Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

Augusto dos Anjos (Engenho Pau D’Arco, Vila do Espírito Santo, atual município de Sapé, Paraíba, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, Minas Gerais, 12 de novembro de 1914). In “Poemas / Augusto dos Anjos”, seleção de Zenir Campos Reis. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002. (Coleção Leitura)

Vista cansada

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Otto Lara Resende (São João del-Rei, Minas Gerais, 1 de maio de 1922 – Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1992) foi um jornalista e escritor brasileiro. Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992

A cor que eu te pintaria

Pintaria-te de bromo, para mostrar tua força diferente. Somente a cabeça. Errada e ajustada.
O resto do corpo não importaria a diferenciação de cor, pois é igual em todas as mulheres. Pena que tu não mostra-o.
Tuas mãos pintaria de uma cor tênue, pois pretendo tê-las frágil, teus afetos me abalam. Teus pés fincaria no chão para que tu estejas lá quando eu precisar, e, ao mesmo tempo, tuas mãos estariam livres e poderiam apanhar o que quisessem. Menos as minhas mãos. Afaste de mim o teu corpo, pois me faz perder os sentidos.
Não quero que toques em mim, pois tu me confundes. Mostre todas as tuas cores, mulher. Que tu não sabes o que é um corpo! Usam-te e nem te observam. Gastam-te, embriagando-se nos dedos e ficando com a língua cansada. Não é pura e simples a tua procura pelo escuro. Tens medo! Abre tuas asas, quero ver o teu alçar. Desfile para mim, mulher. Mostre teu corpo volumoso, cheio de variações, que eu o pintarei com a cor do carmim.
Achas que te exalto – mas basta que não me percebas te observando. Tens a mente longe em uma cidade distante, imaginando teu amor impossível… Sei que não tens o pensamento voltado para a vingança contra o teu patrão. Desfile. Volteie. Striptease-se o que já está sem nada. Tire a tua aura. Mostre-me a tua figura vívida da vida.
Achas-me ridículo! Louco! Erotizado! Ahhom… Eu te imagino uma dama, desfilando, abarrotada de tua roupa casual e prestes a pegar o teu vestido “saideira” que não carece para brilhar.
Não me deixes! Eu sou um pintor e tu és a obra incompleta do mundo. A mim resta pintá-la e quem sabe, após tu estar colorida, expô-la, pois tua cor não será nem um pouco obscura.

08/08/80 – S.P.

Minha cidade, em janeiro

O que minha cidade tem de mais pulcro e legítimo é o rosto da moça atrás do vidro fumê do 18º andar do edifício da companhia de investimentos (1). O rosto aparece às 17h55min, de segunda a sexta, quando ela espia a calçada antes de bater o cartão de ponto no relógio. O namorado da moça tem uma moto de milhões de decibéis e faz tantas loucuras no cruzamento da avenida que, em certos momentos, parece que vai bater as asas de metal e se transfigurar num anjo barbudo e entrar no bairro do Paraíso, para tomar um sorvete de tutti-frutti com duas casquinhas (2).

O que minha cidade tem de mais operoso e legítimo é o crioulo de capacete ocre que enfia a ponta do martelo mecânico na viga de concreto e rompe o útero da Rua das Palmeiras, onde corre um braço subterrâneo do Metrô. O capacete do crioulo lembra um sol boiando no suor da cara e, quando a tarde cai, o capacete fica de riba como porongo decepado em cima do balcão, enquanto o garoto do bar serve um traçado ao som do liquidificador.

O que minha cidade tem de mais vetusto e legítimo é o fantasma do coronel Arouche que guardou suas emas, jaçanãs, pacas e bacamartes na arca do passado e transita incógnito e invisível por entre as mesinhas de pinguços e desesperados com olhos cor de quitinete. O coronel Arouche por hábito arrasta as botas sujas de lama do tempo em que o Anhangabaú dava curimbatá e a cidade tinha pontes de madeira, onde hoje ficam os Correios e Telégrafos. O coronel Arouche é transparente e se encontra com o brigadeiro Tobias na sacada solitária do prédio Martinelli nas noites de lua e garoa.

O que minha cidade tem de mais amargo e legítimo é o corpo em decúbito dorsal, ainda não identificado, coberto com a última página do vespertino (3), e um pára-choque de jamanta com tinta fresca vermelha: cuidado, não encostar que é sangue.

