Novos achados da biblioteca de Carmita e relembrando um bordado e um retrato seu

Motivado pela conversa que tive em setembro do ano passado com Alexandre Araujo Silva voltei a encontrar no sítio e em minha casa outros livros de minha mãe Carmita e aproveitei para relembrar seu lindo bordado e uma foto de sua juventude. Vejam acima o painel que fiz, tomara que gostem…

Maria do Carmo Ferreira Matosinho, * Motuca SP, 25 de março de 1926 – + Ourinhos SP, 5 de abril de 1966

Resposta a Vinicius de Moraes

                    Camarada diamante!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “Museu de tudo: poesia, 1966-1974″, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1975

Poema de encantação

Arraial d’Angola de Paracatu,
Arraial de Mossâmedes de Goiás,
Arraial de Santo Antônio do Bambé,
vos ofereço quibebê, quiabo, quitanda, quitute, quingombô.
Tirai-me essa murrinha, esse gôgo, esse urufá,
que eu quero viver molecando, farreando, tocando meus ganzás!

Arroio dos Quilombos de Palmares,
Arroio do Desemboque do Quizongo,
Arroio do Exu do Bodocô,
vos ofereço maconha de pito, quitunde, quibembe, quingombô.
                      Assim, sim!
Arraial d’Angola de Paracatu,
Arraial do Campo de Goiás,
Arraial do Exu do Aussá,
vos ofereço quisama, quinanga, quilengue, quingombô.
Tomai acaçá, abará, aberém, abaú!
                      Assim, sim!
Tirai-me essa murrinha, esse gôgo, esse urufá!
Vos ofereço quitunde, quitumba, quelembe, quingombô.

Jorge de Lima (União dos Palmares, Alagoas, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953). In “Novos poemas; poemas escolhidos; poemas negros”, Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997

Experimentando a manhã nos galos

… poesias, a poesia é

— é como a boca
dos ventos
na harpa

nuvem
a comer na árvore

vazia que
desfolha noite

raiz entrando
em orvalhos…

os silêncios sem poro

floresta que oculta
quem aparece

como quem fala
desaparece na boca

cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém

o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros

— e é livre
como um rumo
nem desconfiado…
raiz entrando em orvalhos..
os silêncios sem poro
floresta que oculta quem aparece
como quem fala desaparece na boca
cigarra que estoura o crepúsculo
que a contém
o beijo dos rios aberto nos campos espalmando em álacres os pássaros
— e é livre
como um rumo
como um rumo nem desconfiado…

Manoel de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 19 de dezembro de 1916 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 13 de novembro de 2014). In “Compêndio para uso dos pássaros”, 3ª. edição, Rio de Janeiro: Record, 1999

Alexsandro Panetto Largura: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

Alexsandro Panetto Largura

Nascido em 09/10/1988 em Linhares, um município brasileiro no litoral norte do estado do Espírito Santo. Vítima de uma disfunção congênita cerebral pós-parto é chamado carinhosamente por Alex. Alex é um rapaz muito carismático, fascinado por videogame e pintura. Para ele a pintura ocupa um espaço muito importante em sua vida. Mora em Rio Bananal, município no Espírito Santo e é casado com Williariana Pamela de Jesus. Ele é bolsista da Associação. Em suas próprias palavras ele conta: “Essa paisagem foi eu que pintei com a boca, e tive essa surpresa por ter a minha arte no começo do calendário de 2026.!!… Gratidão!!”

👨🎨 Artista plástico da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Acrílica
Título da obra: “Praia da Bahia”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.

Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
apbp@apbp.com.br
https://apbp.com.br/home

Tristia

1

Aprendi a ciência da despedida
No desabrigo, em noites de ansiedade.
O boi rumina, a espera é longa lida,
Está no fim a vigília da cidade,
E à noite do galo, rendo homenagem,
Quando, ao longe, olhos miraram em pranto,
E, suspenso o peso da dor da viagem,
Mulher e musa uniram choro e canto.

2

Quem pode, na palavra despedida,
Prever que separação nos espera,
Ou a que o canto do galo nos convida,
Quando a acrópole em chamas reverbera,
E na aurora de uma vida nova,
Quando o boi rumina à sombra indolente,
Por que o galo, arauto da vida nova,
Bate aos muros da cidade, impaciente?

3

Mas o ofício de fiar me fascina:
A lançadeira trama, o fuso ressoa.
Olha: como uma pena de cisne,
Descalça, ao teu encontro, Délia voa!
Oh, urdidura frouxa de nossa vida,
Como é pobre a língua da alegria!
Tudo está feito um repetir sem saída:
E só reconhecê-lo delicia.

4

Numa travessa de barro lavada,
Jaz a figura em cera transparente,
Como pele de esquilo esticada,
Que a moça mira com luz de vidente.
Do Érebos grego, não nos vêm profecias.
Às moças, serve a cera; a nós, o cobre duro.
Só nas guerras nossa sorte se anuncia,
Mas mulheres, até morrer, veem o futuro.

[1918]

Óssip Mandelshtám (Varsóvia, Polônia, 14 de janeiro de 1891 — Vladivostok, Sibéria, Rússia, 27 de dezembro de 1938) é um dos principais poetas e ensaístas do modernismo russo. Traduzido por Rubens Figueiredo, escritor e tradutor