Ela, em meu sonho

Ela vivia num palácio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.

As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pesam, trêmulas, suaves,
nas cordas, a sonharem melodias…

E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegaram, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.

É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.

Alfredo Guisado (Lisboa, Portugal, 30 de outubro de 1891 – Lisboa, Portugal, 2 de dezembro de 1975). In “Antologia poética”

Breve

Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo

Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.

Breve
a flor que abriu
e o sol saudou

Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.

João José Cochofel (Coimbra, Portugal, 17 de julho de 1919 – Lisboa, Portugal, 14 de março de 1982). In “46.º aniversário”

Regresso ao lugar

Volto sempre ao lugar do poema
como o criminoso ao lugar do crime
As árvores cobriram-se de cabelos loiros e
só posso apaixonar-me esta manhã

Os cabelos loiros das árvores cobriram-se
de neve e
só posso apaixonar-me esta tarde
Volto sempre ao lugar do crime
como o criminoso ao lugar do poema

Só posso apaixonar-me pela paixão
Volto sempre ao lugar do coração
esta noite
como o sagrado ao lugar do silêncio
A neve dos cabelos loiros das árvores
cobriu-se de nuvens
e chove

António Barahona da Fonseca (Lisboa, Portugal, 17 de janeiro de 1939)

Leve, leve, o luar

Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.

E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidéria
das coisas que embebe o luar.

A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.

Afonso Lopes Vieira (Leiria, Leiria, Portugal, 26 de janeiro de 1878 — Lisboa, Portugal, 25 de janeiro de 1946). In “País lilás, desterro azul”

A beleza

A beleza
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais do que o desejo
Fremente
Que nos sacode…
– O resto, é literatura.

António Botto (Concavada, Alvega, Abrantes, Portugal, 17 de agosto de 1897 – Rio de Janeiro, 16 de março de 1959). In “As canções de António Botto”