Estética da recepção
Turris eburnea.
Que o poeta brutalista é o espeto do cão.
Seu lar esburacado na lapa abrupta.
Acolá ele vira onça e cutuca o mundo com vara curta.
O mundo de dura crosta é de natural mudo,
e o poeta é o anjo da guarda do santo do pau-oco.
Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada, mija em leque no ururu, malocado na cruz da encruzilhada. Cachaça para capotar e enrascar-se em palpos de aranha. Ó mundo
de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas, serpes, serpentes,
já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre, carrega antenas de gafanhoto mas
não posa de profeta:
“Ó voz clamando no deserto”.
Pois eu, pitonista, falo que ele não permite que sua pele crie calo
dado que o mundo é de áspera epiderme
como a casca rugosa de um fero rinoceronte
ou de um extrapoemático elefante
posto que
nas entranhas do poema os estofos do elefante ainda são sedas e delicadezas e carências de humano paquiderme. É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco.
Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco.
Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez como um faquir que come sua própria fome e, sem embargo, destituído
quiçá do usucapião e usufruto do tino com a debandada de qualquer noção de impresso
prazo de jejum. Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez.
Suportar a vaziez.
Sem fanfarras, o vazio não carece delas.
Waly Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 – Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999
Potinhos de vidro
O mirante
Tarde de ouro brilhando
Nas vidraças, sol de puro êxtase,
À peregrina luz dourada, no mirante
Que se projeta ao ar, como uma ave
Pousada nos telhados, sobre a praça.
No peitoral em brasa, nos esconsos
Portais onde habita o silêncio,
Devoro cada momento, cadela de
Murchas tetas, cega da luz, excessiva,
Babando um uivo longo sobre o mar
Que se precipita na distância e,
Mais além, no horizonte incendiado,
Regurgitam velhas lendas, restos de naufrágio,
Batelões espanhóis, caravelas de proas alongadas,
Surgindo das águas tintas, do encantado perau
Onde habita o improvável.
A cidade mergulha na sombra alaranjada
Que, aos poucos, sobe do golfo imenso
E, suavemente, se espalha
No recorte do Recôncavo, povoado de ilhas.
Conjuração de pombos e de sinos,
A tarde apodrece como um fruto
A repartir-se em gomos nas esquinas.
O que farei agora quando exausto
O coração se inclina para o abismo
E lenta, lentamente, instala-se o conflito?
O tempo colou em minha boca
Sua boca de granito.
Neste mirante, debruçado
Sobre o verde infinito do mar
E torres centenárias,
O passado renasce nas ladeiras
De velhas pedras polidas,
Soturnas transversais
Onde habitam avantesmas
E à noite vêm cantar,
Com goelas roucas, raparigas
De longos véus diafanos e turbantes.
Esculpido pelo vento, o pelouro ressurge,
À luz que vem do ocaso, com argolas
De ferro e marcas no tronco rijo.
Ao estalar do chicote um cheiro ácido
De sangue, de água suja, de cusparada
E mijo, se espalha ao som crescente
De rezas, bruxarias, esconjuros, gemidos.
Na encruzilhada, luz e trevas,
O falo ereto, hierático, ardente
Como um cirio, Elegbá
Se apodera das mulheres,
Perdulário de amor e maleficios.
No adro das igrejas recomeça a litania.
Myriam Fraga (Salvador, Bahia, 9 de novembro de 1937 – 15 de fevereiro de 2016). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999
Variando
O leque (variações)
I
Linha oblíqua
oculta desoculta
o instante breve
cores exalta
do negro escarlate.
Ela e o leque: a aragem esconde
em poço de sombra
a curva do pescoço
o colo branco.
II
Gesto náufrago
desvela o perfil da beleza
(o leque imita o vento)
e um seio acaricia
no leve perpassar.
III
Silabário da alma
longe leva asas voo
sem nada revelar
do sopro.
É um calado dizer
do muito ou nada
metade encantada
do mistério.
