Um poema
umas coisas atrás de outras
fixou na parede a tabuleta e lê-se
proibida a afixação
quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia
agora há mais pássaros atrás das nêsperas
muito para além dos frutos alguém
escreveu numa parede do cais do sodré
a fatinha tem sida
aviso enorme
de enormidade
e ali perto outra inscrição
num prédio do corpo santo
paredes brancas povo mudo
Abel Neves (Montalegre, Portugal, abril de 1956). In “Deitar a língua de fora”, Lisboa: Língua Morta, 2012, p. 51
Lousa
Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “Idades cidades divindades”. Lisboa: Editorial Caminho, 2007
Site José Aníbal: 21 anos no ar!
Hoje, 18 de agosto, comemora-se com satisfação esta importante data. O site de José Aníbal está no ar de forma ininterrupta desde os seus tempos de Câmara Municipal e o seu objetivo sempre foi o de informar, debater e divulgar suas ideias e atividades como político. José Aníbal é economista, ex-senador por São Paulo, secretário de Estado por duas vezes, foi cinco vezes deputado federal e, pela capital, foi também vereador. Em 2024 foi eleito presidente do PSDB municipal de São Paulo.
Na sua trajetória seu site passou pela sua votação recorde para vereador da cidade de São Paulo em 2004, onde foi eleito com 165.880 votos. Seguiu com sua eleição para deputado federal em 2006 e em 2010, e depois continuou com sua escolha para secretário estadual de energia do Estado de São Paulo em 2011 e, em 2014, quando foi eleito primeiro suplente à senador na chapa encabeçada por José Serra. Em 2016 ele assumiu pela primeira vez o mandato no Senado Federal com a ida de José Serra para o Ministério das Relações Exteriores, e ficou no cargo até fevereiro de 2017. Voltou a assumir temporariamente a vaga de Serra no Senado Federal em agosto de 2021, após o titular se afastar por doença e pedir licença por 4 meses.
Fica aqui esse registro!
Cão azul
Três poemas
Num bairro moderno
O poodle fez pu-pu (delicadeza)
Fertilizando a erva (outrora relva)
No logradouro ensolarado (logrando
O quê? Poema de merda).
*
Num bairro moderno
Passinhos de passarinho pardacento
Viúva d’alma com gabardine
Passando estreita
No passeio do bairro.
*
Nesse bairro moderno
Havia desejos de vê-la
Jovem e já viúva
Passando
De flores queimadas e silêncios
E de lábios dizendo alarmes
Nos dedos, cuidados.
Jorge Fazenda Lourenço (Covilhã, Portugal, 1955). In “Fim de boca e mais poemas 1981-2023”, Companhia das Ilhas, 2023
Pedro: Neto de peixe, peixinho é
Um pouco da pintura do pequeno Pedro Brandão Castellano: Neto de Selma Daffrè, gravadora, pintora, aquarelista e professora de arte. Que diz singelamente:
“Eu sou vovó coruja… kkkkk”
Parati paratá
Raízes
Como gatos ao sol
Sombrio abismo ondulante
labirinto invertido
Dão para o desconhecido
dialogam subterraneamente de planta a planta
(também eu tenho duas plantas de bípede
mas que nem sempre se compreendem
sou membro de uma espécie alucinada e predadora)
Raízes que por vezes afloram a superfície da pedra
serpenteando
Da terra retiram o mar desaguado
Podem matar ou libertar
matar ou curar
A tua infância são as tuas raízes
elas alimentam os sonhos
quando dormes elas falam
A meio da minha vida descalcei-me e sentei
debaixo de uma árvore em cima de suas raízes
e me alimentei da sua seiva
Budha quase me despertava.
(Coimbra, jardim Botânico).
*
Escadas que dão para o céu
(ou seja para nenhures)
Ao lado na igreja da Misericórdia
latejam os sinos sinalando um funeral
E eu só queria um sinal do teu coração
(que o telefone tocasse agora
então acreditaria em auroras).
(Idanha-a-Nova, final de tarde)
*
Em lince me transformo e corro
para te anunciar que
Hoje o Sol abriu a pálpebra
rente ao chão
nas folhas do choupo
e só depois se ergueu até aos ramos
mais altos onde vai fazer ninho.
*
Manuel Silva-Terra (Orvalho, Freguesia Oleiros, Portugal, 18 de maio de 1955)