“Dizem que uma artista nunca morre — ela apenas troca de tela. Irene Koga pintou desde os doze anos, como se tivesse pressa de contar ao mundo tudo que via, tudo que sentia, tudo que ainda não tinha nome. Passou pelo Impressionismo, Expressionismo, Abstrativismo — como quem experimenta roupas diferentes procurando aquela que veste a alma por inteiro. Talvez nunca tenha encontrado só uma. Talvez não precisasse. Irene, teve uma vida inteira dedicada a transformar o instante em permanência: um gesto de luz, um rosto, um silêncio — tudo fixado para sempre numa tela, como quem diz ao tempo “espera, ainda não”. E o tempo, generoso com quem insiste, lhe deu 8 décadas de uma teimosia bonita. Ela partiu, mas deixou mais de seiscentas provas de que esteve por aqui e tem suas obras espalhadas pelo mundo, penduradas em paredes que ela talvez nunca tenha visto. Isso é o que a arte faz: multiplica quem a fez. Irene está em cada quadro que alguém olha hoje sem saber que, naquele instante, está diante de um pedaço dela mesma. Talvez a morte não seja o fim de uma artista — seja só o momento em que ela para de segurar o pincel e entrega sua obra de vez para quem fica. E o que fica, fica: a cor, a ousadia, a coragem de pintar a vida inteira sem pedir licença para ninguém.
Às vezes questiono por um segundo Se a poesia pode mudar o mundo. Na era de um elétrico pragmatismo, Vi-me chocada, num rápido ceticismo.
A moda é o estético e o imagético, E isto poemas são em nível esquelético. Porém, qual é o real valor da estética Mesmo quando ela ousa ser poética?
A poesia tem tantas significâncias… Porém, em um tempo resumido pela ânsia E pelo aquecimento global, que agora é real, Rimas me soam como um disparate total!
Mas na minha carne mora alma de poeta, E uma seta não ousa trair sua meta! Seja lá onde for, devo seguir este rumo De cometa violeta. Eu sei lá quando sumo!
Além de um sentido interno de missão, O universo constrói e visita a mansão. Muito além de tudo o que altera e impacta, A poesia permance mutante e intacta.
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Sometimes I question for a second If poetry can change the planet. In the age of an electric pragmatism, I find myself shocked, in a quick skepticism.
The fad is aesthetic and imagetic, And poems are these on a skeletal level. However, what is the real value of aesthetics Even when it dares to be poetic?
Poetry has so many significances… But in a time of deafness to nuance And by global warming, if I am to condense, Rhymes sound like total nonsense
But in my flesh lives a poet’s soul, And an arrow doesn’t dare to betray its goal. In as much as its solid, here’s some truth one can’t planish: Just like a violet comet, who knows when I’ll vanish?
In addition to an internal sense of mission, The universe builds and visits its mansion. Far beyond anything that alters and impacts, Poetry remains mutant and intact.
Fernanda Spinelli (Santos, São Paulo) is a poet and transpersonal psychologist. She has also been teaching English for the past 18 years. She has published the book “Síntese de Passageiro” (2020) and the anthology “Paninos Eternos” (2022). Poetry is music for her, being rhythm and musicality a hallmark of her poems. It goes without saying that music is among her greatest passions, as much as travelling – life itself is her most cherished passion, though
Eu ando pelo mundo Prestando atenção em cores Que eu não sei o nome Cores de Almodóvar Cores de Frida Kahlo Cores!
Passeio pelo escuro Eu presto muita atenção No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele Um calo, uma casca Uma cápsula protetora, aí Eu quero chegar antes Prá sinalizar O estar de cada coisa Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo Divertindo gente Chorando ao telefone E vendo doer a fome Nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto Pela janela do carro Pela tela, pela janela Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado Remoto controle
Eu ando pelo mundo E os automóveis correm Para quê? As crianças correm Para onde?
