Hai-kais
O Pensamento
O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.
*
Hora de ter saudade
Houve aquele tempo…
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)
*
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
*
Consolo
A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.
*
Chuva de primavera
Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.
*
Noturno
Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.
*
Os andaimes
Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
*
Tristeza
Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?
Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969). Alguns de seus hai-kais extraídos do livro “Poesia Vária”, São Paulo, 23 de fevereiro de 1937
Mulheres no guardanapo
Samba japonês
Aqui pela primeira vez
Eu canto pra vocês
Um samba e um batuque feito para japonês
E vem aqui dançar comigo
Sem levar um tombo
E só se para quando ouvir o som daquele gongo
Tóquio é a cidade que
Quase vive em paz
Porque a polícia lá estuda até arranjos florais
Bruce Lee, Kung-fu, Shaolin chegou
E veio sambando e cantando em nagô
O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim
O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim
Jorge Mautner (Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1941) / Nelson Jacobina (Rio de Janeiro, 1953 — 31 de maio de 2012)
Na mata
Broadway
A Mário de Andrade
Chato, pardo-cinzento, o chão
flutua lento, mole,
o chão escorre vagaroso,
contrai-se em blocos súbitos,
estica-se em flechas longas
trepidantes,
dispara, de repente, em riscos elásticos,
gira,
rodopia,
turbilhona e ferve num vapor sutil de linhas e
movimentos.
Aquele chão carrega todas as imaginações
do mundo!
Aquele chão carrega
iscas da Ucrânia,
vinhas de Bordéus,
parques do Tâmisa,
saveiros do Volga,
âmbar, corais, madrepérolas das Antilhas,
guano de Mollendo,
canaviais de Cuba,
juncos de Shangai,
cafezais de Ribeirão Preto,
chifres de Pampa,
fornos de Essen, fornos de Newcastle,
óleos de Tampico,
salitres de Iquique,
barbatanas da Terra Nova,
mares coalhados de ferros e madeiras,
terras gordas,
ilhas com batuques, tan-tans e redes
molinosas,
montanhas verdes, montanhas de óxidos e
cristais,
rios onde bóiam troncos, plantas, cobras e
tartarugas,
florestas de plumas, penas e folhagens,
praias, canais, mangues,
luzes de trópicos, luzes do polo,
desertos,
civilizações…
Aquele chão é uma paisagem em marcha.
Chão que mistura as poeiras do Universo e
onde se confundem todos os ritmos do
passo humano!
Chão épico, chão lírico, chão idealista,
chão indiferente de Broadway,
largo, chato, prático e simples como este
roof liso, suspenso no ar, este roof, onde um
saxofone derrama um morno torpor
de senzalia debaixo do sol.
Ronald de Carvalho (Rio de Janeiro, 16 de maio de 1893 — 15 de fevereiro de 1935). Colaborou na edição n.º 1 da Revista Orpheu
Osmose
Entardecer
Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!
Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!
E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
– Cintilações,
Penumbra de segredos!
Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!
E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…
Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…
Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.
Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!
Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.
A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!
Luís de Montalvor, pseudônimo de Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos (Ilha de São Vicente, Cabo Verde, 31 de janeiro de 1891 – Lisboa, Portugal, 2 de março de 1947). In “Antologia poética”
Edney Cielici Dias: “Na cidade onde me criei, a convite da Academia Araçatubense de Letras”
Academia Araçatubense de Letras (@academiaaracatubense) – A AAL é uma associação de escritores residentes da cidade de Araçatuba. Tem por intuito o fomento da literatura e da cultura em geral.
O Quintal Cultural (@oquintalcultural)
Rua Cussy de Almeida Jr, 2.088 – Araçatuba/ SP
Edney Cielici Dias: “Espaços brancos entre substantivos: diversos, verticais, humilíssimos, incandescentes”. Poeta devotado ao ofício da palavra, é doutor em ciência política, economista, jornalista e editor. Autor também de “Cartas da alteridade” (Selo Demônio Negro, 2020).
Em tempo: Hoje, 25/11, das 8h50 às 9h20, ocorrerá uma entrevista com Edney Cielice Dias, poeta e escritor, em função do lançamento do seu livro de poesias “Languagem” em Araçatuba, no Jornal da Manhã Araçatuba (Jovem Pan | 104.3 FM). Essa entrevista será feita pelo jornalista profissional diplomado Marcelo Teixeira e poderá ser vista também no Facebook e YouTube dele (@marceloteixeirajornalista).
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