Mais uma pérola da arte popular da Terra Brasilis

Getulio – o criativo e conhecido reciclador do Rio de Janeiro, diz, em entrevista dada à Edna Matosinho de Pontes feita em outubro de 2014, se referindo ao turístico bairro carioca:

“Aí cheguei em Santa Teresa, criei logo o bondinho, o bondinho que é o coração de Santa Teresa, né?”.

Getulio das Sucatas (Espera Feliz – MG, 1955) – Em Santa Teresa – RJ, no “Bonde do Getúlio”, trabalha Getulio Damano, reconhecido artista popular, que recebeu uma ordem da Prefeitura para tirar o sua banca das ruas. Sua produção: carros, caminhões, casinhas mobiliadas de boneca, bonecos, todos batizados segundo sua inspiração ao término da confecção. Foto tirada por Edna.

De ouro nada pode se manter

O primeiro verde da Natureza é ouro,
Seu mais árduo tom a manter.

Sua primeira folha é flor;
Mas só por uma hora.

Então a folha se reduz a folha.
Assim o Éden afundou na dor.

Assim a aurora desce ao dia.
De ouro nada pode se manter.

Robert Frost (São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, 26 de março de 1874 — Boston, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1963), “Nothing gold can stay”. Tradução de Maria da Glória Bordini

Outra pérola da arte popular brasileira

Foi a talentosa ceramista popular de Minas, Dona Izabel, que, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes feita em maio de 2013, após se definir como autodidata, cunhou a frase:

Eu me ensinei sozinha”.

Dona Izabel Mendes da Cunha (Itinga – MG, 1924 – Santana do Araçuaí – MG, 2014) e suas famosas bonecas. Edna achou essa frase tão perfeita e abrangente que a tomou emprestado como título do seu livro “Eu me ensinei”. Foi Edna também que bateu essa fotografia.

Sonho dentro de um sonho

Receba este beijo sobre a testa!
E, te deixando a partir de agora,
Então, deixe-me te contar:
Você não está errado, você que considera
Que meus dias foram um sonho;
Mesmo que a Esperança tenha sumido
Em uma noite, ou em um dia,
Numa visão ou em nada mais,
É, portanto, o que menos se perdeu?
Tudo o que vemos ou transparecemos
É nada além de um sonho dentro de um sonho.

Permaneço no meio do rugido
De uma onda agitada a “quebrar”,
E seguro dentro de minha mão
Grãos da areia dourada –
Quão poucos!! Ainda, enquanto eles escorrem
Por entre meus dedos, lá para o fundo [da água],
Como eu lamento, como eu lamento!!
Ó, Deus! Não posso agarrá-los
Com um cinto apertado?
Ó, Deus! Não posso guardar nenhum deles
Da onda impiedosa [do Tempo]???
Tudo que vemos ou transparecemos,
Não é mais que um sonho dentro de um sonho??

Edgar Allan Poe (Boston, Estados Unidos, 19 de janeiro de 1809 – Baltimore, Estados Unidos, 7 de outubro de 1849). In “Histórias extraordinárias”

Pérola da arte popular de nosso país

‎Como disse o saudoso artista popular alagoano de nome Seu Fernando:

Ando Por Aqui Assim Rodrigues dos Santos”…

Fernando Rodrigues, escultor, cronista e poeta (Ilha do Ferro, Município de Pão de Açúcar, Alagoas, 1928 – 2009). Frase dita por ele em entrevista à Edna Matosinho de Pontes feita em junho de 2008. Ela comenta que na ocasião ele “respondeu (dessa forma) fazendo graça quando eu lhe perguntei como se chamava”. A foto também foi batida por Edna.

Glória do fim de semana

Alguns irmãos marrentos
não conhecem os fatos,
posam presunçosos
fingem importância,
esticando os pescoços
e forçando suas costas.

Se mudam para condomínios
de alto padrão,
penhoram suas almas
nos bancos locais.
Compram carros grandes
que não podem pagar,
e rodam pela cidade
fingindo tédio.

Se eles querem aprender como viver direito,
deveriam me analisar numa noite de Sábado.

Meu trabalho na fábrica
não é a maior aposta,
mas eu pago minhas contas
e fico fora das dívidas.
Eu arrumo meu cabelo
para meu próprio bem-estar,
para não ter que pentear
para não ter que desembaraçar.

Pego o dinheiro da igreja
e atravesso a cidade
até a casa da minha amiga
onde planejamos nosso rolê.
Encontramos nossos homens e vamos para um lugar
onde toque blues
no ponto certo.

Pessoas escrevem sobre mim.
Eles simplesmente não conseguem ver
como eu trabalho a semana inteira
na fábrica.
Então, me enfeito
e rio e danço
e dou as costas à preocupação
com um olhar atrevido.

Eles me acusam de viver
um dia após o outro,
mas quem eles querem enganar?
Eles fazem o mesmo.

Minha vida não é o paraíso,
mas certamente não é o inferno.
Eu não estou no topo,
mas eu acho que tá tudo bem
se eu sou capaz de trabalhar
e sou paga em dia
e tenho a sorte de ser Negra
num Sábado à noite.

Maya Angelou (St. Louis, Missouri, Estados Unidos, 4 de abril de 1928 — Winston-Salem, Carolina do Norte, Estados Unidos, 28 de maio de 2014). “Shaker, Why Don’t You Sing?” (1983). In “Poesia completa”. Tradução de Lubi Prates, Bauru – São Paulo: Editora Austral Cultural, 2020