Transito entre dois lados De um lado Eu gosto de opostos Exponho o meu modo Me mostro Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo E meus amigos, cadê? Minha alegria, meu cansaço Meu amor cadê você? Eu acordei Não tem ninguém ao lado
Adriana Calcanhotto (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 3 de outubro de 1965). Do álbum “Senhas”, 1991. Essa música ganhou uma versão em dueto com Renato Russo (Rio de Janeiro, 27 de março de 1960 – Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1996) lançada na coletânea póstuma “Duetos” (2010). A gravação original ao vivo aconteceu em 1994, no programa “Por Acaso” da extinta Rede Manchete, e virou um dueto marcante da MPB. Segundo Mirian Lesbao Dumont em sua tese pela Universidade Federal de Mato Grosso nela “percebe-se relações do ser humano com o meio cultural através da mídia bem como sua errância. Este mesmo meio que amplia sua visão, o limita por enquadramentos de uma vida urbana. Mas a partir da arte, das relações, estabelece uma via de conexões com o outro por meio das janelas que se multiplicam. Reflete sobre as questões humanas e sociais que, a partir de uma visão macro; o mundo chega ao micro; Portanto, Calcanhotto, a partir de sua visão de mundo, traz questionamentos próprios do ser humano que é errante”
Se eu fosse um descascador de canela, eu cavalgaria na sua cama e deixaria o pó amarelo da casca no seu travesseiro.
Seus seios e ombros exalariam um odor fétido, você jamais conseguiria atravessar um mercado sem sentir o toque dos meus dedos sobre você. Os cegos tropeçariam, certos de quem se aproximavam, mesmo que você pudesse se banhar sob as sarjetas, durante a monção.
Aqui, na parte superior da coxa , nesta pastagem lisa perto do seu cabelo ou da dobra que corta suas costas. Neste tornozelo. Você será conhecida entre estranhos como a esposa do descascador de canela.
Eu mal podia olhar para você antes do casamento, muito menos tocá-la — sua mãe de nariz aguçado, seus irmãos rudes. Enterrei minhas mãos em açafrão, as disfarcei com alcatrão fumegante, ajudei os apicultores…
Quando nadamos uma vez, eu te toquei na água e nossos corpos permaneceram livres, você podia me abraçar e ficar insensível ao cheiro. Você subiu na margem e disse
É assim que se toca em outras mulheres: a esposa do cortador de grama, a filha do calcário. E você procurou em seus braços o perfume que faltava.
e sabia
De que adianta ser filha do queimador de cal, deixada sem deixar rastro, como se não tivesse sido amada em um ato de amor, como se estivesse ferida sem o prazer de uma cicatriz?
Você encostou sua barriga nas minhas mãos no ar seco e disse: “ Sou a esposa do descascador de canela. Cheire-me.”
Michael Ondaatje (Colombo, Sri Lanka, então Ceilão, 12 de setembro de 1943). Residente em Toronto, Canadá, esse poeta e romancista, de ascendência holandesa, tâmil e cingalesa, mudou-se com a mãe para a Inglaterra em 1954 e, posteriormente, em 1962, para o Canadá, onde se tornou cidadão canadense. Ele é mundialmente famoso pelo romance “O paciente inglês”. Como poeta, possui obras aclamadas como esta acima, onde mistura memórias, história e ritmo em sua escrita. In “The cinnamon peeler: Selected poems”. Nova York: Knopf, 1991
Em tuas colinas rasas não há vinhedos nem olivais. Há — púrpura difícil — a hematita, uva das Minas Gerais. Uva sáfara, mineral, fermentando uma pinga de poeira cujo álcool — lâmina de rocha e cal — torna triste a embriaguez mineira. Embriaguez vertical, contida, cujas cores explodem dentro do peito: ocre violento, lacre e prata, sol — e lua ferida.
