Manoel de Barros ganhou o Prêmio Jabuti duas vezes, em 1989/ 1990 quando venceu na categoria Poesia com o livro “O guardador de águas” (publicado em 1989), e em 2002 quando venceu na categoria Livro do Ano de Ficção com “O fazedor de amanhecer”.
IV
O que ele era, esse cara
Tinha vindo de coisas que ele juntava nos bolsos –
por forma que pentes, formigas de barranco, vidrinhos
de guardar moscas, selos, freios enferrujados etc.
Coisas
Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de
mate ( nos montes de borra crescem abobreiras
debaixo das abobreiras sapatos e pregos engordam…)
De forma que recolhia coisas de nada, nadeiras, falas
de tontos, libélulas – coisas
Que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos
retratos.
Até que de noite pôs uma pedra na cabeça e foi embora
Estrelas passavam leite nas pedras que carregava.
Vagou transpedregosos anos.
Se soube que atravessou Paris de urina presa.
Estudou anacoreto.
Afez-se com as entradas e o cheiro de ouro dos
escaravelhos.
Um dia chegou em casa árvore.
Deitou-se na raiz do muro, do mesmo jeito que um rio
fizesse para estar encostado em alguma pedra.
Boca não abriu mais?
Arbora em paredes podres.
In “O guardador de águas”, Editora Alfaguara, 2017
//
As bênçãos
Não tenho anatomia de uma graça pra receber em mim os perfumes do azul. Mas eu recebo.
É uma benção.
Às vezes se tenho uma tristeza, as andorinhas me namoram mais de perto. Fico enamorado.
É benção.
Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro para que se tornem peregrinos do chão.
Eles se tornam.
É uma bênção.
Até alguém já chegou de me ver passar a mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.
In “O fazedor de amanhecer”, ilustração de Ziraldo, Editora Salamandra, 2014
Manoel de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 19 de dezembro de 1916 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 13 de novembro de 2014) e Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, Minas Gerais , 24 de outubro de 1932 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 2024)
Nota: O livro O guardador de águas (1989) é composto por poemas numerados em algarismos romanos que dão voz a Bernardo da Mata, um alter ego andarilho e amigo do poeta. Nele Manoel diz que poeta é quem guarda águas. Não ouro, dinheiro ou informação, mas águas. Guardar também é cuidar. As águas não são exatamente coisas, elas são fluxos. O poeta cuida de fluxos. Fluxos dentro e fora dele. Cuidar dos fluxos é deixá-los passar, ir; cuidar deles é o oposto de construir barreiras, represas, muros, obstáculos, gramáticas. Os fluxos são sempre desterritorializados e desterritorializantes. Não se pode “passar régua” sobre eles, não se pode codificá-los, estriá-los. Os fluxos são lisos, esquizos, nômades, andaleços. Só se pode guardar fluxos sendo também um. Os fluxos nascem de fluxos, não de coisas imóveis ou fixas. O rio amazonas não nasceu da geleira parada, mas da geleira devindo fluxo, pingando, correndo, fluindo. Os fluxos somente podem ser guardados em espaços abertos, horizontados; seja esse espaço horizontado o pantanal, a mente ou o coração. O horizonte guarda a paisagem, mas sem cercá-la, sem se dizer dela o dono.
O poema que dá título ao livro “O fazedor de amanhecer” apresenta a recusa do autor por invenções úteis em troca de criações poéticas e imaginárias. Nesse poema completo Manoel de Barros relata sua falta de apetite para inventar coisas úteis e cita suas criações como a “manivela para pegar no sono” e o “fazedor de amanhecer”, pode ser consultado integralmente na fonte referenciada. O olhar da infância, o apreço pelo inútil, a natureza e a brincadeira com as palavras. Também é o registro da união desses dois “maluquinhos”. Dois grandes homens que nunca deixaram de ser crianças”. Pois temos:
Como autor Manuel de Barros e como ilustrador Ziraldo
Ziraldo foi um cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista, advogado e jornalista brasileiro.
Ziraldo, o poeta da cor e da forma e Manoel de Barros, o poeta da palavra, que pega infinito em antena de mosca, colhe flor lascada na pedra, entorta paisagens só para o amor caber nelas. Os poemas de Manoel de Barros – ele já disse mais de uma vez – não são para ninguém entender. São para a gente esfregar nos olhos, espreguiçar e acordar mais feliz. E quando Manoel escreve e Ziraldo ilustra, a poesia acorda toda arrepiada de Sol… e quem amanhece é o leitor