I-Juca-Pirama (Parte final)

O título desta poesia, traduzido literalmente da língua tupi, vale tanto como se em português disséssemos “o que há de ser morto, o que é digno de ser morto”.

Gonçalves Dias

X

Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!”

“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.

“Eu disse comigo: que infâmia d’ escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”

Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”

Gonçalves Dias (Caxias, Maranhão, 10 de agosto de 1823 – Guimarães, Maranhão, 3 de novembro de 1864). In “I-Juca-Pirama e Os Timbiras”, Porto Alegre : L&PM, 1997. (Coleção L&PM Pocket)

Meu livro de cordel / A procura

Pelo amor que tenho a todas as estórias e poesias de Cordel, que este livro assim o seja, assim o quero numa ligação profunda e obstinada com todos os anônimos menestréis nordestinos, povo da minha casta, meus irmãos do nordeste rude, de onde um dia veio meu Pai para que eu nascesse e tivesse vida.

A procura

Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino –
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.

Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985). In “Meu livro de cordel”, São Paulo: Global, 2002

A pintora Clarice: Imagens que buscam a alma (Do livro: “Pinturas” de Mendes de Souza)

Produção das pinturas pode ser circunscrita a um segmento mais ou menos localizável no tempo. O conjunto mais significativo dos quadros de Clarice foi produzido no ano de 1975, o que pode ser confirmado pela leitura das datações, quando tal especificação ocorre. Dos 17 quadros depositados no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, 15 apresentam a referência a esse ano e dois deles não estão datados.
Um dado que deve ser destacado é o fato de quase metade destes quadros explicitarem o mês de maio no lugar da datação:
“Cérebro adormecido” – 13 de maio de 1975
“Eu te pergunto por quê?” – 13 de maio de 1975
“Perdida na vaguidão” – 13 de maio de 1975
“Tentativa de ser alegre” – 15 de maio de 1975
“Medo” – 16 de maio de 1975
“Luta sangrenta pela paz” – 20 de maio de 1975
Sem título] figuração do yin e yang, em fundo preto – s/d. No verso deste quadro aparece uma dedicatória a Olga Borelli com a data de 28 de maio de 1975. Pode-se colocar a questão da possível não correspondência entre a data da dedicatória e a data da feitura do quadro. De qualquer forma é significativa a oferta neste mês de maio, o que nos levará a pensar que a pintura terá sido de fato executada na mesma ocasião que as outras.

Clarice Lispector definiu a arte de forma marcante em sua crônica “O artista perfeito” (publicada em 1969): “Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação.”

Carlos Mendes de Sousa é professor de literatura brasileira na Universidade do Minho, Braga, Portugal. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a estudar a obra de Clarice Lispector, e com o livro “Clarice Lispector. Figuras da escrita” (2000), conquistou o Grande Prêmio de Ensaio da APE. O ato de pintar, mais uma faceta pouco conhecida da escritora Clarice, vem a público nesses escritos. Grande admiradora das artes, Lispector tinha especial interesse pela pintura, conviveu com diversos artistas e produziu suas próprias pinceladas, cerca de 20 delas reproduzidas neste livro citado acima. “A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis”, afirma Sousa, que reflete sobre a obra da escritora à luz de sua relação com a pintura. In “Clarice Lispector: pinturas”, Rio de Janeiro: Rocco, 2013

