Gogó: O gato ator

Gogó: O gato ator

Gogó é o Gato Ator-de-Porta-de-Teatro.
Seu nome verdadeiro era um diabo a quatro
De se dizer: AS-PÁ-RA-GO. Então, de dó,
Passamos a chamá-lo apenas de Gogó.
De casaco surrado, ares de pobre boêmio,
Já teve uma trombose e a pata ainda lhe treme. E o
Certo é que se foi, em moço, um songamongas,
Hoje não pega mais nem mesmo as camundongas.
Sombra do que ele (diz que) foi tempos atrás,
Quando – nome famoso – andava no cartaz.
Agora, se acompanha amigos para uns tragos,
(Antes que alguém lhe fale em gotas e lumbagos),
Costuma lhes brindar — outro pagando a história – Com seus casos do tempo em que viveu na

Glória.
Pois época já houve em que foi Astro e atuou
No colo de Ziembinski e aos pés da Marineaux.
Adora relatar o sucesso de certa Noite em que
Foi pre-miado (assim!) em cena aberta…
Mas seu papel genial, que lhe rendeu crachá,
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

“Representei”, diz ele, “o que houve de melhor,
E uns setenta papéis pude guardar, de cor.
Fiz de tudo: Romiau, Gato-de-Botas… Célebre
Ficou sendo a expressão com que passei por lebre.
Sabia erguer o rabo, olhava de soslaio;
Não podia falhar, com uma hora de ensaio.
Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galá ou um lacaio obscuro.
Piz peças infantis — é claro, baboseira
Em que contracenei com a Gata Borralheira
Mas lembro, numa peça americana, o afinco
Que quase me levava a me torrar no zinco.
Mas meu melhor papel, como a história dirá
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

Se então mais outro gim, de graça, ele derruba.
Vai contar que cantou de dentro de uma tuba.
Numa peça do Bardo, empolgou-se no treino
Porque Ricardo quis trocá-lo por seu reino.
Já fez papel do Tigre (ainda tem este plano!)
Que foge de Bengala, entrando por um cano.
Dava um grito de dor que emocionava a Casa
Na cena de tirar as castanhas da brasa
Certa vez, sobre o palco, agarrado ao pendente
Da luz, salvou do incêndio uma fazinha ardente.
E prossegue: “Hoje o Palco, o que tem de bichanos!
O inverso dos galãs que fomos tantos anos.
E as gatinhas a achar que cena é erguer a saia.
A posarem de atriz, mas só levando… vaia.”
E acaba por dizer, usando a garra em pente:
“O Teatro não é mais o que era antigamente.
As novas produções são boas, são, vá lá!
Mas nada se compara, um dia se verá,
Ao momento de glória Em que fazia história
No “Zaragatafanho, a Púria do Mafuá”!

T. S. Eliot (St. Louis, Estados Unidos, 26 de setembro de 1888 – Londres, Reino Unido, 4 de janeiro

de 1965). In “Os gatos”. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1991. Tradução de Ivo Barroso

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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