Às cinco da tarde
Entre o touro e a areia
Dormem injustos
O sono dos justos.
Entre o touro e a plateia
Correm os pobres
Os riscos dos podres.
Entre o toureiro e a praça
Firmam um pacto
Os patos e os tontos.
Entre o toureiro e a areia
Tocam os sinos
O dobre dos santos.
Entre o touro e a praça
Dançam os sãos
A dança dos doidos.
Entre o toureiro e a plateia
Ungem-se antigos
Com o óleo das plantas.
Entre o toureiro e a areia
Pecam os moços
Pecados primevos.
Entre a capa e a espada
Conspiram possessos
Na treva do paço.
Entre o touro e o toureiro
Aspiram mordaças
Os padres no fosso.
Entre a capa e o cachaço
Murmuram desídias
As pedras no poço.
Entre a espada e o cachaço
Rumina o touro
Seu curso de cão.
Entre a capa e a areia
Habita o toureiro
A casual solidão.
Entre a espada e a areia
Move o toureiro
Sua gana de pão.
Entre a capa e a plateia
Mata o toureiro
Sua fome de irmão.
Entre a praça e o touro
Morre a fome
Letal da ilusão.
Entre a praça e o toureiro
Vive a massa
Seu dia de pão.
Entre a praça e a areia
Evapora-se a água
Cheirando a sabão.
Entre a espada e a plateia
Um anjo caído
Brinda a devastação.
Entre a tarde e o touro,
A noite caída
Desata a paixão.
José Nêumanne Pinto (Uiraúna, Paraíba, 18 de maio de 1951)
Luas, setas e estrelas
Azul
Ninguém esgota o azul e seus mistérios
Murilo Mendes
Volto ao azul.
Regresso ao não buscado,
Ao nunca visto,
Sequer jamais sonhado.
Volto ao azul,
Ao derradeiro anseio
Do esperado,
Navegante a navegar
No rumo dos contrários.
As ilhas, sempre as ilhas…
E o ignorado porto,
Desfeito, arremessado,
Pelas marés do tempo
Ao enigma do outro lado.
Volto ao azul.
No abismo da memória
Invento os passos
Da criança que fui,
Outrora, em alguma parte.
Perto era o mar e em volta
O escuro… E meu cansaço.
Por que não me tomavam
Ao colo e me afagavam?
Por que não escutavam
Aquela voz que se perdia
Num choro que implorava?
Perto era o mar…
E o mar sempre será
Minha rota
E meu naufrágio,
Meu destino de pássaro,
Gaivota a mergulhar
Em busca do improvável
Porto onde nasci
E onde plantei a infância
E algumas mágoas,
Quando perto era o mar
E ao marulho das ondas
A noite se fechava
Como ostra na concha.
Volto ao azul…
À linha de arrecifes,
Que separa o perau
Das águas calmas.
Na transparência
Sem fim avisto o peixe
Que rápido se afasta,
Um delfim encantado,
Sereno a desenhar
Na opulência das vagas
A linha que o define,
Do vermelho encarnado
Às escamas prateadas,
O peixe,
Apenas um detalhe.
Myriam Fraga (Salvador, Bahia, 9 de novembro de 1937 – Salvador, Bahia, 15 de fevereiro de 2016). Abril, 2013
Cabeça-marimbondo
Perséfone
Esfoliante
Espessante
Tamponante
Esfolante
Mênstruo
Plutão tigra
Tinge o linho de sangue
Precipita
Funda a treva
na força
do abraço áscuo, trifásico.
A rubra romã
entreabre,
morde:
a lua ruiva comigo fulva.
A língua do deus, anti-íntima
perfura a membrana da fuga
abre a mão que retinha
o segredo, grão de sua fome.
Ensina,
tira. Fala.
E no corpo da presa acende
a grande anêmona vermelha.
A pele se veste de papoulas.
dá. O verde rompe da boca, erva, sobe pela terra.
Saber
dizer meu nome devo
àquele que a poder de cavalos
de rodas, de rapto, de abismo
da casa materna me arrastou
menina, ninfa, para o Tártaro
quando eu, distraída, corria para colher o asfódelo e o jacindo.
Lélia Coelho Frota (Rio de Janeiro, 11 de julho de 1938 — Rio de Janeiro, 27 de maio de 2010)
Elefante
O elefante
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas.
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “A rosa do povo”, 1945
Lânguido
Soneto burocrático
Salvo melhor juízo doravante,
Dessarte, data vênia, por suposto,
Por outro lado, maximé, isso posto,
Todavia deveras, não obstante
Pelo presente, atenciosamente,
Pede deferimento sobretudo,
Nestes termos, quiçá, aliás, contudo
Cordialmente alhures entrementes
Sub-roga ao alvedrio ou outrossim
Amiúde nesse ínterim, senão
Mediante qual mormente, oxalá quão
Via de regra te-lo-ão enfim
Ipso facto outorgado, mas porém
Vem substabelecido assim, amém.
José Lino Grünewald (Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1931 — Rio de Janeiro, 26 de julho de 2000)