
Escrito pelo modernista Antônio de Alcântara Machado (São Paulo, 25 de maio de 1901 – Rio de Janeiro, 14 de abril de 1935) esse marcante livro fará 100 anos ao longo de 2027, pois os registros históricos apontam apenas o ano de 1927 para a sua primeira publicação, sem uma data ou mês exato documentados. Trata-se de uma coletânea de onze contos curtos que retratam o cotidiano de imigrantes italianos em São Paulo. Passa-se nos bairros paulistanos que dão nome à obra, tornou-se uma das principais referências da primeira fase do Modernismo no Brasil e uma das características dos três bairros é que ambos são muito importante na consolidação do samba paulistano que nesse ano de 2026 atraiu cerca de 17,3 milhões de pessoas para o Carnaval de São Paulo, considerando os blocos de rua e os desfiles no Sambódromo do Anhembi. Paulicéia teve um total de 627 blocos de rua espalhados pela capital e, no Sambódromo, 350 mil espectadores acompanharam os ensaios técnicos e as apresentações dos grupos Especial, Acesso 1 e Acesso 2, gerando um impacto financeiro de R$ 4 bilhões na economia da cidade, mais de 55 mil postos de trabalho (diretos e indiretos) e uma ocupação hoteleira batendo em 59% de reservas registradas durante o período.
Inspirado pela sua leitura e me baseando em pesquisas que fiz de diversas publicações durante a minha fase de assessor parlamentar, entre elas o documento “Índice de bairros“, do Legislativo Municipal de São Paulo; o livro “São Paulo: 450 bairros, 450 anos”, do jornalista Levino Ponciano; o site da Prefeitura Municipal de São Paulo, a Wikipédia, a enciclopédia livre da internet e o Google preparei esse texto. Alcântara Machado fez parte da primeira fase do Modernismo brasileiro e foi um importante escritor de nosso país. Segundo o professor e crítico literário João Ribeiro, “um dos maiores nomes da literatura contemporânea, na feição modernista que a caracteriza. Não é um exagero dizer que é um mestre sem embargo da sua florida juventude. É realmente um mestre na sua arte de observar e dizer. […] O seu método experimental a que não escapa o menor traço psicológico é realmente fora do comum.”
Brás
Esse bairro, cujo aniversário se deu em 8 de junho, teve início na chácara de José Brás, onde, no início do século XIX, foi pedida a edificação de uma capela em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Essa chácara ficava à margem de uma estrada que levava à Penha, com um trecho do caminho conhecido como caminho do José Brás que, depois, passou a ser denominado rua do Brás, conhecida hoje como avenida Rangel Pestana. Situado na Zona Central de São Paulo, nasceu como uma região de chácaras no final do século XVIII e transformou-se no maior polo de comércio de moda do Brasil. O nome do bairro vem de um proprietário de terras português, o negociante José Brás, que morava na região às margens do rio Tamanduateí. Em 1769 (ou 1818, segundo registros paroquiais da época), ele construiu a capela do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Ao redor da igreja, formou-se um pequeno povoado conhecido como a “Paragem do Brás”. No final do século XIX, a chegada dos trens e trilhos mudou a paisagem local, transformando o Brás em um ponto estratégico de passagem de cargas e pessoas. O espaço rural deu lugar a armazéns, oficinas e grandes chaminés de fábricas, atraindo milhares de trabalhadores. O Brás virou o destino principal dos imigrantes italianos que chegavam a São Paulo no final do século XIX e início do século XX. O cotidiano era marcado por cortiços, padarias tradicionais, pequenas oficinas e forte mobilização operária. O bairro inspirou até o famoso samba “O samba do Arnesto”, de Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato (Valinhos, São Paulo, 6 de agosto de 1910 – São Paulo, 23 de novembro de 1982). A partir das décadas de 1930 e 1940, com a seca no Nordeste e a diminuição do fluxo italiano, o Brás passou a receber muitos migrantes nordestinos. Os sotaques, comércios e hábitos nordestinos somaram-se à identidade do bairro. Com o declínio das antigas grandes indústrias, galpões e fábricas foram convertidos em lojas e espaços de confecção. Hoje, o Brás virou um centro de compras e abriga milhares de lojas que atraem sacoleiros, lojistas e consumidores de todo o país em busca de roupas e tecidos no atacado e no varejo.
