O pequeno circo
Abrindo caminho a quadriga anda
Em branco manejo. O clown recebe
A bofetada pela multidão aplaudida
Bravo Paul Albert e François
Sobre seu caule içada a flor dança
Concentrada, o bufão a dominando
Entre laços de fogo, criando
Por terra uma imensa roseta.
Um inesperado trapezista
Ramón Gómez de la Serna
Desenrolando longas dobras premia
O preço, e sua felicidade assiste
O circo armado de Apollinaire
De Laurencin, d’Arthur Rimbaud
E de Seurat um grande seio
Mirífico círculo lunar
Vicente do Rego Monteiro (Recife, Pernambuco, 19 de dezembro de 1899 — 5 de junho de 1970) foi um pintor, desenhista, escultor, professor e poeta brasileiro. In “Agulha revista de cultura”, criada por Floriano Martins, número 122, novembro de 2018
Sílvio
De “O amor talvez seja o que do nada resta”
É poesia a silenciosa
distância entre a emoção
e o seu canto
…
Domingo
As aspirações mais exaltadas
em abismos profundos
separadas pela realidade do quotidiano
Os pequenos gestos repetidos do dia-a-dia
repetidos interminavelmente
repetidos automaticamente
repetidos necessariamente
repetidos resignadamente
repetidos cansativamente
repetidos exasperadamente
repetidos exaustivamente
repetidos inconscientemente
Repetido o beijo do “até logo”
é já um adeus ignorado
O acordar
o adormecer
deixam-nos em abismos profundos
separadas pela realidade do ontem hoje amanhã
das ambições antigas vivas futuras
Nesse domingo em que eras tu o meu amor
Ambição de agora agora
e já
para cada folha uma gota de orvalho
que o Sena amoroso, deslizando colhe sôfrego
enlaçando Paris apaixonado lento e insistente
apertado no mesmo abraço
a mulher desmaiada
ultrapassado do orgasmo o êxtase
atingida a luxúria exasperada e pura
Nesse Domingo em que eras tu o meu amor
Ambicão ambições
de carregar as roseiras de violetas
apanhadas às mãos cheias, não importa onde
às acácias mimosas vergar os galhos
de cerejas aos cachos
dos lírios do jardim delirantes
voarem para o cipreste sentinela à porta
Nesse Domingo em que eras tu o meu amor
os melros passeavam ousados e sem medo
atrevidos na relva
nos muros as trepadeiras, estremecendo
ao canto dos pássaros em mal de bem querer
floriam em pétalas de lua e aos de espuma
fitas de olhos em laços de afecto
colares de estrelas negras na verdade branca
secretos luxos da minha ideia
renegando o tempo
Nesse Domingo em que eras tu o meu amor
Era Domingo
outro Domingo
Domingos
segunda
terça
quarta
quinta
sexta-feira
sábados
repetidos
os pequenos gestos do dia-a-dia
repetidos intencionalmente
repetidos carinhosamente
repetidos tristemente
repetidos raivosamente
repetidos teimosamente
repetidos dolorosamente
repetidos passivamente
repetidos distraíramo-nos
e o beijo do “até logo”
foi adeus definitivo
Merícia de Lemos (Beira, Moçambique, 24 de abril de 1918 – Paris, França, 1996). In “Tangentes” e “12 Poemas”. Tirado do blog “Vicio da poesia” de Carlos Mendonça Lopes
Violonista cubista
Decifrando o escrito: “Hendrix”
Um poema de Chagall e o violinista

Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
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Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.
Marc Chagall (Vitebsk, Império Russo, atualmente Bielorrússia, 6 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista modernista judeu belaruso-francês. Pioneiro do modernismo, esteve associado à Escola de Paris e a diversas correntes como o cubismo, o expressionismo e o fauvismo. Criou obras em amplo espectro de formatos — pinturas, desenhos, ilustrações de livros, vitrais, cenários teatrais, cerâmicas, tapeçarias e gravuras. Neste poema encontramos a chave para pormenores recorrentes da sua pintura, como seja o par vagueando no espaço, as faces duplicadas, e por aí adiante. Mas o poema dá-nos mais: dá-nos o retrato de um homem a quem a vida expatriou nas circunstâncias materiais e morais difíceis das perseguições aos judeus na Rússia de finais do século XIX e início do século XX, e que ficaram como marca de água na sua pintura pela vida fora. Tradução de Manuel Bandeira (1886-1968) publicada em “Estrela da Vida Inteira”, 20ª edição, 30ª reimpressão, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002
Rubão
Pássaro e ovo: um ensaio-sonho dedicado a Rubem Valentim

” Na medida em que a luz e a sombra dançam sobre os mistérios, o pássaro liberto e selvagem adentra, discreto e distinto, o templo. Sobrevoa e observa os altares. Um vôo solene, circular e sem ruídos. Ele está em movimento e na altura certa de ser sintético com o sagrado, de refletir sobre linhas e curvas e cores que se tornam disformes pela fé humana, mas que sob seus olhos, que se acostumaram com os grafismos terrestres, e sob suas asas que desenham as linhas de seu vôo, são apenas tramas do espírito, organizadas complexamente: contínuas composições emblemáticas. O altar se construía como um encanto planificado. Eu disse a ele, sem saber se ele escutaria: — Rubem, eu consigo ver nas formas os altares. “
Yhuri Cruz (Rio de Janeiro, 1991) é artista visual e escritor, graduado em Ciência Política (UNIRIO) e pós-graduado em Jornalismo cultural (UERJ). Trabalha com questões anticoloniais e raciais, promovendo a intersecção entre sua herança ética e estética familiar e as esferas institucionais e transgressoras do campo artístico. O ensaio-sonho “Pássaro e Ovo” é um texto comissionado pela Collección Patrícia Phelps de Cisneros para o projeto “Rotas Alternativas” com curadoria de Bruno Pinheiro e Horacio Ramos Cerna. 2021 | Editado em 2022
Meus tempos em São Bernardo – Campinas – SP (Fins dos anos 70)
Aparecem nas fotografias: Meu irmão Edson, minha cunhada Cirlei, minha cunhada Celene e meu pai Edmundo. Essas preciosidades me foram enviadas pelo meu sobrinho Diogo Fernandes Matosinho.