Sufrágio da saxífraga

                                                 A Josely Vianna Baptista

Quebra-pedra, for nessa terra
só há se fura o asfalto e vara
a seca e o soco, o fogo e o fato.

As babosas nos quintais vicejam
e aveludam o cabelo de mães.
Ponte aguda entre o ar e o chão

é a espada-de-são-jorge. O sol
não há de estourar mamonas
pelo século todo e a cada hora.

Que samambaia dê logo flores!
e a pipoca estoure em milho
em nossas avenidas, nos sertões.

Esqueceu-se o Conselheiro
de que o vinagre há de virar leite
e o leite há de virar garapa?

Olhem só como já despencam
no colo da hortelã todas as romãs.
Aurora, é porteira escancarada!

Ricardo Domeneck (Bebedouro, São Paulo, 1977). Escritor, poeta e artista visual, desde 2002, vive e trabalha como curador e organizador de eventos em Berlim, Alemanha. Nesse ano de 2024 ficou em 1º lugar no Prêmio Jabuti no eixo poesia pelo seu livro “Cabeça de galinha no chão de cimento”, Editora 34

O echo

Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
Talvez que fosse à caça; quer fazer surpresas com alguma côrça branca lá da floresta.
Era p’lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher também, também chamou Adão.
Teve medo: Mas julgando fantasia chamou de novo: Adão? E uma voz de mulher também, também chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as setas todas, e a caça era nenhuma!
E ele a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ela fugiu-lhe.

– Outra que não Ela chamara também por Ele.

Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de abril de 1893 — Lisboa, Portugal, 15 de junho de 1970). In “Frizos – Revista Orpheu nº 1”, 1915

Vem que te quero mostrar como vivo

Não apenas de caça, tocaia e crueza
Se fazem tigres e lobos

Se pudesses ouvir este segredo
(Este segredo de monge)
Uma mecha de fogo
Ondularia no limiar da verdade.

Não nos perde – me ouves? –
Não nos perde
Um lar promíscuo de feras
E coisas santas.

Moro entre elas, sou como um elo:
Assim minhas noites.

Vem que te quero mostrar como vivo
Enquanto quase todos dormem.
Há tigres e lobos em santuários
E eles comem das nossas mãos.

Mariana Ianelli (São Paulo, 1979). É autora de dezesseis livros de poemas, entre eles a antologia “Manuscrito do fogo” (2019), que marca vinte anos de poesia, e “América – um poema de amor” (2021 – semifinalista do Prêmio Oceanos 2022). Foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia (livros “Fazer silêncio”, “Almádena”, “O amor e depois” e “Tempo de voltar”). Nesse ano de 2024 foi indicada entre os 5 finalistas do Prêmio Jabuti no eixo poesia pelo seu livro “Dança no alto da chama”, Editora Cousa

All Star

Estranho seria
Se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias
Mas a terra avisto em você
O som que eu ouço
São as gírias do seu vocabulário
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri, quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje
Estranho mas já me sinto
Como um velho amigo seu
O seu All Star azul combina
Com o meu preto de cano alto
Se o homem já pisou na lua
Como ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas
Pra tua voz parece exato
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri, quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra Laranjeiras
Satisfeito sorri, quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje

Composto por Nando Reis (São Paulo, 12 de janeiro de 1963) e interpretado por Cássia Eller (Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1962 – Laranjeiras, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 2001)

Acerca da origem dos heterônimos de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos)

Cada heterônimo de Pessoa objetiva um jeito peculiar de chegar ao conhecimento, pois a multiplicação do Poeta em outros poetas: somente assim lhe seria facultado conhecer a realidade aspirar a uma utópica realidade (Massaud Moisés, Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge, p.84). Assim, Massaud Moisés introduz uma teoria psicológica, baseada na psicanálise de Jung, para a criação dos heterônimos, dizendo: “Os heterônimos são projeções arquetípicas do inconsciente (coletivo) de Pessoa, e os arquétipos podem ser considerados heterônimos, imagens coletivas/ pessoas que falam de um outro‖ no inconsciente de cada um.” (Massaud Moisés, Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge, p. 96). Para Massaud Moisés, Fernando Pessoa criava seus heterônimos em busca de seu self o arquétipo de si mesmo. Assim, não somente Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro eram heterônimos, mas Fernando Pessoa ele mesmo era também um heterônimo, um arquétipo. E Caeiro foi considerado pelo seu criador um mestre.

Massaud Moisés (São Paulo, 9 de abril de 1928 – 11 de abril de 2018), citado por Flávia Lemes de Paula Matsui, in “Estética e metafísica em Álvaro de Campos: Investigação e recepção da sua poesia na Orpheu”, Universidade de Brasília, 2018