Juvenília I

Lembras-te, Iná, dessas noites
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?

Quando as estrelas sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao langor daquele céu?

Lembras-te, Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.

Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.

Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.

Teu seio era como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.

***

Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!

Onde foste, ó pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?

Ah! Iná! por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh’alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!

Irei às nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!

Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;

Se depois de imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!

Fagundes Varela (São João Marcos, atual Rio Claro, Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1841 – Niterói, Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 1875)

A língua

Os lábios se gastam.
O escuro os prende
enquanto a língua
revira a esponja
do verbo prenhe
que diz a longa
missão de légua
por entre a vária
paixão sem leme.

A língua espanta.
Contém saliva
hidrato e fera.
Contém a festa
do bicho em viva
espécie de meta
que se diz salva
na hora avessa.
Vão susto rude
que nos desperta
da baba espessa
de sermos queda.

A língua queima.
A língua enxuga.
Mário a externa
na risca e ruga
do rosto, emblema
lançado à área
da só angústia,
já quente areia
que a chuva mansa
caída amena
amaina e suja.

Sempre a temos.
Cio depois véu
excita os remos
das vozes naves.

Em vão, Orfeu,
na voz dos ventos
(a nau das bodas)
soprou na lira
as águas leves
do mar Egeu,
falando a língua
das noves penas
do seu inferno,
das nove cordas
do seu mistério
que excita as aves.

O escuro a chama.
A língua despe.
A língua lambe
pelos morenos,
monte de vênus.
A língua fere
no som, na carne
que me reflete
homem sem norte.
Pois uso o termo
que já expresso,
rasgada a veste
que fecha o corpo
que fecha a fonte,
fechado esquema
da podre frase
que nos condena.

Língua, vírus, légua
esponja e régua.
Eu Mário, a fala.
Ela, a nossa carta
com o jogo inverso
de me ser forte
se me dispersa,
se me concentra
se me constata
a força exata
de não ser trôpego
nesta palavra
de fogo e fôlego
sem breu nem treva.

Acesa flecha,
liberta fera.

Mário Chamie (Cajobi, São Paulo, 1 de abril de 1933 – São Paulo, 3 de julho de 2011). Curadoria de Luís Araujo Pereira

Ouço uma fonte

Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!

Augusto Frederico Schmidt (Rio de Janeiro, 18 de abril de 1906 – Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 1965). In “Poesia completa: 1928-1965”. Introdução Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: Topbooks| Faculdade da Cidade, 1995. Nota: Por coincidência, no passado, eu havia escrito o poema “Sentado ouvindo a fonte”. Convido à leitura: http://ematosinho.com.br/?p=84

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973)