José Henrique Breda: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

José Henrique Taveira Breda

Nascido em 27/10/1960, em Franca, SP. Com os braços e as pernas paralisados desde o nascimento, aprendeu a pintura com a professora Maria Goret Chagas (pintora com a boca e os pés da associação).

👨🎨 Artista plástico da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Acrílica
Título da obra: “Arara brasileira”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés. Contatos:
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Trinta anos esta noite (Trechos)

Aviso aos navegantes

A Gloriosa faz trinta anos em 1994. A palavra “gloriosa”, usada com ironia pelos adversários, virou rótulo sério dos que, em 1964, derrubaram o presidente João Goulart. É como gay, eufemismo (jocoso) de efeminado, que foi assumido por quem é. Desses trapos bandeiras são feitas.
Pouca gente no Brasil era adulta, trinta anos atrás. Se convencionou que adulto é ter 21 anos, maioridade. Ou seja, adulto na época hoje teria média de cinquenta anos. Claro que há, circulando forte e sacudida, gente dessa idade para cima. Mas é minoria no Brasil. Razões várias. O que mais se vê é o pessoal na faixa dos vinte ou trinta anos; e os de idade intermédia, quarenta anos, que eram crianças em 1964, já parecem esquecidos do pouco que então perceberam.

(…)

Música das estrelas, música da terra

Nos intervalos de banho, preparativos, beliscadas de comida, telefonemas etc., antes que a noite se tornasse madura para procurar os amigos e o prazer, ouvi naqueles anos todos, em discos ou no rádio, tudo o que Bach, Mozart e Beethoven haviam composto. Ainda não tinha descoberto, ou melhor, não me sentia particularmente atraído por Wagner, paixão futura. Debussy e Ravel eram para mim mais um instrumento do incomparável Walter Gieseking ao piano. Fiquei profundamente chocado ao saber que ele vestira a camisa da SA nazista. Certamente para agradar, por falta de caráter, e não por ideologia, pois quem tira de Debussy e Ravel aqueles sons nada tem em comum com as brutalidades dos alemães dos 1930 e 1940.

Não tenho educação formal em música. Não aprendi a ler partituras, como Bernard Shaw, a quem o crítico A. B. Walker encontrou, no Museu Britânico, estudando alternadamente O capital, de Marx, e a partitura de Tristão e Isolda, de Wagner. Como, de resto, Marx explicaria o priapicídio de Tristão por Isolda? Sim, Tristão morre afogado nas pudendas de Isolda, a que não pode resistir, traindo sua família, sua honra de cavaleiro, a si próprio, enlouquecendo com um desejo que só faz crescer e cuja única saída é a morte. Isolda preside sobre o seu desfecho, ninando-o com uma canção de amor e morte (Liebestod). A que aberração burguesa, ou aristocrática, Marx atribuiria esse destino? Nem convém pensar. Há uma insolência irritante no esplendor dessa música, como na carta cheia de vanglória que Wagner enviou a Liszt quando completou a ópera (apertado por três mulheres, de que queria se esconder), mas nos rendemos, apesar de tudo.

(…)

Paulo Francis, pseudônimo de Franz Paul Trannin da Matta Heilborn (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1930 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de fevereiro de 1997). Esse jornalista e crítico era conhecido por sua personalidade polêmica, crítica e satírica, tornando o nome “Paulo Francis” uma das marcas mais influentes do jornalismo brasileiro. Trabalhou na Folha de S. Paulo por 15 anos (1975–1990) e notabilizou-se por suas colunas diretas de Nova York, abordando política internacional com um estilo ácido e polêmico, consolidando-se como uma das vozes mais marcantes do jornal. In “Trinta anos esta noite: 1964, o que vi e vivi”. São Paulo: Companhia das Letras, 1994

Artesanato

Todo dia morremos um pouquinho:
na gaveta a camisa desbotada,
o passado não cabe mais na casa,
e o tempo andou metade do caminho.

Todo dia esquecemos nossa morte:
nas festas sem paixão de fins de tarde,
no prazer que não dura o seu alarde,
as viagens verticais sem passaporte.

Todo dia morremos uma parte.
O corpo sabe disso e quer o mar,
mas perder nos ensina a caminhar
– morrer a cada dia é uma arte.

