Mês: junho 2026
Soneto a Lasar Segall
De inescrutavelmente no que pintas
Como num amplo espaço de agonias
Imarcescível música de tintas
A arder na lucidez das coisas frias:
Tão patéticas sois, tão sonolentas
Cores que o meu olhar mortificais
Entre verdes crestados e cinzentas
Ferrugens no prelúdio dos metais.
Que segredo recobre a velha pátina
Por onde a luz se filtra quase tímida
Do espaço silencioso que esculpiste
Para pintar sem gritos de escalarte
Na profunda revolta contra o crime
Daqueles que fizeram a vida triste?…
Rio, 1942
Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 – Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980). In “Livro de sonetos de Vinicius de Moraes”, Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957
Sodade do cordão
Decifrando o escrito: “Música, poesia, odiei”
Versos de um gênio do repente
Nessa vida atribulada
O camponês se flagela
Chega em casa meia noite
Tira a tampa da panela
Vê o poema da fome
Escrito no fundo dela.
*
Deus querendo, todos comem
Que um dia Ele pregando
Mais de cinco mil pessoas
Que estavam lhe observando
Com cinco pães e dois peixes
Comeram e ficou sobrando.
*
Eu admiro muito o padre
Que seu conselho tem luz
Toda sua pregação
Nasce nos braços da cruz
Massa de trigo em mãos dele
Vira corpo de Jesus.
*
É, bonito, é saudoso, é natural
O cenário do campo sertanejo.
No sertão, todo dia, bem cedinho
Vê-se um galo descendo do poleiro,
Um cabrito berrando no chiqueiro,
No terreiro, fuçando, um bacorinho.
Um preá sai torcendo o seu focinho,
Como um cego tocando realejo;
Na cozinha, uma velha espreme o queijo,
Um bezerro pulando no curral.
O retrato do corpo natural
É a veste do homem sertanejo.
*
O meu verso é como a foice
De um brejeiro cortar cana.
Sendo de cima pra baixo,
Tanto corta, como abana,
Sendo de baixo pra cima,
Voa do cabo e se dana.
*
E o boi tristonho a puxar
O carro pela rodagem,
De tanta fome e de sede,
Chega a lhe faltar coragem,
Se vendo a listra de lágrimas
Correr na cara selvagem.
*
Botei espora nos pés,
Pulei em cima do bicho,
Entrei na mata fechada
Coberta de carrapicho,
Dando manobra na sela,
Chega rangia o rabicho.
*
São quatro peitos roliços
Que, unidos, fazem cama.
Todos quatro são furados
E o leite não se derrama,
Mas sai com facilidade
Depois que o bezerro mama.
Manoel Xudu (São José dos Ramos, localizado na região de Itabaiana, Paraíba, 15 de março de 1932 – Salgado de São Félix, Paraíba, 1985). Foi um gênio da poesia popular nordestina e um dos maiores artistas que se conheceu na arte de improvisar versos ao som de uma viola no mundo mágico dos cantadores repentistas
O primeiro repente acima foi recomendado em conversa afinada com o fotógrafo de rua, retratos e foto-documentário, escritor, dramaturgo e professor de história pernambucano Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte) em um papo gostoso na festa junina desse ano na Bibli-Aspa.
Surgindo figuras num jogo de rugby
Garoto das meias vermelhas
Ele era um garoto triste. Procurava estudar muito.
Na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa.
Todos os outros meninos zombavam dele, por causa das suas meias vermelhas.
Um dia, o cercaram e lhe perguntaram porque ele só usava meias vermelhas.
Ele falou, com simplicidade: “no ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo”.
Colocou em mim essas meias vermelhas.
Eu reclamei. Comecei a chorar.
Disse que todo mundo iria rir de mim, por causa das meias vermelhas.
Mas ela disse que tinha um motivo muito forte para me colocar as meias vermelhas.
Disse que se eu me perdesse, bastaria ela olhar para o chão e quando visse um menino de meias vermelhas, saberia que o filho era dela.”
“Ora”, disseram os garotos. “mas você não está num circo.
Por que não tira essas meias vermelhas e as joga fora?”
O menino das meias vermelhas olhou para os próprios pés, talvez para disfarçar o olhar lacrimoso e explicou: “é que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora”.
Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas.
“Quando ela passar por mim, em qualquer lugar em que eu esteja, ela vai me encontrar e me levará com ela.”
Muitas almas existem, na Terra, solitárias e tristes, chorando um amor que se foi.
Colocam meias vermelhas, na expectativa de que alguém as identifique, em meio à multidão, e as leve para a intimidade do próprio coração.
São crianças, cujos pais as deixaram, um dia, em braços alheios, enquanto eles mesmos se lançaram à procura de tesouros, nem sempre reais.
Lesadas em sua afetividade, vivem cada dia à espera do retorno dos amores, ou de alguém que lhes chegue e as aconchegue.
Têm sede de carinho e fome de afeto.