IV
Sublinham os olhos
o leve movimento
do leque. Anunciam
o início ou algo terminado.
Mas o que esperar
do iluminado frêmito?
V
O sim-não do leque
rabisca sobre a face
um sorriso
que escapa.
VI
Ser um leque em suas mãos
ser trêmula pérola
junto ao coração.
Tudo oscila entre sombra e luz.
O leque: ladrão sutil
só deixa o perfil
que seduz.
VII
O que falam se o sorriso
oculta as palavras
e o leque, o sorriso?
Mãos longas
agitam o ar.
Como imaginar
um desenho
de perfis aéreos
(bem talhados)
mas sempre inacabados?
VIII
O leque pousado
no abandono.
Ao lado ela dorme, calma,
e nem sonhar parece.
O leque imóvel: um deus
do instante
negro-cintilante.
IX
Como vê-la se o leque
é ciumento?
O perfil se desfaz
no vento. Alguém o refaz
traço a traço.
Erguem-se os braços
movimento da graça –
devolvendo face,
cabelos, tranças.
Fios dispersos
se entretecem
nas flores despertas
da fronte.
X
A mão segura o leque.
Fundem-se tons de ouro e rosa
na face enigmática
em fragmentos.
Como percebê-lo se o aroma
a esconde em redoma
e o olhar negro brilhe
um só momento?
A música emudece
pequena torna-se a boca
e o esplendor do corpo –
taça de flor única.
Seria o tato possível
no cetim dos braços?
Imagem que o leque inventa
e abandona no ar.
Ou é o leque a invenção
da face semi-oculta?
Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999
Páscoa: Sempre é tempo…
A Páscoa é tempo de renascimento, reconciliação e esperança. Por isso vamos recomeçar com fé, com coragem, celebrar com nossos corações alegres e com nossos sorrisos se abrindo de felicidade. Cristo vive! Desejamos que essa seja uma época de celebração, paz e comunhão entre todos.
Equipe da Galeria Pontes
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Capiau
A noite fria
“… and after many a Summer dies the swan.”
Tennyson
Fiz de mim mesmo um capital de escombros.
Dediquei-me a arruaças repentinas,
amontoei no ar minhas ruínas,
joguei tudo no chão e dei de ombros.
Sacrifiquei assim crenças, assombros
e encantamentos: moços e meninas
vi-os ruir em vão e de seus tombos
compus minhas estrofes assassinas.
Não tem perdão meu perdulário ofício
de tordo de deserto – que onde eu pouso
o cacto em flor da arte, esse meu vicio,
é tudo insolação; que um fabuloso
sol carnívoro e frio põe um gozo
mavioso onde eu ponho um precipício.
Sou o tordo cantor do desenlace.
Nem tenho outro motivo de cantar.
Transformo em elegia cada face,
cada torso em estela tumular.
Canto como quem abre a jugular
a que se abraça e, ainda que me abrace
à perfeição mais doce, pelo passe
de magia da música vou dar
sempre com a mesma estátua degolada.
Dom nenhum me bastou, tomei-os todos
às mãos que me tocavam e fiz um nada
aquilo; fui virando o tordo
de Bizâncio, a cidade ensimesmada:
um artefato, um engenho, um engodo.
O tordo de Bizâncio era de jade
e filigrana, imitação do efêmero.
e consolava da realidade
com a harmonia pungente do que geme
como se padecesse de verdade.
Eu fui ficando assim, virando um gêmeo
do pássaro mecânico: a vaidade
de cantar coruscando como a gema
entre as joias que passam por penuzem
foi-me tomando a alma e eu sou agora
como a caixa de música em que rugem
(ou rugiam) as paixões de Teodora.
Um tordo assim vive de escapatória,
entre as lepras da vida e as da ferrugem
Um pássaro de esmalte faz de cores
e de formas a luz da alma sozinha
e do corpo um arpejo que se aninha
entre o desejo e os frios esplendores
de uma ourivesaria.