Hélio Pellegrino (Belo Horizonte, Minas Gerais, 5 de janeiro de 1924 – Rio de Janeiro, 23 de março de 1988) foi um psicanalista, escritor e poeta brasileiro, célebre por sua militância de esquerda e por sua amizade com os também escritores Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Nélson Rodrigues. Este é um dos poemas mais célebres do psicanalista e escritor mineiro e nele o autor homenageia a região dos sítios geológicos e do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, comparando poeticamente a hematita, mineral abundante na região, à uva e ao vinho, marcas da terra
Em julho de 1932 explode em São Paulo uma revolta contra o presidente Getúlio Vargas. Em reação a esse movimento, tropas federais são enviadas para conter a rebelião. As forças paulistas lutam contra o exército durante três meses.
Introdução
A Revolução Constitucionalista foi um dos mais importantes acontecimentos da história política brasileira ocorridos no Governo Provisório de Getúlio Vargas e foi desencadeada em São Paulo. Foram três meses de combate, que colocaram frente a frente nos campos de batalha forças rebeldes paulistas e forças legalistas federais. A revolta paulista alertou o governo de que era chegado o momento de pôr um fim ao caráter revolucionário do regime. Foi o que ocorreu em maio do ano seguinte, quando finalmente se realizaram as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, que iria preparar a Constituição de 1934.
Antecedentes
Em 1930 uma revolução derrubava o governo dos grandes latifundiários de São Paulo e Minas Gerais. Getúlio Vargas assumia a presidência do Brasil em caráter provisório, mas com amplos poderes. Todas as instituições legislativas foram abolidas, desde o Congresso Nacional até as Câmaras Municipais. Os governadores dos Estados foram depostos. Para suas funções, Vargas nomeou interventores.
A política centralizadora de Vargas desagrada as oligarquias estaduais, especialmente as de São Paulo e as velhas elites políticas desse estado sentem-se prejudicadas. Neste contexto, os liberais reivindicam a realização de eleições e o fim do governo provisório.
O governo Vargas reconhece oficialmente os sindicatos dos operários, legaliza o Partido Comunista e apoia um aumento no salário dos trabalhadores. Estas medidas irritam ainda mais as elites paulistas.
Em 1932, uma greve mobiliza 200 mil trabalhadores no Estado. Preocupados, empresários e latifundiários de São Paulo se unem contra Vargas.
Histórico do movimento
O estado de São Paulo havia sido a principal base política do regime da Primeira República, e por isso era visto por vários membros do Governo Provisório de Getúlio Vargas como um potencial foco oposicionista. Lideranças civis e militares pressionaram então Vargas para que não deixasse o governo estadual nas mãos do Partido Democrático de São Paulo, alegando que esse partido havia apoiado a Aliança Liberal e a Revolução de 1930, mas não se envolvera diretamente nos eventos revolucionários. Diante dessas pressões, Vargas terminou por indicar para os cargos de interventor e comandante da Força Pública de São Paulo os líderes tenentistas João Alberto e Miguel Costa.
A exclusão do Partido Democrático teve como principal resultado o início de uma campanha de mobilização da sociedade paulista. A palavra de ordem era a imediata reintegração do país em um regime constitucional. Essa reivindicação era rechaçada pelos “tenentes”, interessados em manter um governo discricionário para promover mais facilmente as mudanças que consideravam necessárias. Durante o ano de 1931, o governo Vargas manteve-se muito próximo das teses tenentistas, a ponto de se poder dizer que o Brasil era o país dos “tenentes”.
A campanha constitucionalista fez sua primeira vítima em julho de 1931. Sem condições de governar, o interventor João Alberto renunciou. Iniciou-se então um período de intensa luta política entre os diversos grupos que buscavam o poder em São Paulo. Em um curto espaço de tempo foram indicados diversos interventores que caíam com a mesma facilidade com que subiam. Setores políticos gaúchos e mineiros emprestaram solidariedade à campanha constitucionalista sem, no entanto, romper naquele momento com o governo de Vargas.
