Crisfal
I
Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.
II
A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam,
que o dia que não se viam,
se viam na saudade
o que ambos se queriam.
III
Algas horas falavam,
andando o gado pascendo,
e então se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
piquena, tinha cuidado
de guardar milhor o gado
o que lhe Crisfal dezia;
mas, em fim, foi mal guardado;
IV
Que, depois de assi viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana, outra pastora,
que a Crisfal queria bem;
(mas o bem que de tal vem
não ser bem maior bem fora,
por não ser mal a ninguém).
V
A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal não era então
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paixão,
não curava do seu gado.
(…)
Cristóvão Falcão (Portalegre, Portugal, 1512 – 1557). In “Crisfal”, 2ª ed., Lisboa, Portugal , 1962. 77 p. Nota: Citado por Mário de Andrade no seu poema Paisagem nº 3. In “Paulicéia desvairada”
Retrato da velhinha
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um velho, muito velho
e ninguém se espanta
quando limpa a garganta
e escarra para o mundo
que não mais lhe sorri
Edney Cielici Dias (Piacatu, São Paulo, 1963). In “Languagem”, de “Epitáfios em vida/ 20”, São Paulo: Iluminuras, 2024
Flores se abrindo (Recém emoldurado)
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes
A vida presente.
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)
Efeito x
A mão enorme
Dentro da noite, da tempestade,
a nau misteriosa lá vai.
O tempo passa, a maré cresce,
O vento uiva.
A nau misteriosa lá vai.
Acima dela
que mão é essa maior que o mar?
Mão de piloto?
Mão de quem é?
A nau mergulha,
o mar é escuro,
o tempo passa.
Acima da nau
a mão enorme
sangrando está.
A nau lá vai.
O mar transborda,
as terras somem,
caem estrelas.
A nau lá vai.
Acima dela
a mão eterna
lá está.
Jorge de Lima (União dos Palmares, Alagoas, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953)
Poetas lusitanos que gosto tanto…
Na manhã deste abençoado domingo terminei de publicar nesse blog poemas de 89 talentosos poetas portugueses, são os seguintes e em ordem alfabética:
A. X. Rodrigues Cordeiro (1819 — 1896)
Abel Neves (1956-)
Afonso Duarte (1884 – 1958)
Agustina Bessa-Luís (1922 – 2019)
Al Berto (1948 — 1997)
Alberto de Oliveira (1873 – 1940)
Alberto Osório de Castro (1868 – 1946)
Alexandre Herculano (1810 – 1877)
Alexandre O’Neill (1924 – 1986)
Ana Hatherly (1936 — 2015)
Antero de Quental (1842 – 1891)
António Barahona da Fonseca (1939 – )
António Botto (1897-1959)
António de Sousa (1898 – 1981)
António José Forte (1931 – 1988)
António Lobo Antunes (1942 – )
António Nobre (1867 – 1900)
António Osório (1933 – 2021)
António Ramos Rosa (1924 – 2013)
Bernardim Ribeiro (1482 — 1552)
Camilo Castelo Branco (1825 – 1890)
Carlos de Oliveira (1921 – 1981)
Cesário Verde (1855 – 1886)
Cláudia Lucas Chéus (1978 – )
Daniel Faria (1971 – 1999)
Daniel Jonas (1973-)
David Mourão-Ferreira (1926 – 1996)
Dom Dinis (1261 – 1325)
Egito Gonçalves (1920 – 2001)
Emanuel Jorge Botelho (1950-)
Eugénio de Andrade (1923 – 2005)
Eugénio de Castro (1869 – 1944)
Fernando Pessoa (1888 – 1935)
Fiama Hasse Pais Brandão (1938 – 2007)
Filipa Leal (1979 – )
Florbela Espanca (1894 – 1930)
Gil Vicente (c. 1465 – 1536)
Gonçalo M. Tavares (1970 –)
Hélder Malta Macedo (1935 —)
Helga Moreira (1950 – )
Herberto Helder (1930 – 2015)
Ibn ʿAmmār (1031 – 1086)
João Carlos Raposo Nunes (1955-)
João de Deus (1830 — 1896)
João José Cochofel (1919 – 1982)
Joaquim Cardoso Dias (1973 – )
Jorge de Sena (1919 – 1978)
Jorge Fazenda Lourenço (1955 – )
Jorge Sousa Braga (1957 – )
José Amaro Dionísio (1947 – )
José de Sousa Saramago (1922 – 2010)
José Gomes Ferreira (1900 – 1985)
José Luís Peixoto (1974 – )
José Régio (1901 – 1969)
Júlio Henriques (1953 –)
Luís Vaz de Camões (c.? 1524 – 1579 ou 1580)
Luiza Neto Jorge (1939 — 1989)
Manuel Alegre (1936 – )
Manuel António Pina (1943 – 2012)
Manuel Silva-Terra (1955 – )
Maria Isabel Barreno (1939 — 2016)
Maria Lamas (1893 — 1983)
Maria Teresa Horta (1937 — 2025)
Maria Velho da Costa (1938 — 2020)
Mariana Alcoforado (1640 – 1723)
Mariano Alejandro Ribeiro (1993 – )
Mário Cesariny de Vasconcelos (1923 – 2006)
Mário de Sá-Carneiro (1890 – 1916)
Mário Saa (1893 – 1971)
Matilde Campilho (1982 – )
Miguel Torga (1907 – 1995)
Natália Correia (1923 – 1993)
Nuno Costa Santos (1974 – )
Nuno Júdice (1949 – 2024)
Pedro de Barcelos (1287 – 1354)
Pedro Homem de Melo (1904 – 1984)
Rui Caeiro (1943 – 2019)
Ruy Belo (1933 – 1978)
Sá de Miranda (c. 1481 — 1558)
Sérgio Firmino Soares Mendes (1974 – )
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004)
Teixeira de Pascoaes (1877 – 1952)
Teófilo Braga (1843 – 1924)
Valter Hugo Mãe (1971 – )
Vasco Gato (1978 – )
Vasco Graça Moura (1942 – 2014)
Vasco Pereira da Costa (1948 – )
Vitorino Nemésio (1901 – 1978)
Yvette K. Centeno (1940 – )
Alguns descobri recebendo mensagens de amigos e pesquisando, e muitos me foram indicados pela incrível “Lista de autores e poetas portugueses” preparada por Julia Medrado Marques, paulistana, tradutora formada em letras, mestre em literatura e crítica literária.
(https://www.juliamedrado.com/autores-e-poetas-portugueses/)
E no dizer do maior deles (na minha modesta opinião):
Autopsicografia
O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). Poema escrito em 1º de abril de 1931 e publicado no nº 36 da revista “Presença”, Coimbra, novembro de 1932. In “Poesias. Fernando Pessoa”, Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed., 1995) – 235