para quem com seu incêndio te ilumina,
cósmico caracol de azul sonoro,
branco que vibra um címbalo de ouro,
último trecho da lâmina fina.
a mão que te busca na penumbra
se detém na tépida encruzilhada
onde musgo e coral guardam a entrada
e um rio de pirilampos te alumbra,
sim, portulano, da esmeralda o fulgor,
sirte e fanal nua mesma bandeja
quando a boca navegante beija
a poça mais profunda do teu dorso,
suave canaibalismo que devora
sua presa que o dança no abismo ermo,
oh, labirinto exato de si mesmo
onde o pavor das delícias mora
água para a sede de quem te viaja
enquanto a luz que junto ao leito vela
desce às tuas coxas sua úmida gazela
e por fim a trêmula flor escacha.
Julio Cortázar (Ixelles, Bélgica, 26 de agosto de 1914 — Paris, França, 12 de fevereiro de 1984) filho de argentinos, viveu a infância entre a Europa e a Argentina, onde se formou em Letras e iniciou a docência antes de se dedicar inteiramente à literatura. Publicou em 1938 o livro de poemas “Presencia” ou ‘Presença”, sob o pseudônimo Julio Denis, mas ganhou notoriedade com contos como “Casa tomada” e, sobretudo, com o romance “Rayuela” ou “O Jogo da amarelinha” (1963), marco do boom Latino-americano. Em 1951 mudou-se para Paris, trabalhou como tradutor da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e manteve forte engajamento político, destinando direitos autorais a presos políticos e adquirindo a nacionalidade francesa durante a ditadura argentina. Autor de narrativas experimentais e também de livros de poesia como “Pameos y meopas” e “Salvo el crepúsculo” ou “Salvo o crepúsculo”, construiu uma obra marcada pela inovação formal, pelo diálogo com o surrealismo e pela tensão entre prosa e poesia. Deixou um legado que o consagra como um dos escritores mais influentes do século XX.Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht