Dia branco

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o Sol
Se hoje o Sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça, na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto, esse canto de amor, oh
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o Sol
Se hoje o Sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça, na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Comigo
Comigo

Geraldo Azevedo (Petrolina, Pernambuco, 11 de janeiro de 1945) e Renato Rocha (Pernambuco, por volta de 1945). Essa música tem uma linda letra que fala sobre amor, companheirismo e promessas para qualquer momento, e a sua melodia foi inspirada pelo trabalho de George Harrison. Em 1981, no LP “Inclinações musicais”, da gravadora Ariola, essa música foi gravada por Geraldo Azevedo e tornou-se grande sucesso, e recebeu regravação de Maria Creuza, em 1991, no LP “Todo sentimento”, da Som Livre, e de Carlos Pita, em 1993, no LP “Dias de luz”, da Polydisc. Geraldo Azevedo é conhecido por ter feito importantes parcerias com Zé Ramalho, Alceu Valença e Elba Ramalho

Corrente

De “Meus caros amigos”, 1976.

Eu hoje fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho

Eu acho que o meu samba é uma corrente
E coerentemente assino embaixo

Hoje é preciso refletir um pouco
E ver que o samba está tomando jeito

Só mesmo embriagado ou muito louco
Pra contestar e pra botar defeito

Precisa ser muito sincero e claro
Pra confessar que andei sambando errado

Talvez precise até tomar na cara
Pra ver que o samba está bem melhorado

Tem mais é que ser bem cara de tacho
Não ver a multidão sambar contente

Isso me deixa triste e cabisbaixo
Por isso eu fiz um samba bem pra frente

Dizendo realmente o que é que eu acho
Eu acho que o meu samba é uma corrente

E coerentemente assino embaixo
Hoje é preciso refletir um pouco

E ver que o samba está tomando jeito
Só mesmo embriagado ou muito louco

Pra contestar e pra botar defeito
Precisa ser muito sincero e claro

Pra confessar que andei sambando errado
Talvez precise até tomar na cara

Pra ver que o samba está bem melhorado
Tem mais é que ser bem cara de tacho

Não ver a multidão sambar contente
Isso me deixa triste e cabisbaixo

Por isso eu fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho

Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944). Lançada no álbum “Meus caros amigos” (1976), é um samba metalinguístico e irônico que aborda os rumos da música popular e o conformismo social durante o período da ditadura militar. A letra simula uma falsa adesão a um otimismo ufanista para, na verdade, criticar a apatia e a imposição de uma alegria artificial. O autor discute o próprio fazer artístico e o estado do samba na época. O eu-lírico finge concordar que o país e a cultura estão “tomando jeito” e melhorando à força. A suposta felicidade da multidão é tratada como um sintoma triste de conformismo e medo. Nos versos iniciais, o narrador afirma ironicamente que é preciso estar “embriagado ou muito louco” para contestar a realidade vigente e que o samba estaria “bem melhorado” por não tolerar críticas. A metáfora da corrente serve tanto para falar da tradição coletiva do gênero quanto para ilustrar o enquadramento e a marcha imposta pelo autoritarismo da época. Sob a batuta da censura militar, o autor utilizava a persona de um sambista ingênuo ou rendido para expor a dor de ver o povo aplaudir passivamente um cenário de opressão

Daquele amor nem me fale

Podemos falar de futebol
Divagar sobre a temperatura
Criticar os problemas do Irã
E o tiro que levou o Reagan
Posso até discutir religião
Ou falar num domingo de sol
Criticar a terrível inflação
O machismo, o racismo e a loucura
Mas daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Não me fale, que eu me irrito
Perco a linha, dou um grito
Depois fico depressivo
Todo cheio de saudade
Mas daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Podemos falar de futebol
Divagar sobre a temperatura
Criticar os problemas do Irã
E o tiro que levou o Reagan
Posso até discutir religião
Ou falar num domingo de sol
Criticar a terrível inflação
O machismo, o racismo e a loucura
Mas daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Não me fale, que eu me irrito
Perco a linha, dou um grito
Depois fico depressivo
Todo cheio de saudade
Mas daquele amor…
Podemos falar de futebol
Divagar sobre a temperatura
Criticar os problemas do Irã
E o tiro que levou o Reagan
Posso até discutir religião
Ou falar num domingo de sol
Criticar a terrível inflação
O machismo, o racismo e a loucura
Mas daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fal
Não me fale, que eu me irrito
Perco a linha, dou um grito
Depois fico depressivo
Todo cheio de saudade
Mas daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Mas daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale
Daquele amor, nem me fale