Bixiga
Este pedaço da Bela Vista chegará em dia 26 de dezembro desse ano aos seus 467 anos de história, como conta Levino Ponciano em seu livro “São Paulo: 450 bairros, 450 anos”. Ele afirma que os primeiros registros referentes ao Bixiga são de 1559. Mostra que na segunda metade do século XVIII o local pertencia a Antônio Bexiga, que fora vítima da varíola, conhecida popularmente por bexiga. Em outra passagem Ponciano conta que o viajante francês August Saint-Hilaire escreveu em seu livro de viagens que a única estalagem da cidade de São Paulo era de um português alcunhado “Bexiga”, e que era imunda. Hilaire fora então pernoitar na Chácara Água Branca, em Pinheiros. O Bixiga é um território histórico e cultural localizado na região central de São Paulo, integrado oficialmente ao distrito da Bela Vista. O nome vem do apelido de Antônio José Leite Braga, antigo dono de terras na região no século XIX, que tinha o rosto marcado por cicatrizes de varíola (doença chamada popularmente de bexiga). Outra versão aponta que o local serviu para isolar doentes de varíola no passado. A área abrigou um importante quilombo urbano, de nome “Quilombo Saracura”, às margens do rio Saracura, formado por pessoas escravizadas fugitivas e negros recém-libertos. O bairro sofreu bastante influência de negros, italianos, portugueses e espanhóis. A mistura de línguas foi sintetizada bem por Adoniran Barbosa, citado acima, em suas inúmeras músicas, que mesmo não sendo do bairro é considerado o seu símbolo. Em dezembro de 1910 o Bixiga passou a se denominar Bela Vista através de um decreto municipal, mas o povo continuaria a chamá-lo de Bixiga, com “i”. O bairro é um dos berços do samba paulistano. A tradicional escola de samba “Vai-Vai” nasceu no Bixiga em 1930, originando-se de um grupo de torcedores de futebol. Em 1878, a Chácara do Bexiga começou a ser loteada, atraindo imigrantes italianos que deixavam as lavouras de café do interior. Os imigrantes moldaram a arquitetura de casas compridas e estreitas e trouxeram a fama gastronômica com cantinas centenárias, padarias e festas tradicionais como a de Achiropita. Fundado por José Celso Martinez Corrêa, o Teatro Oficina tornou-se um símbolo de resistência artística e modernidade no teatro brasileiro.Boemia: O bairro abriga dezenas de teatros, feiras de antiguidades na Praça Dom Orione e pontos históricos marcantes da vida noturna e cultural da capital.
Barra Funda
A Barra Funda nasceu como um bairro operário e ferroviário na várzea do Rio Tietê e tornou-se um importante berço da cultura e do samba paulistano. O seu nome surgiu no final do século XIX e veio de uma região alagada onde o Rio Tietê encontrava pequenos córregos (a “barra”). O trecho tinha partes fundas e difíceis de atravessar, sendo batizado de “Barra Funda”. A ocupação começou com a chegada das ferrovias para escoar o café. A Estação Barra Funda foi inaugurada em 1875 pela Estrada de Ferro Sorocabana. A São Paulo Railway chegou em 1892. Os trilhos atraíram armazéns, fábricas e imigrantes, transformando a região em um forte polo operário. Nos anos 1920, abrigou o grande complexo das Indústrias Matarazzo. Foi um dos berços do Samba e do Carnaval onde, no início do século XX, o bairro concentrou uma forte população negra. O famoso Largo da Banana virou o ponto de encontro de sambistas em 1914. No mesmo ano, nasceu o Cordão da Barra Funda (futura escola “Mocidade Camisa Verde e Branco”). O local é considerado o verdadeiro berço do carnaval de rua de São Paulo. A partir dos anos 1970, o declínio industrial esvaziou galpões mas o bairro se renovou com a inauguração do Memorial da América Latina em 1989 e do Terminal Barra Funda. Antigos galpões deram lugar a ateliês, galerias de arte, moldurarias, cervejarias e restaurantes. A região ganhou destaque internacional ao ser eleita um dos bairros mais legais e descolados do mundo pela revista “Time Out”.