João Filho (Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1975). Vencedor do Prêmio Alphonsus de Guimaraens (2015), concedido pela Biblioteca Nacional pelo livro “A dimensão necessária” (2014), ele é um dos grandes nomes da poesia contemporânea. In “Revista Sombra”, 1ª edição, revista literária que acompanha mensalmente os livros da Pessôa Editora

1.8 [Alexandria]

Amei Alexandria apaixonadamente
Foi naquela cidade que amei como ninguém,
como se ama a verdade e a ilusão quando vêm
a dar quase no mesmo: um coração consente

qualquer ambiguidade à alma quando tem,
como se diz, a vida toda pela frente…
À mais notória condição inconsequente
que um jovem coração cultiva, eu dei também

como o barco à deriva, a quilha sempre pronta
ao naufrágio ideal… Mas não foi à cidade
que eu aportei um dia, a jovem alma tonta,

o corpo amado ao lado: foi àquela metade
do eterno compartido, a joia da vaidade,
doce como um colar de dois, conta por conta…

Bruno Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 – São Paulo, 27 de junho de 2007) foi um poeta, escritor e polemista brasileiro

Sobre Alexandria leia também:

Konstantinos Kaváfis
Lawrence Durrell
Valdir Sarubbi (“Memórias de Alexandria” – 1998, exposição ocorrida na Paulo Figueiredo Galeria de Arte)

Introdução à Sociologia

Tivemos ao longo do curso um quadro bastante geral a respeito da Sociologia. O curso foi definido em três grandes tópicos que procuraram abranger desde o surgimento da Sociologia, passando pelos autores clássicos (Comte, Durkheim, Engels, Weber, Marx, Manheim) e situando os caminhos atuais da Sociologia (“A Explosão das Diferenças”), na qual foram discutidos autores ligados à Escola de Frankfurt (Benjamin, Adorno) e outros autores contemporâneos como Castoriadis e Foucault.

Vimos que a Sociologia surge num contexto histórico de uma dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa), sendo a modernidade a forma mais geral resultante dessa dupla revolução. Nosso curso procurou centrar-se sempre na tensão no interior do pensamento sociológico.

Discutimos a concepção marxista de sociedade (e se esta concepção nos autoriza a estabelecer uma concepção marxista de Sociologia), sendo que no marxismo não há uma separação rígida entre natureza e sociedade e sim uma relação dialética entre ambos. A dialética é uma das fontes constitutivas do marxismo. Entre os princípios principais da dialética (método de pensar) incluem-se: (1) nada existe separadamente: (2) tudo esta em permanente processo de transformação; (3) o motor da mudança é a luta de contrários e (4) a ideia de que tudo está em permanente mudança (mudanças qualitativas).

O pensamento marxista tem como fontes principais na sua construção a dialética de Hegel e o materialismo de Feuerback, o socialismo utópico desenvolvido na França (Pierre-Joseph Proudhon, Saint-Simon, François Marie Charles Fourier) e Inglaterra (Robert Owen) e a Economia Política clássica (Adam Smith e David Ricardo) e vulgar (John Stuart Mill, Jeremy Bentham, Sismondi).

Em relação à primeira influência citada, seria interessante esboçar um rápido comentário. A obra escrita em conjunto por Marx e Engels intitulada “A Ideologia Alemã” foi um marco no pensamento marxista. Nela são definidas os princípios básicos da dialética materialista e é feita uma crítica a Feuerback, que limitou sua crítica a Hegel (“dialética idealista”) ao aspecto religioso, não estendendo-a à Economia, Política e Sociedade, como a concepção inicial de Hegel (baseado na concepção do Estado). Dos socialistas utópicos, os marxistas extraem o conceito de luta de classes (“motor” da transformação). Na obra citada (“A Ideologia Alemã”) são elaborados dois outros conceitos-chave na obra marxista, qual sejam: (1) conceito de trabalho, pensado em termos da Economia Política e (2) conceito de alienação, inspirado em Hegel e Feuerback.