Entre os doutores
em Bizâncio esse tordo morto tinha
o mais alto lugar e imperadores s
solenizavam-no. É assim a minha
situação de tordo de alabastro;
canto nas altas cúpulas serenas
a harmonia nascida de um desastre
que talvez não se cumpra – mas se as penas
deste tordo são ouro, cobrem apenas
o espectro dos tesouros que encontraste.
É estranho que me queiras devolvido,
subtraído aos vãos de uma couraça:
minerais não têm cura do que passa…
Compreendo que busques um sentido
as opalas mais frias; que entre o ido
e o vivido lhe encontres certa graça
à ferrugem do engenho encanecido;
mas ao cabo esculturas de fumaça
valem mais pois provêm da labareda
e eu, ao tornar-me a joia em cuja chama
nada resta de Troia, fiz de Leda
a Helena um teorema: escama a escama
componho a madrepérola entre a seda
e as telas do silêncio numa cama.
Assim, ó enfeitiçado rosto antigo
que te extasias como uma insensata
rapariga em visita ao inimigo,
não vês um tordo, vês a ave de prata
e ouves a voz de ouro, o que é um perigo!
O abismo é avaro: minha serenata
faço-a ao luar batendo no postigo,
mas já não abro à lua intimorata.
Se o que te pasma é o que mais te enamora,
foge ao fantasma mais depressa ainda!
Entre os abismos tremem a luz canora
e as geleiras do adeus, chegas ao fim
da arieta do cisne a luz – que é linda,
eu sei, mas ouve-a bem: essa luz chora.
Ah, vitral matinal, eu não quisera
que te entregasses, como é bem possível
que ainda te entregues, não a uma quimera,
a uma luz tanto mais apetecível
quanto se nutre de uma pura espera:
as vésperas se abismam no invisível
e as futuras delícias do sensível
são geadas que atardam a Primavera…
Não faças contas de colher, que eu vivo
voltado para trás sem ter mais nada
que me sirva de escusa ou de motivo.
Eu olho uma paisagem circundada
do rio de Caronte, corrosivo,
ando é me aproximando dessa entrada.
E que lívida e nua é aquela margem
quando a contempla um tordo de metal!
Um cisne deixa atrás reflexo e imagem
e vai subindo as fontes do real,
separando-as do ser… Essa paisagem
majestosa e sozinha é sem igual
entre as lições do abismo porque um pajem
toca as harpas no ar, como um jogral…
Contra um fundo tão frio a tua fronte
abrasada de um júbilo capaz
de prolongar as febres do horizonte
é a grande aparição – mas no que dãs
um tordo enxerga a barca de Caronte
e um cisne a asa mais negra do fugaz…
Ah, tocar esses braços, esses trêmulos,
fragilíssimos cimbalos, trocar
pelos cimos meus símbolos enfermos.
a ave do precário em seu lugar!
Como um tordo qualquer deixar-me estar
entre as fragilidades que entrevemos,
plenas de imperfeição! Mas não: soltar
uns trinados de opala em seus extremos
para encher uma sala é a única sina
dos tordos maquinados pelo canto
e assim que a luz descer a outra colina
um rouxinol virá… Se por enquanto
o sol é um lá bemol, tudo se inclina
a nota fria e a noite fia o manto.
Tens nas têmporas turvas a orvalhada
de uma doce manhã que eu reconheço
mas não mereço mais: tudo tem preço,
que dizer de uma fronte enfeitiçada?
De resto pus no peito uma estocada.
não e justo que pouses a cabeça
em meu fortim: perdoa que te peca
que te afastes de mim como a alvorada
vai-se arrancando à noite agonizante.
Eu já não posso mais alvorecer.
O rouxinol desde o primeiro instante
em que a manhã começa há de escolher
cantar ou ser a luz cala esse amante
da noite… Ah, a noite fria que há no ser!
Oxford, 1979
Bruno Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 – São Paulo, 27 de junho de 2007). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999