Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espí­rito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
nada me fixa nos caminhos do mundo.

Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975)

Tácito

Seguia o ano seu curso
quando doze cidades célebres da Ásia Menor
ficaram de todo arrasadas por um terremoto noturno,
tanto mais letal quanto mais chã a esperança.
Nem mesmo de bom proveito serviu o refúgio
dos campos,
a que em tais casos se costuma recorrer:
porque as bocarras da terra engoliam seus miseráveis habitantes.
Narra-se que as montanhas imensas se esparramaram
em vastas planícies;
que as planícies vastas se converteram
em montanhas imensas;
que altas labaredas de fogo sapecavam a periferia
e o centro dos escombros
entre o espesso betume e a lava e o súlfur que arde.
Nem o de cem olhos, Argos nenhum,
Discerneria crepúsculo, noite, aurora, manhã, tarde.

Wally Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 — Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)

Pensamento de Raduan Nassar

“De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso.”

In “Lavoura arcaica” – Raduan Nassar (Pindorama – São Paulo, 27 de novembro de 1935)

O shampoo

Nas rochas, explosões caladas,
os líquens vão
se abrindo em ondas, em camadas.
Copiam sempre
os anéis da lua, embora não
mudem de lugar, que a gente lembre.

Assim o céu nos dá guarida,
mas é você,
minha querida,
precipitada e intransigente;
só que o Tempo, a gente vê,
é no mínimo indulgente.

Cada estrela no seu cabelo,
na água fria,
com tanto zelo
voa tão nua?
— Vem, deixa eu lavá-lo nesta bacia,
torta e brilhante como a lua.

Elizabeth Bishop (Worcester, Massachusetts, Estados Unidos, 8 de fevereiro de 1911 – 6 de outubro de 1979). Tradução de Jorge Pontual, para a revista digital Criativos!

Receita simples para o bem-viver

transformar-se numa distração de domingo: os
outros dias, como toda a gente faz, suportam-se
insuportáveis; e até domingo entardece amargo,
aquele fedor acre das segundas-feiras automáticas,

pé ante pé dos espremidos no metrô, dos gritos de
pressa e resultado no trabalho: escravo, pensa na
vida; mas sem tempo de pensar? o mundo te diz:
[segue quieto, de cabeça baixa, conta o sucesso em

cifras na tua conta: compra e cala, e torce por um
bom sono sob o silêncio de tanta telha descorada];
a roupa, deixa separada de véspera, passada e pronta:
é estar preparado para tudo, mas habituado ao nada.

Dirceu Villa (São Paulo, 12 de setembro de 1975) é poeta, tradutor, ensaísta e professor universitário brasileiro