Cobra Norato (fragmento)

XXXII

— E agora, compadre,
eu vou de volta pro Sem-Fim.

Vou lá para as terras altas,
onde a serra se amontoa,
onde correm os rios de águas claras
em matos de molungu.

Quero levar minha noiva.
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar,
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor.

Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém.
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem, bem;

Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu,
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar,

E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
eu hei de contar histórias
(histórias de não-dizer-nada)
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar.

Raul Bopp (Vila Pinhal, atual Itaara – Rio Grande do Sul, 4 de agosto de 1898 — Rio de Janeiro, 2 de junho de 1984)

“Cartas da alteridade”, de Edney Cielici Dias

CURSO E MONTA

o Rio da Prata, um dia conheci Paraná
curso de uma vida e de mim mesmo
quase a desembocar no Atlântico
parecem dois oceanos, duas anulações
curso em que agora refaço a soma
esperança de me dissipar no imenso

Edney Cielici Dias – Cartas da alteridade

“Com satisfação registro o recebimento, na bela edição Demônio Negro, de seu livro. Desde o início da leitura, constatei a maestria estilística dos poemas, a variedade temática, a originalidade das imagens, tudo, enfim, que aponta, de fato, para a escrita como carta de alteridade – em particular nos textos que integram a derradeira parte da obra.”

Profº. Antônio Carlos Secchin, titular da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras, um dos maiores especialistas em poesia do Brasil.

Sobre autor

Edney Cielici Dias, poeta devotado ao ofício da palavra, é doutor em ciência política, economista, jornalista e editor.

Selo Demônio Negro
R$ 52,90

Leia mais

Hedva Megged: Para você apreciar

“Para você amiga, cliente amante das artes… Convido a apreciar meu trabalho neste ano, série “Espelhos urbanos” – Coleção Av. Paulista 2020 e Av. Atlântica – Rio 2020. Encontra-se permanentemente em SP peças exclusivas:

  • Loja Debora Quer – Horário de atendimento é de segunda à sexta feira das 11 às 17h e aos sábados das 11 às 15h. Caso alguém precise ser atendido fora desse horário , podemos agendar pelo (11) 9 9987-3705.
    Rua Haddock Lobo, 937 – Jardins – Instagram: @deboraqueroficial, (11) 3086-3466.
  • Loja Maestria D´arte Presentes.
    Rua Desembargador do Vale, 229 – Perdizes, telefones (11) 3675-7508, (11) 3675-7506.

Encontra-se lá – estolas, echarpes e blusas pintados na técnica francesa serti sobre seda e casacos dupla-face de poliéster traquinado e tingido + algodão tingido.”

Hedva Megged

Nascida em Israel, pós-graduada pela Escola de Belas-artes em Tel-Aviv. Aperfeiçoou seus estudos com o artista e mestre David Alfaro Siqueiros trabalhando nos seus murais no México. Realizou inúmeras exposições individuais e participou de outras tantas coletivas; Alcançou vários prêmios e foi notificada em muitas publicações. Vive no Brasil desde 1972 atuando nas manifestações e suportes das artes visuais e atualmente – desde 1990 – está engajada no movimento “Vestir-se com arte”.

Contatos:
www.facebook.com/hedva.megged
www.instagram.com/hedvamegged
hmegged@gmail.com

Milagres

Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?

Walt Whitman (Huntington, Virgínia Ocidental, Estados Unidos, 31 de maio de 1819 – Camden, Nova Jérsei, Estados Unidos, 26 de março de 1892). In “Leaves of grass”

Rogéria Ribeiro do Amaral: Bonecas e bonecos

“Sou Rogéria Ribeiro do Amaral, me intitulo artesã, artista e arteira, não possuo formação Acadêmica… tudo que faço aprendi e desenvolvi sozinha mas tenho uma grande vantagem: desenho desde pequena… e olha que isso tem tempo… rsrs!! Há trinta anos pinto quadros e lindas almofadas que são meu carro chefe. Desenvolvi estes bonequinhos que são os meus xodós… trabalhosos mas, são o máximo, eles têm por volta de 30 a 40 cm… são desenhados em malha branca de algodão e depois pintados… depois de costurados a mão recebem enchimentos  e, são repintados… assim nascem grandes escritores , artistas de cinema , grandes mestres da pintura entre outros, que povoam meu imaginário. Amo o que faço e, todos os meus trabalhos tem um pouquinho de minha alma e amor.❤ “

Rogéria Ribeiro do Amaral

Legenda das fotos: Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral e o movimento Antropofágico;  Frida Kahlo fire tea e Jorge Amado e sua máquina de escrever na sua casa do Rio Vermelho.

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rogeeiarte@gmail.com

Cartão postal

Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.
O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta,
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.

Rio, 1924.

Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975)

O imperador do sorvete

Chama o enrolador de charutos,
O musculoso, e pede que ele bata
Em xícaras caseiras cremes lúbricos.
Que as raparigas vistam as roupas
Que é seu costume usar, e os rapazes
Tragam flores no jornal do mês passado.
Que parecer termine em ser somente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Pega no armário de pinho,
Com os puxadores de vidro quebrados,
O lençol que ela bordou com pombas
E cobre todo o corpo dela, até o rosto.
Se um pé ossudo aparecer, verão
Que fria e dura que ela está.
Que fixe a lâmpada seu feixe quente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Wallace Stevens (Reading, Pensilvânia, Estados Unidos, 2 de outubro de 1879 — Hartford, Connecticut, Estados Unidos, 2 de agosto de 1955)