De “O amor talvez seja o que do nada resta”

É poesia a silenciosa
distância entre a emoção
e o seu canto

Domingo

As aspirações mais exaltadas
em abismos profundos
separadas pela realidade do quotidiano

Os pequenos gestos repetidos do dia-a-dia
repetidos interminavelmente
repetidos automaticamente
repetidos necessariamente
repetidos resignadamente
repetidos cansativamente
repetidos exasperadamente
repetidos exaustivamente
repetidos inconscientemente

Repetido o beijo do “até logo”
é já um adeus ignorado

O acordar
o adormecer
deixam-nos em abismos profundos
separadas pela realidade do ontem hoje amanhã
das ambições antigas vivas futuras

Nesse domingo em que eras tu o meu amor

Ambição de agora agora
e já
para cada folha uma gota de orvalho
que o Sena amoroso, deslizando colhe sôfrego
enlaçando Paris apaixonado lento e insistente
apertado no mesmo abraço
a mulher desmaiada
ultrapassado do orgasmo o êxtase
atingida a luxúria exasperada e pura

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

Ambicão ambições
de carregar as roseiras de violetas
apanhadas às mãos cheias, não importa onde
às acácias mimosas vergar os galhos
de cerejas aos cachos
dos lírios do jardim delirantes
voarem para o cipreste sentinela à porta

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

os melros passeavam ousados e sem medo
atrevidos na relva
nos muros as trepadeiras, estremecendo
ao canto dos pássaros em mal de bem querer
floriam em pétalas de lua e aos de espuma
fitas de olhos em laços de afecto
colares de estrelas negras na verdade branca
secretos luxos da minha ideia
renegando o tempo

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

Era Domingo
outro Domingo
Domingos
segunda
terça
quarta
quinta
sexta-feira
sábados
repetidos
os pequenos gestos do dia-a-dia
repetidos intencionalmente
repetidos carinhosamente
repetidos tristemente
repetidos raivosamente
repetidos teimosamente
repetidos dolorosamente
repetidos passivamente
repetidos distraíramo-nos

e o beijo do “até logo”
foi adeus definitivo

Merícia de Lemos (Beira, Moçambique, 24 de abril de 1918 – Paris, França, 1996). In “Tangentes” e “12 Poemas”. Tirado do blog “Vicio da poesia” de Carlos Mendonça Lopes

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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