Pensando em termos das linhas constitutivas de uma “Teoria Sociológica” marxista, temos um outro marco: a situação da classe trabalhadora da Inglaterra, escrita por Engels. Este é um livro clássico pela abrangência com que a pesquisa empírica se articula com a matriz teórica; onde o enquadramento teórico orienta a seleção e análise factual e como esta, dialeticamente tratada, incide na correção daquele (enquadramento teórico). O livro foi escrito na emergência do processo histórico e seu objeto consiste em apreender e explicar a constituição do proletariado inglês moderno e sua inserção na estrutura social. A realidade social estudada ilustra o capitalismo inglês já constituído em sua fase industrial-concorrencial (marcado já por crises cíclicas, miséria, prolongada jornada de trabalho, precária assistência social e instituições de ensino em crise, problemas de urbanização e polarização social) e compõe um quadro factual de impressionante realismo. O autor dá grande ênfase no desenvolvimento interno da situação operária e refere-se ao futuro do proletariado (não na sua origem). Pensando num plano de obra, ela inicialmente dá um quadro geral da revolução industrial, passando à análise das cidades (locus da realização capitalista e cenário de lutas), das leis da concorrência capitalista, os efeitos da industrialização e da transformação urbana sobre as condições de vida e sobre as atividades individuais e coletivas. Depois concentra-se na discussão dos movimentos populares e operários.

Discutiremos agora a concepção conservadora da sociedade, enfocando a sociologia conservadora do século XIX, que foi contemporânea do pensamento radical. Ela corresponde à Sociologia Positivista criada e elaborada inicialmente por Augusto Comte, que pretendia formular uma reforma da organização temporal pelo poder espiritual, exercido pelos cientistas e filósofos. Ele não tinha preocupação em analisar a sociedade industrial. Surge com isso um dilema, pois a ciência da modernidade (Sociologia) é vista sob uma ótica conservadora (fundamentos e origens teóricas). Os princípios básicos do pensamento conservador seriam: (1) ordem; (2) deslocamento institucional e na insegurança psicológica dos indivíduos; (3) três perspectivas vão estar presentes no pensamento conservador: massa, alienação (no sentido de desenraizamento) e poder; (4) as sociedades medievais vão ser o modelo de inspiração ao modelo de sociedade conservador, (5) primado da sociedade sobre os indivíduos, sendo a sociedade uma unidade irredutível; (6) todos os elementos da sociedade têm funções definidas, articuladas num todo orgânico; (7) pensamento articulado com ênfase nos pequenos grupos (“microcosmos sociais”); (8) eles reconhecem a realidade da desorganização social e procuram meios de combatê-la; (9) hierarquia; (10) a autoridade é dotada de legitimidade.

Ocorre que, como Comte não desenvolveu demonstrações empíricas sobre os princípios teórico-filosóficos que desenvolveu, coube a Leplay o desenvolvimento dos mesmos. Outro pensador de grande destaque, e nesse sentido um marco na instituição da Sociologia como ciência, dado que desenvolveu importantes pesquisas empíricas, foi Émile Durkheim. Ele extrai a fundamentação teórica do positivismo e dá consistência empírica necessária, dando, com isso, grande impulso à Sociologia.

Pensemos agora a nível da Sociologia de Durkheim. Segundo ele, toda a vida social está constituída uma solidariedade essencial que articula essa sociedade, na qual a natureza essencial é a sua moralidade. Para ele existem dois tipos de solidariedade: (1) Mecânica – sociedade não-política (que se funda nas semelhanças, identidade e homogeneidade) e (2) Orgânica – sociedade política (funda-se nas diferenças, heterogeneidade). Para ele o indivíduo é visto como um produto da sociedade, ou seja, a sociedade preexiste historicamente sobre o indivíduo (noção de consciência coletiva em detrimento de uma individual). Na solidariedade mecânica a consciência coletiva toma quase todo o espaço (Sociedade Simples). Na medida em que a diferenciação social se acelera e a divisão do trabalho se amplia, há uma predominância da consciência individual em relação à coletiva (Solidariedade Orgânica). Esse autor, ao mesmo tempo, associa socialização com educação, na medida em que os indivíduos pelo processo educativo tornam-se indivíduos sociais. A sociedade é pensada como sendo externa aos indivíduos que a constituem, ao mesmo tempo, ela exerce coerção sobre os indivíduos, estes encarados como pacientes, produtos ou derivados da sociedade. Outro ponto fundamental refere-se ao seguinte: como para ele, a normalidade de uma sociedade é a sua integração, a ausência de integração causa um desvio ou patologia (anomia). Sob esse ponto de vista ele fez um estudo clássico “O suicídio”, considerado um modelo de pesquisa social, inclusive com uso do instrumental estatístico. O suicídio seria um dos casos de patologia ou anomia social, com estatísticas colidas para o seu estudo na época. Ele cria três tipologias: (1) suicídio egoísta (na qual falta “integração” na sociedade para o indivíduo); (2) altruísta (a sociedade está em excesso); (3) suicídio anômico (ocorre por falta de regras, sendo típico nas sociedades industriais modernas, causado por crises econômicas – comerciais e industriais).