O que minha cidade tem de mais imperceptível e legítimo é o violino que toca de manhã cedo na Rua Conselheiro Furtado tangido por um chinês de Formosa que vende penas de nanquim na Liberdade e escreve, em hieróglifos, poemas para um velhinho de barba fina que tem 98 anos, nasceu em Kioto, e adora doce de feijão, peixe cru e forró.

O que minha cidade tem de mais pardo e legítimo são os paquidermes dos edifícios que ressonam rente ao Minhocão e cujo pescoço alado se atira sobre Santa Cecília, Bexiga, Vila Buarque, até esmorecer diante da torre de São Geraldo das Perdizes.

O que minha cidade tem de mais acordado e legítimo é o Ponto Chic, onde a Polícia, a malandragem e a boemia confraternizam e meditam sobre a glória passageira das valentias, dos sanduíches e do chope gelado.

O que minha cidade tem de mais revolucionário e legítimo são as conversas fiadas dos bares de Vila Madalena, onde um garçom de vanguarda bolou uma perfeita bomba de efeito retardado com meia dose de dor-de-cotovelo, algumas gotas de amargo, dois dedos de esperança disfarçada, e alegria q.s.p. encher o coração.

O que minha cidade tem de mais álacre e legítimo é o alarido dos mochileiros, flautistas, barraqueiros e fugitivos no Terminal Rodoviário do Jabaquara (4), ao dizerem adeus no sábado de manhã, em busca do mar do Sul, e voltando domingo à noite tostados de cerveja, sol, areia e mariscos, até empalidecerem outra vez no cotidiano das lojas, armarinhos, butiques, bancos e guichês.

O que minha cidade tem de mais fácil e legítimo é esta disponibilidade para aceitar as coisas como são – a vida e a morte – e concluir que tudo é possível: sardas, celulite, bronze, paralelepípedo, cartório de protesto, bala perdida, impropérios, maldições, arrependimentos, conversões, penitências, desuniões definitivas, casamentos eternos, bodas de ouro, tombos, porões, amizades, ervas medicinais, macumbas, crediários, a estátua de Anchieta, o Pátio do Colégio, os mascateiros da General Carneiro, o lauspereneem Santa Ifigênia, os sinos de São Bento, e o sol no merídio iluminando colarinhos sociais.

Bazar de coisas, caos e golfo, cartão-postal da pressa, porto de ternuras, buquê de pamplonas, angélicas, azaléias, fuligens e augustas, moquifos e tugúrios, campeonato mundial entremeado de pernetas e fraturas, solidões cercadas de risos e de festas, macarronadas infinitas, pizzas, chaminés e a via-láctea de fumaça corrigindo as estrelas verdadeiras.

Mas, por fim, eu revelo: o que esta cidade tem mesmo de mais fiel e legítimo é o amor e a raiva deste amante anônimo, quando a cidade finge não me ver no meio do povo que a habita (5).

Notas: (1) O narrador-repórter atenta para o banal, foca fatos efêmeros – (2) Usa o humor para provocar o leitor a recuperar sua capacidade crítica – (3) O narrador-repórter dá mais importância aos fatos do que às personagens – (4) Os fatos acontecem aos excluídos que “se equilibram nos muros da vida” – (5) Cenário urbano paulista.

Comentários: A base de suas crônicas é o cenário urbano paulista. O cronista percorre sua cidade, observa e recolhe fatos, e transforma seu texto num testemunho do nosso tempo. Como narrador-repórter atenta para o banal, foca fatos efêmeros que dificilmente se repetirão e acrescenta emoção à reportagem, envolve-se na narrativa, levando consigo o leitor. Dá mais importância aos fatos do que às personagens. Na maioria das vezes, esses fatos acontecem aos excluídos, àqueles que “se equilibram nos muros da vida”, e também nas relações entre as classes dominantes e dominadas. O humor não é uma ferramenta para aliviar a tensão dos textos, mas para provocar o leitor a recuperar sua capacidade crítica, sua capacidade de indignar-se. Assim, provoca nele o riso irônico, de indignação, em vez do riso de deboche. Por meio da brincadeira tenta superar a realidade amarga. Para variar a estrutura de seus textos, usa formas que se aproximam da poesia ou da fábula. (Por Alexandre F. Gennari)

Lourenço Diaféria (São Paulo, 28 de agosto de 1933 – São Paulo, 16 de setembro de 2008) foi um contista, cronista e jornalista brasileiro. In “A morte sem colete” e notas e comentários vindos do livro “A Crônica”, estudos de Jorge de Sá sobre a crônica como gênero literário, Editora Ática – Série Princípios