Aquece o Sol as clareiras do ar,
atirador de dardos súbitos.
Apolo foi chamado e usurpou em Delfos o trono das Sibilas.
Sobre a mancha de trevas pousou a trípode de luz
e mais longe soprou os vaticínios.
Muitos morreram de luz tão clara, incendiando o coração.
O ar brincou na flauta abandonada pela deusa sábia
e a música invadiu águas turbulentas:
rápidas mensagens riscou o vento nas Fedríades,
pedras róseas que se chamaram as Luminosas.
À noite, dormem no bosque templos de ossatura branca,
vértebras pousadas entre oliveiras.
Três colunas se enlaçam, sobrevivas,
na antiga ronda do templo,
fechado o círculo dos ritos funerários.
As cigarras se atrevem e os jumentos
a louvar a montanha, os vales e deuses soterrados.
A Terra acorda às vezes e suplica que tanta luz
não lhe fira a carne, queimando arbustos e a pedra crua
Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006) foi uma poeta e tradutora que casou-se com Vicente Ferreira da Silva, com quem estabeleceu uma parceria de dedicação a estudos ao longo de uma convivência de 23 anos. Dora e Vicente Ferreira da Silva fizeram de sua casa pouso de escritores e pensadores interessados na divulgação de um pensamento crítico. In “Hídrias”. São Paulo: Odysseus Editora, 2005. Essa obra poética ficou em 1º lugar na categoria Poesia do Prêmio Jabuti 2005, ano do nascimento de meu filho João Alexandre. Anteriormente, em 1995, havia lançado o livro “Poemas da estrangeira”, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti daquele ano. O crítico e também poeta Ivan Junqueira atribuiu-lhe o talento de se valer “de uma linguagem sem voz para expressar o indizível”. Em permanente contato com jovens interessados em mitologia, psicologia e poesia, Dora fundou o Centro de Estudos Cavalo Azul, em 2003, do qual participaram os poetas Cláudio Willer e Rodrigo Petrônio