Produção das pinturas pode ser circunscrita a um segmento mais ou menos localizável no tempo. O conjunto mais significativo dos quadros de Clarice foi produzido no ano de 1975, o que pode ser confirmado pela leitura das datações, quando tal especificação ocorre. Dos 17 quadros depositados no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, 15 apresentam a referência a esse ano e dois deles não estão datados.
Um dado que deve ser destacado é o fato de quase metade destes quadros explicitarem o mês de maio no lugar da datação:
“Cérebro adormecido” – 13 de maio de 1975
“Eu te pergunto por quê?” – 13 de maio de 1975
“Perdida na vaguidão” – 13 de maio de 1975
“Tentativa de ser alegre” – 15 de maio de 1975
“Medo” – 16 de maio de 1975
“Luta sangrenta pela paz” – 20 de maio de 1975
Sem título] figuração do yin e yang, em fundo preto – s/d. No verso deste quadro aparece uma dedicatória a Olga Borelli com a data de 28 de maio de 1975. Pode-se colocar a questão da possível não correspondência entre a data da dedicatória e a data da feitura do quadro. De qualquer forma é significativa a oferta neste mês de maio, o que nos levará a pensar que a pintura terá sido de fato executada na mesma ocasião que as outras.
Clarice Lispector definiu a arte de forma marcante em sua crônica “O Artista Perfeito” (publicada em 1969): “Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação.”
Carlos Mendes de Sousa é professor de literatura brasileira na Universidade do Minho, Braga, Portugal. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a Clarice Lispector, e com a obra “Clarice Lispector. Figuras da Escrita” (2000), conquistou o Grande Prêmio de Ensaio da APE. Pintar, mais uma faceta pouco conhecida da escritora Clarice vem a público nesses escritos. Grande admiradora das artes, Lispector tinha especial interesse pela pintura, conviveu com diversos artistas e produziu suas próprias pinceladas, cerca de 20 delas reproduzidas no livro. “A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis”, afirma Sousa, que reflete sobre a obra da escritora à luz de sua relação com a pintura. In “Clarice Lispector: pinturas”, Rio de Janeiro: Rocco, 2013