Quatro pinturas em pastel feitas pela minha sobrinha e afilhada Maria do Carmo Matosinho Peres de Pontes quando jovem
Meu coração como vermelho balão – Assemblage
As mães dormem de olhos abertos
As mães dormem
de olhos abertos,
caçam à dentada
os medos dos filhos
e iluminam a noite
com fogo do coração.
Cláudia Lucas Chéus (Lisboa, Portugal, 1978)
Blog, 20 anos…
O blog “Redescobrindo” de minha autoria completa 20 anos no ar nessa sexta-feira, 22/08/25. Para lembrar essa “redonda” data criei a imagem acima inspirada em um antigo banner dele. A primeira versão do blog, que ficou no ar até 23 de maio de 2019, beirou os 30 mil acessos e essa nova e modernizada versão já passou dos um milhão e meio, com mais de 158 mil visitantes. Ele possui 200 páginas, já foram publicados 1.994 posts e aprovados 359 comentários. No dia 19/08/25, ele obteve a excelente marca de 7.761 páginas visitadas em um único dia…
Valeu pessoal pelas visitas e pelo prestígio.
Abraços e retornem mais vezes,
Eduardo Matosinho
Do Himalaia 2
A ideologia dos humores
Deixa-me ser como tu
geração empenhada
cheia de causas
quando as causas
dizia-se terem expirado
como os prazos e a Historia
como tu arrumado
à esquerda à direita
tão faccioso e tão seguro
sem saltar de uma margem
para a outra ao sabor
das guinadas ao volante
e da ideologia dos humores
ah geração empenhada
que pões os teus
óculos partidários
para assistir ao jogo
dos homens
sabes tanto
suspende-me o desvario
oferece-me
teimosias bandeiras ideais
ensina-me a incluir
a palavra “contra”
no dicionário dos almoços.
Nuno Costa Santos (Lisboa, Almada, Portugal, 1974)
Nado de lado
Decifrando o escrito: “O nadador”.
Aula de natação
Sobrevivemos em extremas condições.
Agora esforçarmo-nos por levantar a cabeça
e é uma boia à tona da água
sob a claraboia da catedral
do imenso baptistério
peixes passando para lá
e para cá cardumes
hidráulicos combatendo a gravidade
de nadadores
rastejando, as suas pás trotando a água
como soldados feridos
rebocando as suas pernas
atrás dos seus variegados capacetes
luzidios.
Alguns aleijados, mutilados, alguns torsos
milhares de peixes superficiais
avenidas de combatentes
aforando as águas,
combatendo as águas
sobrevivendo-lhes –
olha aquele além em plena
fisioterapia, de que guerra veterano?…
tentando combater o adverso
já em pura adversidade
vede-os
sobre as águas vão
nesta república
procuram a igualdade da Atlântida.
A água é a mesma
mas uns são melhores nadadores.
Daniel Jonas (Porto, Portugal, 1973). In “Os fantasmas inquilinos”, Editora Todavia, 2019
Brinca-brincando
Rua do Norte
No primeiro cansaço não sei o que perdi
amava-te como o refém arrastado sem pressas
amava-te diante do medo mais bonito de te amar
e a história deste sofrimento de oiro
move-se com a velocidade de uma doença fixa
gravitando nos confins perigosos da força do mel
e deitado no chão da sala oiço o rumor do mundo
e aprendo que morrer não significa nada
só podemos falar das imagens que se movem
ao encontro da loucura nesse estremecimento consentido
nessa loucura tua e nossa que ensina o mundo a voar
se nenhum receio no medo mais feliz
hoje digo que te amei ou que te amava ou que te amo
vou dizer que este poema não é teu
vou repetir mil vezes a impressão dos teus dentes
na tua música de foto e vento e lábios novos
mas vou negar tudo
acreditar que sim e que não negar
os que disse depois do silêncio
no primeiro cansaço mesmo antes de teu nome ou
mesmo muito depois de nós
Joaquim Cardoso Dias (Castelo Branco, Portugal, junho de 1973)