Meu povo

I

Meu povo, rola no mato,
atrás de coelho.
O que recebe é maltrato
dos coelhos enganadores.

Da janela, após voltarem da caçada
são observados por olhares pretensiosos.
À procura da ninhada,
dos coelhos, dos ovos, da expedição.

Povinho – água na boca.
Uns olham a galinha do vizinho.
Uma menina rota,
apenas observava o coelho que não veio.

Meu povo, não chora por comida,
nem por isso devasta os animais.
Quer comer tudo devido na vida,
inclusive mulher dos outros.

A natureza devora vorazmente,
não é certamente as mulheres indefesas,
mas, sem dúvida, os prazeres concentrados em sua mente.
E mais os animais, a mata e os ovos cozidos.

Minha gente é calma e não agita,
Olha-nos fracamente, e seus olhos
nem se movem direito, nem vomitam
nessas nojentas ruas pra que olham.

Crianças amam deitar e rolar nas poças,
que um tal coronel conserva.
Suas mães olham e acreditam; maridos na roça
e as crianças dando sossego: Pura paz e calma demais.

Meu povinho do interior,
Tem preguiça de pensar na vida.
Fazem o que diz o agricultor
E com o dinheiro fazem até bem.

II

Os porcos berram, os bebês berram,
As enxadas e as foices rosnam.
Bicicletas as poças d’água espalham.
… E as mulheres apenas olham, calmas.

Que bom seria tanta calma, meu deus
pra’eu respirar aqui em Vila Iluminadas.
Que beleza seria, meu deus
se as janelas aqui fossem baixas.

As janelas de Vila Iluminadas
fazem eu me sentir sobreposto
sobre umas e outras cabecinhas que passam, taradas
a toda velocidade, sem tomar tino que eu existo.

Estes não trazem merendas, nem prendas,
mas mesmo assim eu os olho excitadamente,
por algo deles que nos fazem dominados:
Que saudade da amigada do interior!

A amigada em geral me atordoava.
Minhas retinas, hoje, se fatigam,
em ver tantas cabeças erguidas, me dava…
… Vontade eu tenho de massacrá-las.

Voltando ao tema tão fugidio.
O meu povo é culto e descalço.
Uns chamam-se capitães Amigos.
Outros carpidores sujos e magros.

Essa diferenciação, do coronel e do lobisomem,
faz-me ficar com necessitada vontade,
de também encontrar, nas janelas, o abdômen
E tentar entender tal heresia.

21/08/80 – S.P.

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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