
Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora, aí
Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Adriana Calcanhotto (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 3 de outubro de 1965). Do álbum “Senhas”, 1991. Essa música ganhou uma versão em dueto com Renato Russo (Rio de Janeiro, 27 de março de 1960 – Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1996) lançada na coletânea póstuma “Duetos” (2010). A gravação original ao vivo aconteceu em 1994, no programa “Por Acaso” da extinta Rede Manchete, e virou um dueto marcante da MPB. Segundo Mirian Lesbao Dumont em sua tese pela Universidade Federal de Mato Grosso nela “percebe-se relações do ser humano com o meio cultural através da mídia bem como sua errância. Este mesmo meio que amplia sua visão, o limita por enquadramentos de uma vida urbana. Mas a partir da arte, das relações, estabelece uma via de conexões com o outro por meio das janelas que se multiplicam. Reflete sobre as questões humanas e sociais que, a partir de uma visão macro; o mundo chega ao micro; Portanto, Calcanhotto, a partir de sua visão de mundo, traz questionamentos próprios do ser humano que é errante”