I Melancolia

A noite

Eu vou esplendida e calma
Da luz no immenso diluvio!
Meu seio tornou-se effluvio,
O effluvio tornou-se em alma…

Dos astros o sorvedoiro,
Profundamente arqueado,
É como um cedro vergado
Ao peso dos fructos de oiro.

Dormem os monstros e as feras
Ao pé dos lyrios suaves;
Descanta a luz das esferas,
Rebrilha o canto das aves.

A lua, pastor bemdito,
Com seu rebanho de estrellas,
Vae vendo se alguma d’ellas
Se perde pelo infinito.

Sonha a flôr, lampeja a vaga…
Alma, astro, pensamento,
Tudo se abysma e se alaga
No grande deslumbramento!

De Deus ao cantico eterno,
Abrem-se as portas do inferno,
Abre-se o mar da harmonia!

Abílio Manuel Guerra Junqueiro, conhecido por Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, Portugal, 15 de setembro de 1850 – Santa Isabel, Lisboa, Portugal, 7 de julho de 1923) foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta português. In “A morte de D. João”, Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira Livraria Editora, 9ª edição, 1914

Mar morto

à memória de Mário de Andrade

Na rua deserta
Sem sorrisos
Andava
e sorria poesia
Um mar de poesias
Espumantes, presentes
No coração do bandeirante

Mário avenida São João
Mário rua Aurora
Mário pedaço de papel
venerado pelo tempo

Pisando a terra
Que o cultivava
Sob o céu que o regava
Mário poesia

Na sola do sapato
No paletó desventura
Nos óculos que o abrigava
Mário presente

Mário chão
Mário céu
Mário vida
Que se foi
mas sempre é

Os olhos brilhantes
Que eu não conheci
A palma da mão
Que eu não apertei No pedaço de jornal
Que eu recortei
Mário amigo

Mário fuga de estrêlas
Eternamente presentes
Na alma da gente

Espumas presentes
De um mar morto

Espumas de Mário…

Gilberto di Piero, mais conhecido pelo seu pseudônimo Giba Um (São Paulo, 1 de janeiro de 1942) é um jornalista brasileiro, que também atua como apresentador de TV, produtor de teatro, consultor de comunicação e consultor de marketing político. In “Ciranda – O menino de cimento”, São Paulo: Editôra Áquila, 1963

Soneto 8

Ó música, por que te escutas com tristura?
O doce ama a doçura, o alegre ama a alegria:
E por que amas tu só o que te traz amargura,
E acolhes com prazer o que só te entedia?
Se a concórdia dos sons justamente afinados,
Casados, num enlace, ofende os teus ouvidos,
Censuram-te com trino, e deixam misturados
O que, solteiro, tu devias ter unido.
Vê: uma corda, doce, a outra corda esposa,
Tocam-se, cada qual, de maneira alternante,
Assim como o senhor, o filho e a mãe ditosa,
Que entoam uma nota amável, acordante:
Múltipla, una, sem palavras, a balada
Canta-te: “Murcharás solteiro, serás nada.”

William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, Reino Unido, 1564 (batizado a 26 de abril) — Stratford-upon-Avon, Reino Unido, 23 de abril de 1616). In “Sonetos ao joven desconhecido”, São Paulo: Landy Livraria Editora e Distribuidora, concepção e tradução de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2003