Amo-te por sobrancelhas
Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.
Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.
Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.
Além disso quero-te, e faz tempo e frio.
Julio Cortázar (Ixelles, Bélgica, 26 de agosto de 1914 — Paris, França, 12 de fevereiro de 1984)
Cadê cadência
Cadê
Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!
José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998). In “Baú das histórias e poemas “. Poesia infantil, blog educacional de Ivanise Meyer, professora da Rede Municipal do Rio de Janeiro desde 1988, graduada em Ciências Biológicas, com pós-graduações em Educação Infantil
Despenteado
Despertando
Te quiero, ven! si acaso de la neblina
Del sueño puedes deshacer sus formas,
Si no eres sueño tú, si despierto
Puedo tocarte, sombra peregrina!
Con el mismo rostro pálido y apenado,
La sonrisa triste en la boca purpurina,
Con todo eso en fin, de aparicion divina,
Irrumpe de la niebla, tierno bulto amado!
Encarnate! aparece! surge! acude!
Y el cabello de mi frente, ondeante y oscuro,
Lleno de rocíos, húmedo, sacude;
Pero si te duele pisar este funesto
Suelo espinoso que yo piso, imagen pura,
Continúa apareciéndote en mi sueño.
Alberto de Oliveira (Saquarema, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1857 — Niterói, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1937), farmacêutico, professor e poeta. In “Textos en español”, traducción de Adán Méndez
Curió
Desenho feito por um sobrinho, talvez Ulisses Matosinho Peres de Pontes, e bilhete escrito em 29/01/1991 por meu pai, Edmundo de Oliveira Matosinho.
Mero homem
Há um senhor,
Um qualquer.
Macho bom,
mas suas palavras?
Há um homem que preoCUpa.
Um homem, há sim, que se preocupa,
Há um homem que se preo pa cú.
Mera afirmação. Não!
Ele o venera, limpa-o, observa-o,
realiza-se por ele.
Ele o respeita.
Até toma banho com ele!
Ele o sente como um órgão,
não apenas caga-o.
Ele se preocupa com a vida.
Não apenas limpa-o.
E olha que é um homem,
família conhecida e respeitada.
Vô e tio fazendeirocafeicultordobom.
É mesmo: Vila Cordelamma está regredindo.
Na verdade deveria usar “atualizando-se”,
mas não fica bem para a moral,
dos cafeicultoresdobom e nem pro povão.
Afinal estamos em terra certa, sertã.
Este homem come co’a boca.
Delegado, diz à repórter, disso:
De homem para mulher, mulher pra vizinha,
Vizinha pra papagaio, curió, gato, cabrito, janela.
O homem sai na rua
com seu terno de coronel branco.
Sobe no coreto, diz:
Gosto!… É preso.
Preso, diz: Pago cafeicultordollarmentemente bem!
Sai. Sai às ruas de terno e rosa no peito,
Caminha vulneravelmente.
O povo lhe lincha.
Persegue-o pelos buracos das ruas asfaltodeenxada.
Inchados de morros e atolados de valas.
Ele cai numa poça com a bunda pra cima.
O povo pula em cima.
Espancacetampaabocaebate-o.
Ele diz um “ai” de suspiro.
Seu terno mancha de sanguebarro.
Ele morre afogado na poça.
O chefe dos revoltadores, linchadores,
ergue-se ao coreto e fala em voz alta.
(O povo o observa com respeitemor).
Diz: Matamos o homem errado pois também gosto.
21/08/80 – S.P.
Amiúde 2
Meu povo
I
Meu povo, rola no mato,
atrás de coelho.
O que recebe é maltrato
dos coelhos enganadores.
Da janela, após voltarem da caçada
são observados por olhares pretensiosos.
À procura da ninhada,
dos coelhos, dos ovos, da expedição.
Povinho – água na boca.
Uns olham a galinha do vizinho.
Uma menina rota,
apenas observava o coelho que não veio.
Meu povo, não chora por comida,
nem por isso devasta os animais.
Quer comer tudo devido na vida,
inclusive mulher dos outros.
A natureza devora vorazmente,
não é certamente as mulheres indefesas,
mas, sem dúvida, os prazeres concentrados em sua mente.
E mais os animais, a mata e os ovos cozidos.
Minha gente é calma e não agita,
Olha-nos fracamente, e seus olhos
nem se movem direito, nem vomitam
nessas nojentas ruas pra que olham.
Crianças amam deitar e rolar nas poças,
que um tal coronel conserva.
Suas mães olham e acreditam; maridos na roça
e as crianças dando sossego: Pura paz e calma demais.
Meu povinho do interior,
Tem preguiça de pensar na vida.
Fazem o que diz o agricultor
E com o dinheiro fazem até bem.
II
Os porcos berram, os bebês berram,
As enxadas e as foices rosnam.
Bicicletas as poças d’água espalham.
… E as mulheres apenas olham, calmas.
Que bom seria tanta calma, meu deus
pra’eu respirar aqui em Vila Iluminadas.
Que beleza seria, meu deus
se as janelas aqui fossem baixas.
As janelas de Vila Iluminadas
fazem eu me sentir sobreposto
sobre umas e outras cabecinhas que passam, taradas
a toda velocidade, sem tomar tino que eu existo.
Estes não trazem merendas, nem prendas,
mas mesmo assim eu os olho excitadamente,
por algo deles que nos fazem dominados:
Que saudade da amigada do interior!
A amigada em geral me atordoava.
Minhas retinas, hoje, se fatigam,
em ver tantas cabeças erguidas, me dava…
… Vontade eu tenho de massacrá-las.
Voltando ao tema tão fugidio.
O meu povo é culto e descalço.
Uns chamam-se capitães Amigos.
Outros carpidores sujos e magros.
Essa diferenciação, do coronel e do lobisomem,
faz-me ficar com necessitada vontade,
de também encontrar, nas janelas, o abdômen
E tentar entender tal heresia.
21/08/80 – S.P.