Paciência

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
E o mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara, tão rara

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

A vida não para não

Dudu Falcão (Recife, Pernambuco, 14 de junho de 1961) / Lenine (Recife, Pernambuco, 2 de fevereiro de 1959). Do álbum “Na pressão”, 1999

Loreni Schenkel: Ponte afetiva para o aconchego 3, Translação de sentimentos e Recuperando o passado 3

Pinturas • Esculturas • Multimídia • Instalação

Sou filha de mãe costureira, pai garçom e irmã de três, um homem e duas mulheres. Fatos que marcam minha vida é a partida precoce de minha mãe, ela com 39 e eu com 10. A partir de então minha infância foi abortada. Logo o trabalho faz parte de minha vida infantil, e também de meus irmãos. Esse foi o fato que me levou a resgatar a arte em minha vida. Entrei na Universidade de Brasília- UNB com 43 anos para cursar artes plásticas, de lá para cá busco constantemente estudar e praticar as várias linguagens que atuo; pintura, escultura, fotografia e instalação.”

Loreni Schenkel

As obras apresentadas acima foram mostradas pela artista em sua exposição individual “Aquilo da infância que ficou pelo caminho” (Espaço Cultural Renato Russo – Espaço Athos Bulcão – De 13/09/2022 a 30/10/2022 – Brasília).

Sobre o blog “Redescobrindo” Loreni comenta via WhatsApp: “Obrigada pela força e por levar a arte às pessoas.”

Contatos:
www.instagram.com/loreni.art
loreniartista@gmail.com
WhatsApp: 61 9 9992-7892
www.lorenischenkel.com

Quarteto de Alexandria (Justine, Balthazar, Mountolive e Clea) de Lawrence Durrell

Este livro inspirou meu saudoso mestre nas artes plásticas Valdir Sarubbi a elaborar uma série de trabalhos, entre os quais o “tapete inacabado” que segue acima.

O “Quarteto de Alexandria” é um romance em quatro partes. A luxuriante e sensual tetralogia repetia o sucesso de venda a cada livro que saía. A simpatia com que crítica recebeu a obra era inédita porque nenhum dos quatro livros mereceu qualquer crítica maior. Com o passar do tempo as coisas mudaram um pouco. Os primeiros três volumes descrevem, de diferentes pontos de vista, eventos ocorridos em Alexandria, no Egito, antes da Segunda Guerra Mundial, e o quarto volume conta a história que se desenrolou nos anos da guerra. Na sua estrutura particular, o “Quarteto” demonstra um dos seus axiomas: a relatividade da verdade. Outra tese que ele prova no seu próprio desenvolvimento: a de que as experiências sexuais, a prática da arte e do amor, são na verdade caminhos do aprendizado humano, que se completa – quando se completa – no encontro com a realidade final e absoluta.

Lawrence Durrell (Jalandhar, Índia, 27 de fevereiro de 1912 — Sommières, França, 7 de novembro de 1990)

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

O sentimento dum ocidental

A Guerra Junqueiro

I – Avé-Marias

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros d’aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

Cesário Verde (Lisboa, Madalena, Portugal, 25 de fevereiro de 1855 — Lisboa, Lumiar, Portugal, 19 de julho de 1886). In “Poesias completas de Cesário Verde”. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987

Inverno 2

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá prá cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial

Algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes do ocidente se assombrar

Adriana Calcanhotto (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 3 de outubro de 1965) / Antonio Cicero (Rio de Janeiro, 6 de outubro de 1945 – Zurique, Suíça, 23 de outubro de 2024). Do álbum “A fábrica do poema”, 1994