Signoault
Soneto 8
Ó música, por que te escutas com tristura?
O doce ama a doçura, o alegre ama a alegria:
E por que amas tu só o que te traz amargura,
E acolhes com prazer o que só te entedia?
Se a concórdia dos sons justamente afinados,
Casados, num enlace, ofende os teus ouvidos,
Censuram-te com trino, e deixam misturados
O que, solteiro, tu devias ter unido.
Vê: uma corda, doce, a outra corda esposa,
Tocam-se, cada qual, de maneira alternante,
Assim como o senhor, o filho e a mãe ditosa,
Que entoam uma nota amável, acordante:
Múltipla, una, sem palavras, a balada
Canta-te: “Murcharás solteiro, serás nada.”
William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, Reino Unido, 1564 (batizado a 26 de abril) — Stratford-upon-Avon, Reino Unido, 23 de abril de 1616). In “Sonetos ao jovem desconhecido”, São Paulo: Landy Livraria Editora e Distribuidora, concepção e tradução de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2003
João, desenho feito em grupo na escola e um pouco de seu mundo
Borboleta espiral
Em português
Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 13 de dezembro de 1935). In “A faca no peito”, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1988
Aracnídeo
Sonho
Meu coração repousa junto à fonte fria.
(Enche-a com teus fios,
aranha do esquecimento.)
A água da fonte sua canção lhe dizia.
(Enche-a com teus fios,
aranha do esquecimento.)
Meu coração desperto seus amores dizia.
(Aranha do silêncio,
tece ali teu mistério.)
A água da fonte o escutava sombria.
(Aranha do silêncio,
tece ali teu mistério.)
Meu coração se curva sobre a fonte fria.
(Mãos brancas, distantes,
detende as águas.)
E a água o leva cantando de alegria.
(Mãos brancas, distantes,
nada fica nas águas.)
Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, Andaluzia, Espanha, 5 de junho de 1898 – Víznar e Alfacar, Granada, Espanha, 18 de agosto de 1936). In “Poemas de amor de Federico Garcia Lorca: Remansos de amor – Antologia”. Organização Luiz Raul Machado; tradução Floriano Martins, Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 1998
Tinta Bic azul
Depois de um dia e meio sem luz elétrica em casa me ocorreu postar essa pintura…
Poesia africana
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
António Agostinho Neto, conhecido por Agostinho Neto (Aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, Angola, 17 de setembro de 1922 – Moscou, Rússia, 10 de setembro de 1979). Foi um médico, escritor e político angolano. Foi Presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e em 1975 tornou-se o primeiro Presidente de Angola, ficando até 1979. Em 1975-1976 foi-lhe atribuído o Prêmio Lenin da Paz