Toada dos negros em Cuba

Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba,
Irei a Santiago.
Num carro de água negra
Irei a Santiago,
Cantarão os tetos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quer ser cegonha,
Irei a Santiago.
E quando quer ser medusa o plátano,
Irei a Santiago.
Irei a Santiago.
Com a ruiva cabeça do Fonseca,
Irei a Santiago.
E com a rosa de Romeu e Julieta
Irei a Santiago.
Oh Cuba! Oh ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Oh cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.
Irei a Santiago.
Sempre tenho dito que irei a Santiago
Num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Meu coral na treva,
Irei a Santiago.
O mar afogado na arei,
Irei a Santiago.
Calor branco, fruta morta,
Irei a Santiago.
Oh bovino odor de canavieiras!
Oh Cuba! Oh curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.

Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, Andaluzia, Espanha, 5 de junho de 1898 – Víznar e Alfacar, Granada, Espanha, 18 de agosto de 1936). Tradução de Manuel Bandeira. In “Poemas traduzidos”. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1948

Beleza e verdade

Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo.
Alguém que morrera pela verdade
Era depositado no carneiro contíguo.

Perguntou-me baixinho o que me matara:
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade – é a mesma coisa,
Somos irmãos.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversámos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

Emily Dickinson (Amherst, Condado de Hampshire, Massachusetts, Estados Unidos, 10 de dezembro de 1830 – Amherst, 15 de maio de 1886). Tradução de Manuel Bandeira que o publicou no jornal “Paratodos” em 1928. Algo curioso é que essa poetisa não dava títulos a seus poemas, mas Bandeira optou em dar nome ao poema e seguir o uso mais corrente entre os leitores brasileiros. O poeta-tradutor retocou esse poema de Dickinson até a edição de 1956 de “Poemas traduzidos”. In “Alguns poemas traduzidos”. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, p. 76, 2007

Quatro hai-cais de Bashô

1.

Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.

2.

Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me
Prazer de estar só…

3.

A cigarra… Ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.

4.

Quimonos secando
Ao sol. Oh aquela manguinha
Da criança morta!

Matsuo Basho (Tóquio, Japão, 1644 – Osaka, Japão, 28 de novembro de 1694). Tradução de Manuel Bandeira

Anelo

Só aos sábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero o louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite — em que te geraram,
Em que geraste —sentiste.
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detém as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

“Morre e transmuda-te”: enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, Hesse, Alemanha, 28 de agosto de 1749 – Weimar, Turíngia, Alemanha, 22 de março de 1832). In “Poesia sempre”, número 31, Ano 15. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura. 2009. 217 p. ilus. col. Editor Marco Lucchesi. Ex. bibl. Antonio Miranda. O poema original intitulado “Selige Sehnsucht” (Nostalgia abençoada/ de bem-aventurança) foi traduzido por Manuel Bandeira, este que é um clássico da lírica alemã, adaptando-o para o seu próprio estilo e sensibilidade modernista

Mário Schenberg: Amado alguém

Disse-lhe um dia: aquela te ama.
Deita-te com ela. Ando cansada
De lhe ouvir confissões a toda hora.
Os olhos cerrados, a fala mansa
Respondeu-me: “E como posso?
Se o que ela pintou de mais humano
Foi uma poça d’água…” Era pintora aquela.
Também me disse um dia: “Vivemos juntos. No Egito.
Uma vida antiga. Sabias?”
Não.
E falávamos de possíveis universos
De infinitas matérias. Ele dizia:
“Não contes a ninguém… mas acredito
Acredito, acredito.”
Hospedou-se em minha casa
Quando o perseguiam. Às vezes saía à noite:
Chapéu, charuto, casaco. Ríamos
Dos disfarces absurdos: tão ele.
Todos o reconheciam.
Juntos inauguramos
Um ciclo de palestras na Unicamp:
Física. Poesia. Rigor. Magia.
Amado Mario. Lúcido ao infinito.
Veemente. Humilde.
No silêncio é que nos entendíamos

Hilda Hilst (Jaú, São Paulo, 21 de abril de 1930 — Campinas, São Paulo, 4 de fevereiro de 2004). Postado por Gutemberg Medeiros, pesquisador e grande amigo de Hilda. Esse é um poema icônico dessa poetisa, um texto autobiográfico e intenso que celebra a figura do físico e crítico de arte Mário Schenberg, seu grande amor e companheiro, expressando a paixão profunda e a complexidade dessa relação através de uma linguagem poética poderosa, que mistura o sagrado, o erótico e o cotidiano, revelando a alma da poeta e o impacto dele em sua vida e obra