
Grandes máquinas desbravam
a selva densa. Operários
encontram em dois lugares
o mesmo quadro radiante:
um lírio florindo pleno,
outro em plena floração
e em volta aos dois o esplendor
de sublime claridade.
Era no fundo da mata
e até no fundo da noite
os lírios resplandeciam
criando, em círculo, a aurora.
Emocionados correram
espalhando a estranha nova.
Nem os mais sábios sabiam
daqueles fatos longínquos.
As mais díspares versões
circularam pelo vídeo,
umas contando de um deus
que se perdera na Terra,
do diabo outras falando
e de suas diabolices.
Interpretações científicas,
herméticas, passionais,
sucediam-se, enredavam-se
sem que os doutores achassem
uma explicação plausível
para o botânico fato.
Um simples trator esmaga
os lírios luminescentes.
Os arranha-céus cresceram,
nasceram novas crianças,
vieram outros marginais,
outros iníquos eventos,
resignações e protestos,
e não se falou mais nisso.
Clorindo Gato
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “O marginal Clorindo Gato”, coleção depoimentos, 2º. volume, Rio de Janeiro: Avenir Editora, 1978