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Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte –
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz: “Esses Verdes são todos meus!”
Emily Dickinson (Amherst, Condado de Hampshire, Massachusetts, Estados Unidos, 10 de dezembro de 1830 – Amherst, 15 de maio de 1886). In “Loucas Noites – 55 poemas” (Wied niglis – 55 poems), tradução e comentários de Isa Mara Lando, Barueri – São Paulo: Disal Editora, 2010
Carnaval 3
O marginal Clorindo Gato (Trecho final)

Grandes máquinas desbravam
a selva densa. Operários
encontram em dois lugares
o mesmo quadro radiante:
um lírio florindo pleno,
outro em plena floração
e em volta aos dois o esplendor
de sublime claridade.
Era no fundo da mata
e até no fundo da noite
os lírios resplandeciam
criando, em círculo, a aurora.
Emocionados correram
espalhando a estranha nova.
Nem os mais sábios sabiam
daqueles fatos longínquos.
As mais díspares versões
circularam pelo vídeo,
umas contando de um deus
que se perdera na Terra,
do diabo outras falando
e de suas diabolices.
Interpretações científicas,
herméticas, passionais,
sucediam-se, enredavam-se
sem que os doutores achassem
uma explicação plausível
para o botânico fato.
Um simples trator esmaga
os lírios luminescentes.
Os arranha-céus cresceram,
nasceram novas crianças,
vieram outros marginais,
outros iníquos eventos,
resignações e protestos,
e não se falou mais nisso.
Clorindo Gato
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “O marginal Clorindo Gato”, coleção depoimentos, 2º. volume, Rio de Janeiro: Avenir Editora, 1978
Geleira
Biografia
Nascera
mais que perfeito
pretérito;
caíra
meteorito gelado
logo aquecido em caldos:
gripes, diarreias, pecados.
O mundo – comera-o
logo – cagara-o
Crescera
tornara-se gente
sólida obra
quente.
Descobrira-se limite
entre Mooca e Brás,
um sabe a tomate
outro a gás.
Envelhecera
entre medo e cansaço
baço
como de resto
sói acontecer.
Tom Figueiredo. In “Poesia possível”. Mairiporã – São Paulo: Livraria Editora Veredas, 1991
Na contracapa:
“…poesia é droga
o corpo rejeita
a alma cobra”
Tom Figueiredo
Inverno (Recém emoldurado)
Papoulas em julho
Pequenas papoulas, pequenas chamas do inferno,
vocês não queimam?
Vocês se mexem. Não posso tocá-las.
Meto as mãos entre as chamas. Nada me queima.
E me cansa ficar aqui olhando.
Vocês se mexendo assim, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.
Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!
Há fumos que não posso tocar.
Onde estão seus sedativos, suas cápsulas que enjoam?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir! –
Se minha boca se unisse a essa ferida.
Ou se seus licores me sedassem, nessa cápsula de vidro.
Entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Incolor.
Sylvia Plath (Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 27 de outubro de 1932 — Londres, Inglaterra, Reino Unido, 11 de fevereiro de 1963). In “Poemas”. Organização, tradução, ensaios e notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. São Paulo: Iluminuras, 1991