Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
– Mas vocês vão aonde?
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
– Voltamos antes de um agorinha — respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta tora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.
Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “A menina sem palavra / histórias de Mia Couto”, 1° ed., São Paulo: Boa Companhia, 2013. Filho de imigrantes portugueses, nasceu numa das cidades mais afetadas pela guerra civil moçambicana (1976 a 1992). Aos catorze anos, publicou seus primeiros poemas no jornal “Notícias da Beira”. Estudou medicina antes de se formar em biologia e atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental, além da literatura. Na década de 1970, foi repórter de “A Tribuna”, na capital, Maputo. Trabalhou ali por um ano, até o jornal ser fechado por forças opostas à independência. Tornou-se batalhador pela libertação de seu país. E um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance “Terra sonâmbula” foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Em 2013, ganhou o Prêmio Camões, conhecido como a mais importante premiação da língua portuguesa
Postagem dedicada à Renato de Azevedo, da Loja Hier – Antiquário, localizado na Rua Vitorino Carmilo, 664 – Barra Funda, São Paulo, que mui gentilmente me presenteou com essa edição