Os meninos
Verde, verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.
Negra, negra madrugada.
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
Mário Chamie (Cajobi, São Paulo, 1 de abril de 1933 – São Paulo, 3 de julho de 2011). Curadoria de Luís Araujo Pereira
Floresta de Buçaco
Em fins de 1997, e durante quinze dias, viajei pela Europa indo com meu pai conhecer Portugal e um pouco melhor a história dos Matosinhos. No dia 25 de dezembro daquele ano estive em Buçaco (cuja grafia arcaica é Bussaco), passando por Vico, Porto, Matozinhos, Coimbra, entre outras cidades portuguesas. Para Lisboa fomos depois e nos hospedamos no clássico Hotel Ritz. Nesse mesmo dia 25 demos entrada no Hotel de Buçaco. E no dia seguinte fiz um passeio completo pela Floresta de Buçaco, que fica nas imediações deste belo hotel. Lá vi muitas plantas do Brasil, como, por exemplo, a samambaia de xaxim. Essa foto foi batida nessa floresta e tempos depois encontrei sem querer uma outra imagem desse local em uma rede social que, por ser tão parecida, me fez lembrar dessa marcante ocasião…
Morro de cor 2
menina das cores

ela cora
de vigor
e de gosto
adora
nomear cores
desnudar nomes
devorar a desnudez
gozar sem decoro o pleno devoro
colorir — até quase além do cúmulo —
o gozo que se impõe
maiúsculo
e a faz menina
cor absoluta
só sim
Beto Furquim (São Paulo, 21 de agosto de 1964). In “Banhei minha mãe”, Editora Laranja Original, 2018. Com desenhos de Alex Červený
Ovalado girando, raio e fitas
Nós
O valor dos resquícios eternos
É a soma qualitativa de invisíveis elos:
Poeiras enfileiradas, afetos sutis,
Missões, progressões estudantis.
Do mistério exibido ao hermético,
Na fé distraída que esconde o cético,
Incontáveis silêncios gritam imersos:
— Poema, fizeste o quê?
— Uni-versos!
No total que do globo eclode,
Descanso descobre, o corpo sobe.
No silêncio a colcha sobre o colchão.
Nenhum ponto aqui é dado em vão.
Fernanda Spinelli (Santos, São Paulo)
Repente
Repuxo
Fuste fino, frio, fútil,
(Debruçam-se as silhuetas longas, lentas, langues,
como colos de cisnes, na água bamba dos tanques…)
alvo, aluado, abrindo no alto
(E as silhuetas flexuosas têm elásticos modos
que flutuam no ar, vagarosos como lótus…)
folhas, brotos, bolas, bolhas,
(E as silhuetas, sobre a esteira áspera de rugas
crespas, desconjuntam-se em curvas ríspidas, bruscas…)
ocos botões, bouquets loucos…
E o colar de silhuetas esfarela-se em pérolas
pálidas, pondo na água trêmulas auréolas…)
Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969)