mallarmé em duas traduções e no original, em francês

Brisa marinha (Tradução de Herculano de Carvalho)

A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.

Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

//

Brisa marinha (Tradução de José Augusto Seabra)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

//

Brise marine

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!.

Stéphane Mallarmé (Paris, França, 18 de março de 1842 – Valvins, comuna de Vulaines-sur-Seine, Seine-et-Marne, França, 9 de setembro de 1898) foi um poeta, crítico de arte e ensaísta francês, muito famoso por defender o movimento simbolista e por ser o primeiro amigo e biógrafo do pintor Paul Gauguin (Paris, França, 7 de junho de 1848 – Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa, 8 de maio de 1903), que não era escritor de versos ou poemas, mas sim um célebre pintor pós-impressionista francês. Remetendo ao termo “poesia” na vasta obra de Gauguin temos a sua famosa tela de 1896 produzida no Taiti que se chama “Poemas bárbaros” (Poèmes barbares), retratando duas mulheres taitianas ao lado de um ídolo místico e combinando elementos do folclore taitiano, melancolia e referências visuais primitivas em um arranjo altamente simbólico. Atualmente esse quadro encontra-se exposto no Fogg Museum (Harvard Art Museums), em Cambridge, Massachusetts (EUA). Esse pintor expressava sua visão poética por meio de cores intensas, formas simplificadas e cenários exóticos da Polinésia Francesa, e não com palavras rimadas. Ele manteve forte diálogo criativo com literatos simbolistas de sua época, como Stéphane Mallarmé e Charles Morice.

“Às vezes, na sobrecarga dos dias invade-nos um desejo imenso de evasão, uma vontade de partir, em que apenas o mar é consolação.
É do que nos fala este poema de Stéphane Mallarmé, “Brisa marinha”, para o qual vos deixo duas versões em português, ambas satisfatórias mas sem a música desolada que se ouve no original, o qual acrescento para os leitores fluentes em francês.

A pintura de Paul Gauguin a acompanhar explica-se pela biografia do pintor, aquele que definitivamente partiu, deixando tudo, em busca do paraíso.”

Carlos Mendonça Lopes, do blog “Vicio da poesia”