Fragmentos

1

Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir

2

Algo de visível perpassa
nos limites do ser.

3

De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.

4

Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.

5

(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)

6

O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.

7

No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.

Nuno Júdice (Portimão, Mexilhoeira Grande, Portugal, 29 de abril de 1949 – Lisboa, Portugal, 17 de março de 2024). In “Meditação sobre ruínas”

A um homem do passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

Manuel António Pina (Sabugal, Portugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, Portugal, 19 de outubro de 2012). Foi contemplado em 2011 com o Prêmio Camões

26 anos da partida de meu querido pai

“Na minha infância, o farmacêutico era uma das pessoas mais respeitadas na cidade. Muitos deles não tinham diploma na área, não haviam frequentado escolas específicas, mas haviam adquirido conhecimentos por meio da prática iniciada já bem cedo e de muito estudo.

(…)

Em agosto completou-se dez anos do falecimento de Edmundo de Oliveira Matosinho. Ao escrever sobre ele, aproveito a ocasião para homenagear todos os antigos farmacêuticos com os quais convivi na minha infância e adolescência. Edmundo de Oliveira Matosinho nasceu em 13 de maio de 1921, em Dois Córregos (SP), tendo vivido a primeira infância na área rural do município.

Começou a trabalhar em farmácia desde pequeno, primeiramente em Timburi e depois em Ourinhos. Na antiga Rua Paranapanema (atual Pe. Ruy Cândido da Silva), no nº 616, fundou, em 1945, o primeiro estabelecimento farmacêutico da Vila Odilon, que recebeu o nome de Farmácia Santo Antonio. Ali passou grande parte da sua vida atendendo a população carente da vila e arredores, granjeando a estima e admiração dos moradores daquela parte da cidade. Foi casado a profª Maria do Carmo Ferreira, filha de Antonio Ferreira e Laura Silva Ferreira. Tiveram três filhos: Edna, Edson e Eduardo.”

O farmacêutico Edmundo de Oliveira Matosinho – Agosto 30, 2009

Trecho de uma crônica escrita pelo saudoso professor José Carlos Neves Lopes em seu blog “Memórias Ourinhenses – Fotos e fatos de uma cidade paulista”

Edmundo de Oliveira Matosinho – Eterno farmacêutico!

* Dois Córregos/ SP, 13 de maio de 1921 – + São Paulo/ SP, 6 de agosto de 1999

Retrato 3

Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem

Rui Caeiro (Vila Viçosa, Portugal, 27 de junho de 1943 – Oeiras, Portugal, 29 de janeiro de 2019). In “Livro de afectos”, Lisboa, edição do autor, 1992

Valsa das viúvas da pastelaria Bénard

Cada qual de cão ao colo
damos de comer ao cão
chá e migalhas de bolo
pão-de-ló de Alfeizerão.

Arejamos com o leque
calores dos sessenta anos
pérolas de pechisbeque
brincos de prata ciganos.

Lá em casa convivemos
com os estalos da mobília|
tristes silêncios serenos
doçuras de chá de tília.

Réstia de sol nas janelas
de cortinas desbotadas
candelabros de três velas
retratos das afilhadas.

A crueldade do espelho
vem mostrar-nos de manhã
ruínas de um corpo velho
num casaquinho de lã.

E à cabeceira da cama
o riso do falecido
garante qu´inda nos ama
por trás da placa de vidro.

Ai felicidade perdida
porque a mágoa não tem fundo
o cão ladra contra a vida
nós ladramos contra o mundo.

António Lobo Antunes (Lisboa, Benfica, Portugal, 1 de setembro de 1942)