Segundo a colaboradora do blog, cantora, compositora e escritora, Esmeralda do Carmo Ortiz, nascida em 4 de agosto de 1979 no bairro de Vila Penteado, Zona Norte de São Paulo, temos vários baluartes do samba paulistano, e os ligados a esses 3 bairros são:
- Antônio Carlos dos Santos Borges (Ka) foi o presidente e figura histórica da escola de Colorado do Brás, tradicional agremiação ligada ao bairro do Brás e do Centro de São Paulo
- Geraldo Filme, que foi um compositor, cantor e militante negro brasileiro, que ficou também foi conhecido como “Geraldão da Barra Funda” e foi o compositor do clássico “Tradição (Vai no Bixiga pra ver)”, onde diz “Lembranças eu tenho da Saracura”
- Thobias da Vai-Vai é um sambista ligado ao bairro do Bixiga, onde fica a sede da Escola de Samba Vai-Vai. Embora tenha passado a infância no Jardim Peri, na Zona Norte, ele adotou e foi adotado pelo Bixiga devido à sua forte ligação com a agremiação
- A cantora e sambista Negra Dija é ligada à escola de samba Vai-Vai, tradicional agremiação do bairro do Bixiga
- Osvaldinho da Cuíca nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, mas construiu sua trajetória e forte ligação com os cordões e batuques da Zona Norte (como no Tucuruvi) e com a escola de samba Vai-Vai
- A sambista Tia Sahra (Sahra Brandão) faz parte da Escola de Samba Vai-Vai, ligada ao bairro do Bixiga
- A sambista (e atriz) Denise é associada ao bairro do Bixiga, onde ela criou e comanda a roda de samba chamada Samba da Coxia
- Seu Carlão do Peruche (Carlos Alberto Caetano) era ligado principalmente aos bairros da Barra Funda e do Peruche (Zona Norte de São Paulo)
- O sambista Seu Dadinho (Eduardo Joaquim) viveu por mais de seis décadas no bairro da Vila Prado, localizado na Zona Norte de São Paulo, além de ter forte ligação com a Barra Funda por ser um dos fundadores da escola de samba Camisa Verde e Branco
- Zezinho da Casa Verde (José Narciso Nazaré) e a família Tobias, como Inocêncio Tobias e Carlos Alberto Tobias, são grandes referências do samba ligados ao bairro da Casa Verde e também à tradicional ligação com a região do Morro da Casa Verde e do samba da Zona Norte e da Barra Funda em São Paulo
E fazemos, por fim, uma referência principal à figura de Plínio Marcos, que não era um sambista de um bairro específico de São Paulo, pois ele nasceu em Santos (litoral paulista), e se notabilizou como dramaturgo, escritor e grande divulgador da cultura popular e do samba paulistano. Sua relação com o nosso samba se deu, pois ele, defensor do samba, conviveu e registrou a obra de baluartes e compositores tradicionais de várias regiões da capital e do estado. Ele produziu o antológico disco “Plínio Marcos em prosa e samba – Nas quebradas do Mundaréu” (1974), ao lado de sambistas paulistanos como Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro.
Gostei muito, Matosinho, parabéns!!!!
Muito interessante saber a história do nascimento dos bairros de nossa cidade e da sua relação com o samba.