Trazem o olhar triste de quem se encontra sozinho e anseia por ternura.
São idosos recolhidos a lares e asilos, às dezenas.
Ficam sentados em suas cadeiras, tomando sol, as pernas estendidas, aguardando que alguém identifique as meias vermelhas.
Aguardam gestos de carinho, atenções pequenas.
Marcam no calendário, para não se perderem, a data da próxima visita, do aniversário, da festividade especial.
Aguardam…
São homens e mulheres que se levantam todos os dias, saem de casa, andam pelas ruas, sempre à espera de alguém que partiu, retorne.
Que o filho que tomou o rumo do mundo e não mais escreveu, nem deu notícia alguma, volte ao lar.
São namorados, noivos, esposos que viram o outro sair de casa, um dia, e esperam o retorno.
Almas solitárias. Lesadas na afetividade. Carentes.
Pense nisso!
O amor, sem dúvida, é lei da vida.
Ninguém no mundo pode medir a resistência de um coração quando abandonado por outro.
E nem pode aquilatar da qualidade das reações que virão daqueles que emurchecem aos poucos, na dor da afeição incompreendida.
Todos devemos respeito uns aos outros.
Somos responsáveis pelos que cativamos ou nos confiam seus corações.
Se alguém estiver usando meias vermelhas, por nossa causa, pensemos se esse não é o momento de recompor o que se encontra destroçado, trabalhando a terra do nosso coração.
A maior de todas as artes é a arte de viver juntos.
Carlos Heitor Cony (Rio de Janeiro, 14 de março de 1926 — Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2018) foi um jornalista, cronista e escritor brasileiro. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, foi colunista do jornal Folha de S.Paulo e comentarista da rádio CBN
Um ano sem Marco, sentida ausência de um grande cara
Amanhã, 28 de junho, fará um ano da partida de meu querido primo-irmão Marco, que se foi cedo, com 77 anos… Encomendei uma missa pela sua alma a ser realizada nesse domingo, 28/06, às 19:30 horas, na Paróquia Santa Teresinha, localizada na Rua Maranhão, 617 – Higienópolis, São Paulo – SP – Telefone: (11) 3660-1220. Nesse mesmo domingo, às 19:00 horas, haverá outra missa no Santuário Nossa Senhora Aparecida do Vagão Queimado, localizada na Av. Gastão Vidigal, 385 – Jardim Matilde, Ourinhos – SP – Telefone: (14) 3326-8890, encomendada pelo filho de meu primo Marco, de nome Rodrigo Martins Silva.
Saúdo meu primo materno Marco Aurélio da Silva (Ourinhos/ SP, * 29/09/1948 – + 28/06/2025)!
Deixou saudades em sua esposa Nanci, em seus queridos filhos Viviane, Maíra e Rodrigo, em sua neta Maria Clara, nos demais parentes e em seus muitos amigos, entre os quais o popular “Boca”.
Campo de futebol
La sociedad secreta de las mujeres ultraístas argentinas (Trecho)
“(…)
Sin embargo este legítimo protagonismo de Norah Lange en las huestes ultraístas no implica que fuera la única mujer que se acercó al grupo o que tuvo interés en la estética. Existen, por lo menos, dos documentos de relevancia que demuestran que hubo un serio intento de incorporar dos o tres poetas mujeres más, al reducido grupo capitaneado por Jorge Luis Borges, en el Buenos Aires de 1921 a 1923.
El primero, en el número 160 de la revista Nosotros, publicado en septiembre de 1922, que contiene una suerte de pequeña antología, anunciada en la tapa bajo el título de Poemas ultraístas, con colaboraciones de Jorge Luis Borges, F. Piñero, Norah Lange, Clotilde Luisi, Elena Martínez, Roberto A. Ortelli, Guillermo Juan y E. González Lanuza.
Los cuatros mosqueteros, Borges, Piñero, Guillermo Juan (Borges) y González Lanuza, más Norah Lange y Ortelli, y dos desconocidas: Clotilde Luisi y Helena Martínez, con H, como aparece dentro de la revista y en el resto de las referencias de que disponemos. Una de ellas es la propia Proa primera época, nº 1, donde publica Poemas.
Me asomé y ví
De púrura y oro vestido mi jardín
Mas su esplendor tenía lo apagado del matiz otoñal
Temblé
Sentía cerca el frío que debía llegar
No entendí
El velo que atenuaba la ardiente florescencia
Era la paz serena dada por la Presencia
Fraguada en el Amor
Traslúcida mi alma era un tenue cristal
Que ceder parecía al peso de la luz
El bosque encendido había quedado
Cual leño seco consumido
El árbol seco devorado
Alzaba sus ramas como gritos
Clamando por la luz devastadora.
(…)”
May Lorenzo Alcalá (Mar del Plata, Argentina, 1946 – Buenos Aires, Argentina, 5 de julio de 2011) fue una abogada, diplomática, escritora, coleccionista y curadora de arte argentina