No final de 1931 e início de 1932, Vargas procurou conter as críticas organizando uma comissão, presidida pelo ministro da Justiça Maurício Cardoso, encarregada de organizar o novo Código Eleitoral. Em fevereiro de 1932, o Código Eleitoral foi publicado e um novo interventor foi nomeado para São Paulo, o civil e paulista Pedro de Toledo. Os sinais de trégua emitidos por Vargas, no entanto, não arrefeceram os ânimos. Formou-se a Frente Única Paulista (FUP), cujos principais lemas eram a constitucionalização do país e a autonomia de São Paulo.
Em maio de 1932, Vargas marcou a data das eleições para dali a um ano. A medida não teve resultados práticos no sentido de conter a conspiração política, que naquele momento já corria solta. A morte de quatro estudantes paulistas em confronto com forças legais criou mártires: as iniciais de seus nomes – Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo – foram usadas para designar uma sociedade secreta, MMDC, que tramava para derrubar o governo.
Quando se inicia o levante, uma multidão sai às ruas em seu apoio. Tropas paulistas são enviadas para os frontes em todo o Estado. Mas as tropas federais são mais numerosas e bem equipadas. Aviões são usados para bombardear cidades do interior paulista. 35 mil homens de São Paulo enfrentam um contingente de 100 mil soldados. Os revoltosos esperavam a adesão de outros Estados, o que não aconteceu.
No dia 9 de julho o movimento revolucionário ganhou as ruas da capital e do interior de São Paulo. A revolução teve apoio de amplos setores da sociedade paulista. Pegaram em armas intelectuais, industriais, estudantes e outros segmentos das camadas médias, políticos ligados à República Velha ou ao Partido Democrático. O que os movia era principalmente a luta antiditatorial.
Em outubro de 32, após três meses de luta, os paulistas se rendem. Prisões, cassações e deportações se seguem à capitação. Estatísticas oficiais apontam 830 mortos. Estima-se que centenas a mais de pessoas morreram sem constar dos registros oficiais.
No entanto, a luta armada dos constitucionalistas ficou restrita ao estado de São Paulo. Os governos do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, que a princípio viam com bons olhos a campanha pela constitucionalização, resolveram não enfrentar a força militar do governo federal. Isolados, os paulistas não tiveram condições de manter por muito tempo a revolução.
No período seguinte Vargas emitiu dois sinais claros de que estava disposto a uma nova composição política com os paulistas: nomeou interventor o paulista e civil Armando de Sales Oliveira (agosto de 1933) e adotou medidas que permitiram o reescalonamento das dívidas dos agricultores em crise.
No governo de Armando Sales, as elites políticas paulistas procuraram se reorganizar. O novo interventor teve um papel decisivo nesse processo, reconstruindo o aparelho administrativo paulista, destroçado após anos de instabilidade política. Mais sua principal obra foi no campo da cultura com a criação da Universidade de São Paulo (USP), que em pouco tempo se tornaria responsável pela formação de uma nova elite político-intelectual destinada a influir no futuro do estado e do país.
Conclusão
A Revolução Constitucionalista de 1932, foi o maior confronto militar no Brasil no século XX. Apesar da derrota paulista em sua luta por uma nova constituição, dois anos depois da revolução, em 1934, uma assembleia eleita pelo povo promulga finalmente a Carta Magna.
Em memória de meu tio Ângelo Silva, sócio-fundador do Clube de Campo e Balneário Diacuí, de Ourinhos, e um entusiasta da Revolução de 32. Em sua origem esse clube se chamou Clube 9 de Julho e em seu interior há um belo obelisco que lembra os combatentes de 1932 e que está instalado exatamente no local onde foram as trincheiras. Nesse monumento tem uma na placa com a frase “Neste solo tremulou bandeira de treze listas. Aqui também palpitou o coração dos paulistas”, de autoria do professor Norival Vieira da Silva. Ele foi inaugurado no dia 9 de julho de 1962 e esta homenagem foi iniciativa de meu tio Ângelo.