Rolls-Royce 2
Frutífera
– Da solidão do fruto –
De meu corpo ofereço
as minhas frutescências,
casca, polpa, semente.
E vazada de mim mesma
com desmesurada gula
apalpo-me em oferta
a fruta que sou.
Mastigo-me
e encontro o coração
de meu próprio fruto,
caroço aliciado,
a entupir os vazios
de meus entrededos.
– Da partilha do fruto –
De meu corpo ofereço
as minhas frutescências,
e ao leve desejo-roçar
de quem me acolhe,
entrego-me aos suados,
suaves e úmidos gestos
de indistintas mãos e
de indistintos punhos,
pois na maturação da fruta,
em sua casca quase-quase
rompida,
boca proibida não há.
Conceição Evaristo (Belo Horizonte, Minas Gerais, 29 de novembro de 1946). In “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008
Signos em fundo negro
Vereis que o poema cresce independente
Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,
coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias… Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.
Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre…
Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.
Jorge de Lima (União dos Palmares, Alagoas, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953). In “Livro de sonetos”, 1949
Guerniquinha
Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst (Jaú, São Paulo, 21 de abril de 1930 — Campinas, São Paulo, 4 de fevereiro de 2004). In “Júbilo, memória, noviciado da paixão”, 1974
Signos em azul e vermelho
Carlos Gardel
Tangos, bandoneões, uma guitarra que geme
Num ritmo de amor desesperado
Um cabaré que fecha suas portas
Uma rua de amor e de pecado
Um guarda que vigia numa esquina
Um casal que anda à procura de um hotel
Um resto de melodia um assobio
Uma saudade mortal, Carlos Gardel
Carlos Gardel
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
E vibrava em tua voz, Carlos Gardel
O teu canto era a batuta de um maestro
Que fazia pulsar os corações
Na armagura das tuas melodias
Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas vidas
Perdoava seu papel
Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaré, uma guitarra
Tu viverás também, Carlos Gardel
Carlos Gardel
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
E vibrava em tua voz, Carlos Gardel
O teu canto era a batuta de um maestro
Que fazia pulsar os corações
Na armagura das tuas melodias
Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas vidas
Perdoava seu papel
Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaré, uma guitarra
Tu viverás também, Carlos Gardel
David Nasser (Jaú, São Paulo, 1 de janeiro de 1917 – Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1980) / Herivelto Martins (Distrito de Rodeio, hoje Engenheiro Paulo de Frontin, Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1912 — Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1992), interpretado por Nelson Gonçalves (Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, 21 de junho de 1919 – Rio de Janeiro, 18 de abril de 1998)