Sob a pedra

Não, nenhum misterio muda,
se em terra não for cortado.
E se é cortada a penumbra
em fatias, tal compota.
só é do verso o que a chuva
ao escorrer, não esgota.
Afinal, pela República,
de Platão, ou esta outra,
os poetas perdem túnica,
sapatos, calças, o corpo.
Quando, porém, os expulsam,
ou ao seu verso, é tão lúgubre
o percurso do comboio
da alma fora da urbe.
E dirão depois, se mortos,
que lhes devem douto estudo,
estátua, ruas e nuvens.
fundação, talvez um curso.
Se destratam ou esqueceram
os seus poemas votivos,
os tomarão por modelos,
descobrirão seus arquivos
e a nudez do que eles mesmos
não editaram no apuro
ou no respeito aos leitores.
Mesmo que por eles chores,
não, jamais terão sossego
sob a pedra, esses defuntos.

Carlos Nejar (Porto Alegre , Rio Grande do Sul, 11 de janeiro de 1939). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

De coração partido

O que me espanta
não é a morte
mas a vida, diga-se
a sub-vida da sobrevida.
O que me espanta
é a inércia do corpo
seu cego apetite
sob a alma inapetente.
O que me espanta
é o fôlego da fera
hibernando na crise
gelo sem primavera.
O que me espanta
e a resistência masoquista
que entre a ferida e o nada
de nada se acorvada
e resigna-se à ferida?

Astrid Cabral (Manaus, Amazonas, 25 de setembro de 1936). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Chartres

Dos cento e setenta vitrais da catedral
restam cento e cinquenta e dois. Mais
de dois mil metros quadrados de cor e luz,
que vestem, ao crepúsculo, as almas que ali vão orar,
banhando-as no orvalho de pinturas sem carne.
Ateus (próximos da velhice), para quem
as grandes perguntas ficaram sem resposta,
sentem vacilar as pernas. Sim, a vida, segundo eles,
deve ser aceita e vivida em sua imediatez.
Os ignorantes não compreendem por que tantos operários
(de tão variadas nacionalidades) esqueceram
os próprios nomes. Um único registrou o seu,
em Rouen. Teria sido Clemente
de todos o mais infeliz?

Armindo Trevisan (Santa Maria, Rio Grande do Sul, 6 de setembro de 1933). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Cena com a família de Edna Vieira de Carvalho

Sobre esse expressivo quadro, comenta a amiga Edna Vieira de Carvalho: “Essa obra foi feita e me presenteada pelo meu saudoso irmão, Luiz Antônio Vieira de Carvalho, em 5/4/1982. Nosso pai, Pedro Vieira de Carvalho, falecera em 26/1/1982. Só consegui chegar ao Brasil em 28/1, ainda a tempo de me despedir de meu pai, no crematório da Vila Alpina. Essa tela é muito especial porque o Luiz não a copiou de uma foto, mas se baseou em suas lembranças do cotidiano da família quando nos visitava, pois morava em São Carlos: Papai, em sua cadeira de rodas (diabético, perdera a perna por ter ajudado no restauro do vagão quando se acidentou com soda cáustica infeccionando os dedos), seus filhos, a Alecsandra – com seu cachorrinho, o Luís Alberto – com sua bola de futebol, a Adair – ajudante da casa, ao fundo, na cozinha, abrindo ou fechando a geladeira)…. Você, Eduardo, adolescente, conheceu bem o papai, lembro que conversavam muito…”

Bárbara Corrêa: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

Bárbara Corrêa da Silva

Nascida em 8/6/1997 no Rio de Janeiro – RJ com uma doença chamada artrogripose, o que afetou o movimento dos seus membros superiores e inferiores. Aos 9 anos de idade, começou a desenvolver a pintura com a boca e, hoje, é uma jovem determinada a realizar todos os seus sonhos. Vive em Saquarema – RJ.

👨🎨 Artista plástica da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Acrílica
Título da obra: “O que você vê da sua janela”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés. Contatos:
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