Martinho da Vila (Duas Barras, Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1938) / João Donato (Rio Branco, Acre, 17 de agosto de 1934 – Rio de Janeiro, 17 de julho de 2023). Essa é uma canção famosa composta em parceria por esses dois grandes artistas brasileiros. A letra fala com bom humor e ironia sobre poder conversar a respeito de vários assuntos difíceis ou cotidianos, mas pede para não se falar daquele amor antigo que traz irritação e saudade. Foi lançada em 1981, no álbum “Sentimentos” de Martinho da Vila e ganhou regravações famosas por João Donato, João Nogueira, Elza Soares e de outros nomes da MPB, como Wanda Sá

O coco

Luís da Câmara Cascudo (Natal, Rio Grande do Norte, 30 de dezembro de 1898 – 30 de julho de 1986) foi um importante historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado, jornalista e escritor brasileiro, que dedicou a sua vida ao estudo do folclore e da cultura brasileira. Ele definiu o coco primordialmente como um “canto-dança” das praias e dos sertões, apontando sua forte raiz ligada ao trabalho braçal e aos batuques. Esse pesquisador destacou que a manifestação possui forte base de percussão e ancestralidade ligada aos negros escravizados nos engenhos, além de conexões com poéticas indígenas.

Apontou também em seus escritos que o surgimento dos cocos está associado à atividade de homens e mulheres escravizados, remetendo aos movimentos e ritmos dos catadores e quebradores de coco. Descreveu a prática como um festejo popular dinâmico em que o corpo marca o tempo do passo e da batida coletiva. Catalogou que o acompanhamento musical se faz, em absoluta maioria, por instrumentos de percussão, como ganzás, pandeiros, bombos (ingomos) e cuícas; e pela ausência de cordas, apoiando-se na batida viva de caixotes, latas ou tambores e nas palmas dos participantes.

Descreve que o coco pode ser encontrado no litoral e no sertão nordestino e afirma que acredita-se que a introdução desta dança no Nordeste se deu através dos escravos africanos que catavam e quebravam coco em um ritmo de trabalho do qual emergiu a música.

Outros pesquisadores como Mário de Andrade (“Os cocos”) e Ridalvo Felix de Araujo (“Na batida do corpo, na pisada do cantá: inscrições poéticas no coco cearense e candombe mineiro”) mostram em seus estudos e tese que os cocos podem ser classificados em três gêneros: dançado, embolada e literatura de cordel. Dentro destes existem várias modalidades que dependem da métrica, dos instrumentos, do local e da coreografia.

Cascudo, por fim, aponta semelhanças entre a dança do coco e a construção poética dos cantos dos nossos indígenas, tendo assim uma possível influência ameríndia. E Mário de Andrade acrescenta que esse ritmo, na forma de entremear refrãos e exclamações de ligação no texto do coquista, tem um parentesco muito próximo de processos ameríndios particularmente àqueles que apareciam nas cantigas bilíngues afro-portuguesas.

O poeta das montanhas mostrado no Museu Casa Guignard

o que Ouro Preto tem?
tem montanhas e luar;
tem burrinhos, pombos brancos,
nuvens vermelhas pelo ar;

tem procissões nas ladeiras,
com dois sinos a tocar;

opas de todas as cores,
anjinhos a caminhar…

Tem Rosário, São Francisco,
Sta. Ifigênia, Pilar…

Tem altares e oratórios,
cadeirinhas de arruar.

Casas de doze janelas,
estudantes e cantar…
Tem saudades e fantasmas,
ouro por todo lugar;

santos de pedra-sabão,
calçadas de escorregar…

E ali, na Rua das Flores,
na varandinha do bar,
tem a figura risonha
do grande pintor Guignard
que Deus botou neste mundo
para Ouro Preto pintar.

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — 9 de novembro de 1964) que escreveu esses versos mostrando a sua impressão de Ouro Preto no final da década de 1940 e que citam montanhas, igrejas, estudantes e o artista Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1896 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 26 de junho de 1962) que, com sua pintura, transformou a paisagem de Minas Gerais em poesia visual, pintando montanhas flutuantes, neblinas suaves e vilas mágicas repletas de silêncio e sonho, sendo que esse friburguense viveu e produziu intensamente em Ouro Preto. Esses versos fazem parte de “Improviso para Guignard”, publicado em 1949 no “Livro de dedicatórias para Guignard”