Contrastes

Existe muita tristeza
Na rua da alegria
Existe muita desordem
Na rua da harmonia
Analisando essa história
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro um palhaço
Cada vez mais me embaraço
Analisando essa história
Existe muito fracasso
Dentro do largo da glória
Analisando essa historia
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
mais eu encontro um palhaço

Ismael Silva (Niterói, Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1905 – Rio de Janeiro, 14 de março de 1978). A letra desse samba reflete sobre paradoxos da vida, mencionando também desordem na rua da harmonia e palhaços longe do circo, destacando contrastes sociais e emocionais. É uma crônica sobre contradições, muitas vezes interpretada como uma crítica social leve e poética, popularizada por intérpretes como Jards Macalé e Luiz Melodia. A música é um clássico do samba brasileiro conhecido por sua melancolia reflexiva

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A festa universal divide os pares
entre oceanos, continentes, mares
As razões do mercado são mais certas
do que todas as velhas descobertas.
Por que teimar, como um menino altivo
a quem se aplica logo um corretivo?
O certo é acomodar-se na cadeira
e ouvir do mestre a preleção inteira.
Quem se rebela é um dinossauro bronco,
que merecia estar atado a um tronco
e receber as chibatadas mágicas,
que suprimem as resistências trágicas
e repõem as rodas sobre os trilhos.
como fazem os pais com os próprios filhos.

Reynaldo Valinho Alvarez (Rio de Janeiro, 1931 – 2021). De “Janeiros como rios” (inédito). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Este dia

Chegar, assim, a um dia
como este, quem diria?

Ninguém, que não poderia
alguém saber deste dia.

Nem eu, que me prometia
varandas de calmaria

Se a uma hora tardia
da vida chegasse um dia.

No entanto, eis-me neste dia,
o qual jamais urdiria

nem em pesadelos; dia ardendo
contra a alegria,

a paz, o amor, a poesia,
o corpo, a esperança; dia

como nenhum: pedraria
fulgurante de agonia.

Ruy Espinheira Filho (Salvador, Bahia, 12 de dezembro de 1942). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Os cátaros

Os cátaros
são ou não são
maniqueistas?

Se são, tiram do bem
O mel do mal
Com mão precisa.

Se não,
fazem do bem o bom,
e matam o mal
a vista.

Assim,
se são ou não
antípodas,
a fé dos cátaros
entre o bem e o mal
traz em si
sua própria esgrima:

— do lado do sim,
é o mal
a voz divina;

— do lado do não,
é o bem
a voz suicida.

Por conta
de tanta e tal
antinomia,
qualquer que seja
a voz de sua língua.
tem os cátaros
um só parâmetro
de esgrimistas:

— ou choram a cântaros
(e lânguidos)
a baba do demônio,
ou rasgam as vísceras
quando agônicos
tiram do bem
seu mal congênito.

Mário Chamie (Cajobi, São Paulo, 1 de abril de 1933 – São Paulo, 3 de julho de 2011). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999