Primavera e o mais… Diz minha amiga de longa data Ana Luiza Pellegrini Vergueiro: “Como ouvi outro dia (Derivado de um versículo bíblico, dos Salmos): Onde você estiver, floresça.”. “E que seja uma primavera profícua!“
Abstraindo em magenta
Aros
“O colégio do meu tempo. O casarão enorme – antigo convento – com a igreja ao lado. As paredes imensas, de cal e pedra, são verdadeiras fortalezas, resistindo ao sol e à chuva. Têm uma cor embaciada, mistura de branco, cinza e negro. Em algumas delas estão cavados imensos corredores que nunca se sabe para onde vão, pois tem-se medo de atravessá-los. Há corujas e morcegos habitando aqueles buracos negros.
Há um cheiro de passado nos corredores escuros, nas escadas empoeiradas, envernizadas pelo tempo, nas salas úmidas. As pedras sepulcrais se espalham pelos pátios, pelos quintais, dentro da própria igreja. Os túmulos atrás do Altar-mor pertencem a capitães, generais, comandantes. Aquele altar, esculpido em prata e ouro é sóbrio, mas de uma beleza estonteante. As colunas majestosas, brancas, agrupadas uma perto da outra como em feixes, parecem uma floresta. Pelos altares laterais, os santos antigos têm cabelos de verdade e vestidos de cetim roxo. Ao lado está a capela da Ordem Terceira, com a Via Crucis de Cristos sangrantes, de caras sofredoras e trágicas. No adro, as marcas de sangue são recordações da Guerra da Cabanagem. O silêncio é o frescor da nave. A igreja, como parte principal do todo, como ponto primordial dos sentimentos e das ações.
As árvores dos pátios – as sombras. As varandas de madeira entre o verde e os arcos. No fim do grande pátio escuro está o nincho da Virgem, iluminado em azul. O reflexo da luz chega ao rosto da imagem tornando-o grotesco e sisudo. À noite, o vento corre sobre a folhagem, varrendo os quintais. Aparecem outras sombras no rosto da Virgem. Ela parece mexer os músculos da face num sorriso trágico e impossível.”
In: Estórias paralelas, 1999, 140 páginas

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)
Ignição amarelada
Flor do asfalto
Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda…
Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria…
Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!
Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste…
Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!
Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969)
Bico de periquito
Ora (direis) ouvir estrelas!
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — 28 de dezembro de 1918) – Parte de uma coleção de sonetos intitulada “Via Láctea”
Composição lagartixa
Paisagem nº. 3
Chove?
Sorri uma garoa de cinza,
Muito triste, como um tristemente longo…
A Casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação…
Mas neste Largo do Arouche
Posso abrir o meu guarda-chuva paradoxal,
Este lírico plátano de rendas mar…
Ali em frente… – Mário, põe a máscara!
-Tens razão, minha Loucura, tens razão.
O rei de Tule jogou a taça ao mar…
Os homens passam encharcados…
Os reflexos dos vultos curtos
Mancham o petit-pavé…
As rolas da Normal
Esvoaçam entre os dedos da garoa…
(E si pusesse um verso de Crisfal
No De Profundis?…)
De repente
Um raio de Sol arisco
Risca o chuvisco ao meio.
Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — 25 de fevereiro de 1945). In “Paulicéia desvairada”