Leia mais

Chia-Syun Chang: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

Chia-Syun Chang

👨‍🎨 Artista plástico da APBP

Chia-Syun Chang nasceu em 1º de fevereiro de 1981, em Taichung, Taiwan. Frequentou o ensino médio e trabalhava como preparador de tintas e vendedor. Em janeiro de 2004, Chia-Syun Chang sofreu um acidente de trabalho: escorregou e caiu de uma grande altura. Ele sofreu fraturas nas vértebras C3, C4 e C5, resultando em paralisia dos braços e das pernas. Em um programa de televisão, ele viu um artista que pintava com a boca e com os pés, observando a maneira como o artista criava suas obras. Muito impressionado com essa possibilidade, reuniu coragem e tentou pintar usando um pincel na boca. Assim, em 2006, começou a aprender a pintar com a boca de forma autodidata, aprimorando-se com o professor Lin Shwu-Chyn, um renomado professor de pintura da região, com quem passou a ter aulas particulares. Graças a isso, obteve um progresso artístico notável. Desde 2014, ele conta com o apoio de uma bolsa de estudos concedida pela Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP) e foi nomeado membro associado da VDMFK (Association of Mouth and Foot Painting Artists) em 1º de março de 2020. Chia-Syun Chang dedica-se à pintura a óleo. Seus temas preferidos são seres humanos, animais e paisagens (incluindo obras como Peking Opera).

Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Pintura a óleo
Título da obra: “Alimentando as galinhas”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.

Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
apbp@apbp.com.br
https://apbp.com.br/home

Gogó: O gato ator

Gogó é o Gato Ator-de-Porta-de-Teatro.
Seu nome verdadeiro era um diabo a quatro
De se dizer: AS-PÁ-RA-GO. Então, de dó,
Passamos a chamá-lo apenas de Gogó.
De casaco surrado, ares de pobre boêmio,
Já teve uma trombose e a pata ainda lhe treme. E o
Certo é que se foi, em moço, um songamongas,
Hoje não pega mais nem mesmo as camundongas.
Sombra do que ele (diz que) foi tempos atrás,
Quando – nome famoso – andava no cartaz.
Agora, se acompanha amigos para uns tragos,
(Antes que alguém lhe fale em gotas e lumbagos),
Costuma lhes brindar — outro pagando a história –
Com seus casos do tempo em que viveu na Glória.
Pois época já houve em que foi Astro e atuou
No colo de Ziembinski e aos pés da Marineaux.
Adora relatar o sucesso de certa Noite em que
Foi pre-miado (assim!) em cena aberta…
Mas seu papel genial, que lhe rendeu crachá,
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

“Representei”, diz ele, “o que houve de melhor,
E uns setenta papéis pude guardar, de cor.
Fiz de tudo: Romiau, Gato-de-Botas… Célebre
Ficou sendo a expressão com que passei por lebre.
Sabia erguer o rabo, olhava de soslaio;
Não podia falhar, com uma hora de ensaio.
Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galá ou um lacaio obscuro.
Fiz peças infantis — é claro, baboseira
Em que contracenei com a Gata Borralheira
Mas lembro, numa peça americana, o afinco
Que quase me levava a me torrar no zinco.
Mas meu melhor papel, como a história dirá
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

Se então mais outro gim, de graça, ele derruba.
Vai contar que cantou de dentro de uma tuba.
Numa peça do Bardo, empolgou-se no treino
Porque Ricardo quis trocá-lo por seu reino.
Já fez papel do Tigre (ainda tem este plano!)
Que foge de Bengala, entrando por um cano.
Dava um grito de dor que emocionava a Casa
Na cena de tirar as castanhas da brasa
Certa vez, sobre o palco, agarrado ao pendente
Da luz, salvou do incêndio uma fãzinha ardente.
E prossegue: “Hoje o Palco, o que tem de bichanos!
O inverso dos galãs que fomos tantos anos.
E as gatinhas a achar que cena é erguer a saia.
A posarem de atriz, mas só levando… vaia.”
E acaba por dizer, usando a garra em pente:
“O Teatro não é mais o que era antigamente.
As novas produções são boas, são, vá lá!
Mas nada se compara, um dia se verá,
         Ao momento de glória
         Em que fazia história
No “Zaragatafanho, a Púria do Mafuá”!

T. S. Eliot (St. Louis, Estados Unidos, 26 de setembro de 1888 – Londres, Reino Unido, 4 de janeiro de 1965). In “Os gatos”. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1991. Tradução de Ivo Barroso