Eu faço versos
Eu faço versos
Como quem chora
De desalento
De desencanto
Fecho o meu livro
Se por agora
Não tens motivo
Nenhum de pranto
Meu verso é sangue
Volúpia ardente
Tristeza esparsa
Remorso vão
Dói-me nas veias
Amargo e quente
Cai gota
A gota
Do coração
E nestes versos
De angústia rouca
Assim dos lábios
A vida corre
Deixando um acre
Sabor na boca
Eu faço versos
Como quem morre
Wally Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 — Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)
Adereço de carnaval
Novíssimo Prometeu
Eu quis acender o espírito da vida,
Quis refundir meu próprio molde,
Quis conhecer a verdade dos seres, dos elementos,
Me rebelei contra Deus,
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho,
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas dimensões:
Então o ditador do mundo
Mandou me prender no Pão de Açúcar;
vêm esquadrilhas de aviões
Bicar o meu fígado
Vomito bílis em quantidade,
Contemplo lá embaixo as filhas do mar
vestidas de maillot, cantando sambas,
Vejo as madrugadas, as tardes nascerem
– Pureza e simplicidade da vida! –
Mas não posso pedir perdão.
Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975)
Despertar
Paisagem nº. 1
Minha Londres das neblinas finas!
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio…
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas…
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!…
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralálá… A guarda-cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste…
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento…
Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca…
Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945). In “Paulicéia desvairada”
De “Estórias Paralelas” – Valdir Sarubbi
Selecionei um trecho de um conto chamado “Os Dias vazios”, escrito pelo artista paraense Valdir Sarubbi, que foi meu saudoso professor de pintura. Ele era um leitor muito dedicado e um profundo conhecedor de literatura. Na última fase de sua vida ele se empenhou em escrever memórias e contos. Neste trecho o personagem fala sobre sua amizade com o amigo poeta e de como ele era.
“Falava de minha vontade de ir morar em Belém e fugir daquela vida monótona à beira do rio Caeté. Mas o que eu queria fazer? No fundo, não imaginava. Eu era um insatisfeito que sabia fingir muito bem que estava satisfeito com tudo. Quem me visse sorrindo nas rodas de amigos ou nas reuniões de família mal podia imaginar o que me passava pela alma. E que eu não podia nem falar para meu melhor amigo, o poeta que se sentava comigo na Praça da Intendência.
Quando ele declamava naquelas noites de lua, ficava olhando seu rosto levemente iluminado pelo luar. Era um rosto expressivo mostrando a emoção que suas palavras transpareciam. Seus poemas falavam de amor, de saudade, da beleza da vida entremeada com a tristeza da morte. O poeta falava da vida, mas também vivia tão pouco quanto eu.
As moças gostavam de ouvir seus sonetos. Faziam roda e ele declamava cheio de ardor. Havia sempre uma ou outra lágrima nos olhos de alguma delas. E quando percebia, matizava os versos com sua linda voz. Era aplaudido. Mas nesses momentos era como se algo acontecesse com ele. Ficava calado, punha as mãos nos bolsos e lançava olhares desesperados em volta. E se alguma das moças se aproximava para conversar, saia de mansinho, se afastando para longe dali.”
Estórias paralelas, 1999, 140 páginas

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)
Agman Duarte: Festa no quilombo, Brincadeira no pé de cacau e Pé de moleque
Agman Duarte Benvindo (@agmandesignarte) é designer de produto e escultor de Brasília, reside no extremo sul da Bahia (Prado) onde tem um ateliê. Estudou na Universidade de Brasília. Escultor especialista em madeira e tinta acrílica.
“Sou brasiliense, me formei em design de produto na Universidade de Brasília. A arte sempre esteve presente na minha vida. Com o pai pintor e escultor (Agadman), a mãe professora de artes e a mais rica educação artística que isso poderia resultar, nunca tive dúvidas que seria um criador.”
Agman Duarte
Comenta sobre seu pai (Agadman) dizendo que “Ele nasceu no Piauí, mas foi criança para Brasília, mais tarde foi para o Rio de Janeiro onde conheceu Burle Marx. No centro oeste expôs com Poteiro, Siron Franco e Galeno… E finalmente veio para o sul da Bahia onde construiu seu ateliê – que é um trabalho artístico em si… Sempre viveu de arte e desenvolveu sua própria linguagem em diversas técnicas como desenho, escultura e entalhe em madeira sendo a pintura sua paixão e principal foco.”
Contatos:
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www.instagram.com/agmanduarte
WhatsApp: (73) 9 9903-8245
Tais Sarubi: Frida reeditada e Consequência
Tais Sarubi foi minha colega em fins dos anos 90 no curso de pintura ministrado em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi em sua residência localizada na Rua Albuquerque Lins, quase esquina com Rua Baronesa de Itu, São Paulo. Atualmente Tais produz, publica e vende seus trabalhos pictóricos na Casa Ateliê Terapêutica localizada no Guarujá, SP. Na imagem acima vemos em primeiro lugar a sua obra “Frida reeditada” e veja o que ela comenta sobre ela: “Há um ano publicamos a obra Frida, uma acrílica sobre papel paraná. Mais tarde, percebemos que o resultado pedia algo mais. A pintura foi retomada e acrescida de alguns detalhes, que caracterizaram definitivamente a intenção deste trabalho.” Em seguida vemos a sua outra pintura, criada por ela em novembro de 2022 e intitulada “Consequência”. Nela ela usa a técnica do giz pastel oleoso finalizado com acrílica.
Sobre a Casa Ateliê Terapêutica
A Casa Ateliê Terapêutica é um espaço de produção e promoção de arte autoral, baseada em duas áreas de trabalho: Mentoria artística e psicologia da arte.
A criação da Casa Ateliê Terapêutica é inspirada pela compreensão de que o fazer artístico é um caminho de transformação pessoal e de expressão da criatividade humana.
O ateliê de arte da Casa é uma oficina de construção da identidade artística; produção e comercialização de arte autoral, para todos aqueles que querem se expressar pela linguagem da arte.
O espaço terapêutico da Casa, por sua vez, é uma via de conhecimento pessoal e de projeção profissional, que propõe resultados de autonomia e saúde integral.
Endereço: Rua Montenegro, 18 – Sala 22, Guarujá, SP
Tais também ministra aulas de pintura e desenho. Veja o que ela diz sobre essa atividade: “O bacana é que fui procurada por uma moça para “aulas de pintura”. Fiz uma sessão de ateliê com ela e foi muito legal porque é uma pessoa aberta e pude usar o método que o Sarubbi (no Ateliê Livre de Valdir Sarubbi) usava com a gente. Me lembrei muito dele!”
Contatos:
www.facebook.com/casa.atelie.t
www.instagram.com/taissarubi
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taissarubi@gmail.com
WhatsApp: (13) 9 8207-5711
Márcio Alcântara: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)
Márcio Alcântara
“Olá, me chamo Márcio Alcântara. Sou tetraplégico com lesão na coluna cervical c5 e c6 desde 19 de julho de 1993. Sofri um acidente de moto aos 21 anos de idade, ao sair de uma festa. Depois do acidente tive que aprender na dor que a falta dos movimentos acabaria de vez com minha vida ou mudaria com novos sonhos. Então resolvi sonhar novamente, e assim a arte surgiu na minha vida em 2013 com a pintura com a boca.”
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Óleo
APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.
Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
apbp@apbp.com.br
https://apbp.com.br/home