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A festa universal divide os pares
entre oceanos, continentes, mares
As razões do mercado são mais certas
do que todas as velhas descobertas.
Por que teimar, como um menino altivo
a quem se aplica logo um corretivo?
O certo é acomodar-se na cadeira
e ouvir do mestre a preleção inteira.
Quem se rebela é um dinossauro bronco,
que merecia estar atado a um tronco
e receber as chibatadas mágicas,
que suprimem as resistências trágicas
e repõem as rodas sobre os trilhos.
como fazem os pais com os próprios filhos.

Reynaldo Valinho Alvarez (Rio de Janeiro, 1931 – 2021). De “Janeiros como rios” (inédito). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Este dia

Chegar, assim, a um dia
como este, quem diria?

Ninguém, que não poderia
alguém saber deste dia.

Nem eu, que me prometia
varandas de calmaria

Se a uma hora tardia
da vida chegasse um dia.

No entanto, eis-me neste dia,
o qual jamais urdiria

nem em pesadelos; dia ardendo
contra a alegria,

a paz, o amor, a poesia,
o corpo, a esperança; dia

como nenhum: pedraria
fulgurante de agonia.

Ruy Espinheira Filho (Salvador, Bahia, 12 de dezembro de 1942). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Os cátaros

Os cátaros
são ou não são
maniqueistas?

Se são, tiram do bem
O mel do mal
Com mão precisa.

Se não,
fazem do bem o bom,
e matam o mal
a vista.

Assim,
se são ou não
antípodas,
a fé dos cátaros
entre o bem e o mal
traz em si
sua própria esgrima:

— do lado do sim,
é o mal
a voz divina;

— do lado do não,
é o bem
a voz suicida.

Por conta
de tanta e tal
antinomia,
qualquer que seja
a voz de sua língua.
tem os cátaros
um só parâmetro
de esgrimistas:

— ou choram a cântaros
(e lânguidos)
a baba do demônio,
ou rasgam as vísceras
quando agônicos
tiram do bem
seu mal congênito.

Mário Chamie (Cajobi, São Paulo, 1 de abril de 1933 – São Paulo, 3 de julho de 2011). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999