Graciliano Ramos: Um pouco de seu pensamento em três frases

Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas.”. In “Memórias do cárcere”

É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço.”. In “São Bernardo”

Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida.”

Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953)

Dulce Martins: Álbum de família, Exu e Vitória e os gatos

Nascida em Santos, em 1957, a artista plástica Dulce Martins tem nas lembranças de infância, nos temas folclóricos e na natureza os principais pontos de partida de sua relação plástica com o mundo. Por meio da pintura, estabelece conexões com a realidade, interpretando o que está à sua volta. Existe em suas imagens pureza, simplicidade e, como costuma ocorrer no gênero naïf, um denso mergulho nas próprias raízes. Situações vividas, vistas ou mesmo imaginadas ganham espaço como expressões de uma inteligência visual. As soluções visuais decorrem justamente dessas evocações. Um elemento importante no trabalho de Dulce está na maneira como suas obras atingem a universalidade. Um dos dilemas da arte está justamente em tornar o particular universal. Não é tarefa fácil, nem imediata. Também não se obtém com planejamento, mas sim com um progressivo fazer e amadurecimento da própria linguagem. Extrair dos próprios momentos uma linguagem coletiva traz elementos que parecem inexplicáveis. Pode-se pensar em temas ou imagens arquetípicas, mas também cabe apontar, simplificando sem ser simplista, que o mergulho cada vez mais aprimorado de Dulce em si mesma permite atingir o que há de mais profundo na alma humana.

A presença das máscaras no cotidiano é o motivo de reflexão desta obra de Dulce Martins. Natural de Santos, no litoral paulista, situa a cena na chamada Casa da Frontaria Azulejada, uma célebre obra arquitetônica local, construída em 1865 para residência e armazém do comendador português Manoel Joaquim Ferreira Netto (1808-1868). Desde 2007, o prédio passou a funcionar como espaço cultural, recebendo exposições, eventos beneficentes e espetáculos, além de ser cenário de filmagens de propagandas, novelas, minisséries e filmes. O local ocupa a centralidade do quadro e chama a nossa atenção desde o primeiro momento pela sua harmonia. O equilíbrio das cores, principalmente dos azuis, vermelhos e amarelos na fachada do edifício e nas roupas dos transeuntes, ajuda a criar uma atmosfera de solidez e segurança. Talvez seja isso que torne a obra tão fascinante, pois a temática é tratada com a sobriedade que merece, mas sem um clima trágico. Parece que Dulce Martins já consegue apontar para o amanhã. Trata-se de um espaço incerto em que a máscara, enquanto não houver vacina ou cura da pandemia, será onipresente. O melhor caminho é ver o objeto como companheiro. Mesmo que alguns se sintam incomodados, é um caminho que propicia a recondução para uma nova normalidade.

Texto de Oscar D’Ambrosio. Ele é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br.

As obras da artista naïf Dulce Martins encontram-se à venda.

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Millôr Fernandes: “Livre pensar é só pensar”, em seis frases

Todo cego moral se julga um guia de povos.”

Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem!”

Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.”

Deus protege os fracos e desamparados. Mas um bom sindicato ajuda.”

Se Deus fosse contra a paquera não teria feito o pescoço com tal mobilidade.”

De madrugada o melhor amigo do homem é o cachorro-quente.

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — Rio de Janeiro, 27 de março de 2012)

À tinta de escrever

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas

mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopeia.

Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.

José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998)

André Art: Cena surrealista e pessoas e bichos da Ilha de Marajó

Carlos André Fagundes dos Santos, ou André Art, é artista plástico autodidata de 32 anos e morador da cidade de Ponta de Pedras, da Ilha de Marajó, Pará. Já ganhou vários concursos de pintura no seu município e recentemente chegou a expor suas obras em Belém, na Livraria Fox.

Em Ponta de Pedras, mora numa casa pequena, localizada próxima à zona rural do município. Em frente à residência, há um pequeno jardim, onde ele expõe vários de seus trabalhos. De origem humilde, o artista vive de bicos na construção civil para sustentar uma família grande, e expõe seus trabalhos por alguns pontos da cidade.

Foi o poeta Marcos Samuel, conterrâneo de André, quem mostrou o trabalho do artista plástico para uma amiga, a escritora Miriam Daher. Juntos, os dois investiram e incentivaram o trabalho do artista. Eles forneceram telas, tintas profissionais e cavalete, que substituíram tinta guache e outros materiais artesanais utilizados por André até então. O resultado foram quase 30 obras, que formaram a exposição em Belém.

“Conheço o André a um tempo, desde garoto, em Ponta de Pedras, sempre fiquei admirado com as obras dele. Ele mesmo fazia cavaletes e colocava as obras em exposição no trapiche e praça da cidade. Ano passado mostrei o trabalho dele para uma amiga, a Miriam. Ela comprou algumas telas e então surgiu a ideia de fazer a exposição em Belém”, relembra Marcos.

Olha o que André Art diz de si mesmo: “Sou artista plástico, escultor e desenhista. Desenho desde os 15 anos e sou artesão também”.

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Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Sentimento do mundo”, 1940