Abigail caiu do céu na pia de batizado
Da igreja de santo Antônio dos pobres
Pobre coitado do André que mesmo assaz míope
Viu logo na Abigail
A encarnação de calíope, André ficou a mil
O amor cortou de viés e no préstito dos anos
Abigail dez e dez pôs os pés nos fenianos
André de sapato novo foi pro Banco do Brasil
Enriqueceu no over night esqueceu de Abigail
Dizem que o choro tem que ter uma terceira
Como terceira existia na frô outra da cantareira
Ora, pois então resumo o final dos dois amantes
André foi pra Dr. Eiras
Abigail pro Inamps
João Bosco (Ponte Nova, Minas Gerais, 13 de julho de 1946) e Aldir Blanc (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1946 — 4 de maio de 2020), Essa música conta a história trágica, irônica e poética de um romance frustrado entre André e Abigail, embalado pelo contexto social do Brasil dos anos 1980. A história começa quando Abigail “cai do céu” diretamente na pia de batizado da Igreja de Santo Antônio dos Pobres. André, um homem míope, se apaixona perdidamente por ela e a enxerga como a própria encarnação de Calíope (a musa grega da poesia épica). Com o passar dos anos, o relacionamento sofre reviravoltas. André consegue um emprego no Banco do Brasil, enriquece com as aplicações financeiras da época (o famoso overnight) e, de sapato novo, acaba esobetizado e esquece completamente de Abigail. E isso tudo tem um desfecho irônico: O final dos dois amantes expõe a decadência e a fragilidade social da época: André perde a sanidade e vai parar no Dr. Eiras (um conhecido hospital psiquiátrico do período), enquanto Abigail, na miséria, acaba recorrendo ao INAMPS (o antigo sistema público de saúde). A letra usa humor ácido e referências bem-humoradas e cáusticas para criticar a ânsia de ascensão financeira, o egoísmo e o desamparo das redes de apoio social no Brasil da década de 1980