Neste contexto geral surge dentro da Sociologia uma terceira vertente, também conservadora, porém não positivista, representada por Max Weber. Dito de uma forma sintética, os principais conceitos de Weber seriam a questão da ação e da relação; a sociedade é pensada como múltipla; a sociedade é vista como um permanente conflito de interesses. No fundo, a sua preocupação consiste em pensar a sociologia como uma reflexão crítica da ação social, ao mesmo tempo, tentando compreender o significado dessa ação social. Finalmente, Weber defronta-se com um grande impasse da ciência pelo fato desta não poder explicar de fato os fenômenos sociais. Para esta frustração ele vê duas saídas possíveis, porém logo refutadas: (1) Política (com seu estudo mais aprofundado ele observa um processo de racionalização, manifesto na burocratização e na profissionalização do político) e (2) Religião, com a possibilidade do surgimento de um líder carismático. (Por sua vez, ele observa na sociedade moderna que o carisma perdia cada vez mais o seu sentido). Cria-se um desencanto weberiano, na qual, como a ciência não se apresenta como caminho, ele tem uma visão trágica, na qual a única saída é a resignação.

Tendo como marco o ano de 1920, vemos no quadro da Sociologia um grande dilema. Entre 1920 e 1960, nesse cenário descrito, aparecem duas alternativas possíveis na pessoa de Karl Mannheim e de Theodor Adorno (Escola de Frankfurt). Manheim faz a análise sociológica do pós Primeira Guerra Mundial e aponta como saída para o dilema colocado o planejamento democrático. Este planejamento é visto concomitantemente como um processo social, uma técnica social e um instrumento de conhecimento.

O filósofo e sociólogo alemão Adorno, pertencente à Escola de Frankfurt, coloca como saída a chamada teoria crítica da sociedade, entendida como crítica da razão burguesa. Outras características gerais do seu pensamento são a preocupação com o processo de racionalização (racionalidade instrumental), a crítica bastante radical ao positivismo e a influência sofrida pelo pensamento marxista. No texto discutido (“A Educação Após Auschwitz”) seu principal argumento gira em torno do tema da consolidação da razão instrumental em detrimento da razão libertadora na sociedade contemporânea, resultando num desvario da razão, que leva à barbárie. A razão perverteu-se e passou a ser um instrumento de dominação. Pensando no Iluminismo que propões a libertação do homem pela razão, o que temos na realidade é um movimento contrário, ou seja, ao invés de levar ao entendimento, leva à destruição (barbárie). Tece também uma crítica à personalidade autoritária. Sua grande preocupação é tentar descobrir uma saída para essa constante ameaça que representa a barbárie. Ele aponta um caminho que se daria pelo que chama de “psicanálise coletiva”‘, um mecanismo de educação, na qual os os homens percebem os instrumentos na qual se essa personalidade autoritária. Seria um mecanismo de autorreflexão.

Finalizando rapidamente, enfocaremos o filósofo francês Michel Foucault, que será sinteticamente, dado à sua complexidade e a já longa exposição. Sua obra ocupa um lugar bastante singular pois ele modifica o “foco” na discussão que trava dos problemas sociológicos. Um aspecto importante a ser levantado é que ele tem uma maneira bastante diferente de pensar a questão do poder), fragmentando-o (microfísica do poder). Ele pensa à nível de uma complexa rede de relações permeadas por poder, ou seja, a nível de um tecido social. Ele descreve o que chama de uma sociedade disciplinar.

Artigo feito durante a minha estadia na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, na data de 19 de maio de 1988, para o curso de Ciências Sociais, matéria Introdução à Sociologia, ministrada pelo Prof. Dr. Sérgio França Adorno de Abreu

Meu nº. USP: 5261633